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<FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink"><stylesheet type="text/css">p { text-indent: 1.2em; } title p, subtitle { text-indent: 0; } table { border-collapse: collapse; } td, th { vertical-align: top; white-space: pre-line; } .list-marker { white-space: pre; }</stylesheet><description><title-info><genre>religion_rel</genre><author><nickname>Shangguan Yuhua</nickname></author><book-title>As leis implacáveis do mundo dos mortos</book-title><coverpage><image xlink:href="#img-0"/></coverpage><lang>pt-BR</lang></title-info><document-info><author><nickname>交龙文化 · 格式制作</nickname></author><program-used>Yinlv portable format builder R02</program-used><date value="2026-10-22">2026-10-22</date><src-url>https://drive.google.com/drive/folders/1ei1tvFor0Qtk7xtb1wRAqZwLlcl0bwOo</src-url><id>5b753e54-eac1-5a85-b7c8-b53a79dc69d0</id><version>2.0</version></document-info></description><body xml:lang="pt-BR"><section id="sec-1"><subtitle id="loc-1">As leis implacáveis do mundo dos mortos</subtitle><p id="pt-b00002">Shangguan Yuhua</p><p id="pt-b00003">Volumes 1 e 2 · Apêndices · Português brasileiro</p><p id="pt-b00004">Base histórica: R03 · 14 de outubro de 2026 (UTC)</p><p id="pt-b00005">Texto revisado · 21 de outubro de 2026 · Com limites de conteúdo assinalados e notas críticas</p></section><section id="sec-2"><title><p id="loc-6">Nota da edição</p></title><p id="pt-b00007"><strong>Base e revisão.</strong> Esta revisão parte da versão histórica R03 e segue os dois volumes e os apêndices do arquivo chinês fornecido. Os capítulos e apêndices passaram por revisão de conteúdo e leitura independente por IA, com os respectivos registros de verificação. Essa validação se refere ao conteúdo efetivamente trabalhado, não a uma quantidade de horas decorridas. Não se afirma um alinhamento integral com uma edição inglesa; as comparações parciais realizadas estão documentadas nos relatórios correspondentes.</p><p id="pt-b00008"><strong>Natureza do texto.</strong> Os relatos, ensinamentos e afirmações sobre religião, saúde, sexualidade e relações sociais pertencem à autora, às personagens e aos textos citados. Sua reprodução não constitui comprovação factual, orientação médica ou aprovação editorial de preconceitos ou de violência.</p><p id="pt-b00009"><strong>Limites de conteúdo.</strong> Permanecem quatro trechos com limitações assinaladas: ZH-L0251, ZH-L0286, ZH-L0739 e ZH-L0741. Por isso, esta edição não é apresentada como uma tradução integral sem omissões. As notas identificam as intervenções e distinguem decisões de tradução de dúvidas do próprio texto de referência.</p><p id="pt-b00010"><strong>Limites do texto de referência.</strong> O arquivo chinês menciona uma tabela do Shoukang baojian, mas não a contém. O título e a indicação original dessa ausência foram preservados. Um suplemento separado oferece uma tradução de referência baseada em um exemplar impresso externo do Shoukang baojian em chinês moderno. O ano e a edição exatos desse exemplar não estão confirmados; o suplemento não é apresentado como a tabela original que faltava no TXT. As ambiguidades do texto continuam assinaladas, inclusive as da citação do capítulo 10 do segundo volume, sem tratar conjecturas como soluções.</p><p id="pt-b00011"><strong>Crédito e versão.</strong> A autora dos relatos principais é Shangguan Yuhua. Os apêndices conservam as atribuições do original. Organização: projeto de tradução em dez idiomas. A revisão e a leitura independente foram realizadas por IA; não equivalem a uma revisão humana nativa nem à aprovação de uma editora. As versões anteriores foram preservadas.</p></section><section id="sec-3"><title><p id="loc-12">As leis implacáveis do mundo dos mortos — Volume 1</p></title><section id="intro-4"><subtitle id="loc-13">Sumário</subtitle><p id="pt-b00014">Prefácio</p><p id="pt-b00015">0 — Prefácio da autora</p><p id="pt-b00016">1 — Como surgiu a obra As leis implacáveis do mundo dos mortos (I) — Ascensão ao Céu dos Trinta e Três pela força espiritual do Tathāgata</p><p id="pt-b00017">2 — Como surgiu a obra As leis implacáveis do mundo dos mortos (II) — Nova audiência com o Imperador de Fengdu, governante supremo do mundo dos mortos</p><p id="pt-b00018">3 — Assistindo a um julgamento no Sétimo Salão</p><p id="pt-b00019">4 — O magistrado do mundo dos mortos diz: “Arrepender-se só depois da morte já é tarde demais!”</p><p id="pt-b00020">5 — A terrível retribuição da masturbação nos grandes infernos: o magistrado do mundo dos mortos revela todos os segredos celestiais!</p><p id="pt-b00021">6 — A retribuição de 100.000 anos em um grande inferno para clientes de prostitutas</p><p id="pt-b00022">7 — A realidade do Inferno Gelado da Roda Invertida e do Inferno da Floresta de Espadas e Flores Coloridas, que punem os atos incestuosos</p><p id="pt-b00023">8 — Um jovem se entregou à pornografia e aos sites pornográficos, esgotou suas bênçãos e sua vida e morreu com apenas vinte e poucos anos!</p><p id="pt-b00024">9 — A terrível punição da masturbação — o Inferno dos Olhos Elétricos e das Bolas de Ferro</p><p id="pt-b00025">10 — Antes que se esgote a vida no mundo dos vivos, as três almas hun já são capturadas com ganchos!!!</p><p id="pt-b00026">11 — O magistrado do mundo dos mortos respondeu com seriedade: “No mundo dos mortos, nosso rei viu que o mundo dos vivos já liberou energia maléfica além do que pode ser suportado!”</p><p id="pt-b00027">12 — Inferno das Engrenagens, dos Lobos e das Serpentes</p><p id="pt-b00028">13 — Meu primeiro encontro com o comandante supremo do mundo dos mortos, o Imperador de Fengdu</p><p id="pt-b00029">14 — Telas luminosas elétricas — um novo inferno que dispara agulhas elétricas de gelo</p><p id="pt-b00030">15 — Desvendando o mistério da vida no distrito dos habitantes comuns do mundo dos mortos</p><p id="pt-b00031">16 — Autores de imagens eróticas de mais de 1.900 anos atrás, desde a dinastia Han Ocidental, ainda estão presos no grande inferno, sofrendo até hoje!</p><p id="pt-b00032">17 — Presenciando um julgamento pela segunda vez — vi com meus próprios olhos os dois departamentos de recompensa do bem e punição do mal mencionados nos livros antigos</p><p id="pt-b00033">18 — A retribuição no inferno por fazer circular e compartilhar livros, revistas e discos ópticos pornográficos</p><p id="pt-b00034">19 — Restaurar nos seres o corpo de yang primordial — A posição oficial do mundo dos mortos sobre como lidar com os materiais pornográficos no mundo humano</p><p id="pt-b00035">20 — A retribuição pelo aborto e a Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros, onde ficam os espíritos dos bebês</p><p id="pt-b00036">21 — A grande denúncia dos espíritos dos bebês — A credencial amarela do Rei Yama</p><p id="pt-b00037">22 — A retribuição nesta vida e na próxima para médicos que realizam abortos — 100.000 anos de encarceramento e punição no Inferno da Fragmentação</p><p id="pt-b00038">23 — Criança, por favor, não chore — O magistrado do mundo dos mortos explica detalhadamente as formas de reparar as consequências do aborto</p><p id="pt-b00039">24 — Criança, mamãe ama você — O magistrado do mundo dos mortos ensina todas as mães do mundo com palavras sérias e cheias de solicitude!</p><p id="pt-b00040">25 — A castidade feminina e as relações sexuais antes do casamento nas leis do mundo dos mortos</p><p id="pt-b00041">26 — O mistério das mortes por raios no mundo dos vivos segundo as leis do mundo dos mortos</p><p id="pt-b00042">27 — O destino da homossexualidade — o Grande Inferno da Associação Mental</p><p id="pt-b00043">28 — Homenagem a Kṣitigarbha no Salão Mingguang Chuzhuan</p><p id="pt-b00044">29 — O poder ilimitado da joia preciosa e do mantra sagrado — testemunhando os Três Sagrados do Sul aliviarem os grandes sofrimentos do inferno</p><p id="pt-b00045">30 — O magistrado revela a verdade sobre o Calendário de Jade — apoio integral ao Precioso compêndio do Calendário de Jade e a As leis implacáveis do mundo dos mortos</p><p id="pt-b00046">31 — Os castigos insuportáveis de se ver no Grande Inferno Avīci; o animal sagrado Di Ting ensina a cultivar ações em benefício dos outros</p><p id="pt-b00047">32 — O magistrado do mundo dos mortos diz: “A Virgem Maria é uma manifestação de Avalokiteśvara” — Avalokiteśvara visita os infernos para aliviar o sofrimento</p><p id="pt-b00048">Posfácio</p><p id="pt-b00049">As leis do mundo dos mortos são implacáveis; o Buda tem compaixão</p><p id="pt-b00050">Proteger o país e amar o povo — compreender plenamente causa e efeito</p></section><section id="sec-5"><title><p id="loc-51">Prefácio</p></title><p id="pt-b00052">A irmã de Dharma Shangguan Yuhua dedicou toda a sua energia e todo o seu empenho à escrita de As leis implacáveis do mundo dos mortos. Os três domínios — superior, intermediário e inferior — uniram esforços, e o Céu, a Terra, os espíritos e as divindades depositam grandes esperanças na obra. Ela busca corrigir os rumos do mundo e retificar o coração das pessoas; depois do Precioso compêndio do Calendário de Jade (Yuli Baochao), é mais uma obra importante do mundo dos mortos. Hoje, o coração das pessoas piorou e a moralidade entrou em declínio. Por isso, decidiu-se divulgar a verdadeira situação dos infernos e do mundo dos mortos, para salvar as pessoas com quem haja uma ligação e cujas raízes de bondade ainda não tenham desaparecido por completo.</p><p id="pt-b00053">Desta vez, o mundo dos mortos concedeu uma permissão especial por determinação de Kṣitigarbha: tudo o que for visto e ouvido nos infernos poderá ser divulgado no mundo dos vivos. Abriu-se uma exceção para que a primeira versão deste livro seja concluída neste ano e, por meio dela, se evite uma grande catástrofe no mundo humano.</p><p id="pt-b00054">Todos os que apoiarem as leis do mundo dos mortos ascenderão ao Céu e terão seus nomes retirados dos registros dos infernos. Se dedicarem os méritos de salvar o mundo obtidos com isso ao desejo de renascer na Terra Pura da Suprema Felicidade do Ocidente, sua categoria de renascimento no lótus se elevará. Todos nós, discípulos das Três Joias, certamente devemos apoiar essas leis e segui-las.</p><p id="pt-b00055">Quando uma pessoa alcança o Dharma, todos os seus jiuxuan qizu podem ascender, deixando o sofrimento e alcançando a felicidade. Para retribuir as quatro graças e socorrer os seres dos três estados de existência, nada supera a divulgação desta obra!</p><p id="pt-b00056">No ano renchen do ciclo sexagenário. Miaozheng, com as palmas unidas</p></section><section id="sec-6"><title><p id="loc-57">0 — Prefácio da autora</p></title><p id="pt-b00058">Amitābha! Olá a todos!</p><p id="pt-b00059">Que haja paz no mundo e cessem as guerras!</p><p id="pt-b00060">Que todos os seres sencientes do espaço e do reino do Dharma sejam felizes, tranquilos e serenos!</p><p id="pt-b00061">Que todos os seres sencientes do reino do Dharma se libertem do ciclo de nascimento e morte, saiam dos três reinos e deixem o sofrimento para alcançar a felicidade!</p><p id="pt-b00062">Que todos os seres sencientes do reino do Dharma ouçam o Dharma correto e alcancem a realização observando preceitos puros, tão límpidos e imaculados quanto uma pérola brilhante!</p><p id="pt-b00063">Que o campo magnético de nossa mãe Terra recupere logo o equilíbrio e a harmonia que tinha no início do kalpa. Que todos os seres sencientes com quem este texto tenha uma ligação contem o que leram a parentes e amigos, valorizem a preciosa existência humana que obtiveram por terem observado os cinco preceitos no passado e se dediquem à prática. Que aproveitem esta preciosa existência humana, dotada de liberdades e condições favoráveis, para continuar observando preceitos puros, intensificar a luz de nossa natureza intrínseca e chegar logo à outra margem da libertação!</p><p id="pt-b00064">Que nossa espiritualidade caminhe em direção à luz. Se todos os seres sencientes tiverem uma espiritualidade luminosa, isso trará um equilíbrio natural ao universo e à natureza, e não teremos tantos grandes desastres naturais decorrentes do carma coletivo. Por isso, pode-se dizer que, pelo bem de todo o vasto universo, precisamos começar por cultivar nossa própria conduta: cada pessoa é um pequeno universo. O pequeno universo se comunica com o grande universo; o um é tudo, e tudo é um. Não há separação entre nós: todas as coisas estão intimamente ligadas. Não pense que ninguém saberá se você fizer algo muito íntimo. Um único pensamento bom ou mau se liga diretamente ao registro do bem e do mal da administração do mundo dos mortos.</p><p id="pt-b00065">Os budas e bodhisattvas, em sua compaixão, veem o declínio do mundo atual. Com o avanço da tecnologia, as pessoas passaram a dispor de muitos bens materiais, e seus pensamentos e sentimentos começaram a se deteriorar rapidamente. A maioria das pessoas de hoje não acredita em causa e efeito e considera essa ideia antiga e ultrapassada. Nem mesmo as crianças conservam a bondade humana que havia no começo do kalpa; menos ainda os adultos. Não percebem que isso se deve à perda da boa educação tradicional de Confúcio e Mêncio e dos Quatro Livros e Cinco Clássicos.</p><p id="pt-b00066">Hoje as pessoas têm uma mentalidade e um modo de vida abertos. Roupas vendidas nos grandes centros comerciais, como regatas e peças de alças finas, são consideradas normais; antigamente, seria impossível uma mulher se vestir assim. Agora há lojas de produtos para adultos por toda parte, e as páginas dos jornais nas bancas e as capas das revistas mostram quase sempre biquínis ou roupas decotadas. As crianças veem isso todos os dias; é difícil que não aprendam maus hábitos. Os budas e bodhisattvas percebem que já há uma grave falta de educação espiritual no mundo. Preocupam-se com o declínio espiritual dos seres e com os desastres que certamente virão um após o outro. Embora pessoas bondosas continuem divulgando mensagens e textos para corrigir os rumos do mundo, se os seres não abandonarem o mal e seguirem o bem, ao fim da vida certamente cairão nos infernos, onde sofrerão todo tipo de tortura, sem dia de libertação.</p><p id="pt-b00067">O Imperador Celestial, em sua compaixão, viu que muitos dos grandes infernos já estavam superlotados e que ainda seria necessário construir outros. Nos infernos destinados à conduta sexual imprópria, em especial, sofrem muitas crianças pequenas, porque lhes falta gravemente uma boa educação moral e sobre causa e efeito. É, de fato, uma grande tristeza para os seres do mundo humano! Por isso, o Imperador Celestial pediu especialmente orientação ao Buda: que ele escolhesse uma discípula adequada do mundo dos vivos, observante de preceitos puros, para visitar os infernos em pleno estado de vigília e, depois de voltar ao mundo humano, escrever um livro chamado As leis implacáveis do mundo dos mortos, registrando detalhadamente o que viu para informar os seres do mundo dos vivos. Depois de cada visita aos infernos, os relatos deste livro são escritos em linguagem relativamente simples. Cada texto também precisa ser revisado e só pode ser publicado quando se confirma que corresponde aos fatos. Às vezes, para escrever bem um relato, Ayu precisa ir e voltar dos infernos várias vezes para verificar o conteúdo. Portanto, isso é totalmente diferente dos livros de ensinamentos morais antes populares entre os vivos, escritos por meio da escrita mediúnica ou da incorporação de espíritos, e também dos relatos de experiências sobrenaturais vividas em sonhos.</p><p id="pt-b00068">O Imperador Celestial espera que esta iniciativa sem precedentes, pela qual eu, Shangguan Yuhua, tornarei públicas as condições dos infernos, alerte as pessoas para que cultivem a mente e o caráter e deixem de violar preceitos e cometer crimes. Isso certamente poderá reduzir muito a possibilidade de serem castigadas nos infernos depois da morte. Se as pessoas transmitirem umas às outras essas realidades dos infernos, mais gente poderá despertar, abandonar o mal e voltar-se para o caminho correto e praticar diligentemente boas ações para acumular bênçãos. Talvez assim evitem as consequências das causas malignas que antes criaram para sua queda nos infernos, renasçam em um lugar afortunado ou obtenham um corpo masculino em lugar de um feminino. Naturalmente, os detalhes de cada caso dependem da determinação específica dos budas e bodhisattvas e da lei de causa e efeito.</p><p id="pt-b00069">Na vida de cada ser, certamente haverá degraus em direção à luz, nos quais os seres sencientes sinceramente arrependidos poderão pisar com firmeza. Assim compreenderão que causas boas produzem bons frutos e causas más trazem más consequências. As consequências dos atos seguem a pessoa como a sombra segue o corpo: quando não chegam, é porque sua hora ainda não veio!</p><p id="pt-b00070">Há algum tempo, o Buda ensinou a Ayu que ela deveria visitar os infernos e, ao voltar, escrever textos para que todos compreendessem causa e efeito e observassem preceitos puros. Quem ainda não observa os preceitos deve passar a observá-los com dedicação; quem já os observa precisa avançar mais, aprimorar-se continuamente e fazer mais coisas que beneficiem a todos.</p><p id="pt-b00071">Ayu é uma discípula budista que tomou refúgio nas Três Joias e observa os cinco preceitos. Sinto-me muito honrada por o Buda, em sua compaixão, permitir que Ayu tente realizar este trabalho. O Sutra dos Votos Fundamentais do Bodhisattva Kṣitigarbha diz: “Se não for pelo poder espiritual majestoso, então terá de ser pela força do carma.” Na verdade, sem o amparo do poder do Buda, Ayu ainda não teria méritos nem sabedoria suficientes para assumir esta missão sagrada. Mas vou valorizá-la muito e fazer tudo o que puder para cumprir o que o Buda, em sua compaixão, determinou.</p><p id="pt-b00072">Há um ditado: “Quem propaga o Dharma é um bodhisattva; quem protege o Dharma é um Buda.” Na verdade, todos os méritos têm origem no Buda. Nos bastidores, ele fez muitos preparativos e concedeu muitas bênçãos, embora nós nem percebamos. Por isso, todos devem se empenhar em observar os preceitos para retribuir a bondade do Buda e de seus mestres!</p><p id="pt-b00073">Respeitosamente escrito pela discípula que reconhece suas próprias limitações, Shangguan Yuhua</p></section><section id="sec-7"><title><p id="loc-74">1 — Como surgiu a obra As leis implacáveis do mundo dos mortos (I) — Ascensão ao Céu dos Trinta e Três pela força espiritual do Tathāgata</p></title><p id="pt-b00075">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00076">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00077">Ayu perguntou ao magistrado do mundo dos mortos: “Quando o Imperador de Fengdu, Rei Yama e soberano do mundo dos mortos, apresentou ao Imperador Celestial o pedido para escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos e orientar as pessoas do mundo humano, que ensinamento o Imperador Celestial deu?”</p><p id="pt-b00078">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Justamente agora, preciso ir ao reino celestial apresentar um assunto oficial ao Imperador Celestial! Vou levar você comigo para visitá-lo!”</p><p id="pt-b00079">Fiquei feliz e agradeci ao magistrado, e voamos até o reino celestial. Quando cheguei a cerca de 6.000 metros acima do solo do mundo humano, já senti claramente uma serenidade pura. Vi alguns seres celestiais voando e também palácios e casas. Os palácios e as casas do reino celestial irradiam luz e são belos e requintados, diferentes das casas do mundo humano, que não têm esse brilho.</p><p id="pt-b00080">Chegamos então à entrada de um grande palácio. Sobre o portão estavam escritos três grandes caracteres chineses: “帝释天” (Di Shi Tian). Dois generais celestiais seguravam armas e tinham uma aparência imponente e majestosa. Pareciam nos conhecer e nos receberam sorrindo, com muita cortesia. O magistrado informou que queríamos prestar homenagem ao Imperador Celestial. Os dois generais disseram que ele já havia dado instruções: se chegássemos, poderiam nos deixar entrar diretamente, sem precisar avisá-lo. Quando os generais se colocaram um de cada lado, o portão se abriu sozinho, e entramos.</p><p id="pt-b00081">O palácio não era apenas grande: era especialmente solene e reluzente. Vi as mulheres celestiais. Todas eram belas e tinham uma presença extraordinária. Até a mais bela vencedora de um concurso de Miss Mundo perderia imediatamente o brilho ali. Os corpos dos seres celestiais também surgem por transformação, mas a sensação que transmitem é bem diferente da dos seres do reino infernal. Eles são livres e descontraídos; todos parecem felizes, e no reino celestial não há sofrimento algum. Suas roupas são leves e esvoaçantes, sem qualquer sinal de costura: são mesmo vestes celestiais sem emendas. Ao chegar ao reino celestial, senti que o mundo humano era sujo demais; ao ir aos infernos, senti que o mundo humano era muito bom. Por isso, nós, seres humanos, devemos continuar ascendendo: quanto mais alto, maior a pureza; quanto mais baixo, maior o sofrimento.</p><p id="pt-b00082">Uma mulher celestial veio nos guiar; o palácio era realmente enorme. Então vimos à frente um grande salão esplêndido e resplandecente, e entramos. A mulher celestial anunciou ao Imperador Celestial que o magistrado dos infernos e Shangguan Yuhua, uma mulher comum do mundo dos vivos, vinham prestar-lhe homenagem.</p><p id="pt-b00083">Aquele que estava sentado no lugar mais alto, ao centro do grande salão, era o Imperador Celestial. Sua aparência era majestosa e compassiva. Usava uma coroa chinesa dos tempos antigos, retangular, com adornos pendentes à frente e atrás. Sua aparência despertava respeito assim que se olhava para ele! As cores de suas roupas irradiavam sete tons suaves e delicados. Embora fossem sete cores, não ofuscavam os olhos; tinham profundidade e relevo, e contemplá-las trazia uma sensação de liberdade e tranquilidade. A luz que emanava de seu coração podia envolver todo o reino celestial.</p><p id="pt-b00084">O magistrado do mundo dos mortos cumprimentou o Imperador Celestial com uma reverência. Eu também me ajoelhei no salão e baixei a cabeça em homenagem. Então, a voz compassiva do Imperador Celestial disse: “Shangguan Yuhua, levante-se. Você quer me perguntar o que penso sobre a redação de As leis implacáveis do mundo dos mortos pelo mundo dos mortos, não é?”</p><p id="pt-b00085">As cores das roupas do Imperador Celestial estavam mudando! Há pouco eram sete cores; agora eram branco, branco-creme, verde-claro e amarelo-dourado. Vestes celestiais sem emendas já poupam muito tempo de corte; além disso, podem mudar conforme a vontade de quem as veste. É incrível!</p><p id="pt-b00086">Eu disse: “Sim! Eu gostaria de perguntar ao Imperador Celestial por que será escrito o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos.”</p><p id="pt-b00087">O Imperador Celestial disse, com pesar: “Entre os seres do mundo humano e dos três caminhos inferiores, há apenas uma pequena parcela de budas e bodhisattvas de outras terras que desceram ao mundo humano em cumprimento de seus votos para salvar os seres sofredores com quem têm uma ligação. Todos os demais seres abaixo do reino celestial são meus súditos. Desde que caíram no mundo humano, passaram pelo ciclo das existências nesse mundo e tiveram seus hábitos contaminados. Estão cada vez mais distantes do reino celestial, e cada vez menos conseguem voltar à sua morada celestial. Os pensamentos nocivos emitidos diariamente pelos seres humanos já prejudicaram gravemente o ambiente do reino celestial e fizeram meus palácios perderem o brilho. Nos últimos anos, o coração humano mudou de forma súbita e acelerada. As pessoas desprezam a lei de causa e efeito e tratam a conduta sexual imprópria como algo da moda. Disso surgiu uma energia sexual extremamente perversa, que sobe até as nuvens como uma espada afiada, enquanto uma atmosfera venenosa envolve o reino celestial. Se isso continuar, em pouco tempo todos os seres do mundo humano cairão nos infernos.</p><p id="pt-b00088">Quando eu refletia sobre como enfrentar essa grande catástrofe do mundo humano, o Imperador de Fengdu enviou um documento oficial urgente do mundo dos mortos e apresentou-me uma petição. Informou que os infernos já estavam superlotados e que havia uma grave falta de funcionários. Por isso, decidiu revelar amplamente os segredos celestiais: queria encontrar uma pessoa adequada do mundo dos vivos para visitar os infernos e depois escrever um livro intitulado As leis implacáveis do mundo dos mortos, que circularia entre os humanos para corrigir os rumos do mundo e purificar o coração das pessoas. Então pedi ao Buda, perfeito em bênçãos e sabedoria, que encontrasse para mim uma pessoa do mundo dos vivos que praticasse o Caminho e fosse adequada para a tarefa. Ela deveria visitar os infernos em pleno estado de vigília e, depois de voltar ao mundo humano, registrar em livro o que de fato viu e ouviu. Portanto, você deve assumir bem este trabalho sagrado e cumprir a missão que lhe confiei!</p><p id="pt-b00089">Todos os seres têm sua origem no reino celestial. Vocês agora estão registrados separadamente no mundo humano; os que caíram nos infernos também têm um registro separado. Os infernos são como prisões que mantêm os seres confinados. Quando se arrependerem sinceramente e corrigirem seus erros, voltarão ao reino celestial. No título chinês de As leis implacáveis do mundo dos mortos, yin (阴) refere-se ao mundo dos mortos, e lü (律) refere-se aos preceitos do Buda e às leis do Céu, da Terra e dos seres humanos. Se os seres humanos violarem preceitos e leis, certamente cairão nos infernos do mundo dos mortos e receberão as consequências implacáveis que lhes cabem. Portanto, quem pratica o bem em vida certamente não cairá; para quem comete más ações, as leis do mundo dos mortos certamente serão implacáveis. Para evitar essas consequências, todos precisam praticar o bem, purificar a mente e cultivar o Caminho. Assim, suas vidas certamente poderão se elevar ao reino celestial.</p><p id="pt-b00090">Já designei seres celestiais para protegê-la enquanto escreve este precioso livro, As leis implacáveis do mundo dos mortos. Espero que ele seja publicado e circule no mundo humano o mais depressa possível, purifique o coração das pessoas e permita que todos os seres retornem, no tempo devido, à sua morada na corte celestial.</p><p id="pt-b00091">Se alguma pessoa do mundo dos vivos, depois de ler este precioso livro, fizer novas cópias e as distribuir, enviarei seres celestiais ligados a ela para ajudá-la a realizar todos os seus desejos virtuosos. Espero que os seres compreendam profundamente minha intenção! Shangguan Yuhua, coma esta fruta!”</p><p id="pt-b00092">Feliz, recebi-a com as duas mãos, mas não a comi. Eu pensava: que presente poderia dar ao Imperador Celestial?</p><p id="pt-b00093">Então ouvi o Imperador Celestial perguntar: “Por que você não a come?”</p><p id="pt-b00094">Respondi com gratidão: “Gostaria de levar a dádiva do Imperador Celestial ao mundo humano para que meu pai idoso possa saboreá-la!”</p><p id="pt-b00095">O Imperador Celestial disse: “Sua piedade filial é louvável, mas seu pai ainda não dispõe das bênçãos necessárias para comer esta fruta. É melhor que você mesma coma esta fruta celestial! Escrever bem As leis implacáveis do mundo dos mortos e fazê-lo circular no mundo humano será o melhor presente que poderá me dar!”</p><p id="pt-b00096">Assim, com o coração cheio de gratidão, comi a fruta celestial. Ela tinha um aspecto fresco e suculento; depois de comê-la, senti na boca uma doçura pura e delicada, e meu corpo ficou leve e revigorado. No mundo humano, eu realmente nunca havia provado uma fruta tão pura e doce! O corpo de Ayu logo se encheu de força! Quando voltar, preciso escrever com dedicação sobre tudo o que vi e ouvi. Sou grata ao Imperador Celestial por seu cuidado.</p><p id="pt-b00097">“Amitābha! Eu, Shangguan Yuhua, sua humilde súdita, agradeço ao Imperador Celestial com esta reverência! Agora peço licença para me retirar!”</p><p id="pt-b00098">O magistrado enfim pôde começar seu trabalho. Eu havia tomado muito do seu tempo.</p><p id="pt-b00099">Gratidão ao magistrado do mundo dos mortos! Ayu o saúda com as palmas unidas!</p><p id="pt-b00100">Se não precisasse voltar logo para escrever meu relato, eu bem que gostaria de me sentar e praticar meditação neste reino celestial tão puro. Mas o tempo era curto; era melhor voltar primeiro sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-8"><title><p id="loc-101">2 — Como surgiu a obra As leis implacáveis do mundo dos mortos (II) — Nova audiência com o Imperador de Fengdu, governante supremo do mundo dos mortos</p></title><p id="pt-b00102">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00103">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00104">“Senhor magistrado, Ayu gostaria de saber como começou a iniciativa do mundo dos mortos de escrever esta obra, As leis implacáveis do mundo dos mortos.”</p><p id="pt-b00105">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Há algum tempo, realizamos uma reunião de emergência no mundo dos mortos. Os doze reis dos salões e todos os funcionários receberam um comunicado urgente em um documento oficial emitido pelo Imperador de Fengdu, soberano do mundo dos mortos. Nosso governante supremo é o Imperador de Fengdu. Existe apenas um soberano do mundo dos mortos, e abaixo dele estão os reis dos doze salões. Antes, havia somente dez salões nos infernos, cada qual com um rei; agora, na nova área construída para os infernos, foram acrescentados mais dois reis. Os doze reis governam, cada um, os infernos maiores e menores subordinados ao seu salão, e todos recebem ordens do Imperador de Fengdu.</p><p id="pt-b00106">O comunicado urgente dizia: o soberano do mundo dos mortos viu que os infernos estão muito superlotados e que novos infernos continuam a ser construídos. Já há uma grave falta de funcionários e trabalhadores no mundo dos mortos. Além disso, por não suportar ver os seres do mundo dos vivos caindo um após o outro nos infernos, apresentou uma petição ao Imperador Celestial para que designasse uma pessoa do mundo dos vivos que observasse os preceitos com pureza. Depois de visitar os infernos e conhecer seus castigos, ela voltaria ao mundo humano e escreveria um livro chamado As leis implacáveis do mundo dos mortos. O objetivo é purificar o coração das pessoas, reconduzir os seres que se perderam ao caminho correto, levá-los a praticar o bem e acumular virtudes, para que possam desfrutar seus anos naturais de vida e, ao morrer, ascender sem cair nos infernos. Essa pessoa é você, Shangguan Yuhua. Você traz consigo uma credencial de autorização emitida pelo mundo dos mortos e pode entrar e sair livremente daqui enquanto escreve o livro. O mundo dos mortos designou especialmente um magistrado para conduzir Shangguan Yuhua, ou Ayu, em suas visitas aos infernos e responder às suas perguntas. Quando esse magistrado estiver ocupado, todos os funcionários do mundo dos mortos deverão ajudá-la. Como os infernos são imensos, visitá-los por completo levaria muito tempo. Mas o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos precisa circular amplamente entre os humanos o quanto antes. Por isso, todos devem indicar a você casos de espíritos condenados que sejam relativamente representativos para que possa entrevistá-los.</p><p id="pt-b00107">O comunicado urgente também mencionava que você, Ayu, visita os infernos em pleno estado de vigília, usando sua prática de meditação para projetar uma manifestação de si mesma. Esperamos que, após a publicação de As leis implacáveis do mundo dos mortos, diminua muito o número de seres que caem nos infernos a cada dia, reduzindo também nossa atual sobrecarga diária de trabalho. Agora todos os funcionários e trabalhadores do mundo dos mortos estão muito ocupados, mas, sempre que você vier, reservaremos tempo para recebê-la e lhe fornecer todas as informações de que precisar. A iniciativa de escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos surgiu por ordem do Imperador de Fengdu, soberano do mundo dos mortos. Se quiser saber mais detalhes, levarei você para prestar-lhe homenagem, e ele responderá às suas perguntas.”</p><p id="pt-b00108">“Está bem! Ayu é realmente muito grata ao magistrado!”</p><p id="pt-b00109">Começamos a caminhar. Os infernos são realmente enormes; em cada visita, seguimos por um caminho diferente. Que nenhum ser senciente caia nos infernos! Se alguém vier aos infernos, que venha para salvar os seres em cumprimento de seus votos!</p><p id="pt-b00110">Na direção em que caminhamos agora, não há sons de sofrimento nem sensação de medo. À frente há uma pequena ponte sobre água corrente e um pequeno bosque; a sensação é muito agradável. O magistrado do mundo dos mortos diz que este é o lugar onde vive o Rei Yama, soberano do mundo dos mortos, e que agora vamos ao salão de reuniões onde ele recebe os funcionários para deliberar sobre os assuntos. Na verdade, os lugares onde vivem os funcionários do mundo dos mortos são bastante bons; assim como os funcionários do mundo humano, eles têm certos benefícios. Mais adiante há uma grande construção, cuja decoração interna conserva um pouco da elegância sóbria dos tempos antigos. No alto do salão principal há uma placa horizontal com quatro grandes caracteres que dizem: “正大光明” (“Retidão e integridade”). O Rei Yama, soberano dos mortos, está sentado logo abaixo dela. Nas paredes dos dois lados estão penduradas pinturas de pessoas com trajes antigos praticando boas ações. Alguns funcionários do mundo dos mortos estão sentados dos dois lados. O Imperador de Fengdu, Rei Yama e soberano dos mortos, está discutindo com eles as questões relativas às obras de ampliação dos infernos. Está realmente muito ocupado!</p><p id="pt-b00111">Nesse momento, ajoelhei-me imediatamente e disse: “Eu, Shangguan Yuhua, mulher do povo do mundo dos vivos, prostro-me em reverência ao Imperador de Fengdu, Rei Yama! Agradeço ao Imperador de Fengdu por compor As leis implacáveis do mundo dos mortos, permitindo que esta mulher do povo amplie seus conhecimentos, elimine carma negativo e cultive bênçãos. Gostaria de perguntar ao Imperador de Fengdu: quais causas e condições o levaram a compor esta obra, As leis implacáveis do mundo dos mortos?”</p><p id="pt-b00112">O Imperador de Fengdu, Rei Yama e soberano dos mortos, respondeu: “Nos primórdios do mundo humano, todos eram bons por natureza e observavam os cinco preceitos e as dez boas ações. Naquela época, o yin e o yang do Céu e da Terra estavam em equilíbrio, os arco-íris resplandeciam, os cinco cereais davam colheitas abundantes e uma atmosfera de paz e harmonia reinava no mundo humano. Não havia calamidades naturais nem desastres causados pelas pessoas. Todos desfrutavam em paz de toda a duração natural de suas vidas e, ao morrerem, retornavam ao reino celestial. Infelizmente, a natureza das pessoas foi sendo continuamente contaminada, e elas se degradaram cada vez mais. Os hábitos humanos têm origem no desejo sexual ao longo de kalpas sem princípio, levando as pessoas a girar continuamente pelas seis vias de renascimento. Como o comportamento das pessoas se degradava sem cessar, violando os preceitos e praticando as dez más ações, na época intermediária da antiguidade o Céu começou a construir infernos para punir e educar as pessoas do mundo dos vivos que se haviam degradado e violado os preceitos, fazendo-as refletir sobre si mesmas nos infernos.</p><p id="pt-b00113">Naquela época, os infernos eram muito pequenos, e poucas pessoas do mundo dos vivos caíam neles. Com a contaminação acumulada ao longo do tempo, a bondade original da natureza humana, existente nos primórdios, praticamente desapareceu por completo. Hoje, o coração das pessoas mudou drasticamente. A energia maléfica de seus pensamentos sobe diretamente à corte celestial; em especial, a energia da conduta sexual imprópria destrói de maneira ainda mais grave as leis do equilíbrio natural do universo, tornando turvas as energias do Céu e da Terra. Chegou-se ao ponto de já não se distinguir o Céu da Terra, e há muito o yin e o yang perderam o equilíbrio. As pessoas do mundo dos vivos dependem da interação dos diversos equilíbrios do ambiente natural da Terra para poderem viver em paz e trabalhar com satisfação. No início do kalpa, todos tinham bom coração e observavam os cinco preceitos e as dez boas ações; o Céu e a Terra eram inteiramente harmoniosos. Essa harmonia vinha da correspondência entre os pensamentos humanos e a natureza, que retribuía com tempo claro, colheitas abundantes dos cinco cereais e arco-íris resplandecentes. Hoje, as colheitas dos cinco cereais na Terra são insuficientes, diversas regiões sofrem calamidades naturais e desastres causados pelas pessoas, o céu fica escuro e a temperatura pode mudar drasticamente em poucos dias. Isso também é causado pelas grandes oscilações dos maus pensamentos no coração das pessoas. A frieza e a falta de lealdade e consideração nos pensamentos humanos atraem a chegada de ar frio ao mundo dos vivos; se todos tiverem o coração luminoso, atrairão o brilho dos arco-íris.</p><p id="pt-b00114">As frequentes calamidades naturais no mundo dos vivos já são um alerta. No futuro, ainda haverá mais calamidades naturais, sucedendo-se sem cessar. Nenhuma tecnologia humana poderá impedir sua chegada. O que pode salvar os seres sencientes não é a alta tecnologia, mas observar sinceramente os cinco preceitos, praticar as dez boas ações, arrepender-se sinceramente dos males cometidos e cultivar o Caminho da pureza. Se as coisas continuarem assim, a natureza do universo tem seus próprios meios de restabelecer o equilíbrio. Nesse caso, certamente haverá grandes calamidades naturais e desastres causados pelas pessoas no mundo humano, e todas as pessoas do mundo dos vivos que seguirem o mal cairão nos infernos.</p><p id="pt-b00115">Agora os infernos já estão superlotados, e nosso trabalho aqui também excede em muito nossa capacidade. Não suporto ver o mundo humano caminhar para a destruição e sua moral se degradar. Por isso, revelo amplamente os segredos celestiais e apresentei uma petição ao Imperador Celestial para que enviasse uma pessoa do mundo dos vivos que observasse os preceitos com pureza, a fim de visitar, em estado de vigília, os diversos castigos dos infernos e, ao retornar ao mundo dos vivos, escrever um livro para exortar e transformar as pessoas, levando-as a abandonar o mal e seguir o bem, recuperando o quanto antes a luminosidade espiritual que lhes é inata.</p><p id="pt-b00116">Se, após lerem As leis implacáveis do mundo dos mortos, as pessoas o transmitirem umas às outras, ou o reimprimirem gratuitamente e o fizerem circular amplamente, purificando também seus próprios pensamentos, todos os bons desejos que tiverem serão plenamente realizados. O mundo dos mortos registrará um grande mérito de bondade no Registro da Vida e da Morte de cada uma delas, o que poderá livrá-las do carma negativo passado que as levaria aos infernos; ao término de suas vidas, ascenderão ao reino celestial graças a esse grande mérito de bondade. Se alguém difamar ou impedir a circulação deste livro de exortação ao bem, As leis implacáveis do mundo dos mortos, também será registrado um grande carma negativo em seu Registro da Vida e da Morte no mundo dos mortos. Ao término de sua vida, entrará no Inferno dos Uivos, no Inferno do Arrancamento da Língua, no Inferno de Arrancar os Olhos e em outros, para sofrer os castigos dos infernos. Mesmo antes de completar sua duração de vida, sofrerá a retribuição de adoecer, padecer e acabar morrendo. A sentença específica dependerá dos detalhes da difamação ou da obstrução à circulação deste livro de exortação ao bem, As leis implacáveis do mundo dos mortos, para determinar quais castigos receberá. Se muitos seres sencientes acreditarem na difamação e a aceitarem, além de ser condenado a sofrer nos infernos mencionados, o difamador ainda terá de ser lançado no Grande Inferno Avīci; então será extremamente difícil sair de lá para renascer!</p><p id="pt-b00117">Pois bem! Estamos ocupados. Hoje, volte primeiro e escreva o que acabei de expor sobre as causas e condições para a publicação do livro. Espero que as pessoas se encorajem mutuamente, transmitam estas palavras umas às outras, cultivem cuidadosamente sua conduta e sua natureza, acumulem virtude e pratiquem o bem.”</p><p id="pt-b00118">Amitābha! Eu, Ayu, prostro-me em agradecimento ao Imperador de Fengdu, Rei Yama e soberano dos mortos!</p><p id="pt-b00119">Uno as palmas das mãos em agradecimento a todos os magistrados e funcionários do mundo dos mortos! Retorno sobre o lótus branco!</p></section><section id="sec-9"><title><p id="loc-120">3 — Assistindo a um julgamento no Sétimo Salão</p></title><p id="pt-b00121">Agradeço as bênçãos de todos os budas e bodhisattvas, que fizeram com que esta viagem aos infernos não só ampliasse meus conhecimentos, mas também fortalecesse ainda mais minha determinação de observar os preceitos. Na verdade, desde pequena tenho esse tipo de percepção especial: certas coisas que estão prestes a acontecer, ou que acontecerão no futuro, aparecem em meus sonhos. Parece um sonho, mas, na verdade, não é bem um sonho. Consigo perceber claramente que minha alma saiu do corpo e vejo meu próprio corpo deitado na cama. Lembro-me com clareza do que vejo acontecer quando minha alma sai. Em geral, essas coisas acabam se confirmando no futuro, ou então são algum tipo de aviso, e assim já deixo tudo resolvido antes que o acontecimento ocorra.</p><p id="pt-b00122">As coisas de antes diziam respeito a mim ou à minha família. Desta vez é diferente: preciso compartilhar isso com todos os seres sencientes, para que todos saibam a importância dos pensamentos. Como diz o ditado, se não quiser que os outros saibam, não faça. Todos os dias acontecem muitas coisas ao nosso redor que talvez as pessoas nem saibam que são erradas. Por exemplo, num casal legalmente casado em que nenhum dos dois tem um caso extraconjugal, ambos ainda assim violaram o preceito contra a conduta sexual imprópria. Por quê? Porque não observaram as proibições relativas a momentos impróprios, lugares impróprios e vias impróprias.</p><p id="pt-b00123">Ontem à noite, sentindo como se estivesse sonhando, saí novamente do corpo e fui aos infernos. Assim que cheguei, senti uma energia yin muito intensa. Os homens e as mulheres daqui estão sofrendo, gritam e berram, soltam gritos agudos e lancinantes. Não há sorrisos nem liberdade. Alguns estão presos por correntes de ferro; outros são arrastados pelos guardas do mundo dos mortos com instrumentos de tortura, espancados, espetados com forquilhas e assim por diante. Nos infernos há guardas e magistrados do mundo dos mortos. Eles também não sorriem; são muito sérios, e alguns parecem bastante ferozes. Apenas alguns funcionários do mundo dos mortos têm uma aparência um pouco menos feroz; os demais guardas têm todos um aspecto ameaçador. Nos infernos não há luz do sol. É diferente do mundo humano: a atmosfera é escura e acinzentada, com um tom avermelhado. É difícil descrever; a sensação é muito desagradável.</p><p id="pt-b00124">Naquela ocasião, cheguei ao Sétimo Salão dos infernos justamente quando se julgava o espírito de um homem que havia cometido o delito de conduta sexual imprópria. Com a permissão do magistrado do mundo dos mortos, entrei para assistir ao julgamento. No centro desse grande salão estava sentado um dirigente chamado Rei de Taishan, que administrava aquele salão. Havia dezesseis infernos menores subordinados a ele, todos sob a responsabilidade do Rei de Taishan. A autoridade máxima dos infernos é o Rei Yama, que administra todos os infernos, incluindo os doze salões. Cada salão tem um rei, e cada rei é responsável por dezesseis infernos menores. Ao lado do Rei de Taishan havia dois funcionários do mundo dos mortos, um deles um magistrado, além dos guardas encarregados de executar as ordens, que seguravam grandes sabres e correntes de ferro. Todos acompanhavam o julgamento com muita seriedade. A atmosfera era lúgubre, e havia uma sensação de frio.</p><p id="pt-b00125">Vi então o Rei de Taishan, com uma expressão muito feroz, interrogando o espírito de um homem que, em vida, havia cometido o delito de conduta sexual imprópria. O espírito tentava se justificar com argumentos enganosos. O Rei de Taishan fez um traço no ar com a mão, e imediatamente apareceu a Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos. Ela mostrou os delitos de conduta sexual imprópria cometidos pelo espírito quando era jovem: relações conjugais e extraconjugais em momentos impróprios, lugares impróprios e vias impróprias, além de ver livros e discos de conteúdo pornográfico, entre outras coisas. O espírito ficou tão assustado que tremia da cabeça aos pés e se ajoelhou pedindo clemência. Mas já era tarde: o Rei de Taishan já havia ordenado aos guardas que o levassem para fora, ao Inferno do Abraço à Coluna de Cobre, para sofrer o castigo.</p><p id="pt-b00126">Um guarda que segurava um grande sabre arrastou o espírito do homem com uma corrente de ferro para fora do salão, levando-o para receber o castigo. Eu também o acompanhei para ver o que aconteceria. Teria sido melhor não olhar; quando olhei, ah! Era aterrorizante. Todos os espíritos nesse inferno gritavam de dor, e eram muitíssimos. Seus gritos lancinantes não cessavam um instante, e o sofrimento era contínuo, sem qualquer tempo para descansar. Vi o espírito daquele homem de há pouco caminhar alegremente em direção a uma coluna de cobre. Assim que a abraçou, começou imediatamente a gritar de dor. Perguntei então ao magistrado do mundo dos mortos por quê. Ele disse que o espírito havia visto a coluna de cobre incandescente como uma bela mulher, por isso estava tão contente. Mas, ao abraçá-la, era na verdade a coluna de cobre que queimava todo o seu corpo, e por isso ele gritava de dor.</p><p id="pt-b00127">Continuei perguntando ao magistrado do mundo dos mortos o que eram momentos impróprios, lugares impróprios e vias impróprias. Descobri que mesmo um casal formalmente casado precisa observar esses preceitos; caso contrário, também comete o delito de conduta sexual imprópria. Por “momentos impróprios”, entende-se que é preciso abster-se de relações sexuais nos aniversários dos budas e bodhisattvas, nos seis dias mensais de abstinência e nos três meses anuais de abstinência prolongada. Nesses dias, como o primeiro, o décimo e o décimo quinto dia de cada mês, entre outros, os Quatro Reis Celestiais percorrem o mundo humano, registram o bem e o mal e depois retornam à corte celestial para apresentar seu relatório ao Imperador de Jade. Por “lugares impróprios”, entende-se que a intimidade conjugal deve respeitar os devidos limites: fora da cama do casal, não se podem ter relações em outros lugares, como na sala, na cozinha, no banheiro, ao ar livre, diante do Buda e assim por diante. Por “vias impróprias”, entende-se que, fora dos órgãos genitais, o casal não pode usar outras partes do corpo para relações sexuais. Caso contrário, ambos terão de descer aos infernos para sofrer. Depois de terminarem de sofrer nos infernos, ainda terão de renascer como porcos, cães, patos-mandarins, serpentes e outros animais.</p><p id="pt-b00128">Hoje, com o avanço da tecnologia, há muitos sites pornográficos na internet, e tampouco se pode vê-los. Olhar também constitui uma transgressão e certamente reduz as bênçãos, encurta a vida e diminui a prosperidade. Mesmo que a pessoa não passe à ação, assim que o pensamento surge, os deuses que a acompanham desde o nascimento o registram imediatamente. Cada pessoa tem dois desses deuses: um registra o carma negativo, e o outro, o carma positivo. Naturalmente, alguns dirão que, se passaram a vida inteira apenas com seu próprio parceiro, fazer isso não é infidelidade. Mas isso também está errado. O magistrado do mundo dos mortos disse: “As pessoas devem preservar sua verdadeira essência e sua energia vital. O excesso de relações sexuais consome a energia reta do próprio corpo. Quando homens e mulheres têm relações sexuais, ainda emitem uma energia maléfica que destrói a energia reta entre o Céu e a Terra.” Se um casal formalmente casado já violou os preceitos mencionados sobre momentos impróprios, lugares impróprios e vias impróprias, que se arrependa e corrija seus erros o quanto antes, e transmita esta mensagem a todos os seres sencientes do mundo humano, para que todos se incentivem a manter a pureza da conduta e o respeito por si mesmos, observem as normas de decoro e das relações humanas e permitam que a energia reta entre o Céu e a Terra alcance o equilíbrio.</p><p id="pt-b00129">Se alguém anteriormente transgrediu as proibições de momentos impróprios, lugares impróprios e vias impróprias por ter sido forçado pelo cônjuge legal, sem sentir no íntimo o menor prazer no ato sexual, e se arrependeu e corrigiu seus erros em tempo, fazendo ao mesmo tempo o voto de, dali em diante, exortar outras pessoas a mudar, será permitido que fique isento do sofrimento desse inferno. Se, porém, violou os preceitos buscando deliberadamente o prazer, terá de descer ao Inferno do Abraço à Coluna de Cobre para receber o castigo. Ao terminar essa retribuição, será lançado na via dos animais e, depois, voltará a nascer no mundo humano no corpo de uma mulher de condição inferior.</p><p id="pt-b00130">A seguir, falarei das diferentes penas por violar o preceito contra a conduta sexual imprópria. Primeiro, os homens e as mulheres solteiros: se ainda conservam a virgindade — o homem é virgem ou a mulher é virgem, não tendo perdido a virgindade nem mantido relações sexuais com alguém do sexo oposto —, ver livros pornográficos ou sites pornográficos já constitui o delito de conduta sexual imprópria e reduz suas bênçãos, encurta sua vida e diminui sua prosperidade. Se olharem apenas uma vez, perderão um mês de vida; se continuarem olhando, perderão um ano ou mais. Se apenas olharem, sem passar à ação, o arrependimento em tempo poderá atenuar seu carma negativo.</p><p id="pt-b00131">Se uma pessoa solteira tiver relações sexuais antes do casamento, mesmo que seja com um único parceiro e que depois se case com ele, os dois sofrerão redução de suas bênçãos por não terem observado devidamente as normas de decoro. Se, antes do casamento, pessoas solteiras mantiverem relações sexuais indiscriminadamente, trocando frequentemente de parceiro — hoje A, amanhã B, depois de amanhã C —, como na moda atual em que o homem considera ter mais prestígio quanto mais namoradas tem e a mulher mantém relações com inúmeros homens, entre outras condutas, cairão neste inferno ao morrer. Terão de abraçar as colunas de cobre em brasa por um período ainda maior, depois renascerão como animais e, em seguida, voltarão a nascer no mundo humano para pagar dívidas de vidas passadas. Se uma pessoa casada desenvolver um caso extraconjugal, a duração e a gravidade da pena por esse carma negativo serão determinadas conforme os danos causados. Terá de abraçar as colunas de cobre em brasa por, no mínimo, dez mil anos.</p><p id="pt-b00132">Quem cometer estupro, quem, por meio de um ardil, fizer uma mulher perder a castidade ou a mulher que se entregar à luxúria cairá neste inferno por vinte mil anos ao morrer. Depois, irá ao Inferno dos Uivos para sofrer a retribuição por dez mil anos e então voltará ao mundo humano para pagar dívidas de vidas passadas. Se, além da conduta sexual imprópria, alguém causar maliciosamente a morte de outra pessoa, o responsável cairá neste inferno por quarenta mil anos e depois voltará ao mundo humano para pagar dívidas de vidas passadas. <a xlink:href="#n3-o-sentido-de-causar-a-morte">[N3]</a></p><p id="pt-b00133">Amitābha! Se algo não estiver bem escrito, a falha é minha, desta aprendiz, e nada tem a ver com os ensinamentos do magistrado do mundo dos mortos. Agradeço as bênçãos dos budas e bodhisattvas, que me permitiram visitar os infernos e escrever este texto para compartilhá-lo com todos. Se houver algum mérito nisso, dedico-o a todos os seres sencientes em toda a extensão do espaço e do reino do Dharma, para que se afastem dos desejos, observem os preceitos puros e alcancem juntos o insuperável, correto e perfeito despertar.</p></section><section id="sec-10"><title><p id="loc-134">4 — O magistrado do mundo dos mortos diz: “Arrepender-se só depois da morte já é tarde demais!”</p></title><p id="pt-b00135">Agradeço as grandes bênçãos dos budas e bodhisattvas, que me permitiram ir novamente aos infernos e ampliar meus conhecimentos. A sensação nos infernos é sempre de sofrimento e escuridão, tudo repleto de campos magnéticos negativos. Espero que ninguém venha aos infernos por ter criado carma negativo: o sofrimento é realmente insuportável e indescritível.</p><p id="pt-b00136">Logo cheguei ao Sétimo Salão, onde se julgava o espírito de um homem. Ele parecia bastante distinto. Sem que eu soubesse qual delito ele havia cometido, o magistrado do mundo dos mortos o condenou a quinhentos anos de castigo engolindo bolas de cobre. Observando com mais atenção, descobri que, em vida, ele tinha uma esposa e mantinha relações extraconjugais regulares com duas outras pessoas. Gostava de ter relações sexuais em momentos impróprios, em lugares impróprios e por vias impróprias, e essas três pessoas conseguiam satisfazer seus desejos. Durante toda a vida, ele manteve relações íntimas apenas com essas três pessoas.</p><p id="pt-b00137">Nesse momento, ouvi o espírito do homem dizer em sua defesa: “Por que minha esposa pôde ficar isenta dos quinhentos anos de castigo abraçando colunas de cobre, enquanto eu não posso ficar isento dos quinhentos anos engolindo bolas de cobre?” O magistrado do mundo dos mortos disse então: “Veja as imagens!” Elas mostraram que, naquela época, quando o homem pediu à esposa que tivesse relações por vias impróprias, ela recusou e ainda o aconselhou a não fazer aquilo, pois contrariava o decoro. A esposa só teve relações com ele em momentos e lugares impróprios e, além disso, tinha pouco desejo. Por isso, seu delito era um pouco mais leve: apenas sofreria uma redução de suas bênçãos. Por ter recusado as relações por vias impróprias e aconselhado o marido a não praticá-las, ela também havia voltado a acumular algumas bênçãos.</p><p id="pt-b00138">Embora o espírito do homem não tivesse forçado a esposa, ele mantinha relações extraconjugais com outras duas pessoas, com as quais havia cometido as três modalidades de conduta sexual imprópria. O magistrado do mundo dos mortos disse: “Levando em conta que você tem arrependimento, demonstrou piedade filial para com seus pais, cumpriu lealmente seus deveres públicos e respeitou a lei, tendo cometido apenas essas três modalidades de conduta sexual imprópria, fica dispensado dos quinhentos anos abraçando colunas de cobre.” A essa altura, o espírito do homem já não tinha o que responder e foi levado pelos guardas ao Inferno de Engolir Bolas de Cobre. Assim que um guarda o empurrou para dentro, ele viu uma dessas duas pessoas se aproximar e imediatamente foi ao encontro dela. Na verdade, era uma grande ave, cujo bico enorme conseguia envolver inteiramente o órgão genital do espírito. Depois de envolvê-lo, puxou para a frente e o arrancou. O espírito soltou gritos agudos de dor extrema. Como a cena era sangrenta demais, não consegui continuar olhando.</p><p id="pt-b00139">Depois de sair do salão, pedi ao magistrado do mundo dos mortos alguns esclarecimentos sobre os castigos por conduta sexual imprópria. Segundo ele me disse, primeiro é preciso manter a compreensão correta e a atenção plena correta, vigiando-se constantemente para preservar a pureza da conduta e o respeito por si. Se alguém praticar conduta sexual imprópria apenas em pensamento, sem agir, perderá uma semana de bênçãos. Se olhar publicações pornográficas, apenas olhar já reduzirá suas bênçãos e sua vida em uma semana. Passar à ação reduzirá suas bênçãos e sua vida em um mês; se praticar conduta sexual imprópria uma segunda vez, perderá dois meses de bênçãos e de vida, e assim por diante. <a xlink:href="#loc-1650">[N2]</a></p><p id="pt-b00140">Tanto para os homens quanto para as mulheres, todas as relações sexuais antes do casamento reduzem as bênçãos e encurtam a vida. Os casos específicos diferem, mas podem ser divididos, em linhas gerais, em três categorias.</p><p id="pt-b00141">Primeira: a pessoa tem apenas um parceiro durante toda a vida, esse parceiro tem pouco desejo e os dois posteriormente se casam. Nesse tipo de caso, se não houver violação das proibições relativas a momentos impróprios, lugares impróprios e vias impróprias, haverá apenas uma redução das bênçãos. Também é possível arrepender-se o quanto antes para eliminar o carma negativo. <a xlink:href="#loc-1654">[N4]</a></p><p id="pt-b00142">Segunda: a pessoa tem um único parceiro antes e depois do casamento, mas viola as proibições relativas a momentos impróprios, lugares impróprios e vias impróprias, e tem muito desejo. Tanto antes quanto depois do casamento, suas bênçãos serão reduzidas e sua vida será encurtada. Ao morrer, entrará nos infernos para abraçar colunas de cobre por quinhentos anos e engolir bolas de cobre por quinhentos anos. Se se arrepender ainda em vida, a força do arrependimento será maior. Se, além disso, exortar vigorosamente outras pessoas a não transgredirem, compensando seus erros com méritos, talvez possa ficar isenta da retribuição nos infernos.</p><p id="pt-b00143">Terceira: tanto antes quanto depois do casamento, a pessoa pratica indiscriminadamente conduta sexual imprópria, tem desejos particularmente intensos e passa os dias numa vida de excessos e alheamento. Nesta vida, certamente sofrerá redução de suas bênçãos e de sua longevidade. Ao morrer, entrará nos infernos para abraçar colunas de cobre, dormir em camas de ferro, engolir bolas de cobre e assim por diante. Terá de sofrer por, no mínimo, dez mil anos em cada inferno, conforme o julgamento de cada caso específico. Depois de terminar sua retribuição nos infernos, será lançada na via dos animais. Alguns sofrerão a retribuição de nascer como patos-mandarins; outros renascerão como cães, serpentes e assim por diante.</p><p id="pt-b00144">Atualmente, a terceira categoria é a mais numerosa nos infernos, que já foram muito ampliados em comparação com antes. Hoje, muitas pessoas do mundo humano pertencem a essa terceira categoria e, no futuro, todas terão de vir aos infernos para sofrer a retribuição.</p><p id="pt-b00145">O magistrado do mundo dos mortos continuou dizendo que, durante a menstruação da mulher, é rigorosamente proibido ao casal ter relações sexuais. Também não se podem ter relações durante a gravidez e a amamentação; caso contrário, haverá redução das bênçãos. Além disso, ter relações durante a menstruação atrai todos os tipos de espíritos devoradores de essência e sangue para sugar o sangue. A cada relação sexual, haverá espíritos devoradores de essência e energia vital que virão sugá-las, fazendo depois com que a pessoa adoeça e passe por muitos infortúnios.</p><p id="pt-b00146">O magistrado do mundo dos mortos também me informou que as mulheres que usam roupas muito reveladoras no verão perdem uma semana de bênçãos, pois fazem surgir pensamentos de conduta sexual imprópria nas pessoas do sexo oposto. Depois de ouvir suas palavras, senti como é importante cada impulso do coração, cada pensamento. De fato, existem espíritos e divindades no mundo invisível encarregados de vigiar e registrar nossa conduta!</p><p id="pt-b00147">Sou muito grata ao magistrado do mundo dos mortos por essas informações importantes e por revelar os segredos celestiais. Despeço-me aqui com uma reverência! Que todos os seres sencientes do mundo cultivem a pura conduta de brahmacarya e fiquem livres do sofrimento dos infernos.</p></section><section id="sec-11"><title><p id="loc-148">5 — A terrível retribuição da masturbação nos grandes infernos: o magistrado do mundo dos mortos revela todos os segredos celestiais!</p></title><p id="pt-b00149">Os budas e bodhisattvas salvam os seres sencientes assim como o grande mar nunca se separa de suas ondas: sem intervalo nem descanso, pensamento após pensamento, onda após onda. Que todos os seres sencientes do mundo compreendam isso mais profundamente, cumpram bem seus deveres, observem os cinco preceitos para conservar a condição humana e mantenham a pureza da conduta e o respeito por si mesmos. Que eu, esta aprendiz, também consiga aprender com a grande compaixão dos budas e bodhisattvas e servir a muitos seres sencientes sem dormir nem descansar. Ontem, amparada mais uma vez pelo poder dos budas, fiz outra viagem aos infernos.</p><p id="pt-b00150">Prostro-me em agradecimento pelo amparo do poder do Buda! Assim que recitei o nome do Buda, cheguei aos infernos de sofrimento. Sem o amparo do poder do Buda e o círculo de luz que me envolvia, certamente ficaria muito exausta. Os campos magnéticos negativos dos infernos avançam sem cessar, como se derrubassem montanhas e revolvessem mares. No mundo humano, se chovesse durante sete dias seguidos, com o céu encoberto, e a pessoa ainda estivesse resfriada, acredito que muita gente já diria que era um grande sofrimento. Chuva e céu cinzento todos os dias, a pessoa doente, a cabeça pesada, as pernas fracas, e ainda tendo de trabalhar. Na verdade, o sofrimento dos infernos é, no mínimo, centenas ou milhares de vezes maior que o do mundo humano, e não tem interrupção. Ouvi gritos agudos, gemidos de dor! Vamos seguir esses sons e ver!</p><p id="pt-b00151">Ah! Muitos espíritos de homens estavam completamente nus, enroscados por serpentes de duas cabeças que pareciam moles e emitiam labaredas de luz vermelho-fogo. O que os espíritos dos homens viam eram belas mulheres acariciando-os. Mas, assim que as serpentes de duas cabeças tocavam seus órgãos genitais, imediatamente os arrancavam com uma mordida. Os espíritos uivavam de dor até desmaiar. A serpente de duas cabeças soltava um sopro, e o espírito do homem despertava imediatamente; seu órgão genital mutilado também voltava de repente a ficar intacto. Então a serpente de duas cabeças emitia novamente labaredas de luz vermelho-fogo, repetindo a cena dolorosa de antes. Eu realmente não queria continuar olhando. Como aquilo me afligia o coração!</p><p id="pt-b00152">Havia muitos espíritos de homens assim naquele lugar, todos sofrendo essa enorme dor. Fui pedir esclarecimentos ao magistrado do mundo dos mortos: por que eles sofriam essa retribuição? Ele disse que aquela era uma das retribuições nos infernos para quem gostava de se masturbar em vida. A retribuição das serpentes de fogo de duas cabeças precisa ser sofrida por um período de dez mil anos, calculados pelo tempo dos infernos! Essa é uma das más retribuições pela masturbação comum.</p><p id="pt-b00153">Há ainda outra má retribuição pela masturbação, que precisa ser sofrida por vinte mil anos. Quem, em vida, buscar estímulos sensoriais usando gelo, água morna, pimenta, lubrificantes e assim por diante, ou objetos de sua preferência, para praticar masturbação e conduta sexual imprópria ou ensiná-las a outras pessoas, entrará, ao morrer, neste Inferno das Cinco Camadas de Gelo e Fogo.</p><p id="pt-b00154">Perguntei por que a masturbação recebia uma pena tão severa, de dez mil anos até para os casos leves.</p><p id="pt-b00155">O magistrado do mundo dos mortos disse que a masturbação prejudica especialmente o corpo e corrompe a virtude, consumindo os três tesouros do corpo humano: essência, energia vital e espírito. Também equivale a uma grave falta de respeito filial aos pais. É como o suicídio: embora não se prejudique outra pessoa, matar a si mesmo ainda é tirar uma vida, por isso a pena é severa. Os seres que gostam de se masturbar geralmente o fazem com muita frequência, cometendo essa transgressão repetidamente. Masturbar-se uma vez em vida reduz a duração da vida e as bênçãos em meio mês; na segunda vez, a redução das bênçãos e da vida é de um mês. Ao morrer, a pessoa é lançada no inferno para sofrer a retribuição. Se, em vida, ela se arrepender profundamente, talvez possa evitar o sofrimento de entrar no inferno após a morte; isso precisa ser julgado conforme cada caso concreto.</p><p id="pt-b00156">O magistrado do mundo dos mortos perguntou se eu precisava visitar o Inferno das Cinco Camadas de Gelo e Fogo. Pensei que seria bom e resolvi ir ver.</p><p id="pt-b00157">Este lugar era muito mais cruel que o Inferno das Serpentes de Fogo de Duas Cabeças. Havia muitos instrumentos aqui — melhor dizendo, muitos instrumentos de tortura. Eram transparentes, quase esbranquiçados, de formato arredondado e pontiagudo, e pareciam extremamente gelados e afiados. Assim que tocavam um espírito masculino, esses instrumentos de gelo congelavam seu órgão genital até que ele se desprendesse e se despedaçasse. Logo depois, o órgão se reconstituía.</p><p id="pt-b00158">Depois da tortura do gelo, seguia-se imediatamente, sem interrupção, a retribuição de ser esmagado por uma montanha de fogo. Essa montanha de fogo esmagadora era a retribuição por gostar de usar água morna, pimenta e coisas semelhantes para estimular a masturbação e a conduta sexual imprópria. Um instrumento de tortura vermelho como fogo, semelhante a uma pequena montanha, voava de frente contra o espírito masculino. Parecia feito sob medida: tinha uma presilha exatamente na região do órgão genital, que o prendia e pressionava até queimá-lo e rompê-lo. Por toda parte voltavam a se ouvir gritos e gemidos de dor, e os espíritos desmaiavam. Depois, pela força do carma, despertavam e se reconstituíam, sofrendo tudo novamente em ciclos. Era doloroso demais, digno de muita pena!</p><p id="pt-b00159">Ver este inferno esta noite foi nauseante demais. O magistrado do mundo dos mortos informou que ele havia sido construído recentemente, mas já não tinha capacidade suficiente e precisava ser ampliado. Havia muitos seres desse tipo no mundo humano que, ao morrer, entrariam neste inferno para sofrer a retribuição.</p><p id="pt-b00160">Também vi que estavam ampliando numerosos infernos ligados à estética, destinados especificamente a quem administra salões de beleza, faz aumento dos seios em mulheres, cirurgias de estreitamento da região genital e assim por diante. Muitas empresas de estética ou centros médicos impróprios levam deliberadamente as mulheres a se entregarem ao desejo, à conduta sexual imprópria e à violação dos preceitos. Os responsáveis têm suas bênçãos e sua vida reduzidas enquanto vivem e, ao morrer, entram nesses infernos para sofrer a retribuição por 10.000 anos.</p><p id="pt-b00161">O magistrado do mundo dos mortos sabia que eu tinha uma pergunta; na verdade, nós nos comunicávamos pelo pensamento. Eu queria perguntar por que ter relações sexuais em lugares impróprios também violava os preceitos. Então ele me mostrou um filme.</p><p id="pt-b00162">Acontece que, ao ar livre, nos banheiros ou em noites de raios e trovões, muitos fantasmas e seres espirituais vêm se alimentar da essência e da energia vital, ou possuir os corpos por meio de feijing. Ter relações sexuais em lugares impróprios nessas circunstâncias faz mal à própria pessoa e também destrói o campo magnético da energia reta da natureza. Só traz prejuízos, sem benefício algum; por isso, os seres que cometem essa transgressão precisam sofrer pessoalmente a dolorosa retribuição.</p><p id="pt-b00163">Antes de eu partir, o magistrado do mundo dos mortos me disse: “Desta vez, você chegou aqui amparada pelo poder do Buda e também recebeu a graciosa autorização de meu augusto soberano no domínio superior e do Rei Yama, que me ordenaram explicar a verdadeira situação dos infernos. Pode-se dizer que todos os segredos celestes foram revelados, algo absolutamente excepcional. Espero que, ao voltar ao mundo dos vivos, você transmita esta mensagem e advirta as pessoas para que não voltem a cometer conduta sexual imprópria, prejudicando as relações humanas e corrompendo a virtude, criando seus próprios infernos e também aumentando enormemente nosso trabalho aqui e as calamidades naturais e humanas no mundo dos vivos. Você vê como minha aparência é assustadora. Espero que as pessoas não venham a me encontrar depois de morrer; isso seria uma grande sorte!”</p><p id="pt-b00164">Entre todos os males, a luxúria vem em primeiro lugar! Despeço-me aqui do magistrado do mundo dos mortos, agradecida por seus ensinamentos. Até nosso próximo encontro.</p></section><section id="sec-12"><title><p id="loc-165">6 — A retribuição de 100.000 anos em um grande inferno para clientes de prostitutas</p></title><p id="pt-b00166">Agradeço ao Buda por me permitir partir sobre uma flor de lótus branca. Por que o inferno parecia diferente hoje? Será que eu havia tomado o caminho errado? Normalmente, o inferno é carregado de energia yin, mas hoje havia um intenso brilho dourado, uma luz búdica muito agradável. Levantei a cabeça e vi que era o bodhisattva Kṣitigarbha dos Grandes Votos. Quase derramei lágrimas e imediatamente me prostrei diante dele, tocando o chão com a testa, as mãos e os joelhos.</p><p id="pt-b00167">O bodhisattva Kṣitigarbha me ensinou a valorizar a existência humana e a realizar bem este trabalho significativo; a divulgar seriamente o Dharma correto, revelar os sofrimentos dos infernos e, ao voltar, advertir os seres do mundo humano para que abandonassem os caminhos errados e voltassem ao caminho correto, renunciando ao mal e praticando o bem. Feliz, respondi respeitosamente ao bodhisattva que certamente faria tudo o que pudesse e colocaria seus ensinamentos em prática.</p><p id="pt-b00168">Primeiro, cumprimentei o magistrado do mundo dos mortos com as palmas unidas! Hoje eu queria lhe perguntar sobre “a retribuição cármica dos clientes de prostitutas, das prostitutas e dos cafetões”.</p><p id="pt-b00169">O magistrado do mundo dos mortos me disse que os clientes de prostitutas se dividem em duas categorias:</p><p id="pt-b00170">A primeira é a dos que não conseguem controlar suas necessidades fisiológicas e cuja esposa legítima não consegue satisfazê-los, por isso procuram regularmente suas prostitutas habituais para ter relações sexuais. Em vida, cada transgressão reduz suas bênçãos e sua vida em um mês. Ao morrer, entram no inferno correspondente à conduta sexual imprópria que cometeram para sofrer a retribuição. A duração depende de cada caso concreto, mas, em geral, a maioria das penas é de 800 anos.</p><p id="pt-b00171">A segunda é a dos que têm desejos ardentes, recorrem a prostitutas por longos períodos e cometem conduta sexual imprópria, desperdiçando e desvalorizando sua existência humana. Vivem entorpecidos, como num sonho, e usam instrumentos de estimulação sexual para buscar estímulos sensoriais no corpo. Em vida, cada transgressão desse tipo reduz suas bênçãos e sua vida em um mês e meio. Ao morrer, entram no inferno correspondente à conduta sexual imprópria que cometeram para sofrer a retribuição por 100.000 anos. Terminada a retribuição infernal, são lançados no caminho dos animais para sofrer a retribuição como animais inferiores durante 1.000 anos. Depois, mesmo que consigam renascer como humanos, ainda sofrerão a retribuição de não ter clareza mental.</p><p id="pt-b00172">Quanto à retribuição cármica das prostitutas, há três categorias:</p><p id="pt-b00173">A primeira é a das que estão inteiramente sob o controle de outras pessoas e são obrigadas a se prostituir, sem conseguir se libertar naquele momento, e que não sentem prazer algum durante as relações sexuais. Mais tarde, são resgatadas e se libertam, mas precisam se arrepender de seus obstáculos cármicos e jamais voltar a cometer a transgressão. Assim, talvez possam evitar a retribuição infernal.</p><p id="pt-b00174">A segunda é a das que levam uma vida de prostituição por dinheiro. Em vida, cada ato reduz suas bênçãos e sua vida em um mês. Ao morrer, entram no inferno correspondente à conduta sexual imprópria que cometeram para sofrer a retribuição por 80.000 anos. Terminada a retribuição infernal, são lançadas no caminho dos animais para sofrer a retribuição por 800 anos. Depois, mesmo que consigam renascer como humanas, sofrerão a retribuição de uma condição inferior e desprezada.</p><p id="pt-b00175">As prostitutas da terceira categoria são semelhantes aos clientes da segunda categoria descrita acima: também têm desejos ardentes, desperdiçam e desvalorizam sua existência humana, vivem entorpecidas, como num sonho, e usam instrumentos de estimulação sexual para buscar estímulos sensoriais no corpo. Em vida, cada ato reduz suas bênçãos e sua vida em dois meses. Ao morrer, entram no inferno correspondente à conduta sexual imprópria que cometeram para sofrer a retribuição por 150.000 anos. Terminada a retribuição infernal, são lançadas no caminho dos animais para sofrer a retribuição como animais inferiores durante 2.000 anos. Depois, renascem como humanas e sofrem a retribuição de uma condição inferior e desprezada.</p><p id="pt-b00176">Há dois tipos de cafetões:</p><p id="pt-b00177">O primeiro é o dos que exercem essa atividade temporariamente por dinheiro e depois, ao compreenderem seu erro, a abandonam e jamais voltam a praticá-la. Se, além disso, se arrependerem profundamente, talvez possam atenuar um pouco a retribuição infernal. Entretanto, em vida, cada transgressão reduz suas bênçãos e sua vida em um mês e meio; ao morrer, entram no Inferno Yanhua Fangun para sofrer a retribuição por 100.000 anos.</p><p id="pt-b00178">O segundo é o dos que têm más intenções, controlam as prostitutas, têm desejos ardentes, são egoístas, buscam apenas o próprio benefício e se dedicam a arquitetar armadilhas para prejudicar os outros, entre outras coisas. Em vida, suas bênçãos e sua vida são reduzidas. Ao morrer, entram no Inferno Yanhua Fangun para sofrer a retribuição. Só terão a oportunidade de sair do inferno quando todas as prostitutas que coagiram e prejudicaram voltarem a renascer como humanas. Depois, serão lançados no caminho dos animais para sofrer a retribuição e, quando ela terminar, sofrerão ainda, em existência humana, a retribuição de uma condição inferior e desprezada.</p><p id="pt-b00179">“Ah! Magistrado do mundo dos mortos, a retribuição pelo mau carma desses cafetões é muito severa! Depois de ouvir sua explicação, meu coração ficou dolorido e muito triste. Sinto muita compaixão pelos seres que estão nesse ramo.”</p><p id="pt-b00180">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Esse ramo destrói gravemente os costumes da sociedade, a moral, as regras de conduta e as relações humanas, afetando seriamente a boa natureza das pessoas. Por isso, o soberano do mundo dos mortos pune severamente os seres que praticam esses males. Mas, pelo que sei, os budas e bodhisattvas se compadecem desses seres e assumem formas humanas entre eles para conduzir à libertação aqueles que têm raízes de bondade, fazendo-os voltar-se para o bem.”</p><p id="pt-b00181">Por hoje, ficamos por aqui. Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos! Amitābha! Volto agora sentada na flor de lótus branca.</p><p id="pt-b00182">Desta vez fiquei muito feliz por encontrar, inesperadamente, o bodhisattva Kṣitigarbha dos Grandes Votos no inferno. Seu corpo inteiro estava envolto em luz dourada, e ele também me concedeu suas bênçãos. A imensidão do poder de seus votos é verdadeiramente inconcebível!</p><p id="pt-b00183">Quando voltei ao mundo humano, estava muito cansada. Como cada visita aos infernos consome muito do meu espírito primordial e da minha energia vital primordial, preciso recitar mantras assim que volto para repô-los imediatamente.</p><p id="pt-b00184">Espero que vocês, leitores, não leiam isto como um romance; assim, os esforços compassivos do bodhisattva Kṣitigarbha não terão sido em vão. Eu, Ayu, agradeço novamente a todos. Namo Kṣitigarbha, bodhisattva-mahāsattva dos Grandes Votos!</p></section><section id="sec-13"><title><p id="a-realidade-do-inferno-gelado-da-roda-invertida-e-do-inferno-da-floresta-de-espadas-e-flores-coloridas-que-punem-os-atos-incestuosos">7 — A realidade do Inferno Gelado da Roda Invertida e do Inferno da Floresta de Espadas e Flores Coloridas, que punem os atos incestuosos</p></title><p id="pt-b00186">Eu, Ayu, me prostro diante de Kṣitigarbha! Que alegria receber novamente os benefícios do Dharma!</p><p id="pt-b00187">Kṣitigarbha me ensinou os cinco preceitos. Observá-los permite preservar a existência humana e é o fundamento de ser uma pessoa, evitando a queda em estados inferiores. Parecem muito simples, mas muitos seres os violam sem perceber. Frequentemente ouvimos pessoas ao nosso redor dizerem: “Nunca matei, provoquei incêndios nem fiz mal a ninguém; sou apenas uma pessoa comum.” Na verdade, matar e provocar incêndios já são transgressões corporais muito graves, pelas quais se vai ao inferno sofrer a retribuição. Vamos agora ouvir os ensinamentos compassivos de Kṣitigarbha. Se houver algum erro no que ouvi, a responsabilidade é minha, de Ayu. Reproduzo brevemente os ensinamentos do bodhisattva a seguir:</p><p id="pt-b00188">Primeiro, não matar — É proibido tirar a vida de qualquer ser senciente. Uma alimentação vegetariana pura é o fundamento da observância desse preceito. O que significa ser pura? É preciso seguir rigorosamente os ensinamentos do Sutra Śūraṅgama, sem ingerir nem usar aquilo que tenha relação com animais; ou seja, não se pode comer nenhum alimento ligado a eles. Por exemplo, é preciso abster-se de leite, manteiga, ovos, mel e de tudo o mais que esteja relacionado a animais. Muitos cosméticos também contêm componentes de origem animal e não podem ser usados. Quando adoecemos, tomamos remédios; especialmente entre os remédios da medicina chinesa, muitos também contêm componentes de origem animal. <a xlink:href="#loc-1656">[N5]</a></p><p id="pt-b00189">Segundo, não roubar — Apropriar-se de um objeto sem o consentimento de outra pessoa é roubo. Muitas pessoas usam materiais de escritório da empresa para fins pessoais, e até os levam para usar em casa, ou fazem ligações particulares no trabalho, carregam o celular na empresa e usam a copiadora e o aparelho de fax da empresa para documentos pessoais, entre outras coisas. Sem a autorização da empresa, tudo isso constitui violação do preceito de não roubar.</p><p id="pt-b00190">Terceiro, não praticar conduta sexual imprópria — Relações sexuais fora do casamento. Praticar atos sexuais em momentos impróprios, em lugares impróprios ou por vias impróprias, ver material pornográfico em discos e usar instrumentos de estimulação sexual são violações desse preceito.</p><p id="pt-b00191">Quarto, não mentir — Dizer a verdade e não enganar os outros. Se algo existe, diga que existe; se não existe, não diga que existe. Enganar deliberadamente constitui uma violação ainda mais grave desse preceito. Evite, tanto quanto possível, até mesmo as mentiras ditas por conveniência, pois repeti-las faz mal à consciência e facilmente transforma a mentira em um hábito natural.</p><p id="pt-b00192">Quinto, não beber álcool — Abster-se de álcool e de substâncias entorpecentes. Não se pode consumir nenhum produto relacionado ao álcool. Por exemplo, a maioria das variedades de tofu fermentado contém álcool e não pode ser consumida. Mesmo que o vendedor diga que foi usada uma quantidade muito, muito pequena, qualquer quantidade, por mínima que seja, ainda é álcool. Só se pode abrir uma exceção para uso medicinal destinado a salvar uma vida. Além disso, muitos cosméticos contêm álcool, por isso é melhor não usá-los.</p><p id="pt-b00193">Depois de ouvir respeitosamente os ensinamentos de Kṣitigarbha, eu, Ayu, segui adiante para encontrar o magistrado do mundo dos mortos.</p><p id="pt-b00194">Magistrado do mundo dos mortos, Amitābha! Hoje gostaria de lhe pedir ensinamentos sobre a retribuição cármica do incesto.</p><p id="pt-b00195">O magistrado do mundo dos mortos disse que o incesto é uma conduta que corrompe a moral, perturba os costumes da sociedade e destrói a energia reta das relações humanas, e que o mundo dos mortos pune severamente os seres que a praticam. Cada vez que um ser comete esse tipo de conduta sexual imprópria em vida, suas bênçãos e sua vida são reduzidas em dois meses e meio. Ao morrer, ele entra nos infernos da conduta sexual imprópria: sofre 500 anos no Inferno da Roda Invertida, 500 anos no Inferno do Abraço à Coluna de Cobre, 500 anos no Inferno da Cama de Ferro, 500 anos no Inferno Yanhua Fangun e 500 anos no Inferno da Floresta de Espadas. Essa é apenas a pena normalmente imposta por incesto; naturalmente, a sentença definitiva precisa considerar os fatos de cada caso. Em um instante, sobre a flor de lótus branca, eu já havia chegado ao Inferno da Roda Invertida. Aqui havia mais espíritos masculinos que femininos.</p><p id="pt-b00196">Os espíritos que estavam neste inferno por incesto haviam tido relações sexuais com parentes do sexo oposto de sua própria geração. No caso dos homens, com a esposa do irmão mais velho, a esposa do irmão mais novo, uma irmã mais velha ou mais nova, ou uma mulher casada da mesma geração na família da esposa. No caso das mulheres, com o marido da irmã mais velha, o marido da irmã mais nova, um irmão mais velho ou mais novo, ou um homem casado da mesma geração na família do marido.</p><p id="pt-b00197">No Inferno Gelado da Roda Invertida havia uma roda muito grande que girava. Ao redor, havia paredes de gelo muito frias, e acima delas, um gelo que se parecia um pouco com um espelho — vou chamá-lo de espelho de gelo. Esse espelho era diferente do gelo das quatro paredes. Tinha uma transparência e uma capacidade de refletir; em suma, funcionava como um espelho e permitia ver o que acontecia dentro da roda. Dele saíam continuamente pedaços de gelo transparente que atingiam os corpos espirituais dos seres torturados na roda em movimento.</p><p id="pt-b00198">Nesse momento, vi um espírito masculino inteiramente nu caminhar em direção à grande roda. Ela o sugou, prendendo-o por inteiro em seu interior enquanto girava. O espelho de gelo lançou pedaços de gelo contra ele. Cada pedaço fazia o espírito culpado sangrar e lhe decepava as mãos e os pés, causando uma dor extrema. Ele tentava desesperadamente escapar. Mas, quando conseguia, com muita dificuldade, arrastar o corpo ferido para fora da roda por um breve momento, os guardas espectrais do lado de fora o espetavam com seus forcados, erguiam-no e o jogavam de volta. A cena era terrível. Amitābha!</p><p id="pt-b00199">Então o magistrado do mundo dos mortos me chamou para visitar também o Inferno da Floresta de Espadas e Flores Coloridas, que ficava ao lado. Esse inferno era destinado à transgressão de ter praticado, em vida, conduta sexual imprópria com parentes em linha direta, fosse por coação ou voluntariamente. Se a pessoa tivesse sido forçada e não tivesse sentido desejo de prazer sexual naquele momento, ficaria dispensada da punição mediante o arrependimento; porém, se tivesse sentido esse desejo, também teria de sofrer a retribuição. Todo homem que praticasse conduta sexual imprópria com a filha, a neta, a avó materna, a avó paterna ou uma parente do sexo oposto em linha direta da família da esposa teria de sofrer a retribuição. Toda mulher que a praticasse com o pai, o neto, o avô paterno, o avô materno ou parentes em linha direta da família do marido teria de sofrer a retribuição. Dentro desse inferno havia inúmeras flores de aparência bonita. Elas tinham muitos mecanismos ocultos e mudavam de cor, parecendo muito atraentes a quem as olhava. <a xlink:href="#n6-parentesco">[N6]</a></p><p id="pt-b00200">Nesse momento, um espírito masculino nu, cheio de pensamentos lascivos, quis colher uma flor. Ela rapidamente mudou de forma e se enrolou em seu corpo. Ao descer lentamente até a região do órgão genital, cortou-o de imediato. O sangue salpicou o chão, deixando tudo coberto de sangue e carne. Depois, a flor se transformou em inúmeras pétalas duras, que voaram continuamente contra o espírito culpado até fazê-lo desmaiar. Quando ele perdeu os sentidos, veio um guarda espectral e derramou um líquido gelado em seu rosto, o que o fez despertar. Em seguida, ele voltou a sofrer a punição sem cessar, repetindo, uma vez após outra, aquela experiência de dor extrema. Se soubesse que acabaria assim, por que teria feito aquilo?</p><p id="pt-b00201">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Os atos incestuosos do mundo humano não são tolerados pelo Céu e pela Terra. Sua culpa e sua maldade são extremas, e serão certamente julgados e punidos com severidade, sem possibilidade de perdão, para demonstrar a imparcialidade das leis do mundo dos mortos.”</p><p id="pt-b00202">Por hoje, ficamos por aqui. Voltarei outro dia.</p><p id="pt-b00203">Despeço-me respeitosamente do magistrado do mundo dos mortos. Obrigada por me guiar!</p></section><section id="sec-14"><title><p id="loc-204">8 — Um jovem se entregou à pornografia e aos sites pornográficos, esgotou suas bênçãos e sua vida e morreu com apenas vinte e poucos anos!</p></title><p id="pt-b00205">Agradeço a todos os budas e bodhisattvas! Eu, Ayu, parti sobre a flor de lótus branca.</p><p id="pt-b00206">Magistrado do mundo dos mortos, Amitābha! Eu, Ayu, o cumprimento com as palmas unidas!</p><p id="pt-b00207">Hoje o magistrado do mundo dos mortos me levou para visitar o Inferno dos Olhos sob Raios Elétricos, um dos infernos da conduta sexual imprópria. Os seres que, em vida, gostavam de ler publicações pornográficas ou visitar sites pornográficos entram neste inferno após a morte para sofrer a retribuição. Aqueles que vêm sofrer a retribuição aqui recebem penas conforme sua idade e a frequência com que viam esse conteúdo. A pena mínima é de 50 anos de retribuição infernal. Quanto mais jovens forem os que se entregaram a esse hábito, mais severa será a pena.</p><p id="pt-b00208">Depois de visitar sites pornográficos, a maioria das pessoas continua a cometer outras formas de conduta sexual imprópria, como masturbação ou atos sexuais em momentos impróprios, em lugares impróprios ou por vias impróprias, chegando até a usar instrumentos de estimulação sexual. Ler esse tipo de publicação pornográfica destrói gravemente a boa natureza das pessoas, sobretudo a das crianças, cuja natureza é pura e cujo corpo é de puro yang. Nem os adultos deveriam ver esse conteúdo, muito menos as crianças menores de idade. <a xlink:href="#n43-yin-e-yang">[N43]</a></p><p id="pt-b00209">Hoje, no mundo humano, muitos adolescentes e jovens visitam esse tipo de site pornográfico no computador. Qualquer pessoa que se entregue ao desejo sexual terá certamente o desenvolvimento saudável do corpo, da mente e do espírito afetado de maneira direta. As pessoas vivem diariamente por meio de seus pensamentos e intenções. Pensamentos e intenções impulsionam as ações; as ações criam carma bom ou mau; o carma bom ou mau determina o destino; o destino produz força cármica; e a força cármica gerada exige que se sofra a retribuição.</p><p id="pt-b00210">Visitar sites pornográficos com frequência torna o pensamento entorpecido e impede a pessoa de lidar com as coisas com clareza. Os efeitos sobre as crianças, em particular, são muito abrangentes e destroem a boa oportunidade de praticar espiritualmente numa existência humana. Como diz o ditado, sobre o caractere chinês que significa “luxúria” há uma lâmina. Quantas pessoas famosas, generais e soldados, desde a Antiguidade até hoje, na China e em outros países, não conseguiram vencer a provação da luxúria!</p><p id="pt-b00211">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Primeiro, cada vez que se veem publicações pornográficas ou sites pornográficos, perdem-se bênçãos e tempo de vida. Depois, se a pessoa vai além e comete outras formas de conduta sexual imprópria, também perde bênçãos e tempo de vida. Isso equivale a um suicídio lento.</p><p id="pt-b00212">Hoje, a tecnologia está avançada no mundo humano, e até as crianças usam computadores. Muitas delas visitam sites pornográficos. Em alguns casos, os pais não sabem, pois eles próprios não sabem usar computadores e deixam os filhos aprenderem sozinhos, sem nunca perguntar nada. Além disso, estão muito ocupados com o trabalho todos os dias e não têm tempo livre para cuidar dos assuntos dos filhos. Os que têm melhores condições financeiras contratam alguém para cuidar das crianças, mas essa pessoa talvez também não cuide delas adequadamente. Por isso, esses pais também perdem bênçãos. Não podem alegar desconhecimento e simplesmente se omitir: criar um filho sem educá-lo é culpa do pai. Os pais devem se envolver pessoalmente na educação dos filhos e em seu crescimento saudável. Há ainda pais que sabem perfeitamente o que acontece, mas não impedem, ou consideram isso educação sexual e permitem que os filhos assistam livremente. Alguns chegam a dizer que os tempos mudaram, que agora vivemos numa época de abertura e que as escolas já têm cursos obrigatórios de educação sexual para crianças pequenas. Essas são concepções gravemente equivocadas. O mundo dos mortos espera que, depois desta visita aos infernos, você, Ayu, volte ao mundo humano e advirta os seres sencientes para que abandonem os caminhos errados e voltem ao caminho correto, valorizem as poucas décadas que têm no mundo humano e façam mais coisas benéficas aos costumes da sociedade e ao coração das pessoas, sem se envolver em atividades que prejudiquem a si mesmos e aos outros. Caso contrário, quando o próximo suspiro não vier, virão me encontrar depois da morte!”</p><p id="pt-b00213">Já se ouviam gritos terríveis. Eram os seres do Inferno dos Olhos sob Raios Elétricos sofrendo torturas cruéis. Nesse inferno havia muitos computadores grandes com mecanismos ocultos, um computador para cada espírito. Havia coisas para ver nas telas, e cada espírito olhava para seu computador. Se não olhassem, seria melhor; assim que olhavam, soltavam gritos terríveis.</p><p id="pt-b00214">Havia um espírito masculino muito jovem, que parecia ter vinte e poucos anos. Seu computador emitia raios elétricos vermelhos em forma de ganchos, que fisgavam diretamente seus dois olhos e arrancavam os globos oculares para fora. O chão ficava coberto de sangue fresco, e o espírito demonstrava dor e tristeza extremas! Essa era a retribuição por assistir a filmes pornográficos, ver imagens pornográficas e ler romances pornográficos, entre outras coisas, em sites.</p><p id="pt-b00215">O magistrado do mundo dos mortos disse que esse espírito masculino havia começado a visitar sites pornográficos desde pequeno e também se masturbava. Como cometia essas transgressões com muita frequência, logo esgotou todas as bênçãos de sua vida e caiu no inferno. Seus pais ainda estavam no mundo humano, clamando de dor pela perda do filho amado.</p><p id="pt-b00216">Ao lado, havia um espírito culpado sentado sobre uma mesa, lendo um livro pornográfico. Recebia a mesma punição de ter os olhos fisgados, tão severa quanto a que eu acabara de ver, mas num ritmo um pouco mais lento. Perguntei ao magistrado do mundo dos mortos por que o ritmo da punição era diferente. Ele respondeu: “Porque quem usa o computador para visitar sites pornográficos geralmente vê uma grande quantidade de conteúdo em pouco tempo e também passa um tempo relativamente longo nisso. Já quem lê livros pornográficos, revistas ilustradas e romances fica limitado àqueles poucos livros. Se, em vida, um ser tiver visto pouco desse conteúdo e depois compreender seu erro, se arrepender e não voltar a cometê-lo, e, em vez disso, divulgar com empenho este texto de exortação ao bem, aconselhando os seres a não mais verem sites, discos e livros pornográficos, usando seu próprio dinheiro para comprar, na medida do possível, livros e discos pornográficos, que então queima, de modo a compensar suas faltas com méritos, poderá evitar a retribuição deste inferno.”</p><p id="pt-b00217">O magistrado do mundo dos mortos disse com severidade: “Os seres que sofrem a retribuição no Inferno dos Olhos sob Raios Elétricos geralmente ainda precisam ir a outros infernos da conduta sexual imprópria para continuar a cumprir suas penas. Aqueles que cometeram transgressões como a masturbação e os atos sexuais em momentos impróprios, em lugares impróprios ou por vias impróprias certamente serão lançados, depois da morte, nos infernos de Engolir Bolas de Ferro, do Abraço à Coluna de Cobre, de Yanhua Fangun e em muitos outros, bem como em toda sorte de infernos destinados aos atos sexuais por vias impróprias, para sofrer punição.”</p><p id="pt-b00218">Por hoje, ficamos por aqui. Despeço-me respeitosamente do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00219">Eu, Ayu, cumprimentei o magistrado do mundo dos mortos com as palmas unidas, agradecida a ele! Voltei sobre a flor de lótus branca.</p><p id="pt-b00220">Os sites e discos pornográficos realmente causam danos profundos às pessoas. O cheiro de sangue nos diversos grandes infernos é absolutamente insuportável para mim, Ayu. Depois de visitar esses grandes infernos e presenciar tantas cenas terríveis e sangrentas, com espíritos culpados aos gritos enquanto soldados espectrais lhes decepavam a cabeça e as mãos, cortavam a carne e amputavam os pés, preciso me recompor psicologicamente ao chegar em casa para conseguir me recuperar!</p></section><section id="sec-15"><title><p id="loc-221">9 — A terrível punição da masturbação — o Inferno dos Olhos Elétricos e das Bolas de Ferro</p></title><p id="pt-b00222">Agradeço a todos os budas e bodhisattvas! Parti sobre a flor de lótus branca.</p><p id="pt-b00223">Magistrado do mundo dos mortos, Amitābha! Eu, Ayu, o cumprimento com as palmas unidas!</p><p id="pt-b00224">Hoje o magistrado do mundo dos mortos me levou para visitar o Inferno dos Olhos Elétricos e das Bolas de Ferro, um dos infernos da conduta sexual imprópria. Quem, em vida, se entregou a ver sites, imagens e publicações pornográficas e se masturbava diante do computador enquanto via esse conteúdo entra neste inferno após a morte para ser punido durante 800 anos. Depois, conforme a transformação de sua consciência espiritual, decide-se se continuará a sofrer punição aqui.</p><p id="pt-b00225">Como já foi dito, cada vez que alguém lê uma publicação pornográfica, perde um mês de bênçãos e de vida; somente na primeira vez a perda de bênçãos e de vida corresponde a meio mês. Daí em diante, corresponde sempre a um mês. Se a pessoa lê esse material com frequência e ainda se masturba, as bênçãos de toda a sua vida realmente se esgotam muito depressa. <a xlink:href="#loc-1660">[N7]</a></p><p id="pt-b00226">Este inferno fica ao lado do Inferno dos Olhos sob Raios Elétricos, e o sofrimento aqui é dez milhões de vezes maior. Quase todos os que estão aqui são adolescentes. Ah! Que pena, são todos tão novinhos! Lembro-me de que, quando tinha a idade deles, ainda estudava na escola, ingênua, sem saber de nada. Como é que eles, tendo a oportunidade de estudar, deixaram os estudos e vieram parar no inferno para sofrer castigos? Em poucas palavras, essa visão me gela o coração! Meninos, preservem a pureza da conduta e o respeito por si mesmos! O sofrimento no inferno é grande demais, grande demais. De modo algum venham para cá. Estudem e pratiquem com dedicação no mundo humano, valorizem a bela vida que têm. <a xlink:href="#loc-1664">[N9]</a></p><p id="pt-b00227">Aqui encontrei um estudante do ensino secundário cujo rosto me parecia muito familiar. Onde eu o tinha visto? Lembrei-me: cerca de meio ano antes, tinha visto seu retrato funerário numa casa funerária. Naquela ocasião, eu cuidava do funeral de um parente, e a sala do velório do rapaz ficava ao lado da nossa. Como havia muita gente na nossa sala, inclusive muitas crianças, o ambiente parecia muito quente; a sala do velório do rapaz, porém, estava desolada, com apenas seus pais e mais dois ou três familiares. Na época, nossos parentes comentavam que aquele menino era muito novo e que não sabiam o que tinha acontecido. Os pais estavam numa situação muito dolorosa, e sua mãe estava profundamente abalada. Eu apenas recitei algumas vezes o nome de Amitābha diante de seu retrato, dedicando-lhe os méritos. Nunca imaginei que viria a encontrá-lo no inferno. A vida humana é mesmo impermanente!</p><p id="pt-b00228">Segundo o magistrado do mundo dos mortos, o menino era filho único. Em vida, havia se entregado à consulta de sites e publicações pornográficas e adquirido o mau hábito de se masturbar; também usava instrumentos de sua própria criação para se masturbar. Começou a se masturbar aos seis anos e, aos dez, já sofria de shenkui (“deficiência do rim”). Sua mãe o levou a vários lugares à procura de médicos renomados; ele tomou muitos remédios da medicina chinesa e precisava de uma bengala para andar, como um idoso. Por não valorizar a vida nem a saúde, continuou a se masturbar mesmo durante o tratamento. Assim, aos doze anos, suas bênçãos e seu tempo de vida se esgotaram, e ele foi lançado no Inferno dos Olhos Elétricos e das Bolas de Ferro para sofrer punição durante 800 anos. <a xlink:href="#n44-shenkui">[N44]</a></p><p id="pt-b00229">Ao lado do menino, vi um computador usado como instrumento de castigo, que emitia luz vermelha em forma de ganchos e atingia seus olhos. Serpentes de fogo e dois lobos grandes e ferozes também o atormentavam. Ele sofria várias formas de violência ao mesmo tempo. A crueldade da cena e sua dor me pareceram insuportáveis. <a xlink:href="#e2">[E2]</a></p><p id="pt-b00230">Perguntei ao magistrado do mundo dos mortos por que ele precisava sofrer vários tipos de castigo ao mesmo tempo. Por que não esperar que seus olhos se reconstituíssem antes de submetê-lo à retribuição das serpentes de fogo e dos lobos selvagens?</p><p id="pt-b00231">O magistrado disse: “Esses castigos de modo algum podem ser sofridos separadamente, porque, em vida, ele se masturbava imediatamente diante do computador, ao mesmo tempo que via o conteúdo, e depois voltava a cometer conduta sexual imprópria usando instrumentos que ele próprio havia fabricado. Por isso, ele veio tão depressa ao inferno para receber a retribuição. Depois de cumprir a pena neste inferno, ele ainda terá de ir ao Grande Inferno dos Uivos para continuar a sofrer punição. Ao se masturbar, ele esgotou prematuramente todas as suas bênçãos e causou profunda dor e tristeza aos pais: os de cabelos brancos tiveram de sepultar o de cabelos negros. Por isso, é um filho sem piedade filial, e essa é a razão deste castigo. Hoje, no mundo humano, as pessoas, desde muito jovens, já não observam a boa conduta e a retidão; desobedecem aos pais, os afrontam, insultam e chegam a agredi-los com socos e pontapés. Seu comportamento é pior que o de certos animais inferiores. Aqueles que, entre o Céu e a Terra, faltam gravemente à piedade filial terão necessariamente de vir aqui após a morte para receber castigo. Sua consciência espiritual será depurada e seu espírito primordial, purificado, até que se arrependam plena e sinceramente e corrijam sua conduta.” <a xlink:href="#n45-os-cabelos-brancos-e-os-cabelos-negros">[N45]</a></p><p id="pt-b00232">“Por hoje, ficamos por aqui. Ainda tenho assuntos importantes a tratar no exercício do meu cargo. Volte outro dia.”</p><p id="pt-b00233">“Eu, Ayu, me despeço respeitosamente do magistrado do mundo dos mortos. Muito obrigada!”</p></section><section id="sec-16"><title><p id="loc-234">10 — Antes que se esgote a vida no mundo dos vivos, as três almas hun já são capturadas com ganchos!!!</p></title><p id="pt-b00235">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca.</p><p id="pt-b00236">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas diante do magistrado do mundo dos mortos.</p><p id="pt-b00237">Hoje o magistrado do mundo dos mortos me levou para visitar o Inferno dos Chicotes e Bastões, um dos infernos da conduta sexual imprópria. O que é o Inferno dos Chicotes e Bastões? Quando seres cujo tempo de vida ainda não se esgotou continuam vivendo no mundo humano e cometem conduta sexual imprópria, uma pequena parte de sua consciência espiritual é capturada pelos agentes espectrais do mundo dos mortos e levada ao inferno para ser punida. As pessoas têm três almas hun e sete almas po; os agentes espectrais capturam as três almas hun do espírito culpado e as levam ao inferno para aplicar o castigo. No mundo humano, essas pessoas sentem tontura e dor de cabeça, ficam muito atordoadas e confusas. Algumas conseguem sentir, em meio à confusão, que estão sendo espancadas, mas a maioria pensa estar tendo um pesadelo. Nos casos graves, ficam com febre e precisam se deitar para dormir. Quando retornam ao mundo dos vivos após o castigo, algumas sentem dores intensas no corpo inteiro, como se a dor penetrasse até os ossos.</p><p id="pt-b00238">Esse Inferno dos Chicotes e Bastões é realmente imenso! Pode-se dizer que se estende até onde a vista alcança, como quando olhamos o mar no mundo humano e não conseguimos ver seus limites. É o maior dos infernos que visitei até agora. Dentro dele há muitas pessoas de diferentes países: China, Reino Unido, Estados Unidos, França, Japão, Tailândia, e também Índia, África, Paquistão, entre tantos outros. Há pessoas de nacionalidades demais para enumerar. Algo muito triste é que também há incontáveis adolescentes e crianças recebendo castigos neste inferno. <a xlink:href="#loc-1742">[N47]</a></p><p id="pt-b00239">Perguntei ao magistrado do mundo dos mortos por que havia tanta gente. Este inferno era assustadoramente grande!</p><p id="pt-b00240">O magistrado do mundo dos mortos disse: “É justamente por causa do avanço da tecnologia e da invenção do computador no mundo humano. Uma quantidade espantosa de sites pornográficos envenena e contamina adolescentes e crianças. Todos eles estão cometendo conduta sexual imprópria e criando causas que levam ao inferno. O número desses seres que praticam ações cármicas nocivas continua a se acumular e a crescer vertiginosamente. Por isso, o Buda designou você especialmente para visitar o inferno e, ao voltar, advertir os seres de que devem observar bem as Cinco Virtudes Constantes e as Oito Virtudes. Sobretudo os jovens não devem de modo algum pensar que tudo isso é antiquado e ultrapassado. Precisam preservar a pureza da conduta e o respeito por si mesmos, abandonar os caminhos desviados e retornar à retidão, deixar o mal e seguir o bem. Caso contrário, no futuro dificilmente escaparão dos cruéis castigos do inferno, e então será tarde demais para se arrepender!” <a xlink:href="#n46-as-oito-virtudes">[N46]</a></p><p id="pt-b00241">Nesse momento, vi que todos os seres no Inferno dos Chicotes e Bastões estavam sendo violentamente golpeados pelos agentes espectrais com chicotes e bastões. Os agentes daqui continuam a golpear os espíritos culpados, que gritam de dor, numa sucessão de ondas de gritos. Os golpes têm a finalidade de fazê-los refletir sobre os próprios erros. Uma pequena parte desses espíritos, depois que suas almas retornam ao mundo dos vivos e eles recuperam a lucidez, arrepende-se profundamente e abandona os erros passados; a grande maioria, porém, volta a cometê-los depois que suas almas retornam.</p><p id="pt-b00242">Eu, Ayu, gostaria de perguntar ao magistrado do mundo dos mortos: como fazer os seres no mundo dos vivos acreditarem que esta obra, As leis implacáveis do mundo dos mortos, retrata de maneira absolutamente verdadeira a situação atual dos infernos? Algumas pessoas talvez pensem que tudo o que Ayu conta é fruto de sua imaginação ou uma invenção, como um romance, e achem muito difícil acreditar.</p><p id="pt-b00243">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Na ordem invisível das coisas, tudo tem causa e efeito. Algo não é falso só porque não podemos vê-lo. Nenhum de nós pode ver a própria mãe nos dando à luz, mas isso é um fato incontestável. Não enxergar algo não significa que esse algo não exista. Há divindades três chi acima de nossa cabeça. Neste vasto universo, há inúmeras coisas que não conseguimos ver, mas que estão estreitamente ligadas à nossa vida, em íntima relação com ela. Apenas não percebemos a existência dos budas, bodhisattvas, espíritos e divindades. As oportunidades e as bênçãos de cada pessoa são diferentes, e aquilo que cada uma sente ou vivencia também não é exatamente igual. As causas e os efeitos do bem e do mal acompanham a pessoa como a sombra acompanha o corpo. Não é que não haja retribuição; a hora ainda não chegou. A rede do Céu é vasta e, embora suas malhas sejam largas, nada deixa escapar. Ayu, também foi o Buda quem escolheu você e organizou esta visita para conhecer a situação real dos grandes infernos. Você é uma discípula do Buda que observa os preceitos e tem as condições necessárias para assumir essa missão. Dedique-se com toda a seriedade a concluir esta boa ação que beneficia a todos.”</p><p id="pt-b00244">Obrigada pelo encorajamento, magistrado do mundo dos mortos. Eu, Ayu, certamente farei tudo o que estiver ao meu alcance para cumprir esta missão sagrada.</p><p id="pt-b00245">Nesse momento, vi alguns funcionários do mundo dos mortos caminhando em direção ao Inferno dos Chicotes e Bastões. Ah! Era o Rei Yama, soberano do mundo dos mortos, que chegava. Eu, Ayu, uni as palmas e o cumprimentei respeitosamente! Acontece que o mundo dos mortos ainda precisava ampliar este Inferno dos Chicotes e Bastões, e o Rei Yama viera fazer uma inspeção no local. O rei acompanhava de perto o grave problema social da conduta sexual imprópria entre os adolescentes no mundo humano. Agora ficava claro que o problema não se limitava ao mundo humano: o mundo dos mortos também era imediatamente afetado e ainda precisava fazer ampliações. Surpresa, eu disse: “Este nível do inferno já é tão grande que não se veem seus limites, e ainda precisa ser ampliado?”</p><p id="pt-b00246">O Rei Yama, soberano do mundo dos mortos, disse: “É porque, no mundo dos vivos, novos adolescentes continuam a se juntar às fileiras dos seres que violam o preceito contra a conduta sexual imprópria. Eles veem sites, discos e publicações pornográficas, masturbam-se e assim por diante. Embora seu tempo de vida ainda não tenha se esgotado, esse problema prejudica a virtude e o corpo; por isso, é necessário puni-los com rigor. No mundo humano, não há leis que punam esses graves problemas. Só resta a mim, o rei, ampliar os infernos e capturar as almas dos vivos para que acertem essas contas de causa e efeito. Nestes últimos anos, nosso mundo dos mortos tem estado em contínua ampliação, e a carga de trabalho também não para de aumentar. Comparativamente, este Inferno dos Chicotes e Bastões ainda é pequeno demais. Como poderia comportar as incontáveis almas culpadas que chegam todos os dias? Eu lhe digo: o mundo dos mortos não pode capturar quem, no mundo dos vivos, cumpre seus deveres e respeita as leis, observa os preceitos budistas e pratica grandes boas ações. Mas quem já cometeu qualquer violação dos preceitos ou das leis certamente não escapará do meu livro de registros da vida e da morte, do bem e do mal. É fácil escapar às leis do mundo dos vivos; das leis do mundo dos mortos, não há como escapar. Tal causa, tal efeito. Não importa em que extremo do mundo você esteja, os agentes espectrais do mundo dos mortos certamente conseguirão encontrar você, a menos que você não tenha violado os preceitos nem cometido crimes. Ayu, cumpra bem essa tarefa de transmitir a mensagem. Desta vez, o mundo dos mortos abre uma exceção e revela inteiramente os segredos celestes para que as pessoas conheçam a verdade sobre os infernos. O objetivo é que os seres reconheçam que se perderam e encontrem o caminho de volta, pratiquem o bem e acumulem virtude, reduzindo e eliminando, assim, as grandes catástrofes provocadas no mundo dos vivos pelas diversas ações de grave carma nocivo, para que os seres vivos não sejam devastados. Ao voltar, aconselhe a todos que observem rigorosamente as Cinco Virtudes Constantes e as Oito Virtudes, não violem as leis do país, sejam filiais aos pais, respeitem os mestres e os mais velhos, preservem a integridade moral e os ritos de conduta, e deixem de produzir causas e efeitos que levam ao inferno. Muito bem, ainda tenho assuntos oficiais a tratar. Volte primeiro ao mundo dos vivos.” <a xlink:href="#n46-as-oito-virtudes">[N46]</a></p><p id="pt-b00247">Agradeço ao Rei Yama! Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos! Amitābha!</p></section><section id="sec-17"><title><p id="loc-248">11 — O magistrado do mundo dos mortos respondeu com seriedade: “No mundo dos mortos, nosso rei viu que o mundo dos vivos já liberou energia maléfica além do que pode ser suportado!”</p></title><p id="pt-b00249">Agradeço as bênçãos de todos os budas! Por pouco não consegui escrever o texto de hoje. Nestes últimos dias, muitos obstáculos têm surgido para impedir Ayu de ir ao inferno. Mal uma onda se acalma, outra já se levanta. Primeiro, o computador apresentou um problema, e eu não conseguia digitar. Depois, seres não humanos aproveitaram meu sono para me perturbar intensamente e consumir minha energia vital primordial. Nessa altura, eu, Ayu, já começava a sentir um pouco de febre e dor de cabeça, e estava bastante cansada. Hoje de manhã, já estava resfriada. Toda vez que fico resfriada, se recito mantras com empenho, levo pelo menos 7 dias para melhorar; caso contrário, preciso de meio mês.</p><p id="pt-b00250">Há pouco, concentrei a força do pensamento e disse a mim mesma que hoje eu de modo algum ficaria prostrada pela doença, que precisava ir ao inferno, precisava escrever o texto, e acreditei que certamente conseguiria. Então me sentei e comecei a recitar o Mantra do Pavão. Cerca de 30 minutos depois, a febre baixou, o nariz não estava escorrendo, a garganta começou a doer menos e a dor de cabeça passou. O resfriado já começava a melhorar. Minha gratidão é infinita pelas bênçãos de Mahāmāyūrī, a Soberana da Sabedoria do Pavão, e pelas bênçãos de todos os budas das dez direções. Eu, Ayu, certamente me empenharei ao máximo para realizar bem este trabalho sagrado e retribuir a bondade do Buda! Caso contrário, não seria digna da proteção de todos os budas!</p><p id="pt-b00251">Parto sobre o lótus branco. Magistrado do mundo dos mortos, Amitābha!</p><p id="pt-b00252">Hoje o magistrado do mundo dos mortos me levou para visitar um dos infernos da conduta sexual imprópria: o Inferno das Almas Yin e das Flores de Espadas.</p><p id="pt-b00253">Perguntei ao magistrado do mundo dos mortos: “O que é o Inferno das Almas Yin e das Flores de Espadas?”</p><p id="pt-b00254">O magistrado do mundo dos mortos respondeu com seriedade: “Este inferno é destinado aos seres cujo tempo de vida ainda não se esgotou e que, no mundo dos vivos, se entregam à masturbação e à conduta sexual imprópria. Os homens, todos os dias ou com frequência, trocam deliberadamente de parceira sexual e ainda se sentem muito satisfeitos consigo mesmos; as mulheres, todos os dias ou com frequência, trocam deliberadamente de parceiro sexual e ainda se julgam extraordinárias. Esses seres que violam o preceito contra a conduta sexual imprópria e vivem entregues a ela prejudicam gravemente o equilíbrio das energias retas yin e yang entre o Céu e a Terra. Isso acontece porque, a cada ato sexual, os pensamentos dos seres liberam muita energia de desejo sexual impróprio. Essa energia maléfica atrai espíritos, entidades e outros seres semelhantes, e aqueles que praticam o ato sexual sofrem danos ocultos sem perceber. Quando essa energia maléfica se torna excessiva e intensa, formando uma força de proporções extremas, inevitavelmente surgem no mundo humano incontáveis catástrofes de todos os tipos para neutralizá-la e restabelecer o equilíbrio.</p><p id="pt-b00255">Os seres humanos violam gravemente as leis naturais do universo, e no mundo dos vivos não há sanções legais para isso. As leis de alguns países ocidentais até apoiam a legalização da coabitação e coisas semelhantes. Os responsáveis pela elaboração dessas leis terão de sofrer retribuições infernais imensuráveis e ilimitadas. Somente depois que essas leis forem inteiramente revogadas no mundo dos vivos poderão encerrar sua retribuição cármica no inferno. Como diz o ditado: os bodhisattvas temem as causas; as pessoas comuns temem os efeitos. Devemos, todos os dias, fazer cada coisa em conformidade com a lei de causa e efeito e tomar cuidado para que uma negligência momentânea não nos traga más retribuições em vidas futuras. No mundo dos mortos, nosso rei viu que o mundo dos vivos já liberou energia maléfica além do que pode ser suportado, e que grande parte dessas ações cármicas nocivas é praticada por adolescentes menores de idade. Por isso, nosso rei ampliou o mundo infernal com mais infernos novos para punir esses seres que violam os preceitos e cujo tempo de vida ainda não terminou. Ao capturar as almas dos vivos e levá-las ao inferno para serem punidas, ele espera alertar as pessoas, eliminar seu carma de transgressões e também reduzir o tempo durante o qual sofrerão castigos no inferno após o fim da vida.”</p><p id="pt-b00256">Obrigada, magistrado do mundo dos mortos, por explicar tudo tão detalhadamente a Ayu. Aprendi muitas outras coisas. Muito obrigada mesmo!</p><p id="pt-b00257">Quando cheguei ao Inferno das Almas Yin e das Flores de Espadas, vi que ele também era muito amplo. Havia ali muitas crianças, sobretudo de países ocidentais, todas recebendo castigos juntas. Eram tantas! Havia pessoas do Reino Unido, dos Estados Unidos, da França e também da China. Enfim, vi pessoas de praticamente todas as nacionalidades e etnias.</p><p id="pt-b00258">Nesse momento, vi os guardas arrastarem para fora os espíritos de muitos rapazes e lhes infligirem castigos cruéis com instrumentos parecidos com flores de ferro. Os espíritos femininos também sofriam castigos com instrumentos semelhantes, incandescentes. <a xlink:href="#e4">[E4]</a></p><p id="pt-b00259">Havia aqui tantos condenados, e seu choro e seus gritos eram ensurdecedores. Ouvi-los me fez sentir muito mal. Depois de observar por apenas alguns instantes, saí imediatamente, profundamente abalada. Se não fosse para cumprir minha parte no trabalho de advertir as pessoas, eu, Ayu, jamais desejaria vir a um lugar assim.</p><p id="pt-b00260">Os seres que recebem esse castigo enquanto vivem no mundo humano sentem como se estivessem com febre e ficam deitados na cama, mergulhados num sono confuso e entorpecido. Como suas três almas hun foram capturadas e levadas ao inferno, também não conseguem levar uma vida normal. Alguns pensam estar tendo um pesadelo, mas o sofrimento é muito maior que o de um pesadelo. A maioria consegue sentir essa dor física, sobretudo uma dor intensa na parte inferior do corpo, com uma sensação de fortes pontadas, muito difícil de suportar. Uma pequena parte, depois de cumprir o castigo no inferno, fica alerta por causa da dor física e, assim, corrige os próprios erros e começa uma vida nova. O magistrado do mundo dos mortos disse que o Rei Yama dá muita importância a esse grave problema social. Submeter os espíritos culpados aos castigos tem a finalidade de impedir as graves catástrofes que a contínua disseminação desses maus costumes traz ao mundo dos vivos.</p><p id="pt-b00261">Eu, Ayu, quis fazer mais uma pergunta ao magistrado do mundo dos mortos: “Por que os castigos nesses infernos da conduta sexual imprópria parecem tão modernos, com computadores usados como instrumentos de tortura, espelhos de gelo que emitem luz e outras coisas assim?” O magistrado disse: “O inferno é o reflexo do mundo humano. Assim que os seres do mundo humano produzem algum objeto moderno que viola os preceitos, o inferno também instala imediatamente um instrumento de tortura correspondente para puni-los. Hoje, as técnicas de embelezamento no mundo dos vivos são tão avançadas que basta gastar algum dinheiro para modificar, a qualquer momento, a aparência do corpo inteiro sem que ninguém saiba. No mundo dos vivos, talvez se consiga enganar os outros e escapar, mas, segundo as leis do mundo dos mortos, mudar a aparência não adianta: mesmo que uma pessoa já tenha renascido por várias vidas, nosso rei ainda pode encontrá-la imediatamente, trazê-la de volta sob custódia e executá-la de acordo com a lei. Ayu, ao voltar, advirta bem os seres do mundo dos vivos de que devem cumprir seus deveres e respeitar as leis, ser filiais aos pais e seguir a benevolência, a retidão, o decoro, a sabedoria e a fidelidade à palavra. Não digam que isso é um discurso antiquado e repetitivo. Saibam que esses são os princípios que equilibram o funcionamento e as transformações normais do Céu e da Terra. Quem não os seguir será eliminado pela própria natureza e punido pela lei de causa e efeito.</p><p id="pt-b00262">Muito bem! Por hoje, ficamos por aqui. Volte por agora e venha novamente em outra ocasião.”</p><p id="pt-b00263">Eu, Ayu, me prostro e me despeço respeitosamente do magistrado do mundo dos mortos!</p></section><section id="sec-18"><title><p id="inferno-das-engrenagens-dos-lobos-e-das-serpentes">12 — Inferno das Engrenagens, dos Lobos e das Serpentes</p></title><p id="pt-b00265">Agradeço a proteção do poder do Buda! Há realmente tanto pelo que agradecer!</p><p id="pt-b00266">Agradeço ao Buda! Agradeço pelas escrituras do supremo Grande Dharma que o Buda nos deixou!</p><p id="pt-b00267">Eu, Ayu, gosto muito das escrituras budistas, sobretudo de estudar diretamente os textos originais. É uma sensação de estar pessoalmente numa assembleia do Dharma, como se eu estivesse no Pico dos Abutres, na Índia, há 2.500 anos, ouvindo o próprio Buda expor os sons supremos e maravilhosos do Dharma da iluminação. Essa sensação não pode ser descrita por palavras superficiais. Seria bom que todos estudassem com frequência as escrituras originais. Essas escrituras contêm tantos princípios profundos e sutis sobre a vida. Nelas, podemos encontrar, uma a uma, as respostas às nossas perguntas.</p><p id="pt-b00268">Em todas as escrituras, o Buda nos ensina como nos conduzir bem. Observar os preceitos é uma causa do despertar; cultivar as seis perfeições e as inúmeras práticas, dedicar-se diligentemente ao cultivo espiritual até realizar o insuperável, correto e perfeito despertar: cada detalhe é explicado com muita clareza. No começo, alguns companheiros de prática talvez não compreendam o sentido das escrituras, mas isso não é um problema. Basta continuar a estudá-las todos os dias, e certamente começarão a entender aos poucos. O mais importante é perseverar diariamente. Quando eu, Ayu, comecei a estudá-las, cada leitura me parecia extraordinária, mas logo depois eu esquecia tudo. Na minha cabeça, só ficava a impressão de que era algo extraordinário; quanto ao conteúdo, eu não conseguia dizer do que se tratava. Eram pesados os meus obstáculos cármicos! Mas, como eu gostava das escrituras, continuava a recitá-las todos os dias, mesmo esquecendo. Depois de alguns anos assim, percebi que começava a me lembrar de algumas coisas ou a compreender espontaneamente certos princípios em momentos e lugares diferentes. Por isso, perseverar é muito importante. Desejo que todos aproveitemos o fato de ainda termos um corpo humano saudável. Devemos estudar muito as escrituras. A vida humana é impermanente: se a próxima respiração não vier, já estaremos na vida seguinte. Se realmente queremos retribuir a bondade do Buda, somente com uma prática séria e a observância dos preceitos seremos verdadeiros discípulos do Buda! Vamos todos nos empenhar juntos, com diligência, em observar os preceitos! <a xlink:href="#loc-1744">[N48]</a></p><p id="pt-b00269">Parto sobre o lótus branco! Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00270">Hoje o magistrado do mundo dos mortos me levou para visitar um Inferno das Engrenagens, dos Lobos e das Serpentes. Os seres que vêm receber castigos neste inferno são homens que, em vida, gostavam de manter relações sexuais com duas mulheres ao mesmo tempo, ou mulheres que mantinham relações sexuais com dois homens ao mesmo tempo. Chegamos, e novamente ouvi gritos terríveis!</p><p id="pt-b00271">Vi um homem nu que parecia estar amarrado a uma roda capaz de girar. Dos dois lados dessa roda havia duas serpentes de corpo flexível, quase coladas a ele: uma era vermelha, e a outra, de um tom azul-esverdeado escuro. Uma delas se enroscava nele com força, sem soltá-lo, e mordia sua cabeça, seu rosto e suas orelhas, arrancando pedaços de carne e deixando o chão coberto de sangue. A outra mordia a parte inferior de seu corpo. O homem parecia sofrer uma dor extrema e gemia aos gritos.</p><p id="pt-b00272">Olhei então para a mulher ao lado. Ela também estava nua, amarrada a uma roda capaz de girar. Dos dois lados da roda havia dois lobos selvagens de ferro, extremamente ferozes, que a dilaceravam sem parar. Um mordia seu peito, e o outro, a parte inferior de seu corpo. A mulher gritava por socorro, mas ninguém lhe dava atenção. Enfim, a cena era extremamente sangrenta. Aquele homem e aquela mulher não eram muito velhos: tinham apenas trinta e poucos anos e já haviam descido ao inferno para sofrer a retribuição. Que desolador!</p><p id="pt-b00273">O magistrado do mundo dos mortos me disse com expressão severa: “Esses seres não apenas prejudicam a própria natureza espiritual, mas também corrompem gravemente os costumes da sociedade. Por isso, o mundo dos mortos precisa puni-los com rigor. Eles têm de receber castigos aqui durante 500 anos e, depois, serão enviados a outros infernos para serem julgados. Atualmente, também há cada vez mais seres assim, e este inferno foi ampliado novamente há pouco tempo. No futuro, você deve vir visitá-lo mais vezes. Além deste inferno da conduta sexual imprópria, também precisa visitar e registrar a situação real de outros infernos, para que o livro possa ser impresso o mais depressa possível e beneficiar os seres do mundo dos vivos. Assim, eles poderão abandonar o mal e se arrepender o quanto antes, praticar o bem e acumular bênçãos, diminuir a possibilidade de entrar no inferno e reduzir as catástrofes no mundo dos vivos.”</p><p id="pt-b00274">Sim, magistrado do mundo dos mortos, eu, Ayu, cumprirei suas ordens! Certamente farei tudo com o máximo empenho.</p><p id="pt-b00275">Volto sobre a flor de lótus branca.</p></section><section id="sec-19"><title><p id="meu-primeiro-encontro-com-o-comandante-supremo-do-mundo-dos-mortos-o-imperador-de-fengdu-n8">13 — Meu primeiro encontro com o comandante supremo do mundo dos mortos, o Imperador de Fengdu <a xlink:href="#loc-1662">[N8]</a></p></title><p id="pt-b00277">É com todas as minhas forças que eu, Ayu, escrevo este livro, As leis implacáveis do mundo dos mortos! Embora eu tenha estudado pouco e minha escrita seja simples e rudimentar, é inteiramente sincero o desejo que sempre tive de que todos os seres sencientes observem bem os preceitos budistas.</p><p id="pt-b00278">Recentemente, vi uma irmã no Dharma difamando continuamente o professor Tan, de maneira agressiva, sem nenhuma moderação nas palavras! O professor Tan me ajudou muito, e aprendi em seus artigos muitos ensinamentos budistas vivos e concretos. Sou muito grata! Além disso, o rei supremo do mundo dos mortos, o Rei Yama, nomeou pessoalmente o professor para revisar o manuscrito de As leis implacáveis do mundo dos mortos, e ele aceitou de bom grado. O professor certamente não recusaria algo que ajudasse os seres sencientes a se libertarem do sofrimento e alcançarem a felicidade. Se a difamação de alguém prejudicar a publicação e a circulação de As leis implacáveis do mundo dos mortos, isso será, sem dúvida, um problema muito grave.</p><p id="pt-b00279">Por isso, quero fazer a minha parte e me manifestar neste momento em apoio ao professor, indo consultar pessoalmente o magistrado do mundo dos mortos para esclarecer tudo.</p><p id="pt-b00280">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca.</p><p id="pt-b00281">Uno as palmas das mãos em saudação ao magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00282">Hoje, gostaria de perguntar ao magistrado: “O que o professor Tan ensina é o Dharma correto?”</p><p id="pt-b00283">O magistrado respondeu: “O que o professor Tan ensina é o Dharma correto. Não há motivo para duvidar; caso contrário, como o rei supremo do mundo dos mortos o teria nomeado para revisar o manuscrito? Ayu, perguntar isso é como desconsiderar a sabedoria do rei supremo.”</p><p id="pt-b00284">“Ah! Desculpe, magistrado! Errei ao fazer essa pergunta. Peço que me perdoe.”</p><p id="pt-b00285">O magistrado disse: “Naquele tempo, quando o Buda estava sob a árvore Bodhi, prestes a atingir o estado de Buda, Mara veio perturbá-lo intensamente. O Buda repeliu o exército demoníaco com a força de sua concentração em samādhi e com o poder espiritual majestoso dos méritos de sua compaixão. Mara não teve alternativa senão recuar, mas, ao fazê-lo, jurou: ‘Agora não consigo destruir sua concentração. No futuro, porém, na era do declínio do Dharma, enviarei meus filhos e netos demoníacos vestidos com suas vestes para destruir seu Dharma.’ Só então Mara partiu, cheio de ressentimento, e o Buda derramou lágrimas de compaixão. Na verdade, o Buda não estava preocupado com a destruição do Dharma correto por Mara; sentia compaixão pelos filhos e netos demoníacos, que, depois de destruir o Dharma do Buda e difamar o Dharma correto, sofreriam retribuições infernais imensuráveis e ilimitadas. Antes de entrar no nirvana final, o Buda também ensinou aos discípulos que, nas gerações futuras, os discípulos budistas deveriam tomar os preceitos como mestre e seguir o Dharma, sem depender da pessoa que o ensina. O mais importante é verificar se o Dharma ensinado por alguém está de acordo com os sutras budistas. O Sutra Śūraṅgama diz: ‘O que corresponde ao que digo é chamado ensinamento do Buda; o que não corresponde ao que digo é ensinamento de Pāpīyas.’ Na era do Dharma correto, mesmo com o Buda presente, já havia demônios causando perturbações. Quanto mais agora, na era do declínio do Dharma, quando os falsos mestres que pregam são tão numerosos quanto os grãos de areia do Ganges! Onde houver o Dharma correto, certamente haverá demônios. Isso também é uma oportunidade de provação no caminho da prática, para exercitar e elevar a espiritualidade. Naquele tempo, até mesmo Devadatta, primo mais novo do Buda pelo lado paterno, o difamava, procurando por toda parte prejudicá-lo e armar contra ele. Mais tarde, Devadatta veio para cá, para o inferno, sofrer punições.” <a xlink:href="#loc-1746">[N49]</a></p><p id="pt-b00286">Nesse momento, de repente, chegou um funcionário do mundo dos mortos e anunciou: “Por ordem do Imperador de Fengdu, a mulher do mundo dos vivos Shangguan Yuhua deve comparecer imediatamente à sua presença.” Ah! Levei um susto! O Imperador de Fengdu é a autoridade máxima daqui e queria me ver. Que acontecimento importante teria ocorrido? Fui imediatamente com o magistrado.</p><p id="pt-b00287">Chegamos ao grande salão! Ajoelhei-me imediatamente para prestar homenagem ao Imperador de Fengdu.</p><p id="pt-b00288">“Eu, Shangguan Yuhua, humilde mulher do povo do mundo dos vivos, da terra de Zhendan, no continente meridional de Jambudvīpa, prostro-me diante do Imperador de Fengdu! Que o Imperador de Fengdu perdoe minhas faltas.” <a xlink:href="#n50-zhendan">[N50]</a></p><p id="pt-b00289">O Imperador de Fengdu que vi trajava vestes de corte, usava uma coroa preciosa e estava sentado em um trono elevado. Seu rosto era de um negro profundo e sua expressão, extremamente séria, despertando intimidação e medo.</p><p id="pt-b00290">Permaneci ajoelhada no grande salão, sem me levantar, e nem sequer ousava erguer a cabeça para olhar para cima.</p><p id="pt-b00291">Então o Imperador de Fengdu falou: “Já sei por que você veio, por isso concedi a graça de recebê-la. Tan, do mundo dos vivos, que usa o pseudônimo Wenshu Mojie, ensina o Dharma correto, instrui os seres sencientes da era do declínio do Dharma e purifica o coração das pessoas. Hoje, o mundo dos vivos chegou a uma situação em que os valores morais se deterioram a cada dia e há uma grave falta de educação sobre causa e efeito. As pessoas não sabem o que significa o bem receber uma boa retribuição e o mal receber uma má retribuição; por isso, promovem sem nenhum escrúpulo ideias permissivas, matam seres vivos, praticam conduta sexual imprópria e difamam pessoas, julgando que isso seja liberdade de expressão. Mal sabem que já cometeram a transgressão de difamar outras pessoas e os ensinamentos sagrados. O que Tan ensina é o Dharma correto, que resgata o coração das pessoas, as eleva e as leva a corrigir seus erros e renovar-se. A qualquer pessoa que proteja e sustente o Dharma correto ensinado pelo Buda, posso atribuir méritos adicionais e conceder recompensas conforme esses méritos. Quem seguir os ensinamentos do Buda por toda a vida, sem transgredi-los, mesmo que apenas pratique por conta própria e não os propague, certamente não precisará vir sofrer no inferno. Quem, além de praticar por toda a vida sem transgredir, transmitir esses ensinamentos a outras pessoas, difundindo-os sucessivamente, certamente receberá mais bênçãos e mais anos de vida, e essas bênçãos alcançarão seus descendentes. Quem não praticar e ainda, deliberadamente, destruir e difamar esses ensinamentos certamente terá suas bênçãos e seu tempo de vida reduzidos nesta existência. Ao fim da vida, entrará no Inferno do Arrancamento da Língua e no Inferno dos Uivos, e ainda sofrerá torturas infernais como o arrancamento dos olhos, a dilaceração do coração e o corte das orelhas. Quanto à duração da punição, será necessário esperar até que todos os seres sencientes que acreditaram nessas palavras difamatórias contra o Dharma correto recuperem a fé correta e voltem a praticar o Dharma correto. Só então o espírito culpado dessa difamação terá uma oportunidade de sair do inferno. Depois, ao renascer como ser humano, sofrerá duras retribuições, como nascer em condição vil ou com faculdades incompletas, cego dos dois olhos, surdo ou com o corpo fraco e magro; ou ainda viver na pobreza e em condição desprezada, em um ambiente ruim, com escassez de recursos, desarmonia familiar e toda espécie de contrariedades. Volte depressa e escreva o que eu disse, na esperança de exortar os seres sencientes que persistem na ilusão sem despertar a não difamarem o Dharma correto, a voltarem atrás e se arrependerem.”</p><p id="pt-b00292">Prostro-me em reverência e agradecimento ao Imperador de Fengdu, ao Rei Yama e a todos os grandes magistrados do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00293">Volto sobre a flor de lótus branca.</p></section><section id="sec-20"><title><p id="loc-294">14 — Telas luminosas elétricas — um novo inferno que dispara agulhas elétricas de gelo</p></title><p id="pt-b00295">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca.</p><p id="pt-b00296">Uno as palmas das mãos em saudação ao magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00297">O magistrado disse que hoje me levaria para visitar o Inferno das Telas Luminosas Elétricas.</p><p id="pt-b00298">O que é o Inferno das Telas Luminosas Elétricas? É destinado àqueles que, em vida, cometeram a transgressão de produzir publicações pornográficas, discos ópticos pornográficos, imagens pornográficas, vídeos curtos pornográficos, sons e falas pornográficos, entre outros; em suma, produtos pornográficos capazes de provocar fantasias indevidas na mente dos seres sencientes do mundo dos vivos ou de despertar diretamente pensamentos de conduta sexual imprópria. Eles os colocam deliberadamente em sites da internet, deixando os seres sencientes vê-los à vontade, corrompendo seus pensamentos e levando-os, assim, a cometer o carma negativo da conduta sexual imprópria. Também aqueles que gostam de republicar em sites esses produtos pornográficos que perturbam os pensamentos dos seres sencientes precisam entrar neste inferno para sofrer punição quando sua vida termina.</p><p id="pt-b00299">Todos os seres sencientes que entram neste inferno para sofrer punição precisam esperar até que os produtos pornográficos que produziram desapareçam por completo dos sites. Aqueles que os republicaram também precisam esperar até que os seres sencientes influenciados abandonem o caminho errado e retornem ao correto, deixando, dali em diante, de praticar a conduta sexual imprópria provocada por terem visto esses produtos pornográficos. Só então poderão sair deste inferno.</p><p id="pt-b00300">Perguntei ao magistrado: “Há bastante gente neste inferno, não é? Tantos produtores!”</p><p id="pt-b00301">O magistrado disse: “Todos os seres sencientes que republicam esse material incorrem na mesma transgressão e precisam entrar neste inferno para sofrer punição. Naturalmente, sua culpa ainda é um pouco menor que a dos produtores. Os sites da internet podem envenenar inúmeras crianças ingênuas e inocentes em pouco tempo, prejudicando gravemente o desenvolvimento de suas mentes. O desenvolvimento da mente de cada pessoa na infância é a base de sua conduta na idade adulta, mas as pessoas de hoje já têm esses maus hábitos quando ainda são muito pequenas. Como diz o Sutra de Kṣitigarbha: ‘Se encontram condições maléficas, a cada pensamento o mal aumenta.’ O hábito se torna uma segunda natureza, e, quando crescem, é muito difícil que despertem o arrependimento necessário para corrigir seus erros, a menos que encontrem a orientação transformadora de um grande mestre espiritual. No mundo atual, a tecnologia da computação se renova a cada dia e, na ausência de educação sobre causa e efeito, já há inúmeras crianças e adolescentes que veem diariamente esses produtos pornográficos nos sites. Os produtores desses materiais pornográficos e os seres sencientes que os republicam precisam responder por todas essas causas e consequências. Por isso, o mundo dos mortos construiu especialmente este inferno para punir severamente esses seres.”</p><p id="pt-b00302">Vi os seres sencientes deste inferno caminhando completamente nus em direção aos computadores. Tudo o que eles viam nos computadores eram produtos pornográficos, mas o que eu via eram computadores que serviam como instrumentos de tortura. Esses computadores pareciam vermelho-fogo e emitiam luz. Quando os espíritos culpados se aproximavam deles com olhares lascivos, os computadores lançavam ganchos vermelho-fogo que imediatamente lhes arrancavam os dois olhos. Havia também agulhas elétricas de gelo, que os perfuravam até fazê-los sangrar por todo o corpo: primeiro atingiam a cabeça e depois desciam, até cobrir o corpo inteiro de perfurações. Enfim, era uma cena terrivelmente cruel! E ainda precisavam suportar essas torturas por tempo indeterminado, até que os produtos pornográficos desaparecessem por completo do mundo. Era um sofrimento simplesmente imensurável e ilimitado! Melhor sair logo deste inferno! Era horrível demais para continuar olhando!</p><p id="pt-b00303">O magistrado continuou a me dizer: “Ayu, antes da publicação de As leis implacáveis do mundo dos mortos em livro, você deve divulgar seu conteúdo em sites, para que os seres sencientes que tenham afinidade com ele possam transmiti-lo uns aos outros e republicá-lo, alcançando assim o efeito de purificar o coração das pessoas. Para os seres sencientes que o republicarem, será registrada uma grande boa ação em seu livro individual de boas e más ações no mundo dos mortos, com mérito igual ao de honrar e cuidar dos pais, sem nenhuma diferença.</p><p id="pt-b00304">Entre todos os males, a luxúria vem em primeiro lugar; entre todas as boas condutas, a piedade filial vem em primeiro lugar. Meu soberano, o rei supremo do mundo dos mortos, aprecia e elogia acima de tudo as pessoas do mundo dos vivos que honram e cuidam dos pais. Por hoje, ficamos por aqui. Volte agora.”</p><p id="pt-b00305">Uno as palmas das mãos e me despeço respeitosamente do magistrado! Volto sobre a flor de lótus branca.</p></section><section id="sec-21"><title><p id="loc-306">15 — Desvendando o mistério da vida no distrito dos habitantes comuns do mundo dos mortos</p></title><p id="pt-b00307">Desde o início da publicação de As leis implacáveis do mundo dos mortos, algumas pessoas pensam que estes textos foram escritos por meio de escrita mediúnica fuji ou de incorporação. Por isso, preciso enfatizar mais uma vez: depois de me sentar em meditação e entrar em quietude, minha mente precisa estar livre de pensamentos dispersos para que eu possa concentrar sua força! Em seguida, amparada pela bênção do poder do Buda e em estado de plena lucidez, chego ao inferno em um instante, sobre a flor de lótus branca. Assim, o conteúdo do livro As leis implacáveis do mundo dos mortos foi verificado em repetidas idas e vindas ao inferno e tem um valor muito elevado como referência! Se houver erros, todos se devem às limitações de minha prática, que me levaram a ouvir algo incorretamente. Mas meu desejo de trabalhar pelos budas e bodhisattvas e de observar os preceitos para beneficiar todos os seres sencientes é absolutamente verdadeiro!</p><p id="pt-b00308">Portanto, o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos é inteiramente diferente das obras escritas por meio de práticas populares de escrita mediúnica fuji, incorporação, qiling ou sonhos. Peço respeitosamente a todos os leitores que atentem para isso. <a xlink:href="#n51-qiling">[N51]</a></p><p id="pt-b00309">Agradeço a bênção do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca.</p><p id="pt-b00310">Uno as palmas das mãos e saúdo respeitosamente o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00311">Hoje, gostaria de perguntar ao magistrado: “O distrito dos habitantes comuns do mundo dos mortos pertence ao caminho dos fantasmas?”</p><p id="pt-b00312">O magistrado disse: “O distrito dos habitantes comuns está incluído no caminho dos fantasmas. Trata-se dos seres sencientes que, quando eram humanos, não foram nem bons nem maus: não fizeram grandes boas ações nem grandes males e passaram a vida inteira de maneira mediana. Quando sua vida termina, primeiro são conduzidos pelos Wuchang Negro e Branco ao grande salão de julgamento, onde se examina seu registro de boas e más ações. Os seres sencientes que não têm carma que os leve ao inferno podem ser destinados a este distrito dos habitantes comuns; aqueles que têm grande carma benéfico podem ascender ou voltar a nascer no mundo humano.” <a xlink:href="#n52-wuchang-negro-e-branco">[N52]</a></p><p id="pt-b00313">Hoje, vamos visitar o distrito dos habitantes comuns. Ah! Num instante de pensamento, já chegamos. A sensação aqui é muito, muito melhor que no inferno; pelo menos não é preciso sofrer punições. Vejo que os seres sencientes que vivem aqui são semelhantes aos do mundo dos vivos e que todos têm bastante liberdade. Os seres sencientes do distrito dos habitantes comuns podem circular livremente e realizar pequenas compras e vendas à vontade.</p><p id="pt-b00314">Há adultos, crianças e lojas. O céu é cinzento, não há sol, muito menos estrelas ou lua. Suas roupas têm uma aparência escura. Eles não têm corpos de carne e sangue, e tenho a impressão de que suas formas são um pouco leves e flutuantes, diferentes dos seres sencientes do mundo dos vivos, cujos passos dão a sensação da atração da gravidade. Essa é uma das diferenças.</p><p id="pt-b00315">Vou até lá para ver. À frente, há um grupo de habitantes comuns do caminho dos fantasmas reunido. Ah! É uma área de comércio de mercadorias variadas, em forma de um longo corredor. O corredor é muito comprido, com barracas de venda dos dois lados. Cada barraca tem 2 ou 3 proprietários; em algumas, há apenas 1 pessoa fazendo negócios.</p><p id="pt-b00316">Há aqui uma área de alimentação. Vou ver o que eles comem. Ah! Como é que todos os alimentos parecem não ter calor algum, sendo todos gelados? Todos parecem muito leves. Melhor dizendo, à vista parecem objetos, mas, quando os seguro nas mãos, não sinto o peso de uma substância material. No mundo dos vivos, ao segurar um copo de água, sente-se um peso; com as coisas daqui, não há essa sensação. Vou observar também como os corpos espirituais do distrito dos habitantes comuns se alimentam! Parece que sugam os alimentos, e fazem isso muito depressa. Nesse momento, de repente, ouço uma comerciante me chamar.</p><p id="pt-b00317">“Olá, senhora! O que é isso?”</p><p id="pt-b00318">“É uma sopa refrescante e hidratante que acabei de fazer. Depois de tomá-la, só precisa tomar de novo no ano que vem.”</p><p id="pt-b00319">Nossa! Tomar uma vez por ano? Nem o cogumelo lingzhi tem esse efeito! Tomar uma vez e ficar sustentado por um ano inteiro: que poder nutritivo extraordinário! <a xlink:href="#n53-lingzhi">[N53]</a></p><p id="pt-b00320">Nesse momento, a mão da comerciante tocou a minha.</p><p id="pt-b00321">Ela disse: “Senhorita, sua temperatura corporal está muito alta! Cuide-se. Venha tomar uma tigela! Depois de tomar, sua temperatura vai baixar e você se sentirá bem.”</p><p id="pt-b00322">Sorri e disse: “Obrigada! Hoje não quero tomar.”</p><p id="pt-b00323">No mundo dos vivos, minha temperatura corporal tende a ser baixa desde a infância; ao chegar ao distrito dos habitantes comuns, ela é considerada alta!</p><p id="pt-b00324">Ao longo do caminho, vi corpos espirituais fazendo compras livremente. O distrito dos habitantes comuns transmite uma sensação de vida sem grandes acontecimentos. Ainda há uma energia yin, mas é muito, muito melhor que o inferno.</p><p id="pt-b00325">Gostaria de perguntar ao magistrado: “Qual é a duração média da vida dos seres sencientes do distrito dos habitantes comuns? Eles se alimentam por sucção?”</p><p id="pt-b00326">O magistrado disse: “Quanto à duração da vida, a mais curta é de 300 anos, e a mais longa chega a 1.500 anos. Aqueles que têm raízes de bondade e praticam podem chegar mais cedo ao fim dessa vida e ascender ao mundo humano ou aos céus. Quanto à alimentação, eles não precisam fazer 3 refeições por dia como os seres sencientes do mundo dos vivos. Alimentam-se por contato, absorvendo a essência dos alimentos; uma refeição pode saciá-los por cerca de 1 ano. Se seus descendentes do mundo dos vivos lhes fizerem uma oferenda no Festival Qingming, em abril, essa única vez poderá saciá-los por 1 ano. Mas lembre-se bem: jamais se deve usar carne nas oferendas aos antepassados, pois isso aumentará o carma negativo desses antepassados no caminho dos fantasmas. Seus descendentes do mundo dos vivos devem usar alimentos vegetarianos, flores frescas, frutas e coisas semelhantes para lhes fazer oferendas. Naturalmente, o melhor é recitar sutras e o nome do Buda, acumular virtudes e fazer o bem, dedicando-lhes os méritos para retribuir a bondade com que nos criaram e permitir que transcendam essa condição e ascendam o quanto antes.</p><p id="pt-b00327">Por hoje, ficamos por aqui. Não se esqueça de voltar e dizer às pessoas do mundo que não usem mais carne nas oferendas aos antepassados, pois isso só lhes causa sofrimento.” Esta visita de aprendizado ao distrito dos habitantes comuns do mundo dos mortos realmente me abriu os olhos, ampliou meus conhecimentos e me ensinou muitas coisas. Quando uma pessoa morre e se torna um espírito, de fato existe outro espaço e outro mundo onde ela continua a existência de retribuições cármicas que ainda não se encerrou.</p><p id="pt-b00328">Agradeço ao magistrado por seus ensinamentos! Volto para casa sobre a flor de lótus branca.</p></section><section id="sec-22"><title><p id="loc-329">16 — Autores de imagens eróticas de mais de 1.900 anos atrás, desde a dinastia Han Ocidental, ainda estão presos no grande inferno, sofrendo até hoje! <a xlink:href="#n1-dinastia-e-cronologia">[N1]</a></p></title><p id="pt-b00330">Agradeço ao Buda por seus diversos meios hábeis e compassivos de conduzir os seres à libertação, preparando e criando tantas oportunidades de prática para todos. Na prática espiritual, quem não avança retrocede. Sinto muita vergonha: eu deveria ter ido ao inferno ontem à noite, mas adiei por estar cansada. Aproveito esta ocasião para me apresentar diante dos budas e bodhisattvas em súplica e arrependimento. Em muitos sutras, o Buda ensina a todos nós como nos empenhar diligentemente e como observar os preceitos. Que vergonha, que vergonha!</p><p id="pt-b00331">No Sutra Avataṃsaka, o Buda diz: “Filhos do Buda! Os bodhisattvas mahāsattvas têm dez formas de empenho diligente. Quais são as dez? São elas: empenhar-se diligentemente em ensinar e transformar todos os seres sencientes; empenhar-se diligentemente em penetrar profundamente em todos os dharmas; empenhar-se diligentemente em adornar e purificar todos os mundos; empenhar-se diligentemente em praticar tudo o que os bodhisattvas aprendem; empenhar-se diligentemente em eliminar o mal de todos os seres sencientes; empenhar-se diligentemente em fazer cessar todos os sofrimentos dos três destinos inferiores; empenhar-se diligentemente em subjugar todos os demônios; empenhar-se diligentemente no voto de ser olhos puros para todos os seres sencientes; empenhar-se diligentemente em fazer oferendas a todos os budas; empenhar-se diligentemente em alegrar todos os tathāgatas. Essas são as dez. Se os bodhisattvas permanecerem firmes nesse Dharma, alcançarão plenamente a suprema pāramitā da diligência dos tathāgatas.” Sinto que ainda tenho deficiências no empenho diligente em meus estudos e minha prática. Realmente preciso redobrar meus esforços para progredir. <a xlink:href="#loc-1756">[N54]</a></p><p id="pt-b00332">Vejamos também o Sutra Mahāratnakūṭa — Assembleia do Cesto dos bodhisattvas, em que o Buda diz: “Sem temor, sem pavor, sem sobressalto, sem medo. Manifestam quatro poderes firmes e intrépidos. Empenham-se com diligência cada vez maior nas sutis e maravilhosas portas do Dharma do Cesto dos bodhisattvas. Não as abandonam, não renunciam a elas, não se afastam delas nem delas se separam. Realizam plenamente uma fé e compreensão vigorosas e penetrantes, uma fé e compreensão firmes, uma paciência firme e um esforço correto firme. Śāriputra, vou lhe expor, por meio de uma analogia hábil, a paciência firme e o esforço correto firme, para que os bodhisattvas alcancem a paciência firme e o esforço correto firme e percorram o caminho dos bodhisattvas sem se poupar por consideração ao próprio corpo e à própria vida.” Sinto muita vergonha: bastaram algumas idas seguidas ao inferno para eu me cansar. Sinto-me indigna da grande bondade dos ensinamentos dos budas e bodhisattvas. Preciso continuar me esforçando para observar bem os preceitos e praticar diligentemente, retribuindo sua bondade. Também desejo que todos alcancem uma força ilimitada, avancem com coragem e diligência, perseverem no esforço correto e mantenham os preceitos como uma pérola luminosa.</p><p id="pt-b00333">Antes de partir, percebi que havia mais uma flor de lótus sob meus pés. Agradeço aos protetores do Dharma! Os budas e bodhisattvas são sempre compassivos! Hoje, com essa flor de lótus a mais, a velocidade aumentou muito: cheguei ao inferno em um instante. Cumprimentei respeitosamente o magistrado, que já estava me esperando.</p><p id="pt-b00334">Hoje, gostaria de consultar o magistrado sobre as retribuições para quem escreve, imprime ou vende livros pornográficos; para os empresários que produzem filmes pornográficos ou fabricam discos ópticos pornográficos; para os atores que participam de filmes pornográficos; e para quem vende produtos que favorecem a conduta sexual imprópria, como afrodisíacos.</p><p id="pt-b00335">O magistrado me levou imediatamente para visitar um lugar chamado “Inferno Yanhua Fangun”. Enquanto conversávamos, já comecei a sentir uma atmosfera diferente, muito negativa; melhor dizendo, uma energia de luxúria. Todo o inferno já está impregnado de uma energia yin inesgotável, mas, nesta parte, a energia de luxúria é muito, muito mais intensa que a energia yin, a ponto de encobri-la. Há também um forte cheiro fétido. Se não fosse para contar a todos, eu realmente não gostaria de ir ver.</p><p id="pt-b00336">Já chegamos. Mais uma vez, ouvem-se grandes gritos e gemidos de dor. Há aqui muitos espíritos de homens e mulheres. Eles não conversam nem se comunicam entre si, não se cumprimentam nem consolam uns aos outros. Nem mesmo dizem algo tão simples como “Você está sofrendo?”, pois todos estão sofrendo incessantemente as retribuições infernais.</p><p id="pt-b00337">Vi, entre eles, um espírito em uma cadeira muito pequena. Ele apoiava as duas mãos na cadeira e ficava de ponta-cabeça, isto é, com a cabeça para baixo e os pés para cima. Era uma posição muito exagerada! Depois, caía no chão, morria com a queda, voltava à vida e recomeçava. O magistrado disse que essa era a retribuição por gostar, em vida, de escrever em livros pornográficos sobre posições de conduta sexual imprópria em que a mulher fica de ponta-cabeça e o homem, de pé.</p><p id="pt-b00338">Havia um espírito que sustentava o corpo continuamente com uma só mão no chão. Eu via que estava tão exausto que já suava e tremia. Assim que parava, uma ave gigantesca descia voando e o devorava. Depois, ele voltava à vida e repetia a punição. Essa era a punição daqueles que, em vida, gostavam de descrever atos especialmente exagerados de conduta sexual imprópria, como chicotadas e práticas em busca de estímulos sensoriais.</p><p id="pt-b00339">Havia um espírito que girava sem parar no chão. Assim que parava, muitos lobos gigantes vinham imediatamente despedaçá-lo e devorá-lo. Essa era a retribuição por gostar, em vida, de preparar drogas alucinógenas para estimular o desejo sexual.</p><p id="pt-b00340">Havia um espírito cuja punição era permanecer continuamente sobre um só pé, parecendo executar movimentos de um ato sexual. Assim que parava, uma grande ave de ferro se precipitava sobre ele e o matava com o impacto. Depois, uma rajada de vento o fazia voltar à vida, e a punição se repetia. Essa também era uma retribuição por escrever livros pornográficos.</p><p id="pt-b00341">Havia um espírito que tomava drogas sem parar. Assim que parava, começava imediatamente a vomitar com violência, até ficar quase morto, e depois era obrigado a tomá-las novamente. Essa era a retribuição por se dedicar, em vida, à pesquisa e à produção de afrodisíacos e drogas para estimular o desejo sexual.</p><p id="pt-b00342">Havia um espírito que segurava um instrumento de tortura semelhante a uma tocha em forma de tubo e queimava continuamente os próprios órgãos genitais, até que fossem destruídos e se desfizessem. O vento os restaurava, e ele voltava a sofrer repetidamente no mesmo ciclo. Essa era a retribuição por gostar de vender, em vida, instrumentos que favorecem a conduta sexual imprópria.</p><p id="pt-b00343">Havia dois espíritos que, juntos, seguravam pequenas serpentes que vibravam e as usavam para aplicar o castigo junto aos próprios órgãos genitais. Ambos sofriam a dor extrema de ter os órgãos genitais esmagados e dilacerados. Em vida, os dois haviam sido comerciantes especializados na venda de produtos sexuais.</p><p id="pt-b00344">Havia um espírito sentado em uma cadeira muito pequena, pontiaguda e escaldante, escrevendo sobre uma mesa incandescente que lançava fogo. Tentei captar seus pensamentos e descobri que ele pensava em como escrever livros pornográficos. Quando ia escrever, suas duas mãos eram imediatamente consumidas pelo fogo; depois, ele voltava à vida para sofrer novamente esse suplício de fogo. Essa também era a retribuição por escrever livros pornográficos de vários tipos.</p><p id="pt-b00345">Aqui, alguns espíritos de homens e mulheres pareciam apreciar muito aqueles livros pornográficos. (Devido às suas ilusões e percepções invertidas, suas mentes estavam cheias de desejo sexual; por isso, eles viam livros pornográficos, enquanto eu via algo parecido com uma folha de papel em branco.) Havia uma máquina de impressão que parecia um computador gigantesco. Quando eles queriam imprimir os livros pornográficos, essa enorme máquina os sugava para dentro. Todos passavam pela máquina e eram esmagados até virar uma pasta de carne, com sangue espirrando, uivos e gritos frenéticos. Aquela dor extrema era simplesmente indescritível e insuportável. Em um único dia, precisavam sofrer a punição dez milhões de vezes. A essa altura, eu já não conseguia continuar olhando e me sentia extremamente mal. Essas eram as terríveis retribuições que precisavam suportar por terem produzido filmes pornográficos e fabricado discos ópticos pornográficos em vida. <a xlink:href="#loc-1664">[N9]</a></p><p id="pt-b00346">Respirei fundo e então perguntei novamente ao magistrado: “Afinal, por quantos anos esses espíritos culpados terão de sofrer suas retribuições?”</p><p id="pt-b00347">O magistrado respondeu: “É difícil dizer por quanto tempo terão de sofrer essa retribuição. Basicamente, pode-se dizer que só terão a possibilidade de sair do inferno depois que todos os livros pornográficos que escreveram e imprimiram, os filmes pornográficos que fizeram, os discos ópticos pornográficos e os medicamentos afrodisíacos e estimulantes da potência sexual que fabricaram desaparecerem inteiramente do mundo humano. Mesmo que renasçam como humanos, certamente sofrerão uma retribuição em condições extremamente baixas e aviltantes. Somente os budas e bodhisattvas podem esclarecer a duração exata das penas. Recentemente, foram acrescentados muitos andares a este inferno, além de toda uma variedade de punições. Antes, ele não ocupava uma área tão vasta. Hoje, com o avanço da tecnologia, esses produtos ligados à conduta sexual imprópria são impressos e produzidos em alta velocidade e em quantidades espantosas. Também se abriram inúmeras lojas de artigos sexuais no mundo humano. É realmente impossível contar quantas pessoas que cometem crimes e violam os preceitos são lançadas no inferno para sofrer. Na verdade, o inferno é um reflexo do mundo humano. Quando surgem no mundo humano novas coisas que envolvem a violação dos preceitos, o inferno imediatamente recebe novas construções para atender à necessidade dessas retribuições. Quando a vida dos seres que cometeram essas faltas chega ao fim, eles vêm para cá sofrer suas dolorosas retribuições.”</p><p id="pt-b00348">Eu disse: “Essas punições sem prazo para terminar não equivalem, em sofrimento, ao Inferno dos Sofrimentos Ininterruptos?” O magistrado respondeu: “O sofrimento daqui ainda está muito, muito longe do sofrimento do Grande Inferno dos Sofrimentos Ininterruptos! Esses livros e produtos ligados à conduta sexual imprópria podem prejudicar uma quantidade imensurável e incontável de seres. Os sites pornográficos, em particular, contaminam até crianças inocentes, cujo corpo é de yang puro. Isso é algo que as leis do mundo dos mortos não podem tolerar nem perdoar. Vou lhe dizer: quanto aos atores que mencionei há pouco, se foram obrigados a participar de filmes pornográficos, a retribuição será mais leve: cem anos. Mas precisam garantir que nunca mais reincidirão e, além disso, arrepender-se de suas ações cármicas maléficas. Se fizeram apenas um filme por dinheiro e depois não fizeram mais nenhum, sofrerão a retribuição por mil anos. Se, posteriormente, comprarem todos os discos ópticos pornográficos em que aparecem e os queimarem, arrependendo-se sinceramente, poderão ter quinhentos anos descontados da pena. Os diretores que fazem filmes pornográficos e as pessoas que distribuem ou produzem discos ópticos pornográficos entram neste inferno ao fim da vida para sofrer a retribuição. Só poderão sair quando esses filmes e discos tiverem desaparecido completamente. Os demais profissionais envolvidos serão lançados neste inferno para sofrer a retribuição por cinquenta mil anos. Todos os que escrevem, imprimem ou vendem livros pornográficos, bem como os empresários, atores, diretores e demais profissionais envolvidos na produção de filmes de conduta sexual imprópria e discos ópticos pornográficos, terão, sem exceção, suas bênçãos e sua longevidade reduzidas ainda em vida. Por cada livro ou filme pornográfico, perderão um ano de bênçãos e de vida.”</p><p id="pt-b00349">Perguntei novamente ao magistrado: “Se alguém criar um site para vender discos ópticos ou vídeos pornográficos, ou disponibilizá-los para que as pessoas façam o download, cobrando ou gratuitamente, qual será a retribuição?” O magistrado respondeu: “O princípio é o mesmo. Essa pessoa também será lançada neste inferno. Só poderá se libertar da retribuição no inferno quando os discos ópticos pornográficos que vendeu tiverem desaparecido para sempre do mundo humano e os sites pornográficos envolvidos tiverem sido total e definitivamente encerrados. Quando voltar, você deverá advertir a todos com todo o cuidado para que respeitem as leis e as normas de conduta e observem os preceitos, evitando assim o castigo do Céu! Por hoje, vamos encerrar aqui. Volte primeiro na flor de lótus e venha novamente em outra ocasião.”</p><p id="pt-b00350">Quero esclarecer a vocês, leitores, que as informações internas que obtive em minhas visitas aos infernos foram alcançadas quando minha consciência espiritual foi até lá, em estado de vigília, amparada pelo poder do Buda. Não fui em sonhos, nem obtive respostas por métodos de escrita mediúnica, como os utilizados pelo Tiandao, pelo Yiguandao e outros. Eu mesma já tomei refúgio no budismo, sou uma discípula das Três Joias, mantenho uma alimentação vegetariana permanente e observo os cinco preceitos. Meu nome é Ayu. Cada frase do que disse acima é verdadeira. Dedico os méritos a todos os seres, para que todos alcancem a budeidade. <a xlink:href="#loc-1758">[N55]</a></p></section><section id="sec-23"><title><p id="loc-351">17 — Presenciando um julgamento pela segunda vez — vi com meus próprios olhos os dois departamentos de recompensa do bem e punição do mal mencionados nos livros antigos</p></title><p id="pt-b00352">Ultimamente, eu, Ayu, tenho visitado continuamente os infernos da conduta sexual imprópria. O Inferno da Conduta Sexual Imprópria é o que ocupa a maior e mais extensa área de todo o conjunto de infernos. Isso mostra que a conduta sexual imprópria é hoje um problema enorme e extremamente grave no mundo humano. O Buda, dotado de grande sabedoria, há muito tempo previu e explicou detalhadamente esse problema em numerosos sutras. Também nos ensinou, com muitos detalhes, como resolver de maneira definitiva esse apego fundamental que nos acompanha desde o nascimento e nos enreda. Todos nós devemos estudar mais os sutras, para compreender de onde vem a devassidão sexual e como resolvê-la. Há tantos sutras que é impossível enumerá-los todos de uma só vez. Por exemplo:</p><p id="pt-b00353">O Sutra da Extinção Completa do Dharma, Proferido pelo Buda, diz: “Não haverá moralidade; haverá devassidão sexual, impureza e desordem, sem distinção entre homens e mulheres… Como o kalpa estará chegando ao fim, os dias e os meses se tornarão mais curtos, e a vida humana, mais breve. Aos quarenta anos, os cabelos já estarão brancos. Os homens se entregarão à devassidão sexual, esgotarão sua essência e morrerão prematuramente; alguns viverão até os sessenta anos. A vida dos homens será curta, e a das mulheres, longa: setenta, noventa ou até cem anos.” <a xlink:href="#n10-setenta-noventa-e-cem">[N10]</a></p><p id="pt-b00354">O Sutra dos Quarenta e Dois Capítulos, Proferido pelo Buda, diz: “O desejo nasce de tua intenção, e a intenção nasce dos pensamentos; quando ambos esses estados mentais se aquietam, não há desejo sensual nem ato sexual.” <a xlink:href="#n58-leitura-da-estrofe">[N58]</a></p><p id="pt-b00355">O Sutra Śūraṅgama do Grande Ápice do Buda, sobre a Causa Secreta do Tathāgata, o Significado Definitivo da Prática e da Realização e as Inúmeras Práticas dos bodhisattvas, explica isso com ainda mais clareza: “Se os seres dos seis caminhos de todos os mundos não tiverem luxúria no coração, deixarão de acompanhar a continuidade de seus nascimentos e mortes. Tu cultivas o samādhi justamente para sair das aflições mundanas; se não eliminares a mente de luxúria, não poderás sair do mundo impuro. Mesmo que tenhas muita inteligência e que a concentração meditativa se manifeste diante de ti, se não cortares a luxúria, certamente cairás no caminho de Māra…”</p><p id="pt-b00356">Nos sutras, o Buda adverte a todos com paciente insistência que a devassidão sexual vem das concepções distorcidas da própria mente. A intenção nasce dos pensamentos, e todos possuem essa semente que os faz vagar pelo ciclo de nascimentos e mortes. O Buda nos ensina que é necessário cortar o impulso da luxúria tanto no corpo quanto na mente. Um sutra budista diz: “Pratico ações maléficas e sou como uma coluna de madeira carbonizada; nesta vida não tenho dignidade, e na outra também será assim. Não tenho dignidade dentro de casa, e fora dela também é assim; de causas maléficas, produzo carma maléfico e, por isso, entro nos caminhos maléficos. Na vida seguinte, sofrerei dores, sem saber onde ficarei; todas as divindades ouvirão meus soluços e meu choro; não haverá quem me salve ou proteja, e certamente entrarei no inferno.” <a xlink:href="#n56-a-imagem-da-coluna-carbonizada">[N56]</a></p><p id="pt-b00357">Espero que todos aqueles que tiverem a afinidade de encontrar este texto possam se tornar plenamente dotados de fé correta e atenção plena correta, praticar o Dharma correto, afastar-se do sofrimento e alcançar a felicidade.</p><p id="pt-b00358">Agradeço a bênção e o amparo do poder do Buda! Parto na flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00359">Eu, Ayu, junto as palmas das mãos e saúdo respeitosamente o magistrado!</p><p id="pt-b00360">O magistrado disse com seriedade: “Hoje chegaram ao salão de julgamento dois espíritos culpados, um homem e uma mulher, para serem julgados: ele era um cafetão, e ela, uma cafetina.”</p><p id="pt-b00361">Eu disse: “Está bem! Agradeço ao magistrado por providenciar esta oportunidade para que eu, Ayu, assista à audiência.”</p><p id="pt-b00362">Ah! Assim que chegamos, ouvi uma batida muito forte na mesa.</p><p id="pt-b00363">Ah! Vi o Rei de Taishan, do Sétimo Salão do mundo dos mortos, com uma expressão de enorme fúria. Ele quase deixou seu assento: levantou-se, inclinou o corpo para a frente e para baixo e bradou aos espíritos culpados: “Espíritos insolentes! Suas almas já retornaram ao mundo dos mortos, e vocês ainda insistem em distorcer os argumentos! Que conversa é essa de consentimento mútuo, de que comer e desejar sexo faz parte da natureza humana e de que isso resolve as aflições da vida? É um completo disparate! Vocês, marido e mulher, tinham no mundo humano uma família de condição confortável e levavam uma vida estável. No entanto, em vez de exercer uma profissão honesta, por dinheiro aliciaram e enganaram moças e mulheres sem discernimento, fazendo com que se prostituíssem. Essa é sua primeira falta. Também as enganaram por meio de planos ardilosos, fazendo-as cair na armadilha de vocês, passando então a explorar o dinheiro que elas ganhavam à custa da própria carne e do próprio sangue. Essa é sua segunda falta. Vocês deliberadamente levaram moças e mulheres a consumir drogas, jogar por dinheiro, beber e fumar, fazendo com que contraíssem dívidas enormes para, assim, controlá-las e impedi-las de abandonar a prostituição. Essa é sua terceira falta. Quando elas, por infelicidade, engravidavam, vocês deliberadamente providenciavam abortos, ferindo vidas inocentes. Essa é sua quarta falta. Essas condutas, que ofendem o Céu e violam os princípios morais, são extremamente vergonhosas!”</p><p id="pt-b00364">Ao lado do Rei de Taishan estavam dois altos funcionários do mundo dos mortos. Um era o chefe do Departamento de Recompensa do Bem. Vi que usava uma longa veste de tom roxo enegrecido. Seu semblante era sereno e tinha um leve sorriso. No inferno, já era muito raro poder ver um rosto assim. Todos os funcionários do mundo dos mortos que eu, Ayu, tinha visto apresentavam uma expressão muito séria, assustadora e feroz. O outro era o chefe do Departamento de Punição do Mal. Usava uma longa veste verde-escura e tinha uma expressão extremamente feroz e irada. Seus olhos emitiam um brilho espectral de um branco baço. Bastava que ele olhasse para alguém para causar desconforto no corpo inteiro. Os chapéus dos dois chefes tinham o mesmo formato, e cada chapéu era da mesma cor da respectiva veste.</p><p id="pt-b00365">Nesse momento, ouvi a voz do Rei de Taishan: “Apresente o Registro de Punição do Mal e leia-o imediatamente.” Então vi o livro de registros que o chefe do Departamento de Punição do Mal trouxe. Nossa! Era realmente um volume muito comprido. O chefe do Departamento de Punição do Mal também tinha uma expressão extremamente severa e começou a ler todas as faltas cometidas por aqueles dois espíritos. A medida de sua maldade estava realmente cheia. Vou relatar uma parte para que todos possam compreender.</p><p id="pt-b00366">Em vida, para manter algumas belas moças sob seu controle e usá-las como instrumentos de ganho, esses dois espíritos culpados fizeram com que elas abortassem muitas vezes e adquirissem maus hábitos. Mais tarde, algumas se casaram com homens com quem tinham afinidade, tornando-se esposas ou esposas secundárias. Algumas, porém, tiveram seus lares desfeitos por não conseguirem ter filhos. Outras, por terem consumido drogas e passado por abortos, ficaram com certas sequelas para toda a vida, como doenças ginecológicas crônicas, distúrbios do sistema nervoso central e dormência nas mãos e nos pés, entre outras. Uma delas foi abandonada pelo marido por sofrer de um transtorno mental e, depois, também foi abandonada pela família, acabando nas ruas. Eram tantos acontecimentos terríveis que mal se suportava ouvi-los. <a xlink:href="#loc-1762">[N57]</a></p><p id="pt-b00367">O Rei de Taishan disse: “Vocês dois, guardas espectrais de aparência feroz e presas salientes, ouçam a ordem: levem-nos imediatamente! Conduzam-nos ao Inferno Yanhua Fangun, para que primeiro cumpram cem mil anos de punição. Depois de verificar se há arrependimento em seus corações, tomaremos uma nova decisão.” Nesse momento, as pernas dos dois espíritos culpados tremiam intensamente, e seus corpos não paravam de estremecer. Mas já era tarde demais para tudo. <a xlink:href="#n11-yanhua-fangun">[N11]</a></p><p id="pt-b00368">O magistrado disse: “Em geral, espíritos culpados como esses sofrem punições no inferno por um período muito, muito longo. Só terão a possibilidade de sair do grande inferno quando todos os seres que prejudicaram estiverem inteiramente livres de todas as sequelas causadas pelo consumo de drogas, pelos abortos e por outras práticas a que os dois os instigaram, e quando todas essas sequelas tiverem desaparecido.”</p><p id="pt-b00369">Eu, Ayu, perguntei ao magistrado: “Se certas condutas tiverem uma influência nociva mais profunda e duradoura sobre o pensamento de alguém, talvez sejam necessárias várias vidas para a recuperação completa. Isso significa que será preciso esperar várias vidas, certo?” O magistrado respondeu: “Sim! Cada pessoa leva um tempo diferente para se recuperar depois de sofrer um dano: para algumas, é mais longo; para outras, mais curto. Naturalmente, quanto menor o tempo, melhor. Mas certos espíritos têm um apego mais intenso e precisam de mil anos para resolver um único problema. Há espíritos que podem permanecer em determinado espaço e se recusar a sair, justamente por causa do apego. Houve, no passado, uma jovem prostituta. Ela tinha certa beleza e, felizmente, não havia adquirido vícios particularmente ruins; apenas aprendera a fumar e a beber. Na verdade, ela mesma não gostava de fumar nem de beber: aprendera a fazer isso por exigência do trabalho. Por instigação e sob os arranjos do cafetão e da cafetina, chegou a fazer seis abortos em apenas um ano e meio. Mais tarde, um comerciante com quem tinha afinidade casou-se com ela e a levou para casa como esposa. Ele não sabia que, tão jovem, ela já havia feito seis abortos. Depois do casamento, as sequelas dos abortos a deixaram incapaz de ter filhos pelo resto da vida, além de lhe causarem doenças ginecológicas. Por isso, pouco tempo depois, o comerciante tomou outra mulher por esposa para dar continuidade à linhagem familiar. Abandonada por não poder ter filhos, a antiga prostituta não se conformava. Quando sua vida terminou, seu espírito permaneceu no caminho dos fantasmas por mil anos. Só saiu de lá quando encontrou o Dharma correto com o qual tinha afinidade.” <a xlink:href="#loc-1762">[N57]</a></p><p id="pt-b00370">O magistrado continuou: “Estou apenas lhe dando uma explicação geral, porque a punição de cada espírito culpado que chega ao inferno envolve também questões relativas aos outros espíritos que ele prejudicou. Basicamente, é necessário esperar que cada um dos seres prejudicados por esse espírito, seja qual for aquele dos seis caminhos em que se encontre, primeiro se liberte do sofrimento. Só então o espírito culpado poderá sair do inferno. Quanto ao tempo exato durante o qual aqueles dois espíritos terão de sofrer a retribuição de suas faltas no inferno, ainda não é possível chegar a uma conclusão. Isso está apenas começando.”</p><p id="pt-b00371">“Muito bem! Por hoje, vamos encerrar aqui. Volte agora!”</p><p id="pt-b00372">“Está bem, magistrado!”</p><p id="pt-b00373">Eu, Ayu, junto as palmas das mãos e me despeço respeitosamente do magistrado! Agradeço ao magistrado!</p><p id="pt-b00374">Volto sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-24"><title><p id="loc-375">18 — A retribuição no inferno por fazer circular e compartilhar livros, revistas e discos ópticos pornográficos</p></title><p id="pt-b00376">Recentemente, estive muito atarefada com diversos assuntos e também precisei me recolher em retiro para a prática interior. Por isso, eu, Ayu, fiquei sem oportunidade de ir aos infernos recolher informações para escrever. Peço muitas desculpas a todos por tê-los feito esperar tanto! Para escrever meus textos, só vou aos infernos quando estou em minha melhor disposição mental. Cada visita consome um pouco da minha energia vital primordial, e, ao voltar, preciso recitar mantras continuamente para repô-la. Hoje estou com uma boa disposição mental, mas forças de outra dimensão vieram novamente me criar obstáculos e impedir que eu escrevesse. A força delas também não é pequena, e acabei perdendo mais meio dia. Basta um dia sem observar os preceitos para se tornar parte do séquito de Māra. É indispensável observar os preceitos: é assim que eu, Ayu, penso. Sempre que encontro algum obstáculo, recorro à prática mental da observância dos preceitos para superá-lo. Essa prática mental é budista e funciona muito bem. Quero compartilhá-la com todos; até agora, posso dizer que funcionou todas as vezes em que a utilizei.</p><p id="pt-b00377">Antes de entrar no nirvana, o Buda disse a Ānanda: “Na era do declínio do Dharma, tomem os preceitos como mestre e apoiem-se no Dharma, não nas pessoas.” O segundo volume do Tratado da Grande Perfeição da Sabedoria diz: “O Buda toma a paciência como armadura, a diligência como couraça de aço, a observância dos preceitos como grande cavalo, a concentração meditativa como bom arco e a sabedoria como boa flecha. Externamente, derrota o exército do rei Māra; internamente, extermina os ladrões das aflições. Por isso é chamado de arhat.” E o Sutra das Perguntas de Śakra, Proferido pelo Buda, diz: “Por não seguir as proibições e os preceitos do Buda, agora deves sentir vergonha e remorso.” Observar os preceitos é realmente muito importante! <a xlink:href="#loc-1766">[N59]</a></p><p id="pt-b00378">Venha, força da mente! Namo Mahāmāyūrī, Grande Soberana da Sabedoria do Pavão! Namo Mahāmāyūrī, Grande Soberana da Sabedoria do Pavão! Agora vou romper esses obstáculos e ir imediatamente aos infernos.</p><p id="pt-b00379">Agradeço a bênção e o amparo dos budas e bodhisattvas! Parto na flor de lótus branca! Chego imediatamente aos infernos!</p><p id="pt-b00380">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00381">Hoje, eu, Ayu, gostaria de perguntar ao magistrado sobre a retribuição por fazer circular livros, revistas e discos ópticos pornográficos.</p><p id="pt-b00382">O magistrado disse: “Boa pergunta. Atualmente, há jovens demais no mundo dos vivos com esse tipo de mau comportamento. Ayu, quando voltar, lembre-se de advertir os seres do mundo dos vivos que têm esse mau hábito para que corrijam imediatamente seus erros com determinação, pratiquem a virtude e acumulem boas ações, evitando as terríveis retribuições dos infernos e os danos a si mesmos e aos outros. Essa mensagem é muito importante. Lembre-se bem!”</p><p id="pt-b00383">“Sim, magistrado! Assim que voltar, eu, Ayu, escreverei sobre isso.”</p><p id="pt-b00384">O magistrado disse: “Todos os seres que, no mundo dos vivos, fizerem circular pessoalmente ou pelo computador livros, revistas e discos ópticos pornográficos receberão a mesma retribuição daqueles que vendem livros, revistas e discos ópticos pornográficos: sofrerão a retribuição no inferno por cem mil anos. Essa é a punição comum. Nos casos graves, só poderão se libertar do sofrimento do inferno quando os livros, revistas e discos ópticos pornográficos que fizeram circular desaparecerem do mundo humano. Esse sofrimento é imensurável e ilimitado. Desde que um ser começa a fazer circular livros, revistas e discos ópticos pornográficos, cada vez que o faz, o ato é imediatamente registrado pelas divindades branca e negra do bem e do mal, que o acompanham desde o nascimento, e suas bênçãos e sua longevidade são reduzidas. Ainda em vida, os agentes do mundo dos mortos primeiro capturarão sua alma de pessoa viva e a levarão ao Inferno dos Chicotes e Bastões para ser punida. Já apresentei anteriormente o Inferno dos Chicotes e Bastões, por isso não entrarei em detalhes aqui. Nessa situação, os seres no mundo dos vivos sentem dor de cabeça e têm a consciência turva, confusa e pouco clara. A maioria sente como se estivesse com febre e tendo pesadelos; ao despertar, sente dores em pontadas pelo corpo inteiro. Se alguém, depois de ter sua alma capturada ainda em vida e levada ao Inferno dos Chicotes e Bastões para ser punida, corrigir seus erros e se renovar, poderá ter sua retribuição no inferno reduzida ou dispensada. Mas a decisão final dependerá das circunstâncias concretas de cada caso. Aqueles que persistirem no erro sem despertar, quando esgotarem suas bênçãos, entrarão diretamente no Inferno da Conduta Sexual Imprópria para sofrer a retribuição. Também será preciso verificar a que categoria pertenciam os livros, revistas e discos ópticos pornográficos que fizeram circular. Se fizeram circular apenas material sobre masturbação, entrarão no Inferno de Engolir Esferas para sofrer a retribuição; se fizeram circular apenas imagens pornográficas pelo computador, entrarão no Inferno dos Olhos sob Raios Elétricos para sofrer a retribuição; se fizeram circular apenas discos ópticos de conduta sexual imprópria envolvendo um homem e duas mulheres ou uma mulher e dois homens, entrarão no Inferno das Engrenagens, dos Lobos e das Serpentes para sofrer a retribuição; se fizeram circular apenas discos ópticos de conduta sexual imprópria incestuosa, entrarão no Inferno Gelado da Roda Invertida para ser punidos, e assim por diante. Não é possível enumerar todos. Se tiverem cometido a falta de fazer circular todos esses tipos de material, precisarão sofrer a retribuição em cada um dos infernos da conduta sexual imprópria, um após o outro. Ayu, você já visitou todos os infernos da conduta sexual imprópria que acabei de mencionar. Agora pode voltar e dizer aos seres do mundo dos vivos que aqueles que fazem circular livros, revistas e discos ópticos pornográficos estão produzindo um carma maléfico imensurável e ilimitado que os levará aos infernos. Eles devem abandonar esse mau hábito o mais depressa possível, sem prejudicar os outros nem a si mesmos. Hoje a tecnologia é avançada, e bastam alguns segundos para que um computador espalhe informações pelo mundo inteiro. Mas já pensaram nisso? Esse tipo de informação, que prejudica a natureza espiritual das pessoas, faz com que, sem perceber, vocês plantem em um instante um carma maléfico imensurável e ilimitado que os levará aos infernos. Peço aos seres do mundo dos vivos que valorizem mais o corpo humano, tão difícil de obter. Caso contrário, a energia reta do Céu e da Terra perderá o equilíbrio, e certamente descerão calamidades sobre o mundo humano, levando os seres a olhar para si mesmos e refletir. Mas então já será tarde demais. Quando as calamidades chegarem, o carma maléfico já terá amadurecido; o mundo humano certamente sofrerá de modo extremo, e cenas de tristeza serão vistas por toda parte. Nosso Buda é compassivo e enviou especialmente você, Ayu, para visitar o mundo dos mortos. Volte o mais depressa possível e conte aos seres do mundo dos vivos todos os fatos que presenciou!” <a xlink:href="#n60-relato-religioso-e-sintomas">[N60]</a> <a xlink:href="#loc-1770">[N61]</a></p><p id="pt-b00385">Eu, Ayu, me prosterno em agradecimento ao magistrado! Agradeço por todo o seu trabalho!</p><p id="pt-b00386">Volto sobre a flor de lótus branca.</p></section><section id="sec-25"><title><p id="loc-387">19 — Restaurar nos seres o corpo de yang primordial — A posição oficial do mundo dos mortos sobre como lidar com os materiais pornográficos no mundo humano</p></title><p id="pt-b00388">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca.</p><p id="pt-b00389">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00390">Hoje, gostaria de perguntar ao magistrado: “Como devemos lidar com os materiais pornográficos e quais são os méritos de destruir esses materiais e realizar ações semelhantes?”</p><p id="pt-b00391">O magistrado disse: “Os materiais pornográficos devem necessariamente ser tratados por meio da destruição. Esse tipo de material não pode permanecer no mundo humano e precisa ser totalmente eliminado. Enquanto houver materiais desse tipo, a natureza espiritual inata das pessoas será contaminada, e essa contaminação destrói de modo direto e rápido o brilho de sua natureza espiritual inata.”</p><p id="pt-b00392">O yang primordial inato com que cada pessoa nasce é de pureza absoluta, de yang absoluto e luminoso. Se a luz da natureza espiritual de uma pessoa declina, se enfraquece ou desaparece, aquela existência se aproxima do fim. Algumas pessoas acham que não há problema em olhar, desde que não passem à ação, e consideram isso uma forma de conhecimento ou educação sexual. Na verdade, esse pensamento está errado. <a xlink:href="#n62-yang-primordial-e-linguagem-religiosa">[N62]</a></p><p id="pt-b00393">Não se deve olhar para materiais pornográficos nem mesmo uma única vez. Mesmo olhar uma só vez contamina a luz da natureza espiritual inata da pessoa. Além disso, uma semente de pornografia já terá sido plantada no campo de sua mente. Quando, no futuro, ela voltar a encontrar condições desfavoráveis, será muito difícil controlar a mente para que não se abale novamente.</p><p id="pt-b00394">Se jovens cujo corpo é de yang puro virem materiais pornográficos, sua mente certamente será abalada; apenas o grau desse abalo varia de pessoa para pessoa. Sobretudo nesta era de computadores e alta tecnologia, os sites pornográficos proliferam sem qualquer contenção. A mente de uma parcela considerável das pessoas fica tão abalada que a situação foge ao controle, levando à masturbação e a outras práticas. O yang primordial de pureza absoluta se perde imediatamente. Mesmo que não se perca por inteiro, parte dele se perde sem que a pessoa perceba e, com o passar do tempo, isso a leva a praticar conduta sexual imprópria.</p><p id="pt-b00395">Os materiais pornográficos destroem gravemente a castidade e a moralidade das pessoas, fazem os seres perderem todo o senso de vergonha e provocam a decadência moral. Reduzem suas bênçãos e sua longevidade nesta vida, desonram seus antepassados e interrompem sua descendência. Além disso, produzem os frutos cármicos maléficos da conduta sexual imprópria que os levarão aos infernos, onde sofrerão toda espécie de dores extremas.</p><p id="pt-b00396">Os textos anteriores já apresentaram detalhadamente as diversas retribuições imensuráveis e ilimitadas dos grandes infernos da conduta sexual imprópria, dos quais realmente não há prazo para sair. Muitas famílias são destruídas e perdem seus membros por causa da conduta sexual imprópria. Os materiais pornográficos são os principais responsáveis por levar as pessoas a praticá-la. Eles envenenam a mente, destroem os princípios do Céu e desordenam as relações humanas. São ainda mais poderosos que os venenos do mundo, pois envenenam a natureza espiritual e a vida de sabedoria das pessoas. Os venenos destroem apenas uma existência humana; os materiais pornográficos destroem o corpo de yang primordial puro e inocente, encerram a vida antes do tempo e levam a pessoa ao inferno para sofrer punições imensuráveis e ilimitadas. Além disso, mesmo quando ela finalmente consegue sair do inferno, depois de enormes dificuldades, ainda restam muitas retribuições pela conduta sexual imprópria que terá de pagar. Por exemplo: desenvolver diversas doenças relacionadas à prática de conduta sexual imprópria, sofrer vários tormentos mentais e assim por diante. Não é possível enumerar tudo.</p><p id="pt-b00397">Os seres que dispõem de recursos financeiros podem fazer o possível para comprar materiais pornográficos e destruí-los. As editoras e livrarias não devem distribuir nem vender materiais pornográficos. Diretores e atores não devem aceitar trabalhos em filmes pornográficos nem produzi-los por conta própria. Escritores, pintores ou quaisquer pessoas que publiquem livros não devem escrever livros e revistas de conteúdo pornográfico nem desenhar imagens pornográficas. Donos de empresas, chefes de determinadas regiões ou reis, pessoas dotadas de influência considerável, devem proibir rigorosamente e eliminar a existência de materiais pornográficos. Ao saber que tais materiais existem, devem ordenar imediatamente sua completa eliminação e destruição. Aqueles que não têm recursos financeiros nem se enquadram em nenhuma das condições acima podem, conforme as circunstâncias e oportunidades, fazer o possível para aconselhar e persuadir as pessoas envolvidas a destruir os materiais pornográficos.</p><p id="pt-b00398">Qualquer ser que se empenhe em destruir materiais pornográficos por qualquer um dos métodos acima terá, nesta vida, mais bênçãos e longevidade, será respeitado pelas pessoas, conservará seus bens e desenvolverá sua sabedoria. Se for um praticante espiritual e, em conformidade com o Dharma, aspirar à transcendência do mundo, terá seu desejo realizado e também progredirá gradualmente. No registro individual de boas e más ações, vida e morte mantido no mundo dos mortos, será inscrito um grande mérito por essa boa ação. Esse grande mérito basta para atenuar ou eliminar as causas maléficas anteriormente criadas que levariam ao inferno. Quanto aos detalhes, é preciso pedir aos budas, aos bodhisattvas e às altas autoridades do mundo dos mortos que julguem cada caso concreto.</p><p id="pt-b00399">“Ayu! Por hoje, terminamos aqui. Volte logo e escreva um artigo para todos.”</p><p id="pt-b00400">“Sim, magistrado do mundo dos mortos!” Eu, Ayu, uno as palmas das mãos em gratidão!</p><p id="pt-b00401">Volto sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-26"><title><p id="loc-402">20 — A retribuição pelo aborto e a Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros, onde ficam os espíritos dos bebês</p></title><p id="pt-b00403">Agradeço a bênção do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00404">Amitābha!</p><p id="pt-b00405">Magistrado do mundo dos mortos! Hoje eu, Ayu, gostaria de lhe perguntar sobre a retribuição pelo aborto.</p><p id="pt-b00406">O magistrado do mundo dos mortos: “O aborto é severamente punido no mundo dos mortos. As leis do mundo dos mortos estabelecem três formas de virtude oculta: a primeira é salvar vidas humanas; a segunda, ajudar as viúvas a manter a castidade; a terceira, praticar o bem supremo sem que ninguém saiba. Segundo a lei de causa e efeito, a virtude oculta é suficiente para transformar o destino. Desde a Antiguidade até hoje, muitos exemplos célebres de pessoas que se tornaram altos dignitários e nobres no mundo dos vivos e tiveram descendentes ilustres se devem à virtude oculta. Di Renjie, primeiro-ministro da dinastia Tang, quando jovem, a caminho da capital para prestar os exames, hospedou-se em uma estalagem. A bela viúva que era dona do estabelecimento tentou seduzi-lo tarde da noite, o que o pôs em alerta. Com seu coração íntegro, ele não só se manteve firme e se absteve de conduta sexual imprópria, como também aconselhou a bela viúva a observar as normas de conduta de uma mulher. Ensinou-lhe com todo o cuidado o método de contemplação da impureza do corpo, pelo qual ele próprio extinguia o desejo sexual. Depois de contemplar dessa maneira, a mulher sentiu vergonha e manteve sua fidelidade e retidão pelo resto da vida. Mais tarde, precisamente por não cobiçar aquela oportunidade inesperada de prazer carnal, Di Renjie tornou-se célebre em todo o império. Se uma pessoa do mundo dos vivos conseguir superar as provações dos vínculos cármicos determinados pelo destino, observar firmemente os preceitos de pureza e preservar intacta a nobreza de seu caráter, o Céu certamente não a tratará mal. As leis do mundo dos mortos também lhe concederão, em seu Registro da Vida e da Morte, um grande mérito oculto por essa boa ação, aumentando suas bênçãos e sua sabedoria. Na verdade, abortar é tirar a vida de um ser, violando o preceito de não matar. A criança é morta antes mesmo de nascer, quando sua natureza é bondosa. Essa transgressão equivale a matar os próprios pais ou fazer um Buda sangrar e, além disso, cria um vínculo negativo com a criança. Como se diz: sem gratidão nem ressentimento, ninguém se torna família.</p><p id="pt-b00407">Os vínculos entre filhos e pais são de dois tipos: cobrar dívidas e pagar dívidas. Se a criança veio pagar uma dívida, mas passa a sentir ressentimento por ter sido morta, o vínculo se torna negativo. Se ela já veio cobrar uma dívida, a situação é ainda mais complicada: ao vínculo negativo soma-se o ódio, aprofundando as causas e condições do endividamento.</p><p id="pt-b00408">Há três situações de aborto. Na primeira, os pais não provocam o aborto intencionalmente; é a criança que não dispõe de bênçãos suficientes. Por exemplo, a morte do feto no ventre, uma gravidez molar, uma doença da gestante ou diversas outras causas podem impedir o nascimento do bebê. Nesses casos, os adultos devem se arrepender, recitar sutras para ajudar o bebê a se libertar e dedicar-lhe os méritos, para que ele possa logo se livrar do sofrimento e alcançar a felicidade. <a xlink:href="#n63-perdas-de-gravidez-e-linguagem-do-relato">[N63]</a></p><p id="pt-b00409">Na segunda, o aborto é provocado por dificuldades econômicas. Isso não é permitido pelas leis do mundo dos mortos: não se pode matar por razões econômicas. A maneira de lidar com as situações é muito importante. Por mais árdua que seja a vida no mundo dos vivos, ela ainda é dez milhões de vezes melhor do que descer ao inferno para sofrer a retribuição depois de um aborto. Lembrem-se bem disso! Também é possível que esse bebê tenha vindo retribuir uma bondade e que, depois de seu nascimento, a situação econômica mude, tornando a família próspera e abastada. Naturalmente, é preciso examinar cada caso concreto. Esse aborto reduzirá as bênçãos ainda em vida — a saúde, a carreira, a fortuna e tudo o mais sofrerão reduções —, e será necessário descer ao Inferno da Floresta de Espadas para sofrer a retribuição durante 1.000 anos. Se os envolvidos não forem casados, terão de ir primeiro ao Inferno dos Chicotes e Bastões para sofrer a retribuição durante 500 anos. Depois, quando voltarem a nascer como seres humanos, ainda terão de pagar pela retribuição remanescente de terem matado. Por exemplo, as mulheres terão doenças ginecológicas, e os homens também terão doenças do sistema reprodutivo. <a xlink:href="#loc-1664">[N9]</a></p><p id="pt-b00410">A terceira é a situação mais comum hoje no mundo dos vivos. Muitos homens e mulheres solteiros, quando concebem um filho, recorrem ao aborto. Essa conduta traz a maior retribuição. Suas bênçãos são reduzidas ainda em vida e, quando a vida termina, eles entram primeiro no Inferno dos Chicotes e Bastões para sofrer a retribuição durante 800 anos e depois no Inferno da Floresta de Espadas, durante 2.000 anos. A culpa da mulher que aborta é maior do que a do homem, porque é ela quem toma a decisão final de fazer o aborto; por isso, sua culpa é um pouco maior. Por outro lado, se o homem exige que a mulher aborte, mas ela acaba preservando o feto e dando à luz, será registrada uma má ação para o homem e um mérito oculto por uma boa ação para a mulher. Se, posteriormente, o homem se arrepender, cuidar bem da criança e se empenhar em convencer as pessoas do mundo dos vivos a não abortar, esse carma negativo de incitar outra pessoa a abortar poderá ser eliminado. Ayu, quer ir visitar o lugar?”</p><p id="pt-b00411">Eu disse: “Quero, sim!” Logo chegamos. Esse lugar é diferente dos infernos da conduta sexual imprópria. Naqueles infernos há pensamentos lascivos de conduta sexual imprópria e sons de sofrimento por toda parte; aqui, o que predomina são gritos e choros carregados de ressentimento e dor. Olho para cima e vejo quatro grandes caracteres: “枉死哭城” — “Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros”.</p><p id="pt-b00412">Nossa! Tantas criancinhas! Estão por toda parte, amontoadas, e todas choram. O choro delas é tão doloroso! Ao vê-las, também começo a chorar. Alguns bebês gritam aos berros; outros parecem bolas de sangue.</p><p id="pt-b00413">O magistrado do mundo dos mortos diz que foi o médico quem os deixou assim durante o aborto. Há um espírito de bebê que sentiu tanto medo que continua encolhido ali, feito uma bolinha. Na verdade, agora ele já poderia se esticar, mas continua apegado àquele sofrimento e não consegue se libertar dele. Pergunto ao magistrado quando ele poderá deixar de sofrer tanto. O magistrado diz que isso depende de seus pais se arrependerem perante ele ou praticarem boas ações e lhe dedicarem os méritos. Há ainda outra, que está chamando pela mamãe. Pergunto ao magistrado como um espírito de bebê que ainda não nasceu pode chamar pela mamãe. Ele diz que, se esses bebês tivessem nascido como humanos no mundo dos vivos, só começariam a aprender a falar depois de um ano de idade. Mas agora eles já não estão no mundo humano: chegam ao inferno como seres espirituais, e os seres espirituais possuem poderes sobrenaturais e se valem do pensamento. Enfim, a situação dos espíritos dos bebês aqui é realmente terrível: eles choram e gritam sem parar. Ah! O Céu tem a virtude de prezar a vida. Jamais devemos, por interesse próprio, massacrar pequenas vidas inocentes.</p><p id="pt-b00414">O magistrado do mundo dos mortos me conta que essa “Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros” foi construída recentemente. Enquanto conversamos, espíritos de bebês continuam chegando sem parar. São realmente muitos, muitos!</p><p id="pt-b00415">Nesse momento, vejo um grande grupo de bebês sair voando, levando nas mãos uma folha de papel amarelo. Enquanto me pergunto o que está acontecendo, o magistrado diz que eles levam uma credencial de autorização aprovada pelo soberano do mundo dos mortos, o Rei Yama. Com essa credencial, os guardas do mundo dos mortos os deixam sair daqui para procurar seus pais. Na maioria dos casos, eles se alojam no corpo da mãe, fazendo com que ela se sinta mal. A localização exata depende da preferência do espírito do bebê. Alguns gostam de voltar à barriga da mãe e se alojam no útero; outros gostam de se alojar no peito dela, e assim por diante. Alguns seguem a mãe ou o pai o tempo todo; outros não deixam os pais dormir. Enfim, criam problemas a qualquer momento. Se outros filhos nascerem, o espírito do bebê perturbará a harmonia familiar, por exemplo, batendo nos irmãos e irmãs mais novos e provocando deliberadamente muitos incidentes para expressar aos pais seu ressentimento e sua indignação.</p><p id="pt-b00416">À direita daqui há uma cidade antiga, de setenta anos atrás, chamada “Cidade da Mácula de Sangue”. Agora, a “Cidade da Mácula de Sangue” já não tem espaço suficiente. Nos espíritos dos bebês que estão ali, sinto uma solidão mais intensa. O magistrado do mundo dos mortos diz que todos os espíritos de bebês cujos abortos não foram intencionais são colocados aqui. Ah! Então é isso! Não admira que todos chorem sozinhos.</p><p id="pt-b00417">O magistrado também diz que, setenta anos atrás, poucas pessoas provocavam abortos intencionalmente. Naquela época, a maioria era de espíritos de bebês que não tinham podido nascer por não disporem de bênçãos suficientes. Hoje, porém, no mundo dos vivos, predominam os abortos intencionais. Tomar a pílula do dia seguinte no mundo dos vivos também constitui a transgressão de matar. São incontáveis os espíritos de bebês que já haviam sido concebidos e foram efetivamente abortados por causa do uso da pílula do dia seguinte. <a xlink:href="#loc-1776">[N64]</a></p><p id="pt-b00418">O magistrado do mundo dos mortos acrescenta: “Hoje chegam todos os dias espíritos de bebês abortados no mundo dos vivos para se apresentar aqui, e noventa por cento deles foram abortados por causa de conduta sexual imprópria. Trata-se de um grande carma negativo de matar. A conduta sexual imprópria, somada ao ato de matar, formará uma calamidade de carma negativo coletivo. Quando essa força cármica atingir um ponto em que se perca o equilíbrio entre o Céu e a Terra, uma calamidade inevitavelmente ocorrerá no mundo humano, causada por essas forças de ressentimento. Eles precisam descarregar sua indignação; essa parcela de grande carma negativo precisa se dissipar por meio de calamidades. Ayu! Volte logo e alerte os seres sencientes do mundo dos vivos sobre essa retribuição pelo aborto!” <a xlink:href="#n65-a-porcentagem-citada">[N65]</a></p><p id="pt-b00419">Sim! Agradeço todo o seu trabalho de hoje, magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00420">Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos! Volto sobre a flor de lótus branca.</p><p id="pt-b00421">Eu, Ayu, gostaria de compartilhar com todos uma passagem do volume 56 do Sutra Mahāratnakūṭa — “Décima quarta assembleia: ensinamento do Buda sobre a entrada no ventre, parte um”. O Buda disse: “Conforme o lugar onde deva renascer em razão de seu carma anterior, o ser no estado intermediário assume a forma correspondente. Se for um ser intermediário destinado ao reino celestial, terá a cabeça voltada para cima; os destinados a renascer como humanos, animais ou espíritos seguem na horizontal; os destinados ao inferno têm a cabeça voltada diretamente para baixo. Todos os seres no estado intermediário possuem poderes sobrenaturais e se deslocam pelo espaço; tal como com o olho celestial, veem de longe o lugar onde nascerão.” <a xlink:href="#loc-1780">[N66]</a></p><p id="pt-b00422">“Somente quando pai, mãe e filho possuem carmas que os vinculam entre si é que se dá a entrada no ventre materno. Além disso, quando aquele ser no estado intermediário deseja entrar no ventre, sua mente se torna iludida. Se for masculino, sente amor pela mãe e aversão pelo pai; se for feminino, sente amor pelo pai e aversão pela mãe.”</p><p id="pt-b00423">Toda vida que chega precisa reunir os diversos vínculos com ambos os pais; sem esses vínculos, não há entrada no ventre. Quando uma vida chega por haver esse vínculo, devemos valorizá-la. Sejam os vínculos bons ou ruins, quando as causas e condições se reúnem, cada um tem de sofrer sua própria retribuição. Que todos os seres sencientes que já praticaram abortos possam se arrepender sinceramente, recitar o nome do Buda e dedicar os méritos aos pobres espíritos dos bebês. Que eles possam logo renascer na Terra Pura do Ocidente, libertando-se do sofrimento e alcançando a felicidade!</p></section><section id="sec-27"><title><p id="loc-424">21 — A grande denúncia dos espíritos dos bebês — A credencial amarela do Rei Yama</p></title><p id="pt-b00425">Agradeço a bênção do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00426">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00427">O magistrado do mundo dos mortos está tratando dos casos dos espíritos dos bebês da “Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros”. Ouço o espírito de uma menina gritar: “Eu odeio vocês, odeio vocês profundamente! Nunca vou deixar vocês em paz! Que vocês tenham uma morte terrível em todas as suas vidas! Nunca vou deixar vocês em paz! Com certeza voltarei para me vingar de vocês.” Ela continua gritando de dor. Nossa! Como um espírito de bebê tão pequeno pode ter um ressentimento tão intenso! Essa menina parece um pouco maior do que os outros espíritos de bebês. O magistrado diz que ela tinha mais de seis meses de gestação e que, depois que seus pais souberam que era menina, foi abortada pela segunda vez. Nas duas vezes, foi abortada com mais de seis meses de gestação. Por isso, o espírito da menina apresentou uma queixa ao soberano do mundo dos mortos, o Rei Yama, que autorizou sua entrada no ventre mais uma vez para cobrar a dívida.</p><p id="pt-b00428">Vou até lá conversar um pouco com o espírito da menina. Recito “Amitābha” para ela e pergunto por que odeia tanto os pais. Não seria melhor deixar isso para lá e não voltar a procurá-los? Afinal, eles não querem uma menina. Mesmo que você renasça na família deles, eles não a tratarão bem. Para que sofrer assim?</p><p id="pt-b00429">O espírito da menina então começa novamente a chorar aos berros. Ela diz que não: mesmo que precise ir aos confins do mundo, terá de se vingar e certamente não deixará os pais em paz.</p><p id="pt-b00430">Muito agitada e sofrendo, ela diz que eles já a mataram pela segunda vez. Durante o segundo aborto, até a médica disse que seria perigoso fazer aquilo, mas seus pais responderam que o mais importante era preservar a mãe e que ela ficasse bem. Já não queriam a criança, portanto deveriam usar o método mais favorável à mãe.</p><p id="pt-b00431">O espírito da menina conta, chorando, que naquele momento golpeou e chutou com toda a força, usando mãos e pés dentro da barriga da mãe, na esperança de conseguir sair um pouco antes. Mas a médica segurou sua cabeça com a mão e lhe deu uma injeção. Então, de repente, ela começou a sentir o corpo inteiro entorpecido, dolorido e sem forças. Depois, a médica cortou primeiro sua mão direita em dois pedaços com uma tesoura, segurou-os com uma pinça e os retirou. Em seguida, cortou seus pés em quatro pedaços, que foram retirados por sucção com uma ventosa. Naquele momento, ela sentiu uma dor intensa e um frio que penetrava até os ossos. Seu corpo sofreu o mesmo destino.</p><p id="pt-b00432">O espírito da menina continua contando, entre lágrimas: “Minha cabeça, minhas orelhas e meus olhos foram cortados, pedaço por pedaço. O que mais doeu foi quando cortaram a cabeça. A médica a cortou muitas vezes, depois usou um gancho em forma de faca pontiaguda para me puxar para fora, segurou-me com uma pinça e fez outras coisas. Cada vez que a médica me cortava, eu sentia uma dor terrível. Meu corpo inteiro estava sem forças para resistir, e o sangue não parava de escorrer. Jamais, jamais esquecerei esse sofrimento. Além disso, a médica que fez o aborto desta vez não tinha muita experiência. Seus movimentos eram mais lentos do que os de quem realizara o aborto anterior, e ela ainda cometeu erros. Poderia ter feito menos cortes, mas, como errou e não fez direito, usou mais instrumentos, aumentando a dor. Por exemplo, usou a haste de agitação, a ventosa, o gancho e outros instrumentos mais vezes do que no aborto anterior. Todos esses sofrimentos aconteceram porque aqueles dois não me queriam. Não vou causar problemas à médica, porque ela chegou a sugerir que eles me deixassem nascer, mas eles não a ouviram. Foram eles que não me deixaram ver a luz do sol. A culpa é deles. Quiseram minha morte uma vez após a outra. Vou odiar aqueles dois para sempre! Quero que tenham sempre uma morte terrível, uma morte terrível! Nunca vou deixá-los em paz.” Segue-se outra onda de choro doloroso. Ah! Que situação! Um ressentimento tão profundo e uma vontade tão forte de se vingar! Parece que esse casal de pais no mundo dos vivos realmente precisa se arrepender com grande empenho. Afinal, que diferença faz ter um menino ou uma menina? <a xlink:href="#loc-1782">[N67]</a></p><p id="pt-b00433">O magistrado do mundo dos mortos diz: “O Rei Yama já autorizou novamente o espírito dessa menina a renascer na família dos mesmos pais para cobrar a dívida. Desta vez, ela poderá permanecer no útero da mãe segurando uma credencial amarela na mão. Quando adquirir forma humana, essa credencial amarela ficará justamente na região dos órgãos genitais, e o médico pensará, por engano, que ela é um menino. Durante a gestação, ela receberá o carinho dos dois pais, que aguardarão ansiosamente sua chegada. Naturalmente, no fim eles ficarão decepcionados: nascerá uma menina. Essa é a sentença do Rei Yama. Eles não cumpriram seus deveres, violaram as normas das leis do mundo dos mortos e cometeram o crime de matar. Esses pais originalmente tinham uma situação familiar favorecida por boas bênçãos, mas, por terem matado em dois abortos, já tiveram suas bênçãos reduzidas em todos os aspectos, assim como sua longevidade. Depois, ainda terão de sofrer a retribuição da falta de respeito filial dessa menina para com eles. Na verdade, não é que o Rei Yama tenha decretado que esses pais devam sofrer no futuro; foram eles próprios que não respeitaram a lei universal de não matar pessoas. Se, na primeira gravidez, tivessem permitido que essa criança nascesse, não teriam tido suas bênçãos reduzidas em todos os aspectos nem sua longevidade diminuída. Criada tal causa, colhe-se tal fruto. Seja qual for o ser que se mate, no futuro será preciso sofrer a retribuição de ser morto por ele, ter vida curta e padecer de muitas doenças. Por mais rapidamente que a tecnologia avance com o passar das épocas, os três princípios fundamentais de virtude oculta das leis do mundo dos mortos — salvar vidas humanas, ajudar as viúvas a manter a castidade e praticar o bem supremo sem que ninguém saiba — jamais mudarão. Os padrões do Céu, da Terra e das relações humanas também jamais mudarão. Toda vida tem o direito de existir. Todos os dias, chegam ao mundo dos mortos espíritos de bebês em número excessivo para se apresentar, porque seus futuros pais no mundo dos vivos provocaram abortos intencionalmente. As leis do mundo dos mortos punirão severamente os seres que matam dessa maneira. Até mesmo incitar outra pessoa a abortar reduz as bênçãos e a longevidade; quanto mais realizar o próprio aborto. Por outro lado, convencer outras pessoas a não abortar pode aumentar as bênçãos e prolongar a vida. O mundo dos mortos registrará no Registro da Vida e da Morte de cada pessoa um grande mérito oculto por essa boa ação. Agir assim beneficia tanto a si mesmo quanto aos outros.”</p><p id="pt-b00434">O magistrado do mundo dos mortos continua a me instruir: “Hoje, os seres do mundo dos vivos carecem gravemente da noção de causa e efeito. Pensam que, como a criança ainda não nasceu, ela não sabe de nada. Na verdade, a partir da concepção, uma vida já é igual a uma pessoa; apenas é ainda muito frágil. Esses seres têm memória e também podem sentir dor. Em especial, os espíritos dos bebês que já adquiriram forma humana sentem a dor com maior intensidade do que os que foram concebidos há apenas um mês, e assim por diante. Ayu, basta ouvir as denúncias dos espíritos dos bebês da ‘Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros’ para compreender que as doenças ginecológicas, as dores lombares, as dores de cabeça e as diversas doenças persistentes que resistem a longos tratamentos nas mães que abortaram no mundo dos vivos estão relacionadas a esses espíritos de bebês.” <a xlink:href="#loc-1784">[N68]</a></p><p id="pt-b00435">Olho para essa “Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros”: ela é imensamente grande. Com minha capacidade, realmente não consigo enxergar seus limites. Lá dentro, o choro é contínuo e ensurdecedor. É de dar uma pena sem fim!</p><p id="pt-b00436">Antes de partir, vou ver mais uma vez o espírito daquela menina que está prestes a renascer. Digo: “Amitābha! Irmãzinha, não chore mais. Lembre-se de respeitar e cuidar de seus pais depois de renascer! Afinal, também será muito penoso para sua mãe carregá-la no ventre durante dez meses. E quando terminará esse ciclo de vinganças? Já que o Rei Yama lhe concedeu uma credencial e desta vez você não sofrerá novamente um aborto, deixe isso para lá.” O espírito da menina responde imediatamente, com raiva, que isso é impossível e que certamente não deixará os pais em paz. <a xlink:href="#n69-os-dez-meses">[N69]</a></p><p id="pt-b00437">Digo: “Pense assim! Sem a credencial do Rei Yama, talvez você tivesse de esperar sabe-se lá quanto tempo para poder renascer. Você deve ser grata ao Rei Yama!” Ao me ouvir dizer isso, ela para de chorar, como se concordasse que deve ser grata a ele. Digo que ela deve agradecer a bondade do Rei Yama. Ela responde que deve ser grata a ele, mas que ainda assim não deixará os pais em paz.</p><p id="pt-b00438">“Está bem! Irmãzinha, eu, Ayu, preciso ir. Amitābha! Espero que no futuro você não passe mais por acontecimentos desagradáveis. Cuide-se muito.”</p><p id="pt-b00439">Uno as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos! Obrigada, magistrado!</p><p id="pt-b00440">Por hoje, eu, Ayu, me despeço. Volto sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-28"><title><p id="loc-441">22 — A retribuição nesta vida e na próxima para médicos que realizam abortos — 100.000 anos de encarceramento e punição no Inferno da Fragmentação</p></title><p id="pt-b00442">Na cidade onde vivo, os jornais frequentemente publicam notícias de adolescentes que desmaiam em casa depois de um aborto e precisam ser levadas de ambulância ao hospital para receber tratamento; ou que matam e abandonam seus bebês recém-nascidos. Algumas nem chegam a matá-los antes: simplesmente os jogam de uma altura de vinte a trinta andares. Isso é realmente um absurdo. A causa está nos maus costumes da sociedade atual. Por toda parte há anúncios que despertam pensamentos nocivos. Até os anúncios de relógios mostram moças com roupas decotadas e ainda dizem coisas como: ‘Não importa que dure para sempre; importa ter vivido esse amor.’ Outros anúncios, como os de roupas íntimas e emagrecimento, são ainda mais indecentes. Há imagens e anúncios em vídeo demais que entorpecem a consciência com todo tipo de prazeres amorosos entre homens e mulheres. Além disso, a mídia divulga continuamente a vida privada sexualmente desregrada de ídolos e celebridades, a promiscuidade e os casos extraconjugais, enfraquecendo os valores morais e levando os jovens de hoje a pensar, equivocadamente, que isso significa estar na vanguarda de sua época. Assim, embora tenham pouco conhecimento sobre sexualidade, os jovens adotam comportamentos sexuais ousados e liberais. Na verdade, isso é uma degradação espiritual.</p><p id="pt-b00443">É justamente a influência dessas notícias negativas da mídia que também faz com que a situação dos abortos se agrave a cada dia e provoca muitos problemas sociais. Apenas não se dá a devida atenção a isso porque as pessoas não sabem. Pelo que se sabe, no Japão há pelo menos dois mil templos dedicados especificamente a fazer oferendas aos espíritos dos bebês, o que permite perceber como o número de abortos no Japão é espantoso. Em Taiwan, em 1997, estimava-se que o número anual de abortos fosse de trezentos mil; para 1999, a estimativa era de quatrocentos mil; para 2000, de quinhentos mil. Esses números são apenas estimativas por amostragem; os números reais e exatos não são divulgados ao público. <a xlink:href="#loc-1796">[N74]</a></p><p id="pt-b00444">Uma pesquisa realizada no estado de Minnesota, nos Estados Unidos, mostrou que a taxa de suicídio entre adolescentes nos seis meses posteriores a um aborto é dez vezes a das adolescentes que não abortaram. Outros estudos relacionados também apontam que, entre adolescentes com histórico de múltiplos abortos, o risco de suicídio e de transtornos mentais nos seis meses posteriores ao aborto é ainda maior. <a xlink:href="#loc-1788">[N70]</a></p><p id="pt-b00445">Vejamos agora o que os sutras budistas dizem sobre a retribuição por matar. São realmente muitos os textos que tratam disso. Primeiro, vejamos o que diz o Sutra dos Preceitos do Upāsaka: “Todos os seres que matam recebem, nesta vida, má aparência, pouca força, má reputação e vida curta; seus bens se esgotam, seus familiares se separam, os sábios e os santos os censuram, as pessoas não confiam neles e, quando outros cometem crimes, eles sofrem injustamente as consequências. Isso se chama fruto do carma negativo na vida presente. Depois de abandonar este corpo, cairão no inferno, onde sofrerão muitas aflições, fome e sede, terão vida longa, má aparência, pouca força, má reputação e coisas semelhantes. Isso se chama fruto do carma negativo em vidas futuras. Se obtiverem um corpo humano, voltarão a ter má aparência, vida curta e pobreza. Pela força das causas e condições de uma só pessoa má como essa, todos os cereais, frutos de árvores e frutos de plantas rasteiras no mundo exterior diminuem. A calamidade dessa pessoa se estende a todo um mundo.” <a xlink:href="#n71-fonte-do-primeiro-trecho">[N71]</a></p><p id="pt-b00446">Vejamos também o que o Buda diz no Sutra da Rede de Brahmā: “Todos os homens são meus pais. Todas as mulheres são minhas mães. Em todas as minhas vidas, deles recebi o nascimento.” O Buda disse: “Filhos do Buda, seja matar pessoalmente, mandar outros matar, matar por meio de expedientes, elogiar a matança, alegrar-se ao ver alguém matar ou até matar por meio de encantamentos; sejam as causas, as condições, os métodos ou o carma de matar: nenhum ser que tenha vida deve ser morto intencionalmente. Um bodhisattva deve cultivar constantemente um coração compassivo e um coração de piedade filial, recorrendo a meios hábeis para salvar e proteger todos os seres. Se, ao contrário, der livre curso aos próprios desejos e matar seres vivos por prazer, cometerá uma transgressão pārājika de bodhisattva.” Em muitos sutras, o Buda já explicou detalhadamente as retribuições infernais por matar seres vivos. <a xlink:href="#loc-1792">[N72]</a></p><p id="pt-b00447">Agora vou ao inferno perguntar ao magistrado do mundo dos mortos qual é a retribuição dos médicos que realizam abortos em outras pessoas.</p><p id="pt-b00448">Peço a proteção do poder do Buda! Parto sobre o lótus branco!</p><p id="pt-b00449">Amitābha! Eu, Ayu, junto as palmas das mãos e saúdo o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00450">Hoje gostaria de perguntar ao magistrado do mundo dos mortos qual é a retribuição dos médicos que realizam abortos em outras pessoas.</p><p id="pt-b00451">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Há 70 anos, os médicos que realizavam abortos precisavam apenas passar 1.000 anos no Inferno dos Uivos, 1.000 anos no Inferno das Folhas de Espada, 1.000 anos no Inferno do Dilaceramento do Coração, 1.000 anos no Inferno do Gelo e 1.000 anos no Inferno das Flechas nos Olhos. Só podiam se libertar dos sofrimentos do inferno depois que todos os espíritos dos bebês prejudicados conseguissem renascer no mundo humano. Era preciso avaliar como estava a recuperação espiritual desses médicos para então decidir quando poderiam renascer no mundo humano. Ao renascerem como humanos, teriam vida curta e muitas doenças. Em geral, sofreriam de dormência nos ombros, no pescoço, nas mãos, nos pés e em outras partes do corpo, nervosismo, dores de cabeça, dores na região lombar e nas costas, epilepsia, rinite crônica, diversas doenças ginecológicas, impossibilidade de consumar a união conjugal, câncer de mama, câncer de útero, necessidade de urinar à noite e assim por diante. Não é possível descrever de uma só vez todos os sintomas. Em suma, qualquer sofrimento que os médicos tenham feito os espíritos dos bebês suportar durante os abortos, eles também terão de suportá-lo, na forma de doenças, quando renascerem como seres humanos. Os medicamentos do mundo humano não conseguirão curá-los; somente quando esse carma for eliminado é que as doenças se curarão. Essa era a retribuição dos médicos que realizavam abortos em outras pessoas há 70 anos.</p><p id="pt-b00452">Hoje, a retribuição dos médicos que realizam abortos no mundo dos vivos já começa em vida, com a redução de suas bênçãos e de sua longevidade em todos os aspectos. Sua sorte na família, na carreira e nas finanças diminui por completo. Os primeiros sintomas são dores de cabeça, na região lombar, nas costas, nos ombros e nas mãos. Ao fim da vida, devem primeiro entrar no Inferno da Fragmentação e sofrer a retribuição durante 100 mil anos; depois, são enviados a cada um dos infernos que acabei de mencionar para receber punição. Atualmente, os médicos que realizam abortos em outras pessoas matam em grande quantidade a cada dia, envolvendo um grande número de vidas. Além disso, os instrumentos usados hoje nos abortos causam aos espíritos dos bebês danos e sequelas maiores do que antes. Por isso, o carma negativo que os médicos de hoje plantam ao realizar abortos também é mais pesado.</p><p id="pt-b00453">Na verdade, também são bastante numerosos os problemas de perturbação espiritual que surgem entre esses futuros pais, porque o aborto faz os espíritos dos bebês sentirem ressentimento. Os espíritos de bebês que você viu antes, segurando credenciais amarelas de autorização, estavam todos saindo para procurar os futuros pais e vingar suas mágoas. São esses os chamados problemas de perturbação espiritual. Quanto às desgraças que acontecem, elas abrangem muitos aspectos: nos casos mais leves, há possessão, doenças prolongadas e uso contínuo de remédios; nos mais graves, há até risco de vida, entre outras coisas. Além disso, muitas crianças eram, originalmente, seus próprios antepassados renascendo. <a xlink:href="#loc-1794">[N73]</a></p><p id="pt-b00454">Ayu, vá agora visitar o ‘Inferno da Fragmentação’! Quando voltar, escreva sobre ele em detalhes para alertar as pessoas do mundo!”</p><p id="pt-b00455">Está bem! Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos! Vou imediatamente ao “Inferno da Fragmentação”.</p><p id="pt-b00456">Percebo que todos os infernos têm uma característica em comum: antes mesmo de entrar, já se ouvem gritos de dor e gemidos ensurdecedores. Essa é uma característica dos infernos que nunca muda. Portanto, dizer que o inferno é o lugar de maior sofrimento não é nenhum engano. Nunca venham ao inferno. Nesse momento, vejo alguns espíritos de mulheres sendo empurrados por muitos yakshas para dentro de cavidades redondas de ferro, muito pequenas, vermelhas e cheias de um fedor de sangue e podridão, uma cavidade para cada uma. Essas cavidades são tão pequenas que, por mais que as forcem para dentro, os corpos dos espíritos das mulheres simplesmente não cabem! Elas dão meia-volta e correm, mas não adianta. Os yakshas são muito ferozes! Gritando furiosamente, eles espetam os espíritos das mulheres com os forcados pontiagudos que têm nas mãos e os enfiam à força nas cavidades de ferro. Os espíritos das mulheres sangram pelo corpo inteiro, suas mãos e seus pés se quebram e, por fim, conseguem ser enfiados completamente lá dentro. Depois, os yakshas abanam as cavidades de ferro com leques, e os espíritos das mulheres parecem não ter sofrido nada: todos se recompõem. Nesse momento, os yakshas pegam ganchos em forma de facas pontiagudas para puxá-los para fora. Os espíritos das mulheres soltam gritos lancinantes de dor, mas é simplesmente impossível saírem. Então os yakshas pegam tesouras e cortam os espíritos das mulheres em pedaços, um por um, deixando o chão coberto de sangue. Quando todas as partes dos corpos estão do lado de fora, os yakshas usam ventosas para reuni-las por sucção, e elas voltam à vida. Assim, o ciclo recomeça, e essa punição dolorosa continua. Ah! É terrível demais! Não quero continuar olhando; é sofrimento demais! Amitābha! Nunca façam mal aos outros. Esse sofrimento é não sei quantas centenas ou milhares de vezes maior que o de dar à luz!</p><p id="pt-b00457">Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos por seu trabalho. Eu, Ayu, junto as palmas das mãos em reverência a ele! Volto sobre o lótus branco.</p></section><section id="sec-29"><title><p id="loc-458">23 — Criança, por favor, não chore — O magistrado do mundo dos mortos explica detalhadamente as formas de reparar as consequências do aborto</p></title><p id="pt-b00459">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00460">Amitābha! Eu, Ayu, prostro-me diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00461">Hoje gostaria de perguntar ao magistrado do mundo dos mortos: “Quais são as formas de reparar as consequências do aborto, e como vocês veem a questão dessa reparação?”</p><p id="pt-b00462">O magistrado do mundo dos mortos disse: “No mundo dos vivos, qualquer que seja o motivo que leve os pais a um aborto, uma vez consumado o aborto, o carma de matar já está constituído. No Registro da Vida e da Morte do inferno, já ficará anotado em que ano e em que mês mataram um bebê ainda não nascido, e, ao fim da vida, entrarão no grande salão do mundo dos mortos, no inferno, para serem julgados e punidos. Se isso ocorrer porque o próprio espírito do bebê não possui bênçãos suficientes para nascer no mundo humano, esses pais não precisarão entrar no inferno para receber punição. Mesmo assim, precisarão se arrepender de seu próprio carma e da escassez de suas bênçãos, que os impediram de trazer a criança ao mundo humano. Devem se arrepender e dedicar os méritos, desejando que o espírito do bebê possa ascender o quanto antes e renascer em um destino favorável. Tudo está interligado por relações de causa e efeito. Se o espírito do bebê consegue entrar no ventre, é porque existem inúmeros vínculos cármicos, bons e maus, de vidas passadas entre ele e os futuros pais. Quanto à morte no decorrer da gestação, trata-se de carma fixo que, segundo as leis do mundo dos mortos, não pode ser alterado. Isso resulta de tanto o espírito do bebê quanto os futuros pais terem cometido, em vidas passadas, atos de matar, roubar e praticar conduta sexual imprópria. <a xlink:href="#n75-perda-gestacional-e-responsabilidade">[N75]</a></p><p id="pt-b00463">O aborto é doloroso para o espírito do bebê. Na maioria dos casos, todo o sofrimento que ele suportou terá de ser suportado uma vez mais, no futuro, pelos pais que o esperavam. Há ainda dois fatores que exigem que o tempo de punição seja dobrado. O primeiro é quando se passa muito tempo: nesse caso, ele precisa ser dobrado. Esse intervalo é contado a partir do momento do aborto. Se os futuros pais nunca se arrependerem, agirem como se nada tivesse acontecido e não acreditarem no ciclo de causa e efeito e das retribuições cármicas, enquanto o espírito do bebê sofre sozinho na ‘Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros’, no inferno, chorando de dor e ressentimento, seu sofrimento continuará se prolongando, e seu ressentimento se aprofundará cada vez mais. Em alguns casos, os futuros pais no mundo humano possuem muitas bênçãos e, por isso, não recebem a retribuição imediatamente: ela precisa esperar até que suas bênçãos se esgotem. Alguns talvez só recebam a retribuição na vida seguinte, de modo que, nesses casos, o intervalo será mais longo. Mas a relação de causa e efeito regida pelas leis do mundo dos mortos jamais se confundirá por causa da passagem do tempo, da mudança das épocas ou da aparência. Não é que não haja retribuição; apenas ainda não chegou a hora. A lei de causa e efeito não falha em nada. Todo esse carma de causa e efeito acumulado ao longo do tempo recairá sobre os pais que abortaram. Por isso, todos os futuros pais que já passaram por um aborto devem, o quanto antes, despertar um arrependimento sincero e enfrentar esse problema para resolvê-lo. Caso contrário, sofrerão inevitavelmente o carma da cobrança de dívidas pelo espírito do bebê e dificilmente escaparão da retribuição implacável das leis do mundo dos mortos.</p><p id="pt-b00464">O segundo fator é encontrar um espírito de bebê com um apego particularmente forte; nesse caso, o tempo de punição deve ser dobrado. Entre os pais do mundo dos vivos, depois de um aborto, a culpa da mãe é especialmente mais pesada, pois é ela quem toma a decisão final de abortar. Muitas mães do mundo dos vivos só decidem não abortar no último momento. Essas mães podem acumular os méritos e as boas ações de salvar uma vida. Quando se encontra um espírito de bebê com forte apego, na maioria das vezes trata-se de uma criança que veio renascer para cobrar uma dívida, mas que, infelizmente, voltou a encontrar o destino de ser abortada. Assim, esse vínculo cármico negativo se torna muito profundo. Ou seja, o ressentimento já era profundo quando o espírito veio renascer; somado à dor e ao ressentimento de sofrer um aborto, esse vínculo negativo se aprofunda demais, e a retribuição terá de ser dobrada.</p><p id="pt-b00465">Quanto às formas de reparar as consequências do aborto, existem duas: uma é recorrer à força interior, isto é, dissolver o problema pela força do arrependimento sincero no coração; a outra é recorrer à força exterior, acumulando bênçãos e praticando o bem para, pouco a pouco, atenuar o ressentimento do espírito do bebê pelo ocorrido. Somente essas duas formas podem reparar as consequências do aborto. Não é possível generalizar quanto tempo será necessário em cada caso. Naturalmente, quanto maior o número de abortos, mais longo será o tempo necessário, pois cada aborto estabelece um vínculo cármico negativo com o espírito de um bebê. A profundidade desse vínculo negativo depende do carma de vidas passadas entre os futuros pais e aquele espírito. Se o vínculo era favorável, a situação será um pouco melhor: ele veio retribuir um favor e, naturalmente, haverá menos problemas no futuro. Mas, como o aborto causa sofrimento ao espírito do bebê, o vínculo originalmente favorável se transforma em negativo. Se ele veio por um vínculo negativo, o aborto agravará ainda mais a situação e tornará o ressentimento mais profundo. Cada aborto causa enorme sofrimento ao espírito do bebê. A intensidade desse sofrimento também varia de caso para caso e, em geral, aumenta gradualmente com o tamanho do feto: quanto maior o feto, maior o sofrimento e mais forte o ressentimento. <a xlink:href="#loc-1800">[N76]</a></p><p id="pt-b00466">O carma do aborto se forma de várias maneiras. Atualmente, a maioria dos espíritos de bebês abortados está nessa situação porque as pessoas praticaram conduta sexual imprópria. É aí que está o grave problema. Todos os envolvidos no carma do aborto — os futuros pais, os médicos e as pessoas que instigam outros a realizar um aborto que chega a se consumar — devem sofrer a retribuição do inferno. Se um bebê foi abortado, será preciso avaliar a intensidade do ressentimento e do apego de seu espírito. Mas, sejam eles profundos ou superficiais, o vínculo negativo já foi estabelecido. Quem amarrou o sino é quem deve desatá-lo. Qualquer que seja a razão do aborto, os futuros pais no mundo dos vivos precisam sentir profunda vergonha e remorso. Depois do aborto, devem pedir perdão ao espírito do bebê todos os dias, com a máxima sinceridade, para assim atenuar seu ressentimento. Por serem espíritos, eles possuem a capacidade de conhecer a mente alheia e podem saber o que pensam seus pais no mundo dos vivos. Por isso, é indispensável ser sincero. Se for apenas uma formalidade mecânica para cumprir uma obrigação, sem arrependimento verdadeiro, não terá utilidade. É preciso fazer isso todos os dias com a máxima sinceridade, de maneira suficientemente sincera e fervorosa. No início, podem surgir muitos desconfortos. Os mais comuns são dores de cabeça, no peito, nas mãos, nos pés, na região lombar e nas costas, tensão emocional e muitos outros, impossíveis de enumerar por completo, pois variam de pessoa para pessoa. Uma pequena parcela dos futuros pais no mundo dos vivos precisa suportar certas dores físicas específicas, conforme o carma que têm com o espírito do bebê. O que foi mencionado acima é uma sensação de dor que, em geral, surgirá em todos os futuros pais. Alguns sentirão todas as dores mencionadas; outros têm um carma de aborto menos pesado, pois não abortaram intencionalmente: o aborto ocorreu porque o próprio feto não possuía bênçãos suficientes para nascer no mundo humano. A situação desses pais será relativamente melhor, mas eles também precisarão se arrepender para que o espírito do bebê possa ascender o quanto antes. Desde que foram abortados, os espíritos dos bebês que estão no inferno permanecem na ‘Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros’, esperando, com tristeza e indignação, que o Rei Yama os julgue logo e autorize a emissão das credenciais amarelas do mundo dos mortos. Assim que recebem essas credenciais, podem vir ao mundo humano para se vingar. Nesse momento, a sorte dos futuros pais no mundo humano certamente cairá em todos os aspectos, e todo tipo de obstáculo surgirá no trabalho, na carreira, na saúde, nas relações pessoais e assim por diante. Como há futuros pais demais realizando abortos todos os dias no mundo humano, também surgem muitas doenças no mundo dos vivos. Por exemplo: enxaquecas que não se curam apesar de repetidos tratamentos, todo tipo de doença ginecológica persistente, doenças sexualmente transmissíveis, transtornos psicóticos e assim por diante. Tudo isso é provocado pelo aborto. Essas doenças só podem ser resolvidas pela força do arrependimento sincero, pela prática do bem e pelo acúmulo de virtude. Caso contrário, haverá apenas desperdício de dinheiro, de tempo e de medicamentos do mundo humano; talvez o problema nem sequer se resolva durante toda uma vida, estendendo-se à seguinte, em que continuará o carma ainda não encerrado. Essa reparação precisa ocorrer nos pensamentos e nas intenções. O surgimento de um pensamento ou de uma intenção é muito importante: uma única intenção humana é capaz de atravessar o tempo e o espaço e concretizar acontecimentos bons ou maus. Lembrem-se de que, depois de um aborto, é preciso arrepender-se pessoalmente, e não pagar a outra pessoa para que se arrependa e recite sutras em seu lugar. No mundo dos vivos, existem muitos lugares que realizam oferendas rituais aos espíritos de bebês, mas a maioria, na verdade, não produz efeito algum e apenas desperdiça dinheiro. <a xlink:href="#loc-1802">[N77]</a></p><p id="pt-b00467">Os futuros pais que abortaram devem, por um lado, expressar todos os dias seu arrependimento ao espírito do bebê e pedir-lhe perdão com a máxima sinceridade; por outro, devem recitar pessoalmente o Sutra de Kṣitigarbha ou outros sutras budistas. Quem tiver condições deverá também libertar mais seres vivos e dedicar os méritos ao espírito do bebê. O aborto é um ato de matar, que acumula carma negativo e atrai sofrimento. Toda futura mãe que abortou certamente sentirá no coração uma culpa indefinida. Essa culpa é causada pelo carma do aborto e deve ser eliminada e resolvida pela força do arrependimento no coração, obtendo o perdão do espírito do bebê. Algumas futuras mães talvez digam que não sentem essa culpa. Na verdade, não é que ela não exista: seus hábitos arraigados e suas aflições são apenas grosseiros e pesados demais; em outras palavras, seus obstáculos cármicos são tão pesados que encobrem a percepção. Libertar seres vivos, por sua vez, salva vidas e atrai bons auspícios. Quando são libertados, esses seres ficam felizes e agradecidos, e assim também se estabelecem vínculos favoráveis. Deve-se libertar seres vivos e dedicar os méritos ao espírito do bebê, para que ele logo se liberte do sofrimento, encontre a felicidade e ascenda à Terra Pura. <a xlink:href="#loc-1804">[N78]</a> <a xlink:href="#loc-1806">[N79]</a></p><p id="pt-b00468">O mundo dos mortos também dá importância às formas de reparar as consequências do aborto. Atualmente, o mundo dos vivos já entrou em uma época de confusão causada pela conduta sexual imprópria, e o aborto, uma de suas consequências, tornou-se algo corriqueiro entre os jovens. Justamente porque a energia maléfica da conduta sexual imprópria e a energia de ressentimento do aborto enchem o mundo humano, afetando gravemente o equilíbrio da natureza, elas inevitavelmente atrairão desastres naturais e calamidades provocadas pelo ser humano.</p><p id="pt-b00469">O soberano do mundo dos mortos determinou que se registre um grande mérito no Registro da Vida e da Morte individual, no mundo dos mortos, em favor dos seres do mundo dos vivos que se arrependam sinceramente e procurem resolver as consequências de um aborto, façam o voto de nunca mais praticá-lo e, além disso, transmitam esta mensagem de pessoa em pessoa, dissuadindo outros de abortar e compensando suas transgressões com méritos. As punições infernais decorrentes do carma do aborto também poderão ser reduzidas ou dispensadas, conforme as circunstâncias. A decisão final dependerá dos detalhes de cada caso.”</p><p id="pt-b00470">“Está bem, Ayu! Por hoje é só. Volte e escreva logo o artigo!”</p><p id="pt-b00471">Amitābha! Eu, Ayu, prostro-me em agradecimento ao magistrado do mundo dos mortos! Volto sobre o lótus branco!</p></section><section id="sec-30"><title><p id="loc-472">24 — Criança, mamãe ama você — O magistrado do mundo dos mortos ensina todas as mães do mundo com palavras sérias e cheias de solicitude!</p></title><p id="pt-b00473">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00474">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos e saúdo o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00475">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Ayu! Faz algum tempo que você não vem!”</p><p id="pt-b00476">“Sim, senhor magistrado! Eu, Ayu, sinto vergonha. Ultimamente tenho estado ocupada com os assuntos mundanos. Preciso aprender com o senhor, que serve aos seres dia e noite. Daqui em diante, virei mais vezes.”</p><p id="pt-b00477">Hoje, eu, Ayu, gostaria de fazer ao magistrado do mundo dos mortos algumas perguntas sobre os espíritos dos bebês abortados.</p><p id="pt-b00478">“Senhor magistrado, os espíritos dos bebês na Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros conseguem receber os méritos da recitação de sutras e da libertação de seres vivos realizadas pelas mães que abortaram no mundo dos vivos? Qual sutra é melhor recitar? Quantas recitações são necessárias para produzir efeito? Para onde vão os espíritos dos bebês depois de receberem os méritos? As pessoas do mundo dos vivos precisam colocar tabuletas memoriais para os espíritos dos bebês em suas casas ou em um templo budista, para que recebam oferendas de incenso e ouçam os sutras? Isso tem utilidade? Os espíritos dos bebês crescem na Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros? Do que dependem para se sustentar?”</p><p id="pt-b00479">O magistrado do mundo dos mortos respondeu: “Sim, eles recebem. Nós distribuímos aos espíritos dos bebês os méritos de todas as boas ações praticadas por seus pais ou parentes no mundo dos vivos, de acordo com a dedicação específica que fazem. Por exemplo: libertar seres vivos, recitar sutras, fazer oferendas aos budas, praticar a generosidade, construir pontes, pavimentar caminhos e assim por diante. Se os méritos forem grandes, a parcela distribuída ao espírito do bebê também será proporcionalmente maior; se forem pequenos, a parcela também será menor. A grandeza do mérito de cada boa ação depende da motivação de quem a pratica. Ou seja, ao fazer o bem, a pessoa deve ter a intenção de ajudar os seres a se libertar do sofrimento e alcançar a felicidade, socorrendo-os em suas dores e dificuldades, sem o menor pensamento de receber algo em troca. Depois de fazer o bem, se seu coração permanecer sem apego ou preocupação, os méritos virão por si mesmos, sem que ela os procure, e ela poderá obter méritos vastos, imensuráveis e ilimitados. Se esses méritos vastos, imensuráveis e ilimitados forem dedicados ao espírito do bebê na Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros, ele certamente poderá ascender a um destino favorável dentro de 49 dias após o aborto. Quanto à distribuição dos méritos, se houver sete partes de mérito, a pessoa que pratica o bem no mundo dos vivos ficará com seis, e o espírito do bebê no mundo dos mortos poderá receber uma.” <a xlink:href="#loc-1808">[N80]</a></p><p id="pt-b00480">“Quanto à recitação de sutras, o Sutra de Kṣitigarbha é o mais adequado para ajudar os espíritos dos mortos a se libertar. Com grande bondade e compaixão, Kṣitigarbha fez o voto: ‘Enquanto os infernos não estiverem vazios, juro não me tornar Buda.’ Kṣitigarbha é quem tem os vínculos mais profundos com os seres dos infernos. É preciso recitar o sutra inteiro pelo menos 49 vezes. Em nossos registros do mundo dos mortos, o caso de ascensão mais rápida foi o de uma mãe do mundo dos vivos que havia abortado: ela recitou o Sutra de Kṣitigarbha inteiro 49 vezes e, além disso, continuou fazendo grandes votos e praticando o bem. Agora, o espírito de seu bebê já ascendeu, e essa mãe posteriormente também se tornou uma praticante pura, que de fato beneficia a si mesma e aos outros. Contando a partir do primeiro dia do aborto, a ascensão ocorreu no 49º dia. Mas mães assim são extremamente raras no mundo dos vivos: pode-se dizer que não há uma em dez mil. Atualmente, quase todos os espíritos de bebês que chegam ao mundo dos mortos não têm ninguém que os reconheça como seus. São realmente pouquíssimos os pais do mundo dos vivos que, depois de um aborto, se dispõem sinceramente a se arrepender! Muitas pessoas pensam que, se não conseguem ver nada, nada aconteceu, mas isso é um engano. Esses espíritos de bebês que estão na Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros passam todos os dias em sofrimento. Se seus pais no mundo dos vivos continuarem sem se dispor a dissolver esse ressentimento e esse nó, o nó do ressentimento apenas aumentará com a passagem do tempo. Quando as bênçãos dos pais no mundo dos vivos se esgotarem, será o momento em que as causas e condições se reunirão, e os espíritos dos bebês certamente irão à sua porta para vingar suas mágoas. Da mesma forma, será difícil escapar à rede das leis do mundo dos mortos. Nesse momento, a doçura realmente terá chegado ao fim, e o amargor começará. Quanto à maneira como sofrerão a retribuição, é difícil explicar em poucas palavras: todo tipo de doença pode surgir, da cabeça aos pés, e pode haver até a ruína da família e a morte de seus membros, entre outras coisas.” <a xlink:href="#n81-voto-e-prazo-do-relato">[N81]</a> <a xlink:href="#loc-1814">[N83]</a></p><p id="pt-b00481">“A quantidade de méritos necessária para cada espírito de bebê é diferente, pois os favores e ressentimentos de cada caso são distintos, e naturalmente o tempo necessário para resolvê-los também será diferente. Se ele veio retribuir um favor, será um pouco mais fácil, mas o aborto também dará origem a um novo ressentimento. É por isso que se diz que favores e ressentimentos se entrelaçam de maneira inextricável. A qualquer momento, podemos estar criando novos favores e ressentimentos. Se ele veio vingar uma mágoa, a situação ficará ainda pior, e o sofrimento será indescritível.”</p><p id="pt-b00482">“Depois de receber os méritos, o espírito do bebê ascenderá e deixará a Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros, no mundo dos mortos, conforme seu próprio carma. Há, em linhas gerais, três tipos de ascensão. Primeiro: aqueles que possuem bênçãos suficientes podem, por meio desses méritos, ascender à Terra Pura do Ocidente, mas são muito, muito poucos os espíritos de bebês que ascendem à Terra Pura dessa maneira. Segundo: alguns ascendem aos mundos celestiais e se tornam seres celestiais. Terceiro: alguns ascendem ao mundo humano. Quer ascendam à Terra Pura do Ocidente, aos mundos celestiais ou ao mundo humano, haverá diferenças de nível conforme as bênçãos de cada espírito. Na Terra Pura do Ocidente, há a distinção entre os nove graus de lótus; nos mundos celestiais, há a distinção entre os céus do reino do desejo, do reino da forma e do reino sem forma; no mundo humano, também há diferenças entre riqueza e posição elevada, por um lado, e pobreza e condição humilde, por outro. Para onde o espírito do bebê irá depois de receber os méritos depende da quantidade de méritos de seus pais que abortaram no mundo dos vivos e de haver méritos suficientes para lhe destinar e permitir sua ascensão. Quanto mais cedo o espírito do bebê ascender, mais cedo também serão resolvidas as calamidades de seus pais no mundo dos vivos. Que todos os futuros pais do mundo dos vivos que já abortaram se disponham, o quanto antes, a se arrepender do carma negativo do aborto, que conduz ao inferno, pratiquem amplamente o bem, acumulem virtude e ajudem seus pobres filhos, sangue de seu sangue, a se libertar da Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros.”</p><p id="pt-b00483">“Quanto à questão de colocar tabuletas memoriais para os espíritos dos bebês, os futuros pais no mundo dos vivos não precisam colocá-las em suas próprias casas. Isso apenas retardará a ascensão do espírito do bebê e poderá até atrair outros espíritos para se instalarem na tabuleta. Quanto a colocar uma tabuleta em um templo budista, para que o espírito receba oferendas de incenso e ouça os sutras, isso certamente produz efeito. Mas o templo precisa ser puro e estar de acordo com os princípios e o Dharma para que possa produzir o efeito de ajudá-lo a ascender. Atualmente, há muitos lugares no mundo dos vivos que se apresentam como templos budistas de determinado nome, dirigidos por mestres do Dharma que se anunciam como dotados de grande sabedoria e poderes extraordinários, especializados em ajudar os espíritos dos bebês a se libertar, e assim por diante. Observando o que fazem, porém, vê-se que são apenas práticas para enganar as pessoas e tirar seu dinheiro. Quem lhes confiar esse serviço apenas desperdiçará dinheiro, tempo e energia mental e física, podendo até atrair a possessão por espíritos maléficos e demônios. Isso ocorre porque o ressentimento dos espíritos dos bebês abortados se dirige aos futuros pais no mundo dos vivos. Quem amarrou o sino é quem deve desatá-lo. Em vez de pagar a outra pessoa para expressar arrependimento ao espírito do bebê em seu lugar, arrepender-se pessoalmente, com sinceridade, produzirá resultados mais rápidos e melhores.”</p><p id="pt-b00484">“Quando os espíritos dos bebês chegam à Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros após serem abortados, a maioria assume a aparência de um bebê de aproximadamente 6 meses no mundo humano, mantendo essa aparência até renascer ou ascender. Na Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros, os espíritos dos bebês se alimentam pelo contato. Se os futuros pais no mundo dos vivos lhes prestarem culto e fizerem oferendas, eles poderão absorver a essência dos alimentos. Infelizmente, esses espíritos de bebês abandonados não recebem oferendas de ninguém; só a dor lhes faz companhia, e por isso choram de sofrimento todos os dias. Seu ressentimento consome continuamente, de maneira oculta, as bênçãos e os méritos de seus pais. Quando os pais no mundo dos vivos chegarem ao fim da vida, haverá ainda um novo período de dolorosos enredamentos de afeto e rancor. Por isso, aconselho todos os seres do mundo dos vivos a não praticarem o aborto. Todos os que já o praticaram devem fazer o bem, acumular virtude e realizar muitas boas ações, compensando suas faltas com méritos. Se transmitirem estas informações sobre as leis do mundo dos mortos de pessoa a pessoa, levando os culpados ao arrependimento sincero, o mundo dos mortos também poderá atenuar as faltas de quem as divulgar.” <a xlink:href="#loc-1812">[N82]</a></p><p id="pt-b00485">Uno as palmas em agradecimento ao magistrado do mundo dos mortos! Volto sobre o lótus branco!</p></section><section id="sec-31"><title><p id="loc-486">25 — A castidade feminina e as relações sexuais antes do casamento nas leis do mundo dos mortos</p></title><p id="pt-b00487">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos e saúdo o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00488">Hoje, gostaria de perguntar ao magistrado do mundo dos mortos: como o mundo dos mortos encara a questão da castidade feminina e das relações sexuais antes do casamento?</p><p id="pt-b00489">O magistrado do mundo dos mortos disse: “As mulheres devem dar a devida atenção às três obediências e às quatro virtudes. A virtude de que se fala aqui é a castidade. Se uma mulher, após perder o cônjuge ou se divorciar, mantiver a convicção de permanecer sozinha e fiel a um único homem até o fim, preservando a castidade até a morte, o mundo dos mortos registrará em seu Registro da Vida e da Morte uma boa ação de preservação da castidade. Se não tiver cometido outras faltas graves no mundo dos vivos, ao fim da vida poderá ascender aos mundos celestiais ou receber uma boa retribuição, como passar de um corpo feminino a um masculino. Quem não preservar a castidade terá suas bênçãos e sua vida reduzidas enquanto viver e também dará um mau exemplo à geração seguinte. Mas as mulheres modernas já não dão importância à castidade! <a xlink:href="#loc-1816">[N84]</a></p><p id="pt-b00490">A sociedade atual sofre de uma grave falta de educação sobre causa e efeito e da educação moral dos tempos antigos. Antigamente, as mulheres tinham de observar as três obediências e as quatro virtudes, dando atenção à virtude feminina, à fala feminina, ao trabalho feminino e à apresentação feminina. Havia exigências até para seu modo de andar, sua aparência e seu tom de voz. As mulheres de hoje já não vivem como antes, quase sem sair de casa. Atualmente, a maioria sai para trabalhar na sociedade; elas também possuem alto grau de escolaridade e grande eficiência profissional. Algumas chegam a superar os homens em todos os aspectos de sua capacidade de trabalho. Já não vivemos no tempo em que se dizia que a virtude da mulher estava em não ter talentos. Assim, muitas mulheres de hoje, por não terem recebido uma formação interior voltada à virtude, acompanham esta era de tecnologia avançada e, contaminadas pela televisão e pelos meios de comunicação da internet, desprezam a castidade.</p><p id="pt-b00491">Uma mulher deve cuidar de sua conduta. Quando houver mudanças em sua vida afetiva, deverá dar especial atenção ao exame de si mesma e não cometer transgressões, pois perder a castidade é incorrer em conduta sexual imprópria. Incorrer em conduta sexual imprópria é criar causas negativas, imensuráveis e ilimitadas, para os sofrimentos do inferno. Desejo aqui que todas as mulheres sob o céu possam preservar a castidade.</p><p id="pt-b00492">Quanto às relações sexuais antes do casamento, elas causam graves danos à nossa natureza espiritual luminosa. Ao nascer e durante o período de virgindade, a natureza espiritual de cada pessoa é luminosa, embora o grau de luminosidade varie de pessoa para pessoa. Depois, à medida que ela se contamina no mundo humano, essa luz vai diminuindo lentamente e pode até se tornar cinzenta e escura. Quando isso acontece, começam a surgir calamidades na vida da pessoa. Naturalmente, algumas pessoas podem, por meio da prática espiritual, restaurar ainda nesta vida a luminosidade de sua natureza espiritual obscurecida. <a xlink:href="#loc-1818">[N85]</a></p><p id="pt-b00493">O casamento, na verdade, permite que nós, seres humanos, tenhamos uma oportunidade de dar continuidade à linhagem e gerar descendentes. As relações sexuais, dentro da ordem das relações humanas, são praticadas para dar continuidade à linhagem. Mesmo na vida cotidiana, não devem ser excessivas, pois isso reduzirá nossas bênçãos e nossa longevidade. Segundo as leis do mundo dos mortos, as pessoas devem observar rigorosamente a proibição das relações sexuais antes do casamento, protegendo assim sua conduta virtuosa. Só poderão ter relações sexuais a partir do dia do casamento. Ter relações antes do casamento constitui conduta sexual imprópria; mesmo que depois a pessoa se case com esse mesmo parceiro, ainda assim terá cometido uma transgressão, que reduzirá suas bênçãos e sua longevidade. Se, antes do casamento, tiver relações com mais de uma pessoa do sexo oposto, a redução de suas bênçãos será maior, e ela também terá criado causas negativas que levam ao inferno. Para chegar a uma conclusão, é preciso examinar cada caso e determinar quais condutas sexuais impróprias foram praticadas.</p><p id="pt-b00494">Quando temos nossa primeira relação sexual antes do casamento, a partir do instante em que perdemos a virgindade, a luz de nossa natureza espiritual começa a enfraquecer. Esse enfraquecimento provoca perdas em outros aspectos de nossa vida, incluindo a diminuição das bênçãos, da sorte financeira e da longevidade. Por isso, todos devem prestar atenção a essa questão. Não podemos, por um impulso passageiro de paixão, fazer algo simplesmente porque temos vontade, desperdiçando o precioso corpo humano com que nascemos neste mundo. Há muitas coisas que precisam ser construídas durante a juventude.</p><p id="pt-b00495">Devemos dedicar nossa disposição e nossa energia a coisas que tenham sentido, em vez de consumi-las em nosso próprio apego amoroso, o que, além de não ter sentido, ainda semeia causas negativas que levam ao inferno.”</p><p id="pt-b00496">“Muito bem, Ayu! Por hoje, ficamos por aqui. Volte agora e venha novamente em outra ocasião.”</p><p id="pt-b00497">“Buda Amitābha! Agradeço seus ensinamentos, magistrado!”</p><p id="pt-b00498">Uno as palmas e me curvo em agradecimento! Volto sobre o lótus branco!</p></section><section id="sec-32"><title><p id="loc-499">26 — O mistério das mortes por raios no mundo dos vivos segundo as leis do mundo dos mortos</p></title><p id="pt-b00500">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos e saúdo o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00501">Hoje, gostaria de perguntar ao magistrado: “Antigamente, havia casos de pessoas que morriam atingidas por raios por terem praticado conduta sexual imprópria. Por que isso acontecia? Por que a retribuição não vinha de outra maneira, como uma doença grave?”</p><p id="pt-b00502">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Há duas razões para os casos de morte por raios devido à conduta sexual imprópria em tempos antigos. Primeira: o mundo dos mortos usava os raios para punir os seres que praticavam conduta sexual imprópria, fazendo com que os seres do mundo dos vivos soubessem que essa conduta trazia, ainda nesta vida, a retribuição de uma morte terrível. Era uma forma real, concreta e visível de punição, para que os seres sencientes servissem de alerta uns aos outros. Segunda: os próprios praticantes de conduta sexual imprópria tinham pensamentos maléficos muito intensos, não se arrependiam nem se corrigiam, e o peso de sua conduta sexual imprópria e de outros carmas sombrios era excessivo. Por isso, atraíam a retribuição de serem atingidos por um raio e, ao morrer, entravam no inferno para sofrer toda sorte de tormentos por dez mil kalpas, sem prazo para sair.</p><p id="pt-b00503">O Deus do Trovão é, na verdade, uma divindade legítima dos mundos celestiais. Sua função específica é produzir raios e trovões quando chove ou quando o tempo está ruim. Até o número de vezes em que produz raios e trovões em cada ocasião é regulamentado. Se alguém morre atingido por um raio, isso jamais é um acaso: o Deus do Trovão certamente recebeu um despacho do mundo dos mortos, emitido segundo suas leis, determinando que, em certo dia e horário, em certo endereço, determinada pessoa de determinada residência deverá sofrer a retribuição de morrer atingida por um raio ao ar livre. Em geral, para quem deve sofrer essa retribuição, o Deus do Trovão primeiro produz raios e trovões e depois captura, com absoluta precisão, o espírito culpado, levando-o para fora e fulminando-o ao ar livre. Por que capturar o espírito culpado e levá-lo para fora para fulminá-lo? Porque os raios emitem clarões de fogo, e não se quer ferir inocentes. Por isso, geralmente se captura o espírito culpado e se o leva para fora, para aplicar a punição ao ar livre. <a xlink:href="#loc-1820">[N86]</a></p><p id="pt-b00504">Muitos dos casos de pessoas atingidas por raios em tempos antigos eram aplicações dessa punição. Antigamente, havia menos pessoas praticando conduta sexual imprópria do que hoje. Um único raio punitivo podia abalar muitos seres e levá-los a cultivar a mente e o caráter. Mas o coração das pessoas de hoje já não possui a simplicidade de antigamente.</p><p id="pt-b00505">Entre todos os males, a luxúria vem em primeiro lugar; entre todas as boas condutas, a piedade filial vem em primeiro lugar. Além de reduzir as próprias bênçãos e a própria longevidade, quem pratica conduta sexual imprópria prejudica gravemente os costumes da sociedade, faz mal aos outros e a si mesmo e também age contra o respeito filial. Quantos heróis e homens valorosos, de todos os tempos e lugares, não tiveram seu belo futuro arruinado pela conduta sexual imprópria!</p><p id="pt-b00506">A conduta sexual imprópria leva as pessoas à degradação e ao extravio da mente e de sua natureza; quem se entrega a ela pode até morrer. As leis do mundo dos mortos concedem o melhor tratamento às pessoas que respeitam seus pais e punem severamente quem pratica conduta sexual imprópria. Aconselho a todos que observem rigorosamente a benevolência, a retidão, o decoro, a sabedoria e a fidelidade à palavra, pratiquem muitas boas ações e acumulem virtude, preservando a luz espiritual inata de cada um e evitando criar causas negativas que levam ao inferno.”</p><p id="pt-b00507">Uno as palmas em agradecimento ao magistrado do mundo dos mortos! Volto sobre o lótus branco!</p></section><section id="sec-33"><title><p id="loc-508">27 — O destino da homossexualidade — o Grande Inferno da Associação Mental</p></title><p id="pt-b00509">Agradeço aos budas e bodhisattvas por sua compassiva salvação! A cada pensamento, os budas e bodhisattvas se voltam para os seres. Já se passaram 24 horas no mundo humano, e volto ao inferno sobre o lótus branco. Kṣitigarbha ainda está no inferno salvando os seres. Afinal, a assembleia do Dharma sobre causa e efeito de ontem ainda não terminou!</p><p id="pt-b00510">Estou tão feliz por ver Kṣitigarbha novamente! Em nome de todos os seres do espaço e do reino do Dharma, prostro-me diante de Kṣitigarbha! A luz búdica do bodhisattva preenche o espaço: quanta pureza, quanto frescor, quanta compaixão! Isso me faz lembrar as palavras do Buda no Sutra Avataṃsaka: “Amor benevolente puro, sem obstáculos no mundo, pois emite uma grande luz que ilumina tudo igualmente; amor benevolente puro que preenche o espaço, pois não há lugar a que não chegue para salvar e proteger os seres; amor benevolente puro que tem o Dharma por objeto, pois realiza o verdadeiro Dharma da talidade; amor benevolente puro sem objeto, pois ingressa na natureza dos bodhisattvas que transcende o nascimento; amor benevolente puro que beneficia, pois tudo o que faz traz alegria. Compaixão pura sem cansaço nem aversão, pois sofre em lugar de todos os seres sem considerar isso um fardo; compaixão pura que nasce em lugares difíceis, para libertar os seres; compaixão pura que nasce em destinos favoráveis, para manifestar a impermanência; compaixão pura pelos seres fixados no erro, pois, ao longo dos kalpas, não abandona seus grandes votos. Pratica incessantemente a conduta dos bodhisattvas e acolhe os seres com um coração de grande compaixão.” <a xlink:href="#loc-1822">[N87]</a></p><p id="pt-b00511">Kṣitigarbha possui verdadeiramente a grande benevolência incondicional e a grande compaixão que reconhece a unidade com todos os seres. Na luz búdica de sua pura benevolência e compaixão há incontáveis sons do Dharma. Eu também devo aprender com o grande coração compassivo de Kṣitigarbha e servir aos seres. Graças à bênção da luz pura e compassiva de Kṣitigarbha, o inferno se torna fresco.</p><p id="pt-b00512">Quero explicar a todos que o inferno é imensamente vasto e se divide em categorias. No momento, estou visitando o Inferno da Conduta Sexual Imprópria. Esse é um nome geral e designa um dos grandes infernos que compõem o conjunto. Sob o Inferno da Conduta Sexual Imprópria há ainda 18 infernos menores. Nesses 18 infernos menores, as diferentes retribuições correspondem à natureza das condutas sexuais impróprias praticadas. Algumas pessoas talvez tenham cometido, durante toda a vida, apenas as faltas de manter relações em momentos impróprios (isto é, no primeiro e no décimo quinto dia do mês lunar, nos seis dias de abstinência, nos aniversários dos budas e bodhisattvas, nos dias em que as divindades celestiais inspecionam o bem e o mal no mundo humano, durante o dia, em datas festivas de familiares ou nos aniversários de suas mortes, ou quando o homem ou a mulher está doente), em lugares impróprios (fora do ponto central da cama do casal; mesmo o homem em pé no chão junto à cama e a mulher deitada na beirada já constitui um lugar impróprio, quanto mais outros lugares) ou por vias impróprias (todas as partes, exceto o canal de parto feminino, são consideradas impróprias). Nesse caso, basta sofrer a retribuição de engolir bolas de ferro. Na verdade, as punições em todos os infernos são bastante dolorosas.</p><p id="pt-b00513">Saúdo o magistrado do mundo dos mortos! Hoje, gostaria de lhe pedir esclarecimentos sobre a homossexualidade. O magistrado disse: “A homossexualidade também constitui uma transgressão por conduta sexual imprópria. Ao fim da vida, a pessoa entra no Inferno da Associação Mental, pertencente ao Inferno da Conduta Sexual Imprópria, para ser punida durante 500 anos. Se tiver praticado outras condutas sexuais impróprias, passará depois por outros infernos dessa categoria para receber as respectivas retribuições.” <a xlink:href="#loc-1824">[N88]</a></p><p id="pt-b00514">Nesse momento, o magistrado me levou imediatamente ao Inferno da Associação Mental. Todos os espíritos de homens e mulheres que estavam ali sofriam a mesma retribuição. Percebi algumas diferenças no tempo em que esses espíritos recebiam o castigo das árvores humanas. Talvez eu entendesse se continuasse observando. Entre eles, havia um espírito masculino que eu conhecia: era justamente BLX. Ele era um cantor muito famoso, tivera muitos fãs de ambos os sexos em vida e realizara muitos shows. Naquele momento, parecia estar pensando em algo. Então chegou uma árvore de forma humana que sabia andar. Ao vê-la, ele ficou feliz, tomou-a pela mão e depois quis abraçá-la e trocar carícias. A árvore imediatamente o amarrou com seus ramos e folhas e começou a golpeá-lo sem parar na cabeça com os galhos. Quando sua cabeça já estava ferida e sangrando e ele havia desmaiado sob os golpes, um sopro das folhas em sua direção fez com que começasse a se recuperar lentamente. Então a árvore humana foi embora. <a xlink:href="#n89-iniciais-preservadas">[N89]</a></p><p id="pt-b00515">Ao ver isso, perguntei ao magistrado: “Quando a árvore vai embora, significa que o castigo terminou?” O magistrado respondeu: “Não! Isso porque a homossexualidade constitui uma forma de amor equivocado no pensamento. Os espíritos que você acabou de ver só atraíram a chegada das árvores humanas depois de começarem a pensar nisso. Quando o intervalo entre esses pensamentos é maior, isso indica que esse desejo amoroso é um pouco mais leve; quando os pensamentos voltam mais depressa, a retribuição é mais pesada.”</p><p id="pt-b00516">Perguntei ao magistrado: “Então, quando o espírito culpado não pensa nisso, não recebe a retribuição?”</p><p id="pt-b00517">O magistrado disse: “Se ele deixar completamente de pensar nisso, poderá sair deste inferno. Todo carma provém de pensamentos ilusórios e invertidos. Além disso, para uma parte dos homossexuais, o carma que leva ao inferno é um pouco mais leve. Por exemplo, alguém tem um corpo masculino, mas foi mulher em muitas vidas anteriores. Depois de passar a ter um corpo masculino nesta vida, seu subconsciente ainda conserva o modo de pensar feminino e não consegue mudar. Por isso, não gosta de mulheres e continua gostando de homens, como antes. O mesmo raciocínio se aplica, inversamente, a quem tem um corpo feminino. Essa é a principal razão pela qual, no mundo humano, pessoas do mesmo sexo se apaixonam e incorrem em conduta sexual imprópria. Se homossexuais desse tipo não praticarem outras condutas sexuais impróprias e apenas precisarem de um companheiro com quem viver, mas se tratarem como marido e mulher, sua punição será entrar no Inferno da Associação Mental para receber a retribuição durante 50 anos infernais. Se, durante esses 50 anos de punição, o espírito culpado conseguir eliminar todas as sementes de conduta sexual imprópria homossexual, poderá sair antecipadamente deste inferno. Se ainda não conseguir eliminá-las, será necessário acrescentar mais 30 anos à punição.”</p><p id="pt-b00518">Ao lado do Inferno da Associação Mental havia um grande inferno sem nada dentro. Achei aquilo muito estranho, pois todos os infernos estavam cheios de seres sofrendo, e eu nunca havia visto um inferno sem ninguém. Então perguntei ao magistrado: “Por que este inferno está completamente vazio?” O magistrado respondeu: “Atualmente, no mundo humano, alguns seres já estão pesquisando certo tipo de afrodisíaco. Ainda estão na fase de pesquisa e desenvolvimento; quando tiverem sucesso, o colocarão à venda no mercado. Este inferno está sendo preparado para que todos os seres envolvidos na pesquisa desse afrodisíaco sofram punições no futuro.”</p><p id="pt-b00519">Perguntei novamente ao magistrado: “Isso quer dizer que violar em pensamento o preceito contra a conduta sexual imprópria também conta como transgressão?”</p><p id="pt-b00520">O magistrado respondeu: “Sim! Cada vez que surge um pensamento desse tipo, o qi verdadeiro do corpo humano já é mobilizado, e a energia reta já sofre danos!” <a xlink:href="#loc-1828">[N90]</a></p><p id="pt-b00521">Hoje, mais uma vez, aprendi muito. Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00522">Prostro-me diante do magistrado do mundo dos mortos! Volto sobre o lótus branco.</p></section><section id="sec-34"><title><p id="loc-523">28 — Homenagem a Kṣitigarbha no Salão Mingguang Chuzhuan</p></title><p id="pt-b00524">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00525">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00526">“Magistrado! Poderia me dizer como Kṣitigarbha salva os seres no inferno? Posso ir observar?”</p><p id="pt-b00527">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Kṣitigarbha está sempre no inferno, salvando os seres atormentados e retirando-os do oceano de sofrimento, sem parar um só segundo. Em nosso mundo dos mortos há um salão de assembleias do Dharma chamado ‘Mingguang Chuzhuan’. Kṣitigarbha está sempre nesse salão, expondo o Dharma e instruindo os seres do mundo dos mortos.”</p><p id="pt-b00528">Perguntei, curiosa: “No inferno, não se sofre a cada instante? Como ainda há tempo para ouvir o Dharma? E quem já terminou de receber sua retribuição não sai imediatamente do inferno para continuar no ciclo de renascimentos?”</p><p id="pt-b00529">O magistrado disse: “Na verdade, os seres do inferno são iguais aos do mundo humano: todos chegaram aqui após cair no curso dos renascimentos pelos seis caminhos. Alguns vieram dos destinos superiores, como os mundos celestiais, os asuras e o mundo humano; outros vieram dos caminhos dos fantasmas e dos animais, pertencentes aos três destinos inferiores, no curso desse ciclo. Sua natureza mental é a mesma, e todos possuem plenamente a luminosidade inata de sua natureza original. Apenas se perderam em pensamentos ilusórios e invertidos e, afastando-se de sua natureza mental, cometeram toda sorte de violações dos preceitos, como matar e tirar vidas, provocando a própria queda. Chegará o dia em que todo espírito retornará à luminosidade de sua própria natureza, mas o tempo necessário pode variar tanto quanto a distância entre o céu e a terra. Todos os seres que chegam ao inferno precisam de muito, muito tempo para recuperar a luz espiritual inata, pois os espíritos do inferno têm hábitos contaminados muito arraigados e um carma negativo muito pesado. Mesmo quando, em ocasiões extremamente raras, surge um pensamento de arrependimento, logo são novamente arrastados pelo sofrimento e pelo carma negativo. Kṣitigarbha fez justamente o grande voto: ‘Enquanto os infernos não estiverem vazios, juro não me tornar Buda; somente quando todos os seres tiverem sido libertados realizarei a iluminação!’ Em sua compaixão, o bodhisattva disse ao Rei Yama: ‘Qualquer espírito que esteja sofrendo punições no mundo dos mortos e tenha, por um único instante, um pensamento de arrependimento poderá vir ao Salão Mingguang Chuzhuan para ouvir o Dharma e ficar temporariamente livre das punições.’” <a xlink:href="#loc-1830">[N91]</a></p><p id="pt-b00530">Eu disse: “Isso é realmente maravilhoso! Então, muitos seres do inferno já não terão conseguido ascender?”</p><p id="pt-b00531">O magistrado disse: “O número de seres que sofrem punições no inferno é verdadeiramente infinito. Ayu, você já visitou os infernos da conduta sexual imprópria. Apenas um deles, o ‘Inferno dos Chicotes e Bastões’, já contém tantos seres que não se vê o fim, e ainda há muitíssimos infernos que você nunca visitou. Em comparação, são pouquíssimos, pouquíssimos os que conseguem ter um pensamento de arrependimento. Em sua compaixão, os budas e bodhisattvas dedicam cada pensamento a salvar os seres sofredores, ensinando de acordo com as disposições de cada um e fazendo toda sorte de arranjos engenhosos. Mas será que os seres alguma vez compreenderam isso de coração? Ayu, todo o seu trabalho de vir ao inferno foi providenciado pela compaixão do Buda. O mundo dos mortos também espera aproveitar esta oportunidade para purificar o coração das pessoas, para que os seres creiam profundamente em causa e efeito e não criem o carma negativo que leva ao inferno.”</p><p id="pt-b00532">Chegamos ao Salão Mingguang Chuzhuan, no inferno. Prostro-me diante de Kṣitigarbha! Ao vê-lo, meus olhos se enchem de lágrimas de emoção e a gratidão brota espontaneamente! Prostro-me novamente diante de Kṣitigarbha em nome de todos os seres! Que todos os seres se libertem do sofrimento e alcancem a felicidade; que todos os seres vivam alegres e felizes; que todos os seres pratiquem com diligência e realizem logo a iluminação e o fruto da budeidade.</p><p id="pt-b00533">Naquele momento, Kṣitigarbha estava ensinando os cinco preceitos à assembleia. Vi que havia muitos mestres do Dharma no Salão Mingguang Chuzhuan! Assim que tive esse pensamento, o magistrado imediatamente me explicou.</p><p id="pt-b00534">O magistrado disse: “Muitos desses mestres do Dharma violaram os preceitos contra a conduta sexual imprópria e contra o roubo. Todos os que vieram aqui ouvir o Dharma já sofreram punições no inferno, e alguns ainda estão cumprindo suas penas. Vieram ouvir o Dharma apenas porque surgiu em seu coração um pensamento de arrependimento. Quando nasce o arrependimento em um espírito, a luz de seu coração sofre uma pequena mudança. Então, os agentes do mundo dos mortos suspendem a punição do espírito culpado e o trazem ao Salão Mingguang Chuzhuan para ouvir o Dharma. Todos os espíritos que vêm ouvir o Dharma neste salão têm algo em comum: sabem que aqui não precisam sofrer punições. Por isso, todos valorizam imensamente esta oportunidade, e quase todos são acolhidos e tocados pela compaixão de Kṣitigarbha.”</p><p id="pt-b00535">Observei os espíritos que estavam ali. A luz de seus corpos era, em sua maioria, cinza-escura; alguns tinham uma luz azul-esverdeada escura, outros vermelho-escura, e outros, negra. Todos flutuavam com leveza. Nesse momento, vi um espírito chorando amargamente, cheio de profunda vergonha e remorso. A luz de seu corpo começou a passar de cinza-escura para um cinza bem claro, e era evidente que ele se sentia um pouco mais leve.</p><p id="pt-b00536">O magistrado explicou: “Na vida anterior, esse espírito culpado era um fantasma que roubava essência e energia vital. Antes disso, havia sido um praticante espiritual que tinha disposição para fazer doações, mas não observava os preceitos. Por não observá-los, caiu no caminho dos fantasmas e se tornou um fantasma que roubava essência e energia vital. Depois de cair nesse caminho, passou a roubar continuamente a essência e a energia vital de pessoas do mundo dos vivos e de praticantes que não observavam os preceitos, para se sustentar. Assim, em pouco tempo, caiu no inferno.”</p><p id="pt-b00537">Naquele momento, vi o espírito culpado chorando amargamente. Ele se ajoelhou diante de Kṣitigarbha, suplicando que aceitasse seu arrependimento, e fez este voto: “Compassivo Kṣitigarbha! Eu, seu discípulo, errei! Quero praticar e proteger o Dharma correto em todas as vidas, sucessivamente. Quero proteger para sempre o Dharma de Kṣitigarbha.” Kṣitigarbha aceitou de bom grado o arrependimento desse espírito, que foi então levado para fora por um agente do mundo dos mortos. O magistrado disse que ele logo renasceria no mundo humano.</p><p id="pt-b00538">O Salão Mingguang Chuzhuan é o único lugar do inferno que não me parece sinistro; é um pouco como um aquecedor em meio ao inferno. Normalmente, quando passo muito tempo no inferno, minha temperatura corporal fica muito baixa, mas hoje me sinto bem. Sou imensamente grata ao poder da bênção compassiva de Kṣitigarbha! <a xlink:href="#loc-1832">[N92]</a></p><p id="pt-b00539">Valendo-me do majestoso poder espiritual de Kṣitigarbha, continuei a observar os espíritos que estavam ali e percebi que a luz do coração de muitos deles estava se elevando. Todos eles flutuavam para cima.</p><p id="pt-b00540">O magistrado disse: “Todos os espíritos cuja luz do coração se elevou podem renascer no mundo humano, recebendo mais uma oportunidade de aprimorar a mente e o caráter.”</p><p id="pt-b00541">Estou tão feliz! Desejo que todos eles sejam alegres e felizes, se libertem do sofrimento, alcancem a felicidade e pratiquem diligentemente o Dharma correto.</p><p id="pt-b00542">Olhei novamente para a entrada e vi que muitos novos espíritos haviam chegado. Parece que Kṣitigarbha não poderá descansar: ainda há tantos seres! Além disso, o inferno é vasto e sem limites. Realmente não sei quando será possível libertar todos os seres e esvaziá-lo.</p><p id="pt-b00543">Quis perguntar ao magistrado: “Como será a próxima vida daquele espírito que acabou de ser levado pelo agente do mundo dos mortos?”</p><p id="pt-b00544">O magistrado disse: “Vou levar você para ver!”</p><p id="pt-b00545">Chegamos imediatamente ao grande salão de julgamento do mundo dos mortos. Vimos aquele espírito que chorava amargamente, ajoelhado no chão, agradecendo a decisão do Rei Yama. Ouvi o espírito dizer: “Agradeço a decisão do Rei Yama! Agradeço a compaixão de Kṣitigarbha! De agora em diante, certamente purificarei meu coração, mudarei minha conduta e praticarei verdadeiramente o Dharma correto.” Depois, o espírito foi levado para tomar a Sopa de Meng Po e renascer.</p><p id="pt-b00546">Perguntei ao magistrado: “O que acontecerá com esse espírito no futuro?” Então o magistrado abriu o Registro da Vida e da Morte, consultou-o e disse: “Esse espírito foi condenado a nascer numa família sem compreensão nem visão corretas. Terá uma vida abastada, mas sua saúde será precária durante toda a vida: não terá doenças graves, porém sofrerá constantemente de pequenas enfermidades. Está destinado a ser enganado repetidas vezes. Começará a praticar aos 30 anos e encontrará uma manifestação de Kṣitigarbha que vive no mundo, que o conduzirá à libertação. Nessa vida, enfrentará muitos obstáculos demoníacos na prática e não terá um filho que o acompanhe ao fim da vida. Essa é a retribuição residual por ter sido um fantasma que roubava essência e energia vital. Quanto à vida abastada, é o fruto das doações que fez quando era praticante. A saúde ruim e os muitos obstáculos demoníacos na prática são o fruto de ter sugado a essência, a energia vital e o espírito dos outros. Essa vida será para ele um grande treinamento e uma grande prova — uma prova para o coração. Embora viva na abundância, sentirá frequentemente vontade de roubar; isso se deve à força de seu carma. Se puder cumprir seus deveres, observar bem os preceitos, não reclamar da saúde ruim, não se vingar quando for enganado, enfrentar com serenidade os obstáculos demoníacos e se arrepender assim que surgir a intenção de roubar, sua espiritualidade poderá continuar a se elevar depois dessa vida. Caso contrário, é possível que nos encontremos novamente no inferno.” <a xlink:href="#loc-1832">[N92]</a></p><p id="pt-b00547">Eu disse: “Não pode ser! Vir para o inferno de novo?”</p><p id="pt-b00548">O magistrado disse: “Já estamos acostumados com tudo isso. Seres que Kṣitigarbha acabou de libertar do inferno e que conseguiram renascer no mundo humano voltam pouco tempo depois. Por isso, Kṣitigarbha continua aqui, libertando os seres e tirando-os deste lugar. Como aquele espírito de há pouco despertou a grande aspiração de proteger e apoiar o Dharma correto, Kṣitigarbha chegou a enviar especialmente uma manifestação ao mundo humano para conduzi-lo à libertação. Por isso, não devemos subestimar um único pensamento nosso de grande mente de bodhi. Só esse pensamento já atrai os budas e bodhisattvas para libertar você; acontece que eles estão ao lado dos seres, mas os seres não sabem.”</p><p id="pt-b00549">“Sou muito grata ao senhor, magistrado! Hoje eu, Ayu, aprendi mais uma vez muitos ensinamentos!”</p><p id="pt-b00550">Uni as palmas das mãos em agradecimento ao magistrado! Voltei sobre a flor de lótus branca.</p></section><section id="sec-35"><title><p id="loc-551">29 — O poder ilimitado da joia preciosa e do mantra sagrado — testemunhando os Três Sagrados do Sul aliviarem os grandes sofrimentos do inferno</p></title><p id="pt-b00552">Desde que decidi escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos, tenho enfrentado muitos obstáculos. Quando despertamos a aspiração de realizar um trabalho que purifique o coração das pessoas e as incentive a fazer o bem, certamente encontramos toda espécie de provações. Mas um coração voltado para o bem, inteiramente sincero e puro, não teme nenhuma provação nem obstáculo. Eu, Ayu, acredito que, mantendo um coração firme, inteiramente sincero e puro na observância dos preceitos, certamente receberemos as bênçãos dos budas e bodhisattvas para superar os obstáculos. Todos esses obstáculos têm como objetivo fazer com que eu pare de escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos.</p><p id="pt-b00553">Quando comecei a escrever, os obstáculos demoníacos eram especialmente numerosos. Eu já dormia pouco, e os seres não humanos sempre aproveitavam meu sono para me perturbar intensamente e consumir minhas energias. Depois que compreendi a intenção deles, deixei de me envolver com esses seres nos sonhos, pois isso desperdiçava minhas energias e prejudicava a escrita do livro. Só posso escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos quando estou na minha melhor condição. <a xlink:href="#loc-1834">[N93]</a></p><p id="pt-b00554">Recentemente passei por alguns sofrimentos físicos e preciso começar a fortalecer por mim mesma minha força interior. Hoje, eu, Ayu, vou transformar todos os obstáculos e sofrimentos físicos em motivação para a prática. Que eu possa suportar sozinha, no lugar de todos os seres do mundo, seus obstáculos e sofrimentos, transformando tudo em motivação para minha prática.</p><p id="pt-b00555">Prostro-me em reverência diante de meu bondoso mestre, que me ensina com tanto cuidado! Prostro-me diante de todos os mestres ancestrais e grandes virtuosos que praticam o Dharma correto e alcançaram grandes realizações!</p><p id="pt-b00556">Prostro-me diante de todos os budas e bodhisattvas das dez direções! Prostro-me diante do grande bodhisattva Kṣitigarbha!</p><p id="pt-b00557">Hoje, eu, Ayu, vou me apoiar no poder extraordinário e na força das bênçãos de Kṣitigarbha para superar os obstáculos e ir ao inferno testemunhar e registrar como ele liberta os seres que ali se encontram!</p><p id="pt-b00558">Namo Kṣitigarbha! Namo Kṣitigarbha! Namo Kṣitigarbha! Namo Kṣitigarbha dos Grandes Votos! Namo Kṣitigarbha dos Grandes Votos! Namo Kṣitigarbha dos Grandes Votos!</p><p id="pt-b00559">Eu, Ayu, também quero seguir o exemplo de Kṣitigarbha e libertar os seres sofredores do oceano de sofrimento. O livro As leis implacáveis do mundo dos mortos precisa ser publicado o mais depressa possível, para que os seres iludidos do mundo humano voltem atrás e alcancem a margem segura, abandonem o mal e façam o bem, recuperando logo a luminosidade espiritual que lhes é inata.</p><p id="pt-b00560">Agradeço as bênçãos do poder búdico de Kṣitigarbha! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00561">Cheguei ao inferno! Prostro-me diante de Kṣitigarbha! Kṣitigarbha sorri com compaixão! O bodhisattva sempre irradia uma grande luz com tamanha compaixão! Kṣitigarbha manifesta a aparência compassiva de um monge, sentado na postura de lótus completo. Desta vez, a flor de lótus sobre a qual ele está sentado é azul-esverdeada; é a primeira vez que o vejo sentado numa flor de lótus dessa cor. Na mão esquerda, ele segura uma joia preciosa cor-de-rosa e, na direita, um cajado monástico dourado com argolas. Ao seu lado está também uma montaria chamada Di Ting. À esquerda do bodhisattva, o mestre do Dharma Daoming permanece de pé em sua assistência; à direita está Min Gong, protetor do Dharma. Prostro-me diante do mestre e do protetor do Dharma!</p><p id="pt-b00562">Desta vez, entrei diretamente no inferno graças ao poder extraordinário e à força das bênçãos de Kṣitigarbha, sem passar pelos outros caminhos dentro do inferno. Do alto, olhávamos para baixo. Eu estava numa posição abaixo de Kṣitigarbha, ou seja, mais perto do inferno. Já conseguia ouvir os gritos de aflição e via Kṣitigarbha irradiar luz e conceder bênçãos no inferno.</p><p id="pt-b00563">O mestre do Dharma Daoming me informou que esse lugar se chamava “Inferno dos Gritos”. Hoje, Kṣitigarbha veio a esse inferno para libertar e elevar um espírito culpado. Receber a compaixão e a misericórdia de Kṣitigarbha — que imensa bênção!</p><p id="pt-b00564">O mestre do Dharma Daoming disse que os descendentes daquele espírito culpado recitavam dia e noite o Sutra de Kṣitigarbha, atraindo assim a vinda do bodhisattva. Em uma de suas vidas anteriores, esse espírito havia sido um praticante monástico. Como não observara os preceitos com muita pureza naquela vida, não alcançara a libertação. Depois, renascera numa família rica e de posição elevada no mundo humano e começara a decair. Após violar o preceito contra a conduta sexual imprópria, continuara a decair até chegar ao inferno.</p><p id="pt-b00565">Nesse momento, Kṣitigarbha fez um sinal para que Min Gong descesse. Min Gong desceu e disse a dois guardas do mundo dos mortos: “Kṣitigarbha quer ver um espírito culpado do sexo masculino, XXX.” Pouco depois, os guardas trouxeram um espírito masculino que sofria, sangrava e tremia da cabeça aos pés. A dor era tanta que ele simplesmente não conseguia falar. Enfim, não parecia um fantasma, muito menos um ser humano. Era um espírito muito frágil; dava a impressão de que, se uma ventania o atingisse naquele estado, ninguém saberia para onde ele seria levado.</p><p id="pt-b00566">Kṣitigarbha instruiu o espírito masculino: “Hoje, Ayu, uma pessoa do mundo dos vivos, veio visitar o inferno para escrever um livro de exortação ao bem determinado pelo mundo dos mortos, As leis implacáveis do mundo dos mortos, a fim de libertar os seres do mundo dos vivos, levá-los a observar os cinco preceitos e as dez boas ações, purificar o coração, fazer o bem e acumular virtudes, evitando assim que, ao fim da vida, sofram a dolorosa retribuição do inferno. Agora, diga a Ayu: como você veio parar no inferno? O que sente neste momento?”</p><p id="pt-b00567">O espírito masculino assentiu, mas não conseguia falar. Então o mestre do Dharma Daoming recebeu a joia preciosa cor-de-rosa das mãos de Kṣitigarbha e desceu até o espírito culpado. O mestre recitou rapidamente o mantra do selo do corpo do Dharma de Kṣitigarbha: “Om. Boluo molin tuoning. Suopohe.” A joia imediatamente irradiou uma grande luz, iluminando todo o Inferno dos Gritos. O sofrimento nesse inferno foi de imediato suspenso e atenuado, e todos os espíritos culpados sentiram subitamente tranquilidade no corpo e na mente. O espírito masculino deixou imediatamente de sofrer; era como se uma forte corrente de calor percorresse seu corpo. Finalmente conseguiu falar. Até eu senti o calor da bênção. <a xlink:href="#loc-1836">[N94]</a></p><p id="pt-b00568">O espírito masculino disse que, em vida, havia cometido conduta sexual imprópria. Além disso, por inveja de um praticante leigo do Dharma correto e por não aceitar que ele pudesse difundir o Dharma correto por toda parte e receber o respeito das pessoas, havia difamado esse leigo, dizendo que sua observância dos preceitos não era pura. A difamação fizera muitos fiéis se afastarem, cortando a vida de sabedoria desses praticantes. Embora ele próprio costumasse praticar o Dharma budista, ao morrer ainda assim caíra no inferno para sofrer a retribuição, padecendo dores extremas a cada minuto e a cada segundo. Felizmente, seu filho no mundo dos vivos agora havia crescido, começara a estudar o budismo e se dedicava com grande diligência, recitando todos os dias o Sutra de Kṣitigarbha e dedicando-lhe os méritos.</p><p id="pt-b00569">Nesse momento, o espírito masculino se ajoelhou no chão e, chorando amargamente, disse em voz alta: “Kṣitigarbha de grande compaixão, por favor, tire-me daqui! O sofrimento aqui é realmente insuportável! Certamente vou me tornar uma nova pessoa e compensar minhas faltas com boas ações. Juro praticar, proteger e apoiar o Dharma correto em todas as vidas. Por favor, tire-me daqui. Agora até meu filho entende que deve honrar os pais e recita todos os dias o Sutra de Kṣitigarbha, dedicando-me os méritos, enquanto eu produzi os maus frutos que me trouxeram ao inferno. Também quero renascer no mundo humano em todas as vidas, observar os preceitos com pureza, ser uma boa pessoa e contribuir para a sociedade.”</p><p id="pt-b00570">Ao receber a bênção de Kṣitigarbha, o espírito culpado se lembrou de que havia recitado seu nome sagrado no passado. Naquele momento, recitava sem parar, em seu coração, Namo Kṣitigarbha, e a luz de seu coração também se tornava mais brilhante. Ele percebeu ainda que seu corpo começava a ficar mais leve, por isso continuou a recitar Namo Kṣitigarbha com ainda mais constância, e seu corpo começou a flutuar para cima. Perguntei a Kṣitigarbha: “Por que esse espírito masculino consegue se elevar tão depressa?”</p><p id="pt-b00571">Kṣitigarbha explicou: “Quando esse espírito masculino foi monge numa vida anterior, embora sua observância dos preceitos não fosse muito pura, ele também teve um período em que observou com pureza os preceitos de bhikṣu. Foi justamente em virtude dessa bênção que renasceu no mundo humano, durante sete vidas, sempre em famílias ricas e de posição elevada, com filhos que honravam os pais. Porém, na sétima vida, depois de violar o preceito contra a conduta sexual imprópria e de difamar, caiu no inferno para receber punições. Sua elevação desta vez se deve à grande força da dedicação de méritos feita por seu filho devotado, que pratica o bem e acumula virtudes por ele no mundo humano e despertou a grande mente de bodhi. Além disso, o próprio espírito masculino também se arrepende sinceramente. Os budas e bodhisattvas não abandonam nenhum ser que possa ser conduzido à libertação.”</p><p id="pt-b00572">Kṣitigarbha também disse que, depois de renascer no mundo humano, esse espírito masculino ainda precisaria sofrer a retribuição residual da conduta sexual imprópria e da difamação. Nasceria como mulher, sofreria a retribuição de um divórcio e ninguém acreditaria nas verdades que dissesse. Mas, depois de renascer como mulher, ela certamente praticaria o Dharma budista. Se pudesse manter a fé firme na prática, proteger e apoiar o Dharma correto e cumprir as promessas feitas no inferno, seu corpo espiritual recuperaria gradualmente a luminosidade. <a xlink:href="#loc-1838">[N95]</a></p><p id="pt-b00573">Passamos então a observar o segundo espírito desse inferno, uma mulher. Os guardas a trouxeram, o mestre do Dharma Daoming recitou o mantra e a joia voltou a irradiar luz, abençoando-a. O corpo espiritual dessa mulher estava em condições um pouco piores, e o mestre precisou recitar por mais tempo. Depois de receber a bênção da força do Dharma, o espírito feminino começou a recuperar a capacidade de falar.</p><p id="pt-b00574">Ela disse que, em vida, costumava falar com todas as pessoas de maneira mordaz e cruel. Tinha especial ciúme da criança que seu marido tivera com a ex-esposa. Frequentemente batia nela e a insultava, causando ferimentos e sangramentos. Depois de fazê-la desmaiar de fome, espancou-a até a morte. Também não respeitava a sogra: além de maltratá-la, batia em sua cabeça, às vezes abrindo feridas que sangravam muito. Para preservar a harmonia da família, a sogra nem sequer ousava contar que a nora batia nela, e acabou morrendo da aflição que ela lhe causou. A idosa e a criança apresentaram sua acusação no grande salão de julgamento do Rei Yama. Quando ela morreu, além de ser condenada a sofrer punições no Inferno dos Gritos, também recebeu a sentença de sofrer castigos em outros infernos. Naquele momento, havia acabado de chegar ao Inferno dos Gritos e já sofria de maneira extrema. Como suportaria os dias que viriam?</p><p id="pt-b00575">O espírito feminino também se ajoelhou e implorou a Kṣitigarbha que a libertasse do inferno. Kṣitigarbha lhe ensinou: “Se soubesse que chegaria a isso, por que teria agido assim? Esta é a sentença do Rei Yama. Entre todas as boas condutas, a piedade filial vem em primeiro lugar. O Rei Yama tem o maior respeito pelas pessoas que honram os pais no mundo dos vivos. Mesmo sustentando e cuidando dos pais com devoção durante a vida inteira, não se consegue retribuir a bondade com que eles nos criaram. Como ousar tratá-los com brutalidade? A falta de respeito filial é um crime que as leis do mundo dos mortos não perdoam. Você deve se arrepender profundamente. O Céu tem a virtude de prezar a vida. A criança da ex-esposa de seu marido já sofria uma grande carência emocional por ter perdido a mãe biológica. Você deveria tê-la tratado como um filho seu, cuidando dela com todo o carinho para compensar essa carência. Mas você foi capaz de bater na criança de seu ex-marido e insultá-la, fazê-la desmaiar de fome e espancá-la até a morte. Espancar até a morte uma criança pequena e indefesa revela um coração verdadeiramente perverso. Tal causa, tal fruto. Você precisa se arrepender profundamente. Só você mesma pode ajudar a si própria.” <a xlink:href="#loc-1670">[N12]</a></p><p id="pt-b00576">O espírito feminino se ajoelhou, sofrendo, e pediu clemência: “Bodhisattva, salve-me! Prostro-me diante de você, tocando o chão com a testa. Em vida, eu nunca permiti que ninguém apontasse meus defeitos. Bastava alguém dizer uma única palavra de reprovação, e eu imediatamente o atacava com palavras cruéis, chegando até a bater. O que eu mais gostava era de bater na cabeça das pessoas. Bater na cabeça podia fazê-las desmaiar, e assim eu vencia. Eu gostava de vencer e nunca admitia a derrota. Hoje, ao ouvir suas palavras, bodhisattva, percebi que cometi erros graves. Reconheço meus erros. Por favor, bodhisattva, salve-me! Quero sair do inferno.” Nesse momento, os guardas levaram o espírito feminino de volta.</p><p id="pt-b00577">Vi que a luz do coração daquela mulher já não estava tão apagada quanto antes, mas ainda não era muito luminosa. Então perguntei a Kṣitigarbha: “Esse espírito feminino terá necessariamente de sofrer toda a retribuição dos infernos antes de poder sair daqui?”</p><p id="pt-b00578">Kṣitigarbha explicou: “As causas e condições de hoje poderão permitir que, quando ela renascer no mundo humano no futuro, encontre o Dharma correto e o pratique. Mas isso ainda está muito distante. Por enquanto, vamos plantar um vínculo benéfico!”</p><p id="pt-b00579">Agradeço os ensinamentos de Kṣitigarbha, que, como a mais pura essência e o doce néctar, inundam diretamente meu corpo e minha mente!</p><p id="pt-b00580">Prostro-me em agradecimento ao bodhisattva e peço licença para me retirar!</p><p id="pt-b00581">Prostro-me em reverência! Namo Kṣitigarbha!</p><p id="pt-b00582">Prostro-me diante do mestre do Dharma Daoming!</p><p id="pt-b00583">Prostro-me diante de Min Gong, protetor do Dharma!</p><p id="pt-b00584">Volto sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-36"><title><p id="loc-585">30 — O magistrado revela a verdade sobre o Calendário de Jade — apoio integral ao Precioso compêndio do Calendário de Jade e a As leis implacáveis do mundo dos mortos</p></title><p id="pt-b00586">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00587">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00588">Perguntei ao magistrado: “Quanto ao livro Precioso compêndio do Calendário de Jade, que circula há muito tempo no mundo dos vivos, ele é autêntico?” O magistrado respondeu: “O Precioso compêndio do Calendário de Jade é autêntico. É também uma obra preciosa que o Imperador de Fengdu, Rei Yama e soberano do mundo dos mortos, por sua grande compaixão, fez circular especialmente no mundo humano. O Precioso compêndio do Calendário de Jade foi escrito por um cultivador do Dao chamado Danchi, que visitou o mundo dos mortos durante uma meditação profunda e depois redigiu um manuscrito. Mais tarde, ele transmitiu o manuscrito a seu discípulo, o cultivador do Dao Wumi, por cujas mãos a obra começou a circular no mundo humano. Depois de visitar o inferno naquela época, o cultivador Danchi não publicou imediatamente um livro para fazê-lo circular no mundo humano. Foi apenas perto de sua morte, antes de se elevar, que confiou a seu discípulo, o cultivador Wumi, a tarefa de fazê-lo circular no mundo humano. <a xlink:href="#loc-1840">[N96]</a></p><p id="pt-b00589">Os infernos de antigamente eram muito menores do que os de hoje. Há apenas um Imperador de Fengdu, Rei Yama e soberano do mundo dos mortos, que é a autoridade suprema do mundo dos mortos. Abaixo dele, havia os reis dos Dez Salões, que ocupavam o segundo nível mais alto de comando e recebiam ordens do Imperador de Fengdu, Rei Yama e soberano do mundo dos mortos. Esses reis dos Dez Salões administravam, cada um, os infernos grandes e pequenos subordinados a seu salão. Até hoje, a autoridade suprema do mundo dos mortos continua sendo um único Rei Yama e soberano do mundo dos mortos. Mas aos dez reis que estavam abaixo dele foram acrescentados mais dois, de modo que agora há, ao todo, os reis dos Doze Salões. E o acréscimo de dois reis não reduziu a carga de trabalho. Especialmente o rei responsável pelos infernos da conduta sexual imprópria está gravemente sobrecarregado.</p><p id="pt-b00590">Nos infernos atuais, até mesmo os Dez Salões já tiveram suas áreas muito ampliadas. Ayu, os infernos da conduta sexual imprópria que você visitou há algum tempo ficam nas regiões oeste e norte do inferno. Nessa região, agora também há um rei chamado Rei Qingping, que administra especificamente os infernos grandes e pequenos dentro da área dos infernos da conduta sexual imprópria. Atualmente, esse é o inferno que ocupa a maior área em nosso mundo dos mortos. Para acomodar a construção de novos infernos em seu interior, alguns dos infernos internos já foram mudados de lugar. Além disso, há no mundo dos mortos um rei chamado Rei Haishan, responsável pelo Inferno da Espiritualidade, ao sul. Esse Inferno da Espiritualidade abrange 8 infernos. Entre eles está um grande ‘Inferno da Cidade do Pranto dos Mortos Prematuros’, que você já visitou, além do grande inferno para quem desperdiça alimentos, o ‘Inferno da Colheita Abundante dos Cinco Cereais’, do grande ‘Inferno das Visões Errôneas e da Difamação’, do ‘Inferno do Vajrayāna’, entre outros. Muitos dos que entram nesses infernos são pessoas dos tempos atuais. O Rei Haishan administra esses infernos recém-construídos ao sul, e Danchi não visitou nenhum deles. Antigamente, o coração das pessoas ainda era relativamente puro e bondoso; as coisas não tinham chegado ao ponto de exigir tantos infernos da conduta sexual imprópria para puni-las. É claro que havia pessoas que faziam o mal no passado, mas não com a desmedida e o descaramento de hoje. Antes, os infernos dos Dez Salões bastavam para punir todos os tipos de seres do mundo humano que se degradavam e cometiam as dez más ações. Hoje, há muitos que fazem o mal no mundo humano e pouquíssimos que fazem o bem. Nem entre 500 pessoas se encontra uma que pratique o bem e observe os preceitos, enquanto os que fazem o mal e violam os preceitos estão por toda parte. <a xlink:href="#loc-1842">[N97]</a></p><p id="pt-b00591">Os dois livros, Precioso compêndio do Calendário de Jade e As leis implacáveis do mundo dos mortos, são obras importantes provenientes do mundo dos mortos para exortar e transformar o coração das pessoas. O livro As leis implacáveis do mundo dos mortos fará descrições mais claras e detalhadas, apresentando a situação mais fiel do mundo dos mortos na atualidade. Além disso, sua responsabilidade agora é imensa. Tanto o Imperador Celestial quanto o Rei Yama e soberano do mundo dos mortos esperam que o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos possa circular no mundo humano o mais depressa possível e produzir logo o efeito de recuperar o coração das pessoas e purificar o mundo humano, reduzindo o enorme número de pessoas do mundo dos vivos que continuam a cair no inferno todos os dias. Por hoje, ficamos por aqui. Se tiver perguntas, volte.”</p><p id="pt-b00592">Amitābha! Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos e saúdo o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00593">Volto sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-37"><title><p id="loc-594">31 — Os castigos insuportáveis de se ver no Grande Inferno Avīci; o animal sagrado Di Ting ensina a cultivar ações em benefício dos outros</p></title><p id="pt-b00595">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00596">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos e saúdo o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00597">Perguntei ao magistrado: “Hoje posso observar como Kṣitigarbha alivia o sofrimento no inferno?”</p><p id="pt-b00598">O magistrado disse: “Kṣitigarbha tem muitas manifestações que aliviam o sofrimento em diferentes infernos, grandes e pequenos. Qual inferno você gostaria de visitar, Ayu?”</p><p id="pt-b00599">“No mundo humano, ouvi dizer que Kṣitigarbha tem três manifestações: uma no inferno, uma no mundo humano e uma no mundo celestial. É assim mesmo?”</p><p id="pt-b00600">O magistrado disse: “Kṣitigarbha é um grande bodhisattva que fez o vasto voto: ‘Enquanto os infernos não estiverem vazios, juro não me tornar Buda.’ Embora os infernos ainda não estejam vazios, seus méritos e virtudes, na verdade, já chegaram à plena realização. O bodhisattva não liberta apenas os seres dos infernos, do mundo humano e do mundo celestial; ele também envia manifestações aos infernos de outros mundos para libertar os seres sofredores. Esses outros infernos também precisam ser esvaziados pela libertação de seus seres. Mesmo para os seres de outros espaços e tempos, o bodhisattva envia manifestações a fim de libertá-los. As manifestações do bodhisattva não se limitam a três: são centenas, milhares, dezenas de milhares e centenas de milhões, e cada uma vai a um mundo diferente para libertar todos os seres sencientes. Kṣitigarbha tem uma afinidade especial com os seres do mundo humano. Como a maioria dos que caem no inferno são seres do mundo humano, devemos agradecer ao bodhisattva por seus ensinamentos compassivos. <a xlink:href="#loc-1722">[N37]</a> <a xlink:href="#loc-1844">[N98]</a></p><p id="pt-b00601">No mundo humano, há muitas manifestações de Kṣitigarbha. Algumas nasceram há menos de três anos, outras ainda estão estudando e outras já chegaram à idade adulta. No futuro, realizarão discretamente o trabalho de dar continuidade à vida de sabedoria do Buda, orientando e libertando todos os seres sencientes conforme as condições. Algumas manifestações de Kṣitigarbha passam a vida inteira libertando os seres discretamente, sem que ninguém saiba; outras se estabelecem em centros de prática para difundir o Dharma correto. Seja qual for a forma, tudo faz parte dos arranjos invisíveis do bodhisattva.</p><p id="pt-b00602">Talvez haja bem ao nosso lado uma manifestação de Kṣitigarbha que nos influencia aos poucos e nos ensina pelo próprio exemplo, mostrando discretamente como corrigir os defeitos de nosso caráter. Só que não conseguimos reconhecer o bodhisattva, pensamos que seja uma pessoa comum, e ele tampouco revela sua identidade. Devemos aprender com Kṣitigarbha a ter aspirações vastas. O bodhisattva faz o voto de libertar os seres e, a partir desse voto, põe-se em ação. Por isso, seu coração abrange as dez direções, e seus votos também abrangem todo o espaço e o reino do Dharma nas dez direções. Seu voto é tal que, mesmo que o espaço tenha fim, seus votos não terão fim. Por exemplo, fazemos uma vez o voto de dar esmolas aos mendigos. O voto é feito uma vez, mas o ato de doar se repete incontáveis vezes, vida após vida. Assim, a semente de dar esmolas aos mendigos permanecerá em seu coração vida após vida. O voto é um, as ações são muitas. Se, numa única ocasião, você encontrar um mendigo e não lhe der nada, estará contrariando a força de seu voto. Devemos aprender com Kṣitigarbha a fazer bons votos de libertar os seres. A cada pensamento, o bodhisattva põe seus votos em prática. Se pusermos os votos em prática a cada pensamento, alcançaremos realizações repetidamente; essas realizações repetidas produzirão poderes extraordinários. Quanto mais seres libertarmos, maiores serão esses poderes e maior será a força de nossos méritos e virtudes. Se continuarmos a libertar os seres a cada pensamento, sem interrupção, nossos poderes extraordinários também serão ilimitados e sem fronteiras. Com esses poderes sobrenaturais ilimitados e sem fronteiras, será possível manifestar ilimitados corpos e ir a ilimitados mundos para libertar os seres.</p><p id="pt-b00603">Aqui em nossos infernos, as manifestações de Kṣitigarbha são ainda mais numerosas. Da última vez, você visitou o Salão da Assembleia do Dharma Mingguang Chuzhuan. Todos os dias, pela manhã, ao meio-dia e à noite, Kṣitigarbha ensina o Dharma nos infernos, três vezes ao dia. Depois de ouvir o Dharma, as raízes de bondade dos espíritos culpados brotam, e esse brotar faz nascer o arrependimento em seus corações. Assim que se arrependem, Kṣitigarbha os conduz para fora do inferno. Há situações em que, se um espírito culpado tiver bênçãos suficientes, Kṣitigarbha fará surgir uma manifestação a seu lado para conduzi-lo à libertação. Esse é um dos métodos pelos quais Kṣitigarbha liberta os seres nos infernos, conseguindo tirar daqui incontáveis espíritos culpados todos os dias. Se os seres que sofrem nos infernos não recebessem a libertação concedida por Kṣitigarbha, não se sabe quantas vezes maior seria seu número.</p><p id="pt-b00604">Outro modo é Kṣitigarbha providenciar o resgate dos parentes falecidos conforme o grau de piedade filial de seus descendentes. Isso inclui os descendentes recitarem, no mundo dos vivos, o Sutra de Kṣitigarbha, recitarem o nome de Kṣitigarbha, reverenciarem os budas, prostrarem-se diante deles, fazerem-lhes oferendas, libertarem animais, imprimirem sutras budistas e livros de orientação moral para exortar as pessoas ao bem, socorrerem as pessoas desamparadas, as viúvas e os pobres, e todos os demais atos que conduzam as pessoas ao bem e acumulem virtudes pela prática de boas ações. Quando os descendentes dedicam a força desses méritos aos seus antepassados nos infernos, o bodhisattva providencia a libertação desses espíritos culpados dos infernos.</p><p id="pt-b00605">Kṣitigarbha também observa se o próprio espírito culpado reúne as causas e condições necessárias para ser libertado. Alguns espíritos culpados não têm parentes ou descendentes que pratiquem boas ações para ajudá-los a alcançar a libertação, mas possuem algumas raízes de bondade, bênçãos, virtudes e condições favoráveis provenientes de vidas passadas. Há, por exemplo, muitos monásticos que, embora tenham caído nos infernos por violarem os preceitos, também tiveram períodos em que os observaram com pureza e praticaram o bem. Há ainda aqueles que, numa vida passada, olharam com reverência por um instante, ou escutaram por um instante com a mente serena, mesmo casualmente, ou recitaram o santo nome de Kṣitigarbha. O bodhisattva vem espontaneamente, sem precisar ser chamado, para conduzir esses seres à libertação.”</p><p id="pt-b00606">Eu disse: “Então vamos visitar hoje o Inferno Avīci, cujo nome todos temem ouvir! Será que Kṣitigarbha irá ao Inferno Avīci hoje?”</p><p id="pt-b00607">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Kṣitigarbha visita todos os infernos. Ayu, você ainda não visitou o Inferno Avīci, então venha comigo!”</p><p id="pt-b00608">Era preciso atravessar algumas passagens para chegar ao Inferno Avīci. Pelo caminho, já se ouviam incessantemente todos os tipos de gemidos e gritos de dor. Os infernos estavam repletos de extrema tristeza, medo e sofrimento. Agora eu entendia por que, antes de começar a escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos, o bodhisattva havia me pedido que praticasse com seriedade e diligência: pessoas com um pouco menos de firmeza meditativa seriam submersas pelo campo magnético intensamente negativo dos infernos. Este realmente não é um lugar para seres humanos. Que os seres sofredores dos infernos possam logo alcançar uma existência superior! Se eu não estivesse envolvida e amparada pelo poder do Buda, que me impedia de ser submersa, teria de consumir a maior parte da minha energia vital primordial. Sou grata pela proteção e pelo amparo do poder do Buda! Preciso realizar bem este trabalho para retribuir sua benevolência! <a xlink:href="#loc-1846">[N99]</a></p><p id="pt-b00609">Foi então que meu coração começou a bater mais depressa! Chegou até nós um som extremamente assustador. O lugar parecia deserto e era muito rudimentar, diferente do Inferno da Conduta Sexual Imprópria, que era relativamente moderno. Este inferno ficava bem trancado atrás de sucessivas portas. Nossa! A temperatura era muito alta! Eu sentia um calor extremo!</p><p id="pt-b00610">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Os espíritos culpados daqui entram e nunca saem. Todos os que chegam a este inferno são espíritos cujas maldades atingiram o limite. A temperatura do magma subterrâneo aqui dentro ultrapassa mil graus. Pode-se dizer que este é um dos suplícios extremos dos nossos infernos!” <a xlink:href="#n13-temperaturas">[N13]</a></p><p id="pt-b00611">Nossa! Mil graus? Que assustador! Para escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos, eu precisava reunir coragem e olhar! Graças ao amparo do poder do Buda, pude olhar para dentro do Inferno Avīci por uma pequena janela de ferro. Este inferno não era muito grande, e sua forma externa lembrava um pouco um nariz humano. Dentro havia um buraco escuro. Esse buraco dava acesso ao magma subterrâneo, que soltava fumaça e parecia incandescente. Os espíritos culpados eram completamente cozidos nesse magma fumegante e depois arremessados para cima. Ser arremessado para cima não significava ser lançado em outro lugar, mas na fumaça escaldante que subia do magma, para ser queimado por ela. Antes mesmo que seus corpos espirituais se recuperassem, enquanto ainda soltavam gemidos e gritos de dor extrema, eram novamente sugados pelo magma escaldante para sofrer o suplício. Nesse momento, os corpos espirituais soltavam outro grito lancinante. No Inferno Avīci, os castigos se repetiam assim, num ciclo sem interrupção. Era realmente uma cena de sofrimento indescritível!</p><p id="pt-b00612">Ainda há pouco tudo estava escuro e quente. Como de repente havia chegado uma sensação de frescor incomparável? Ergui os olhos e vi que o venerado Kṣitigarbha havia descido em sua compaixão. Prostrei-me em reverência a Kṣitigarbha! Hoje, Kṣitigarbha não se manifestava com uma aparência compassiva, mas sob uma forma irada, em pé. Atrás dele, a luz formava uma grande auréola circular dourada, e seus pés repousavam sobre uma flor de lótus azul-esverdeada. Sob o lótus azul-esverdeado havia chamas intensas, mas elas não produziam nenhuma sensação de calor abafado; pelo contrário, transmitiam uma sensação de dissipar os pensamentos ilusórios. A joia preciosa que Kṣitigarbha segurava na mão esquerda era vermelho-fogo, e no alto do bastão dourado com argolas que segurava na mão direita havia também uma flor de lótus vermelha. Hoje, Kṣitigarbha demonstrava um poder espiritual imponente de subjugar demônios. Bastava olhar para ele para não ousar alimentar nenhum pensamento ilusório, sentindo profundo respeito e temor reverente. Era a primeira vez que eu via Kṣitigarbha tão severo. Já o mestre do Dharma Daoming e o protetor do Dharma Min Gong não estavam muito diferentes. O mestre Daoming apresentava a aparência solene de um bhikṣu e cruzava as mãos no mudra de subjugar demônios. O protetor do Dharma Min Gong estava em pé ao lado do bodhisattva, com as palmas unidas. A montaria de Kṣitigarbha, Di Ting, porém, estava maior hoje e também manifestava uma aparência irada.</p><p id="pt-b00613">De repente, um funcionário do mundo dos mortos veio informar que havia um assunto no Salão de Julgamento que exigia a presença do magistrado. O magistrado então me disse que continuasse a visita sozinha e que, se tivesse dúvidas, poderia consultar Kṣitigarbha. Uni as palmas e me curvei em agradecimento ao magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00614">Nesse momento, Kṣitigarbha fez um sinal para que eu voasse para cima. As portas do Inferno Avīci seriam abertas em breve, e ele receava que o magma incandescente me ferisse. Assim, amparada pelo poder espiritual de Kṣitigarbha, subi até um ponto abaixo dele e fiquei em pé no ar. Nesse instante, o protetor do Dharma Min Gong desceu diante das sucessivas portas de ferro do Inferno Avīci. Dois guardas do mundo dos mortos abriram a porta, saíram e imediatamente a fecharam com cuidado. Disseram que receavam que o magma respingasse no protetor do Dharma Min Gong. Min Gong disse que o Rei do Mundo dos Mortos havia ordenado que alguns espíritos culpados fossem retirados para fornecer casos que servissem de referência a Ayu. Kṣitigarbha mandou trazer três espíritos culpados. Normalmente, não era possível deixar sair nenhum espírito culpado do Inferno Avīci, mas então os guardas entraram novamente e trouxeram três. Os três espíritos saíram: dois homens e uma mulher. Sofriam tanto que não conseguiam ficar em pé nem dizer uma única palavra. Seus corpos estavam cobertos de lama, ulcerados e desfigurados. Inspiravam extrema pena; ao vê-los, tive vontade de chorar!</p><p id="pt-b00615">Foi então que o mestre do Dharma Daoming recebeu a joia preciosa vermelha das mãos de Kṣitigarbha e começou a recitar um mantra. A joia do bodhisattva irradiou uma luz intensa que iluminou todo o Inferno Avīci. Imediatamente, todo o inferno ficou incomparavelmente fresco e silencioso. Não se ouviam mais sons de sofrimento, e o magma já não estava quente. Toda a minha tensão desapareceu, dando lugar a uma sensação acolhedora de tranquilidade e leveza. Escutei com atenção: era o dhāraṇī de Kṣitigarbha, um mantra de que gosto muito. Depois de o mestre recitar por algum tempo, os três espíritos culpados começaram lentamente a recuperar os sentidos e a despertar. Os espíritos dos homens já conseguiam se ajoelhar no chão.</p><p id="pt-b00616">Kṣitigarbha disse: “Shangguan Yuhua, uma pessoa do mundo dos vivos, vai escrever o livro de orientação moral As leis implacáveis do mundo dos mortos, designado pelo governo do mundo dos mortos, para exortar as pessoas a abandonar o mal e retornar ao caminho correto. Conte agora a Ayu como veio parar no Inferno Avīci. O que você fez em vida?” Chorando amargamente, o espírito de um homem disse que, em vida, se dedicava a desenvolver afrodisíacos para a conduta sexual imprópria e que também havia produzido livros de conteúdo sexual impróprio e discos de masturbação. Ganhara muito dinheiro em vida e essas eram as únicas coisas erradas que fizera durante toda a sua existência. Agora sabia que havia errado e implorava ao bodhisattva que o salvasse. Kṣitigarbha lhe ensinou: “Afrodisíacos, livros e discos voltados à conduta sexual imprópria destroem a boa natureza das pessoas. Em especial, os discos de masturbação abalam a mente dos meninos de corpo de yang puro. Se adquirirem esse mau hábito, passarão a trilhar o caminho infernal que prejudica o corpo, destrói a vida e interrompe a vida da sabedoria. Isso não é perdoado pelas leis do mundo dos mortos. Você só poderá sair do inferno quando todos os artigos de conduta sexual imprópria que produziu no mundo dos vivos tiverem desaparecido por completo.” Assim que o bodhisattva terminou o ensinamento, o espírito culpado do homem foi imediatamente empurrado de volta para dentro. <a xlink:href="#loc-1848">[N100]</a></p><p id="pt-b00617">Chegou a vez do espírito da mulher. Ela disse: “Em vida, eu era bonita, tinha alto nível de escolaridade e sabia falar muito bem, mas minha ganância e minha arrogância eram grandes, e eu era muito invejosa. Embora fosse casada, desprezava meu marido e não tinha piedade filial por meus dois sogros idosos. Frequentemente os tratava com palavras agressivas, sendo mordaz e cruel no que dizia. Usei minha beleza para manter vários relacionamentos extraconjugais em segredo. Com palavras habilidosas, levava os homens a me entregar todo o seu dinheiro e, depois, fazia com que se sentissem inferiores até morrerem de raiva. Eu me achava esperta e pensava que ninguém sabia. Os três homens que fiz morrer de raiva, ao chegarem ao fim da vida, apresentaram queixa ao Rei Yama. O Rei Yama ordenou que os três subissem ao mundo humano para capturar minha alma e me levar aos infernos para sofrer os castigos. Antes de chegar ao Inferno Avīci, eu já havia sofrido todos os tipos de suplícios em outros infernos. Peço ao bodhisattva que me tire daqui. Depois que sair, certamente me tornarei outra pessoa e não enganarei mais ninguém.”</p><p id="pt-b00618">Kṣitigarbha disse: “Seus traços harmoniosos são a retribuição por ter feito oferendas de flores diante do Buda com profunda sinceridade numa vida passada. Sua eloquência e sua inteligência são a retribuição por ter lido sutras e ouvido o Dharma em vidas passadas. Contudo, sua arrogância fez sua vida despencar. Você precisa se arrepender e refletir profundamente sobre a grandeza das quatro grandes dívidas de gratidão. Arrependa-se sinceramente aqui neste Inferno Avīci!” Assim que Kṣitigarbha terminou de falar, os guardas do mundo dos mortos cravaram um forcado no espírito da mulher e a lançaram para dentro. Ouviu-se apenas um grito terrível.</p><p id="pt-b00619">Em seguida veio o espírito do outro homem. Ele disse que, em vida, fabricava ingredientes medicinais falsificados e os vendia por conta própria. Também vendia bebidas alcoólicas falsificadas e traficava armas às escondidas. Depois de ganhar muito dinheiro, sua empresa foi crescendo cada vez mais, e ele ainda difamava outras pessoas para aumentar a notoriedade da própria empresa. Depois de chegar ao inferno, reconhecera seus erros, mas já era tarde demais!</p><p id="pt-b00620">O espírito do homem disse: “Bodhisattva, por favor, tire-me daqui, eu imploro! Aqui o sofrimento é grande demais! Até aceito ser mais um cachorro ao seu lado. Posso seguir atrás deste seu cachorro e ser um cachorrinho que o acompanha, suportando todo trabalho sem reclamar. Bodhisattva, por favor, tire-me daqui!”</p><p id="pt-b00621">Kṣitigarbha lhe ensinou: “Vender ingredientes medicinais falsificados e traficar armas prejudica gravemente a vida das pessoas. Até as leis do mundo dos vivos proíbem rigorosamente esses atos, e as leis do mundo dos mortos os punem com severidade ainda maior. Ao fim da vida, quem os comete é lançado no Inferno Avīci, sem jamais alcançar a libertação. Você precisa se arrepender sinceramente no Inferno Avīci! Este ser ao meu lado não é um cachorro. Seu nome é Di Ting. Di Ting cultiva a prática espiritual e se manifesta a partir da natureza da minha mente. Não é um animal proveniente do ciclo de renascimentos nos seis caminhos.”</p><p id="pt-b00622">“Peço licença, Kṣitigarbha: Ayu pode conversar um pouco com Di Ting?”</p><p id="pt-b00623">Kṣitigarbha disse: “Ayu, pode falar!”</p><p id="pt-b00624">Eu disse: “Amitābha! Di Ting! Então o senhor também cultiva a prática espiritual! Eu pensava que Di Ting apenas acompanhava o bodhisattva todos os dias. Como invejo Di Ting! Pode acompanhar Kṣitigarbha dia e noite, indo a toda parte para conduzir os seres à libertação. Eu, Ayu, me alegro com os méritos de Di Ting!”</p><p id="pt-b00625">Di Ting disse: “Ayu, você é muito gentil! Todos nós cultivamos a prática espiritual. Como se diz: em cada posição, cumpra a tarefa que lhe cabe. Todo ser senciente deve se empenhar em fazer o melhor uso de suas forças e cumprir bem seus deveres. Ao mesmo tempo que cumpre todos os seus deveres sem cometer erro algum, deve também ajudar os outros, ou seja, agir em benefício deles. Ajudar os outros é, na verdade, ajudar a si mesmo a acumular méritos. Antes de alcançarmos a fruição de Buda, tudo o que fazemos sob o nome de beneficiar os outros também beneficia a nós mesmos, pois nossas próprias bênçãos e virtudes ainda não estão completas. Antes de completá-las, ainda precisamos acumular nossas próprias provisões de bênçãos e virtudes. Portanto, ajudar e beneficiar os outros é acumular recursos para a nossa própria prática espiritual. Somente os budas têm bênçãos e virtudes completas; por isso, somente dos budas se pode dizer que agem inteiramente em benefício dos outros. Eu, Di Ting, tenho a felicidade de receber a proteção compassiva do bodhisattva, que também me dá a oportunidade de aprender aos poucos.”</p><p id="pt-b00626">Eu disse: “Sou grata pelas palavras de Di Ting! É mesmo um protetor do Dharma que acompanha um grande bodhisattva: suas palavras são extraordinárias. Eu me alegro, me alegro de verdade!”</p><p id="pt-b00627">Eu, Ayu, perguntei a Kṣitigarbha: “Sobre o espírito daquela mulher de há pouco, o bodhisattva disse que ela havia estudado o budismo numa vida passada. Mas agora que foi lançada no Inferno Avīci, de onde jamais alcançará a libertação, isso significa que ela já não tem esperança alguma?”</p><p id="pt-b00628">Kṣitigarbha ensinou: “Há pouco, eu lhe disse que precisava se arrepender. Embora diga que vai se corrigir, na verdade sua mente ainda não chegou ao ponto de um arrependimento sincero. É apenas porque o Inferno Avīci é doloroso demais que ela quer sair imediatamente. Depois de mais algum tempo, quando sua mente estiver mais pura, voltarei aqui para libertá-la. Por enquanto, ela ainda precisa continuar a aprimorar sua natureza interior no Inferno Avīci.”</p><p id="pt-b00629">Eu disse: “Kṣitigarbha realmente cumpre o voto de não se tornar Buda enquanto os infernos não estiverem vazios. Como eu gostaria de acompanhar o bodhisattva e aprender com ele!”</p><p id="pt-b00630">Eu, Ayu, sou infinitamente grata pelas instruções e pelos ensinamentos de Kṣitigarbha!</p><p id="pt-b00631">Eu, sua discípula Ayu, me prostro de todo o coração diante de meu protetor de imensa bondade, que, com as dez rodas, liberta do sofrimento e beneficia tanto os mortos quanto os vivos: Kṣitigarbha Bodhisattva Mahāsattva, de grande santidade, grande benevolência e grandes votos! <a xlink:href="#loc-1850">[N101]</a></p><p id="pt-b00632">Voltei sobre a flor de lótus branca.</p></section><section id="sec-38"><title><p id="loc-633">32 — O magistrado do mundo dos mortos diz: “A Virgem Maria é uma manifestação de Avalokiteśvara” — Avalokiteśvara visita os infernos para aliviar o sofrimento</p></title><p id="pt-b00634">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00635">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00636">“Magistrado! Eu, Ayu, gostaria de perguntar: além de Kṣitigarbha, que está frequentemente nos infernos, há outros seres santos que aliviam o sofrimento nos infernos?”</p><p id="pt-b00637">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Sim! Há também Avalokiteśvara, o bodhisattva Mañjuśrī, o Buda Amitābha, o Buda da Medicina e outros. Embora Avalokiteśvara, Mañjuśrī, Kṣitigarbha e outros se manifestem em corpos de bodhisattvas, na verdade já possuem plenamente os méritos e virtudes de um buda, sem nenhuma diferença em relação a ele. Como se diz: ‘Quando um buda surge no mundo, mil budas o apoiam.’</p><p id="pt-b00638">Avalokiteśvara já se tornou Buda há kalpas muito remotos, com o título de Tathāgata da Claridade do Dharma Correto. O bodhisattva Mañjuśrī é a mãe dos sete budas. Entre budas e bodhisattvas, não há primeiro nem segundo lugar. Todos são iguais; suas luzes se iluminam mutuamente e se correspondem. Os budas são a sabedoria mais pura e elevada do universo e corpos de luz de altíssimo grau. Possuem grandes poderes espirituais: não há nada que não possam fazer, nada que não saibam. Todos os budas compartilham a grande benevolência incondicional e a grande compaixão que reconhece a unidade com todos os seres. A chamada grande benevolência incondicional e grande compaixão que reconhece a unidade com todos os seres significa que a sabedoria e o sentimento dos budas permanecem sempre no mais elevado ponto de equilíbrio e que ambos se integram e atuam simultaneamente. É uma forma de amor benevolente expressa pela atuação conjunta da compaixão e da sabedoria, de maneira igualitária, sem distinguir inimigos de entes queridos, raças ou seitas religiosas. Até os animais e as plantas de vida breve e frágil recebem igualmente compaixão e libertação. Essa é a diferença entre os budas e os seres humanos. Os seres humanos não conseguem alcançar esse elevado equilíbrio entre sabedoria e sentimento; por isso, não conseguem vir aos infernos para libertar os seres. Os budas, por sua vez, podem vir aos infernos a qualquer momento. <a xlink:href="#loc-1852">[N102]</a></p><p id="pt-b00639">Quando budas e bodhisattvas vêm aos infernos libertar os seres, seguem a lei de causa e efeito, sem violá-la. Nos infernos, há uma categoria de seres que caíram do mundo dos vivos: em vida, praticavam com diligência, mas não observavam os preceitos, e por isso recebem severas retribuições de seu mau carma nos infernos. Quando chegam ao Salão de Julgamento do mundo dos mortos, alguns deles, ao serem interrogados ou sentenciados, recitam de memória os mantras dos budas e bodhisattvas. Ao recitarem esses mantras, surge uma grande força espiritual capaz de proteger os espíritos culpados. Nesse momento, o Rei Yama manda os guardas levá-los sob custódia ao Pavilhão de Meng Po para beber a Sopa de Meng Po e imediatamente renascer no mundo humano, morrendo ainda no ventre. Todos os corpos espirituais, depois de serem concebidos, precisam sofrer os dez meses da prisão no ventre, permanecendo encolhidos no útero estreito da mãe por sete a dez meses. O tempo de permanência no corpo materno varia para cada corpo espiritual e depende de seu carma. Viver nessa prisão estreita já é muito doloroso, e ainda precisam suportar dia e noite as mudanças emocionais da mãe. O frio e o calor dos alimentos que a mãe ingere também trazem ao feto sofrimentos semelhantes aos dos infernos frios e quentes. Em meio a todos esses sofrimentos da prisão no ventre, os corpos espirituais facilmente esquecem os mantras que praticavam na vida anterior. Somente grandes praticantes ficam livres dos sofrimentos da prisão no ventre enquanto estão no útero materno. Depois de entrar no ventre, grandes praticantes podem entrar e sair livremente. Eles permanecem temporariamente fora do ventre e, de fora do corpo, concedem seu amparo para que o corpo físico dentro da mãe se desenvolva e cresça normalmente, só entrando definitivamente no ventre no momento do nascimento. Todos os corpos espirituais comuns, depois de entrar no ventre, já não conseguem sair e precisam sofrer a prisão no ventre até nascer. <a xlink:href="#n103-cosmologia-e-perdas-gestacionais">[N103]</a></p><p id="pt-b00640">Depois que os espíritos culpados morrem no ventre e assim esquecem os mantras, voltam aos infernos para que suas culpas sejam julgadas. Se ainda não tiverem esquecido os mantras, passarão repetidas vezes por esse processo de morrer no ventre, até esquecê-los completamente e então receberem novamente a retribuição nos infernos. Os budas e bodhisattvas só vêm aos infernos libertar os seres depois que os espíritos culpados, tendo sofrido a retribuição infernal, sentem arrependimento; então, vêm ao observar as causas e condições para a recuperação da natureza de suas mentes. <a xlink:href="#n103-cosmologia-e-perdas-gestacionais">[N103]</a></p><p id="pt-b00641">Avalokiteśvara frequentemente alivia o sofrimento nos infernos. Recentemente, o bodhisattva veio ao Inferno da Conduta Sexual Imprópria para libertar os seres. Vou levar você para visitar o lugar. Entre os jovens que estão no Inferno da Conduta Sexual Imprópria, são muito poucos aqueles cujos pais, no mundo dos vivos, os ajudam acumulando méritos e dedicando-os a eles, de modo a suscitar a vinda de Avalokiteśvara aos infernos para libertá-los. No Capítulo da Porta Universal, o Buda diz: ‘O Buda disse ao bodhisattva Wujinyi: Bom homem! Se incontáveis centenas, milhares, dezenas de milhares e centenas de milhões de seres sofrerem todos os tipos de aflições, ouvirem falar deste bodhisattva Avalokiteśvara e invocarem seu nome com a mente inteiramente concentrada, Avalokiteśvara imediatamente perceberá suas vozes, e todos alcançarão a libertação.’” <a xlink:href="#loc-1722">[N37]</a> <a xlink:href="#loc-1856">[N104]</a></p><p id="pt-b00642">Chegamos! Senti a luz dos budas iluminar o lugar, que imediatamente ficou fresco e silencioso. Que pureza, que bem-estar para o corpo e a mente! O magistrado do mundo dos mortos disse que Avalokiteśvara estava libertando um adolescente no Inferno dos Olhos Elétricos e das Bolas de Ferro!</p><p id="pt-b00643">Eu, sua discípula Shangguan Yuhua, me prostro diante de Avalokiteśvara com os cinco pontos do corpo no chão! Vi que a forma manifestada pelo bodhisattva era a aparência compassiva da Virgem Maria do catolicismo. O magistrado do mundo dos mortos disse que a Virgem Maria era, na verdade, uma das manifestações de Avalokiteśvara. <a xlink:href="#loc-1858">[N105]</a></p><p id="pt-b00644">No Capítulo da Porta Universal, o Buda diz: “O bodhisattva Wujinyi dirigiu-se ao Buda: ‘Honrado pelo Mundo! Como Avalokiteśvara percorre este mundo Sahā? Como ensina o Dharma aos seres? Como atua o poder de seus meios hábeis?’ O Buda disse ao bodhisattva Wujinyi: ‘Bom homem! Se, em alguma terra, houver seres que devam ser libertados por um corpo de buda, Avalokiteśvara manifestará um corpo de buda e lhes ensinará o Dharma. Aos que devam ser libertados por um corpo de pratyekabuddha, manifestará um corpo de pratyekabuddha e lhes ensinará o Dharma.’” Avalokiteśvara liberta os seres conforme as condições e manifesta, de acordo com elas, a forma apropriada. <a xlink:href="#loc-1856">[N104]</a></p><p id="pt-b00645">Olhando para aquele adolescente no Inferno dos Olhos Elétricos e das Bolas de Ferro, achei seu rosto muito familiar. Ah! Lembrei! Um ano antes, eu havia visto sua fotografia funerária numa sala de velório. A sala onde ele estava sendo velado ficava ao lado da de um parente meu. Na ocasião, seus pais haviam realizado o funeral segundo o rito católico: não acenderam incenso nem realizaram cerimônias budistas, apenas recitaram textos religiosos e fizeram orações. Na visita anterior, o magistrado do mundo dos mortos havia me dito que esse menino chegara ao fim da vida aos doze anos. Ele era o único filho de seus pais, que choravam todos os dias e ainda não haviam se recuperado emocionalmente. Eles eram católicos e só sabiam rezar diariamente à Virgem Maria e praticar boas ações para ajudar os pobres. Foi assim que suscitaram a vinda do compassivo Avalokiteśvara para instruir o menino. <a xlink:href="#loc-1674">[N14]</a></p><p id="pt-b00646">Agora eu via a Virgem Maria mais uma vez irradiar de seu corpo uma luz branca, pura e compassiva. A luz iluminava todo o inferno, que já havia ficado fresco, e todos os castigos estavam temporariamente suspensos. Eu me lembrava de como esse adolescente estava em estado lastimável quando visitei o Inferno dos Olhos Elétricos e das Bolas de Ferro no ano anterior: o sangue cobria o chão, numa cena insuportável de olhar. O adolescente fez o sinal da cruz sobre o corpo com a mão e agradeceu à santa Virgem Maria, dizendo que nem em sonho imaginara poder vê-la pessoalmente.</p><p id="pt-b00647">Nesse momento, a Virgem Maria ensinou com voz compassiva e suave: “O corpo, os cabelos e a pele são recebidos dos pais. Meu filho, seu tempo de vida no mundo dos vivos ainda não havia terminado, mas sua alma já retornou ao mundo dos mortos. Você sabe que seus pais no mundo dos vivos sentem como se dez mil flechas lhes perfurassem o coração?”</p><p id="pt-b00648">O adolescente já não conseguia conter as lágrimas. Com o rosto banhado em pranto, disse: “Se eu pudesse voltar no tempo, jamais voltaria a olhar qualquer publicação pornográfica. Hoje quero me arrepender por completo diante da santa Virgem Maria. Também gostaria muito de expressar meu arrependimento aos meus pais, mas já não consigo me comunicar com eles. Falhei em minha piedade filial! Mereço morrer! Meus pais me amam imensamente. Sempre que eu precisava de alguma coisa, eles atendiam ao meu pedido. Eu já tinha grande abundância material: morava numa casa grande, com duas pessoas contratadas para cuidar de mim dia e noite, e sentia profundamente o amor e o cuidado dos meus pais. Agora, porém, só me resta esperar poder retribuir numa próxima vida tudo o que fizeram para me criar.”</p><p id="pt-b00649">[Resumo não explícito: o menino relata que, aos seis anos, encontrou por curiosidade conteúdos pornográficos na internet e desenvolveu hábitos que tinha dificuldade de controlar. Seus pais trabalhavam muito, saíam cedo e voltavam tarde. Depois das aulas, duas empregadas cuidavam dele. Na ausência dos pais, elas frequentemente conversavam ao telefone com amigos. Ao vê-lo no quarto, julgavam que se comportava bem e não o interrompiam.] <a xlink:href="#n107-duas-passagens-resumidas">[N107]</a></p><p id="pt-b00650">Ele prosseguiu: “Isso continuou até eu completar dez anos. Comecei a sentir dores nas costas; meu corpo inteiro ficou exausto, eu não tinha forças e sempre sentia como se não conseguisse acordar completamente. Cheguei a precisar de uma bengala para caminhar, como um velhinho. Minha mãe me levou a muitos médicos, mas nenhum conseguiu me curar. Por fim, um médico de medicina chinesa atribuiu meu estado a uma grave deficiência dos rins e ao envelhecimento prematuro. Só então meus pais souberam que eu me masturbava. Embora me repreendessem, como me amavam profundamente, continuaram procurando médicos famosos para me ajudar. Também comecei a sentir os efeitos nocivos da masturbação e parei por algum tempo. Quando meus pais viram que eu voltara a me comportar bem, relaxaram a vigilância.” <a xlink:href="#loc-1860">[N106]</a></p><p id="pt-b00651">[Resumo não explícito: o menino relata pensamentos persistentes e indesejados, perda de controle, cansaço intenso e tonturas durante o tratamento. Na narrativa, Cabeça de Boi e Cara de Cavalo o arrastam aos doze anos com uma grande corrente de ferro para receber punição no inferno. Ele diz ter ocultado por muito tempo seu sofrimento e sentir alívio ao falar. Muitos colegas também acessariam sites pornográficos sem o conhecimento dos pais. Quer sair dali e pede à santa Virgem que o leve ao Reino dos Céus para, de lá, alertar os colegas.] <a xlink:href="#n107-duas-passagens-resumidas">[N107]</a></p><p id="pt-b00652">A Virgem Maria ensinou: “Seus pais, no mundo dos vivos, ainda sentem sua falta todos os dias!” O adolescente disse: “Santa Virgem! Suplico que me tire daqui. Decidi que não quero ir ao Reino dos Céus. Quero ajudar meus colegas e aconselhar todos os meninos a não acessarem sites pornográficos nem se masturbarem. Se eu não conseguir cumprir isso, que minhas duas mãos sejam decepadas e minha boca apodreça.”</p><p id="pt-b00653">A Virgem Maria ensinou: “É muito bom que você tenha a intenção de se corrigir por completo! Todas as faltas se originam na mente e são criadas por ela. É preciso se empenhar desde o momento em que surgem os pensamentos, mantendo sempre a atenção plena correta; assim, naturalmente, você não será contaminado por pensamentos nocivos. Fazer o voto de aconselhar todos os seres sencientes a abandonar o mau hábito da conduta sexual imprópria é um voto virtuoso. Fazer o voto de que, se não conseguir cumpri-lo, suas mãos sejam decepadas e sua boca apodreça é um voto nocivo. Ao fazer um voto nocivo, você perde a atenção plena correta. Podemos fazer votos, mas devemos fazer votos virtuosos, nunca votos nocivos. Sejam virtuosos ou nocivos, todos os votos são uma causa. Havendo causa, haverá efeito; uma vez feito um voto, chegará o dia em que ele se realizará. O voto é uma força invisível, e essa força nos impulsiona vida após vida. Podemos fazer votos virtuosos continuamente: eles nos levam à realização e elevam a luminosidade de nossa natureza espiritual. Jamais devemos fazer votos nocivos. Eles produzem um círculo vicioso no qual sofremos as consequências de nossos próprios atos; em casos ainda mais graves, prejudicamos pessoas e outros seres, causando danos aos outros e a nós mesmos. Os votos nocivos são causas de queda; os votos virtuosos são a base para caminhar rumo à luz da vida.”</p><p id="pt-b00654">Sob as bênçãos e a orientação libertadora de Avalokiteśvara, a luz do coração do adolescente havia passado do vermelho-escuro inicial a um branco tênue, e seu corpo espiritual já estava ascendendo. Perguntei ao magistrado do mundo dos mortos por que o adolescente, que havia caído no inferno havia tão pouco tempo e ainda não terminara de cumprir sua punição, conseguira ascender tão depressa.</p><p id="pt-b00655">O magistrado do mundo dos mortos disse: “A índole do adolescente não era tão ruim. Foi apenas porque seus pais estavam ocupados demais e não lhe proporcionaram uma boa educação, com orientação positiva, em tempo hábil, que ele, num ambiente sem compreensão e visão corretas, tomou o caminho errado e caiu no inferno. Agora encontrou a salvação oferecida por Avalokiteśvara e pôde ser libertado graças ao poder espiritual de Avalokiteśvara. A isso se somou seu arrependimento sincero. Somente com essas duas condições reunidas foi possível ascender tão depressa.”</p><p id="pt-b00656">Hoje aprendi muito mais! Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos pelo trabalho de me explicar tudo!</p><p id="pt-b00657">Eu, Ayu, uni as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos! Voltei sobre a flor de lótus branca.</p></section><section id="sec-39"><title><p id="loc-658">Posfácio</p></title><subtitle id="loc-659">As leis do mundo dos mortos são implacáveis; o Buda tem compaixão</subtitle><p id="pt-b00660">Alguns internautas perguntam por que as leis do mundo dos mortos são “implacáveis”. Essas leis também podem ser chamadas de causa e efeito: trata-se da imutabilidade da causalidade, uma lei do universo. “Implacáveis” se refere à inevitabilidade de causa e efeito, que não muda por nada. Plantando determinada causa, colhe-se o efeito correspondente. Causa e efeito atravessam as três existências — passada, presente e futura —, por isso nem sempre é possível ver o resultado nesta mesma vida. Mas causa e efeito são reais, não ilusórios. Não há exceções nem tratamento diferente em razão de identidade, posição social, riqueza, reputação, sexo, idade, cor da pele ou quaisquer outras diferenças. Todos os seres são iguais perante causa e efeito; por isso, essas leis também podem ser chamadas de implacáveis.</p><p id="pt-b00661">As leis do mundo dos mortos são implacáveis, mas o Buda tem compaixão. Embora a lei de causa e efeito não mude, antes que se concretizem as retribuições boas ou más, há entre a causa e o efeito aquilo que se chama de condições. Estas podem ser transformadas pela correção das faltas e pela prática do bem. Todos os budas e bodhisattvas, com sua grande benevolência e compaixão, beneficiam incessantemente todos os seres, sem jamais se cansar. Ensinam conforme a capacidade de cada um, orientam de acordo com as condições e fazem girar continuamente a roda do Dharma correto. Assim, os seres têm um amparo para deixar o sofrimento e alcançar a felicidade, um caminho para a libertação definitiva e uma luz que os conduz rapidamente à outra margem.</p><p id="pt-b00662">Na época atual, embora existam pessoas que praticam o bem, é ainda mais forte a tendência de criar carma nocivo por não compreender causa e efeito. Catástrofes, guerras e doenças ocorrem com frequência. Mesmo com a combinação do poder espiritual, do poder dos méritos, do poder da compaixão, do poder do carma benéfico e do poder da dedicação de méritos, ainda se tratam apenas os sintomas. Para tratar a raiz, todos precisam compreender causa e efeito, abandonar os caminhos nocivos e voltar ao correto, deixar o mal e seguir o bem. Como as circunstâncias se transformam de acordo com a mente, todos os budas fazem girar continuamente a roda do Dharma.</p><p id="pt-b00663">O livro As leis implacáveis do mundo dos mortos surgiu em resposta ao momento e às circunstâncias, por um arranjo compassivo dos budas e bodhisattvas, que se compadecem de todos os seres. A respeitada Shangguan Yuhua, por sua vez, não poupou esforços, assumiu corajosamente essa grande responsabilidade e se dedicou de todo o coração a servir a todos. Entre os seres, há quem crie carma por não compreender causa e efeito e não escute os repetidos conselhos. Ainda assim, os budas e bodhisattvas não suportam vê-los sofrer. Por isso, permitem que vejam a verdadeira situação dos infernos, para que despertem um sincero arrependimento e a intenção de se corrigir. Quem ainda não cometeu esses atos também pode conhecê-los e evitá-los. É como estabelecer uma última linha de defesa diante do inferno, junto ao seu portão, na esperança de impedir que você entre para sofrer. Como seria possível algum dia terminar de descrever a bondade dos budas e bodhisattvas, que nos salvam e protegem em todos os momentos e lugares? Se, ao ler As leis implacáveis do mundo dos mortos, você se arrepender de verdade, se corrigir, não voltar a cometer essas faltas, divulgar amplamente o livro e ajudar os outros a se corrigirem, o portão do inferno se fechará por si mesmo. Mas, se continuar sem ouvir nem acreditar e agir sem restrições, será você mesmo quem abrirá o grande portão do inferno, e ninguém poderá impedir. Você precisa saber, porém, que Kṣitigarbha espera vê-lo no inferno seguindo o caminho do bodhisattva, entrando ali para salvar os seres, e não voltar a encontrá-lo sofrendo a retribuição pelo carma nocivo que criou!</p><p id="pt-b00664">Cuidem-se, todos vocês! Amitābha!</p><p id="pt-b00665">Daolan, com as palmas das mãos respeitosamente unidas</p><subtitle id="loc-666">Proteger o país e amar o povo — compreender plenamente causa e efeito</subtitle><p id="pt-b00667">Afinal, para que vivemos neste mundo? Quem sofre suporta o sofrimento sem ter o que fazer; quem desfruta da felicidade se apoia em suas bênçãos para criar carma e ainda terá de sofrer. Tudo se alterna, sem constância. Se não compreendermos as causas e seus efeitos, não estaremos desperdiçando esta preciosa existência humana?</p><p id="pt-b00668">Numa assembleia do Dharma para proteger o país e extinguir calamidades, o mestre Yinguang ensinou que proteger o país e amar o povo depende sobretudo de acreditar profundamente em causa e efeito, adotar uma alimentação vegetariana, libertar seres vivos, observar os preceitos e recitar o nome do Buda. O mestre Yinguang disse: “O período de calamidades que o mundo atravessa e todos os desastres que sofremos foram atraídos pelo carma nocivo do passado, levando-nos a experimentar agora esses frutos dolorosos. Para evitar os frutos do sofrimento, é preciso eliminar suas causas. Quais são as causas do sofrimento? Os três venenos: cobiça, aversão e ignorância. Quais são as causas benéficas? Ajudar os seres e beneficiar as pessoas. Se todos compreenderem plenamente o princípio de causa e efeito, se absterão de todo mal e praticarão todo bem; assim, as calamidades naturalmente não terão de onde surgir. Mas as pessoas de hoje desconhecem o princípio de causa e efeito. Com o peito cheio de desejos egoístas, não há mal que não cometam; só sabem de si mesmas e ignoram a existência dos outros. Causa e efeito são a grande base sobre a qual os sábios governam o mundo e o Tathāgata salva os seres. O Buda disse: ‘Se deseja conhecer as causas da vida passada, veja o que recebe nesta vida. Se deseja conhecer os frutos da próxima vida, veja o que faz nesta vida.’ O Livro das Mutações diz: ‘A família que acumula bondade certamente deixará bênçãos aos descendentes; a família que acumula maldade certamente deixará calamidades aos descendentes.’ O Livro dos Documentos diz: ‘Sobre quem pratica o bem recaem cem auspícios; sobre quem pratica o mal recaem cem calamidades.’ Esse princípio é exatamente o mesmo de causa e efeito ensinado por nosso Buda.” O sentimento sincero e profundo do mestre de proteger o país e amar o povo transparece vivamente no papel. Cada frase expressa a verdade, e cada palavra contém compaixão.</p><p id="pt-b00669">O livro As leis implacáveis do mundo dos mortos apresenta formalmente às pessoas as dolorosas retribuições do carma nocivo. Há quem diga: “Vendo que a retribuição pelos maus atos não se manifestou nesta vida, não há razão para acreditar no princípio de causa e efeito.” Essas pessoas então se entregam aos próprios desejos e fazem o que bem entendem, prejudicando os outros e a si mesmas. Não sabem que a rede da lei é vasta e que, embora suas malhas sejam largas, nada lhe escapa. Causa e efeito atravessam as três existências e ligam o passado ao presente. Não é que não haja retribuição: a hora ainda não chegou. Esta porta de meios hábeis foi especialmente aberta para que as pessoas conheçam os frutos dolorosos e eliminem as causas do sofrimento, na esperança de que abandonem o mal e pratiquem o bem.</p><p id="pt-b00670">Sobre a conduta sexual imprópria, uma das causas do sofrimento, o mestre Yinguang disse: “Ela contraria os princípios do Céu e desordena as relações humanas. Em vida, a pessoa se torna uma fera vestida de gente; após a morte, cai nos três maus caminhos de renascimento e não consegue sair deles por milhares, dezenas de milhares e centenas de milhões de kalpas.” O futuro de um país depende de pessoas capazes; o que importa nessas pessoas é sua qualidade, cujo núcleo está na virtude e na capacidade. Se as pessoas praticarem frequentemente conduta sexual imprópria, sua virtude se arruinará e sua capacidade será prejudicada, trazendo males sem fim. Nesta vida, o corpo ficará debilitado e fraco, envelhecerá depressa e adoecerá com frequência, tornando-se propenso a doenças ginecológicas difíceis de curar e até à incapacidade de ter filhos. A prática frequente de conduta sexual imprópria leva a famílias desfeitas e sem harmonia, à separação da esposa e dos filhos, a muitos ressentimentos acumulados, a fracassos no trabalho, à reputação arruinada, à diminuição das bênçãos e da riqueza e à redução da duração da vida. Jovens que veem conteúdo pornográfico, se masturbam e praticam conduta sexual imprópria destroem seus melhores anos, corrompem sua virtude e arruínam o corpo. Os jovens são precisamente o futuro do país. Como não sentir profunda dor por isso? Trata-se realmente de uma arma oculta que prejudica o país e as pessoas! Destrói e fere as pessoas de modo invisível! <a xlink:href="#loc-1722">[N37]</a></p><p id="pt-b00671">Pergunta: O que você diz faz sentido, mas é possível aconselhar e orientar as pessoas por meio de argumentos. Por que é necessário descrever tantas punições infernais e cenas sangrentas, fazendo as pessoas sentirem medo, opressão, pavor e mal-estar? Além disso, a maioria não acredita na existência dos infernos. Isso não acaba bloqueando o próprio caminho?</p><p id="pt-b00672">Resposta: Um remédio só é bom quando corresponde à doença. Hoje, muitas pessoas já não acreditam em causa e efeito, e dizem que é ainda mais difícil enxergar a causalidade ao longo das três existências. Esta concessão excepcional de um meio hábil permite ver que o carma nocivo inevitavelmente traz uma retribuição dolorosa, para que, ainda neste mundo, as pessoas corrijam o passado e cultivem o futuro, evitando cair nos maus caminhos de renascimento. Além disso, o livro contém muitos ensinamentos sobre as leis de causa e efeito. Assim, dá igual importância aos princípios e aos acontecimentos, que se complementam e se esclarecem mutuamente, levando as pessoas a parar por conhecerem o que devem temer e a se corrigir por saberem parar. Desse modo, rompe-se o portão do inferno e abre-se o caminho do despertar.</p><p id="pt-b00673">Pergunta: O livro As leis implacáveis do mundo dos mortos é verdadeiro? Se acredito, existe; se não acredito, não existe. Fico até mais tranquilo se não o ler.</p><p id="pt-b00674">Resposta: Se acredita, existe; se não acredita, não existe. É igual para todos. Para saber se aquilo que As leis implacáveis do mundo dos mortos relata é verdadeiro, é preciso tomar como referência as leis de causa e efeito ensinadas pelo Buda. O livro descreve em detalhes, para a época atual, uma pequena parte das retribuições dolorosas dos infernos e orienta as pessoas para o bem. O critério não deve ser se nós mesmos já vimos essas coisas. Por exemplo, os corpos celestes no espaço não deixavam de existir só porque as limitações científicas de antes ainda não nos haviam permitido descobri-los. Será que não ver algo por enquanto significa que esse algo não existe? Portanto, falando com rigor, uma pessoa pode ainda não ter visto algo, mas não pode afirmar que certamente não existe. <a xlink:href="#loc-1676">[N15]</a></p><p id="pt-b00675">Se cumprirmos em tudo os deveres próprios de um ser humano, teremos harmonia no corpo e na mente, alegria na família e harmonia na sociedade. A base de um país são as pessoas, e a raiz das pessoas está na virtude. É justamente por isso que um país sem virtude não prospera, e uma pessoa sem virtude não se sustenta!</p><p id="pt-b00676">Daolan, com as palmas das mãos respeitosamente unidas</p></section></section><section id="sec-40"><title><p id="loc-677">As leis implacáveis do mundo dos mortos — Volume 2</p></title><section id="intro-41"><subtitle id="loc-678">Sumário</subtitle><p id="pt-b00679">0 — Prefácio da autora</p><p id="pt-b00680">1 — Registro da Vida e da Morte</p><p id="pt-b00681">2 — Afinal, tudo já estava escrito! — O código do destino humano e o aumento ou a redução da duração da vida: uma consulta ao Registro da Vida e da Morte revela os segredos celestes!</p><p id="pt-b00682">3 — Finalmente vejo o Espelho dos Atos Nocivos, de que se fala há tanto tempo — diante da Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos, não há gente boa!</p><p id="pt-b00683">4 — O comandante supremo do mundo dos mortos: o Grande Imperador Yama, Soberano do Mundo dos Mortos</p><p id="pt-b00684">5 — Notificação do Mundo dos Mortos sobre Corpos Espirituais — Cabeça de Boi e Cara de Cavalo explicam em detalhes todo o procedimento ao terminar o tempo de vida de uma pessoa</p><p id="pt-b00685">6 — Desde a Antiguidade, a retidão e a perversidade são como gelo e brasa; hoje, entre difamações e elogios, distinguem-se a falsidade e a verdade! — Visita ao general Yue Fei, grande herói nacional de sua época, para ouvir em detalhe os acontecimentos daqueles anos</p><p id="pt-b00686">7 — Um copo da sopa de Meng Po faz esquecer tanto os afetos quanto os rancores! — Visita à Plataforma Yuwang</p><p id="pt-b00687">8 — A dolorosa retribuição por desperdiçar alimentos — Inferno da Colheita Abundante dos Cinco Cereais</p><p id="pt-b00688">9 — Ensinamento dado pessoalmente pelo Buda: desperdiçar comida e bebida leva inevitavelmente à queda nos infernos e ao sofrimento!</p><p id="pt-b00689">10 — O Buda diz: apegar-se às comidas saborosas e comer demais, até ficar excessivamente cheio, facilita a queda nos destinos ruins!</p><p id="pt-b00690">11 — As bênçãos e os anos de vida que uma pessoa acumulou com tanto esforço acabam sendo desperdiçados pelo hábito de fumar!</p><p id="pt-b00691">12 — A promoção do Imperador de Dongyue e as catástrofes de Jambudvīpa do Sul</p><p id="pt-b00692">13 — Tudigong, a divindade reta das bênçãos e da virtude</p><p id="pt-b00693">14 — Uma mentira pode ser grave ou leve — Visita ao Inferno do Gelo, do Arrancamento da Língua e do Despedaçamento do Corpo</p><p id="pt-b00694">15 — O castigo doloroso da fala frívola — o Inferno dos Computadores de Vidro, onde serpentes espinhosas se enrolam nas línguas até rompê-las</p><p id="pt-b00695">16 — Pregos voadores cortam línguas — uma primeira visita aos castigos dos infernos da fala divisiva</p><p id="pt-b00696">17 — A retribuição pela fala ofensiva — o sofrimento extremo do Inferno das Serpentes Venenosas e dos Intestinos Cravados de Pregos</p><p id="pt-b00697">18 — Nunca pesque com vara — Inferno da Alma Solitária que Pesca Peixes Sozinha no Mar de Espadas</p><p id="pt-b00698">19 — Ayu visita Chenghuang</p><p id="pt-b00699">Apêndices</p><p id="pt-b00700">Leis sobre a conduta sexual imprópria e as punições do mundo dos mortos</p><p id="pt-b00701">Comentários à Escritura do Soberano Sagrado Guandi sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria <a xlink:href="#loc-1724">[N38]</a></p><p id="pt-b00702">Preciosos Ensinamentos do Soberano Wenchang sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria</p><p id="pt-b00703">Tabela dos períodos de abstinência para preservar o corpo e sustentar a vida e dos dias de interdição ligados ao Céu, à Terra e às pessoas, do Espelho Precioso da Longevidade e da Saúde, ampliado e revisto pelo Grande Mestre Yinguang</p><p id="pt-b00704">Minha história com As leis implacáveis do mundo dos mortos</p></section><section id="sec-42"><title><p id="loc-705">0 — Prefácio da autora</p></title><p id="pt-b00706">Amitābha! Olá a todos!</p><p id="pt-b00707">Agradeço ao Buda por conceder a esta humilde aprendiz a sagrada oportunidade de escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos. Eu, Ayu, humilde aprendiz, sinto-me profundamente envergonhada por não ter conseguido, devido aos diversos obstáculos de meu próprio carma, corresponder à vontade do Buda e do Céu e concluir este livro o mais depressa possível. Aproveito esta ocasião para expressar meu profundo arrependimento diante de todos. Aprenderei com o espírito dos bodhisattvas do Mahāyāna: sua grande benevolência incondicional pelos seres e sua grande compaixão que reconhece a unidade com todos os seres, para continuar e concluir o trabalho restante de As leis implacáveis do mundo dos mortos.</p><p id="pt-b00708">Desde que comecei a escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos, além de ampliar meus conhecimentos e experiências, eu, Ayu, também passei por diversas situações que nunca haviam ocorrido em minha vida. Elas realmente põem à prova minha força interior e consomem intensamente minhas forças mentais e minha energia. Quando minhas energias estão baixas, não consigo ir aos infernos, o que acaba atrasando a redação dos textos e faz diretamente com que a conclusão de As leis implacáveis do mundo dos mortos continue demorando.</p><p id="pt-b00709">A impressão mais forte que escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos me trouxe foi compreender profundamente a importância de observar os preceitos. Muitas pessoas acham que observar os preceitos é algo distante demais, uma questão para os praticantes monásticos, sem relação conosco, pessoas comuns. Essa ideia realmente não está de acordo com causa e efeito nem com as leis do mundo dos mortos. Na verdade, todos os grandes seres realizados tiveram necessariamente de resguardar com cuidado os diversos preceitos, de acordo com os princípios e o Dharma, quando ainda eram pessoas comuns, na etapa de cultivar as causas.</p><p id="pt-b00710">Observar os preceitos é a base da conduta humana. Qualquer pessoa que observe os cinco preceitos possuirá diversos méritos. Quem violar os preceitos não poderá escapar das implacáveis leis do mundo dos mortos, que reduzem as bênçãos e a duração da vida. Se quem cometer a falta for um budista que observa os preceitos, haverá ainda uma transgressão adicional de preceito, e, no futuro, ele próprio terá de suportar todos os frutos dolorosos. <a xlink:href="#loc-1870">[N111]</a></p><p id="pt-b00711">Outra coisa que compreendi profundamente foi o poder da grande compaixão do Buda. Esse poder supremo pode conduzir a nós, seres sofredores, para fora do sofrimento e à felicidade. Basta mantermos a gratidão no coração, recitarmos sinceramente o nome do Buda e nos arrependermos para dissipar o carma culpável que traz o sofrimento dos infernos escuros.</p><p id="pt-b00712">Somos todos pessoas comuns e, como tais, naturalmente já tivemos diversos pensamentos e comportamentos errados. Ao percebermos que agimos de maneira errada ou inadequada, devemos nos corrigir imediatamente e nunca mais repetir a falta. Durante os anos que nos restam, devemos observar bem os preceitos, praticar o bem, acumular virtude, recitar o nome do Buda e libertar seres vivos até o fim da vida. Mesmo que, porventura, não consigamos renascer na Terra Pura, o Rei Yama, soberano do mundo dos mortos, certamente nos julgará com indulgência e perdoará nosso carma culpável. <a xlink:href="#loc-1872">[N112]</a></p><p id="pt-b00713">Estas são algumas pequenas impressões que eu, Ayu, humilde e envergonhada aprendiz, escrevi para compartilhar com todos os fiéis!</p><p id="pt-b00714">Desejo sinceramente que todos os seres sencientes de nosso continente meridional de Jambudvīpa possam levar uma vida pura, jamais praticar conduta sexual imprópria ao longo de toda a vida, cultivar juntos, como casais, uma prática pura e reunir plenamente condições benéficas!</p><p id="pt-b00715">Desejo também que todos os seres sencientes de todo o espaço e do reino do Dharma possam alcançar a realização pela observância dos preceitos puros, despertar a grande mente de bodhi, abster-se de todo mal, praticar todo bem, recitar diligentemente o nome do Buda e cultivar a prática, purificar corpo e mente e nascer por transformação em flores de lótus! <a xlink:href="#loc-1874">[N113]</a></p><p id="pt-b00716">Escrito respeitosamente por Shangguan Yuhua, humilde e envergonhada aprendiz</p></section><section id="sec-43"><title><p id="registro-da-vida-e-da-morte">1 — Registro da Vida e da Morte</p></title><p id="pt-b00718">Pelo que eu, Ayu, vi, o Registro da Vida e da Morte é amarelo-claro. A capa tem alguns desenhos de linhas e traz os três caracteres “生死簿”, “Registro da Vida e da Morte”. Seu formato e acabamento são os de um livro antigo encadernado com costura.</p><p id="pt-b00719">O volume amarelo-claro registra toda a boa e má fortuna, as calamidades e as bênçãos do corpo espiritual durante sua vida no mundo humano. O magistrado do mundo dos mortos também tem em mãos um Registro da Vida e da Morte vermelho-escuro, que contém informações detalhadas sobre os corpos espirituais do mundo dos mortos. Seu formato e acabamento são iguais aos do volume amarelo-claro; apenas a cor é diferente.</p></section><section id="sec-44"><title><p id="loc-720">2 — Afinal, tudo já estava escrito! — O código do destino humano e o aumento ou a redução da duração da vida: uma consulta ao Registro da Vida e da Morte revela os segredos celestes!</p></title><p id="pt-b00721">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00722">Amitābha! Eu, Ayu, uni as palmas das mãos e saudei o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00723">“Magistrado! Hoje gostaria de fazer algumas perguntas. Dizem que há pessoas vivas capazes de consultar o Registro da Vida e da Morte no mundo dos mortos. Isso é verdade? O Registro da Vida e da Morte realmente existe? Que tipo de livro é? Ouvi dizer que a adivinhação do destino, no mundo dos vivos, pode revelar acontecimentos registrados nele. Quanto uma pessoa vai comer e quanto vai vestir já está determinado antes do nascimento? Se a duração da vida já está fixada ao nascer, fatores como cuidar da saúde, manter uma rotina regular, comer com moderação e fazer mais exercícios podem aumentar os anos de vida originalmente determinados? Ou é completamente impossível alterar o que já está fixado? O destino pode ser mudado? É possível conseguir um prolongamento da vida ao pedi-lo? Há algum limite para a quantidade de anos que se pode acrescentar ou retirar da duração da vida? Muito obrigada, magistrado!”</p><p id="pt-b00724">O magistrado do mundo dos mortos respondeu: “De fato, há pessoas no mundo dos vivos que podem vir ao mundo dos mortos consultar o Registro da Vida e da Morte. É claro que essas pessoas não são pessoas comuns: necessariamente existem causas e condições especiais para isso. Quem ainda não chegou ao fim de sua vida não pode vir ao mundo dos mortos. Há principalmente dois tipos de pessoas que vêm para cá. O primeiro vem levado pela força do carma: são aqueles que, durante a vida, cometeram os diversos atos nocivos que levam aos infernos e vêm sofrer a retribuição de seu carma, sem poder decidir por si mesmos. Em termos gerais, todos cometeram atos que se enquadram nestas três categorias: carma do corpo, carma da fala e carma da mente. O carma do corpo inclui três grandes categorias: matar, roubar e praticar conduta sexual imprópria. O carma da fala inclui quatro grandes categorias: mentir, usar fala frívola, usar fala ofensiva e usar fala divisiva. O carma da mente inclui três grandes categorias: cobiça, aversão e ignorância. <a xlink:href="#loc-1881">[N114]</a></p><p id="pt-b00725">Os seres do mundo dos vivos que cometem os três tipos de carma do corpo, os quatro da fala e os três da mente mencionados acima retornam em espírito ao mundo dos mortos ao término da vida. Aqui estou apenas dando uma explicação breve e geral; em detalhes, há muitas outras classificações, nas quais não entrarei agora. Há também seres cujos atos em vida não foram nem bons nem maus no conjunto: o bem e o mal se equilibravam. Ao término da vida, eles renascem na área dos habitantes comuns do caminho dos fantasmas e também pertencem ao primeiro tipo.</p><p id="pt-b00726">O segundo tipo vem pelo poder do Buda, pelo poder dos votos e pelo poder das bênçãos e da virtude. Essas pessoas vivas são necessariamente praticantes que têm uma missão especial no mundo humano. Observam rigorosamente os preceitos puros e, conforme as condições, vão a toda parte socorrer os que sofrem, permitindo que os seres sencientes deixem o sofrimento e alcancem a felicidade. Para salvar os seres, difundem o Dharma correto por toda parte. Quando se trata de salvar os seres, esses praticantes podem vir ao mundo dos mortos consultar o Registro da Vida e da Morte, mas acontecimentos assim são extremamente raros. <a xlink:href="#loc-1881">[N114]</a></p><p id="pt-b00727">No mundo dos mortos, o Registro da Vida e da Morte fica sob a administração do magistrado, que normalmente o carrega nas mãos. Nele está registrado se as bênçãos de cada pessoa são pequenas ou grandes: quanto comerá, quanto vestirá, suas terras, casas e riqueza familiar, seus pais, irmãos, irmãs e demais parentes, doenças, desastres e calamidades, assim como a duração de sua vida. Tudo está registrado em detalhes.</p><p id="pt-b00728">Por exemplo, que determinada pessoa chegará ao fim da vida em determinado lugar, em certo ano, mês, dia, hora e minuto: tudo isso já é escrito no Registro da Vida e da Morte antes de ela renascer no mundo humano e não pode ser alterado arbitrariamente. Para fazer uma alteração, é necessário dispor dos dados fornecidos pela divindade que acompanha cada ser desde o nascimento e, depois, obter a aprovação de Yama, o soberano supremo do mundo dos mortos. Só então a alteração pode ser feita.</p><p id="pt-b00729">A adivinhação do destino no mundo dos vivos pode revelar acontecimentos registrados no Registro da Vida e da Morte. Basta que o adivinho tenha os oito caracteres exatos do nascimento de uma pessoa para calcular a boa e a má fortuna, as bênçãos e as calamidades de toda a sua vida. Mas ele só pode calculá-las, não mudá-las. Por toda parte, no mundo dos vivos, há quem afirme ser capaz de mudar o destino, a sorte financeira, o casamento, a carreira e assim por diante. Na maioria dos casos, isso é apenas uma manobra comercial para tirar dinheiro das pessoas. Muitas pessoas, ao verem o adivinho relatar com precisão acontecimentos de seu passado ou o número de seus familiares, ficam impressionadas e acham que encontraram alguém de poderes elevados. Embora alguns adivinhos dominem as artes divinatórias e consigam fazer esses cálculos, em muitos casos, na verdade, estão possuídos por corpos espirituais. <a xlink:href="#n115-os-oito-caracteres-do-nascimento">[N115]</a></p><p id="pt-b00730">Os corpos espirituais possuem poderes como o de conhecer a mente alheia e podem saber os pensamentos, as ideias e alguns acontecimentos passados da pessoa que consulta o adivinho. Mas as pessoas vivas não conseguem distinguir isso e ainda se alegram por achar que encontraram alguém de poderes elevados, passando a obedecer a tudo o que o adivinho manda. Depois começa uma série de serviços supostamente destinados a melhorar o destino como um todo: mudar a sorte, melhorar as relações interpessoais, aumentar a sorte na carreira, no amor e na saúde, montar arranjos de feng shui e assim por diante. Sem perceber, a pessoa gasta muito dinheiro e desperdiça bastante tempo, mas o destino que estava fixado não muda em absolutamente nada. As calamidades vêm do mesmo jeito, ela continua sujeita a adoecer e, no fim, ainda terá de morrer.</p><p id="pt-b00731">Para mudar o destino, não se deve procurar um adivinho para que ele o mude por nós. Reescrever verdadeiramente o destino depende de nós mesmos. Praticando muitas boas ações e buscando por nós mesmos aumentar nossas bênçãos, não precisamos consultar adivinhos. Quem tem bênçãos naturalmente recebe ajuda de pessoas benfeitoras e encontra satisfação na saúde, na família, na carreira, no casamento e assim por diante. Os outros podem, no máximo, nos lembrar do que é preciso fazer. Praticar o bem é algo que precisamos fazer pessoalmente, de maneira concreta, mantendo essa intenção sempre presente, de manhã à noite, sem interrupção. Assim, o destino fixado pode mudar, e o Registro da Vida e da Morte de cada pessoa pode começar a ser reescrito!</p><p id="pt-b00732">Ayu, você precisa saber que, mesmo que algumas pessoas passem a vida inteira cuidando da saúde, mantendo uma rotina regular, comendo com moderação, dormindo o suficiente e fazendo bastante exercício, esses fatores não aumentam em nada o tempo de vida originalmente determinado. Eles simplesmente não podem alterar o que já está fixado. É claro que, cuidando bem do corpo no dia a dia, a pessoa naturalmente sofre um pouco menos com as dores físicas das doenças.</p><p id="pt-b00733">Na verdade, a grande maioria dos seres não consegue mudar substancialmente o próprio destino. Passa toda a vida caminhando para a morte sem nada de extraordinário e, seguindo seu carma, volta a transmigrar pelo caminho correspondente. Naturalmente, quando qualquer ser pratica o bem, mesmo que seja uma boa ação aparentemente muito pequena e insignificante, desde que tenha a intenção sincera de beneficiar os outros, a boa retribuição que receberá no futuro poderá ser enorme, mudando assim seu destino. Há dois tipos de pessoas capazes de alterar a trajetória do destino fixado: as de extrema maldade e as de extrema bondade. As de extrema maldade descem diretamente, após a morte, aos infernos para receber sua retribuição. Já as de extrema bondade comovem o Céu com sua piedade filial, acumulam muita virtude oculta e socorrem os que sofrem e estão em perigo. Suas bênçãos crescem de maneira ilimitada e sem fronteiras, permitindo-lhes também romper o destino originalmente fixado e elevar-se aos poucos. Depois da morte, renascem no reino celestial para desfrutar de bênçãos e felicidade.</p><p id="pt-b00734">Quanto à sua pergunta sobre pedir uma vida mais longa, isso pode ser alcançado, mas há limites para o acréscimo de anos, e é preciso pedi-lo de acordo com os princípios corretos e o Dharma. Isso significa que, se nossa saúde estiver ruim e precisarmos de alimentos complementares para nutrir nosso corpo físico, jamais poderemos tirar a vida de animais para nutri-lo. O Céu possui a virtude de prezar a vida. Prejudicar a vida de outros seres para cuidar da nossa própria vida é algo estritamente proibido pelas leis do mundo dos mortos. Além de não prolongar a vida, isso cria uma dívida de vida que atrairá consequências ruins no futuro. Quem pede uma vida mais longa deve se lembrar de que, antes de tudo, precisa adotar a alimentação vegetariana. Se prejudica a vida dos outros, como poderá ter longevidade? Quando a vida de outro ser é destruída, ele certamente sente indignação e injustiça e procura uma oportunidade para se vingar. Por isso, a alimentação vegetariana é o alicerce do prolongamento da vida. Além disso, é preciso despertar uma grande compaixão para salvar todos os seres do sofrimento e levá-los à felicidade, despertar a grande mente de bodhi para conduzir amplamente todos os seres à libertação e praticar por toda a vida a alimentação vegetariana e a libertação de animais. Se a pessoa realmente fizer isso, o tempo de vida no Registro da Vida e da Morte certamente aumentará. A quantidade de anos acrescentados dependerá da amplitude de sua intenção e da quantidade de seus méritos.</p><p id="pt-b00735">No Registro da Vida e da Morte que está em minhas mãos, há algumas pessoas cuja vida é prolongada sem que tenham pedido. Algumas são seres comuns, que não despertaram uma grande aspiração de salvar os seres sencientes. Apenas por um pensamento sincero, pelo desejo de ajudar os outros, ao verem uma injustiça no caminho ou diante de uma situação crítica, sentiram compaixão e salvaram a vida de um ser em sofrimento. Esses seres terão seus atos incluídos nos informes periódicos da divindade que os acompanha desde o nascimento e, assim, conseguirão prolongar a própria vida. Eles mesmos, porém, não sabem que seu tempo de vida foi aumentado. Nesses casos, o acréscimo costuma ser de 6 a 12 anos. Se alguns seres tiverem acumulado virtude oculta em grande abundância, talvez não consigam usufruir dela inteiramente em uma única vida. Nesse caso, ela será distribuída por sucessivas vidas, para que desfrutem da retribuição de uma vida longa. A duração da vida no mundo humano tem uma medida determinada; as recompensas e punições das leis do mundo dos mortos não violam as leis da natureza.”</p><p id="pt-b00736">Então eu, Ayu, quis fazer mais uma pergunta ao magistrado do mundo dos mortos: “Nos sutras, o Buda ensina as pessoas a comer menos e dormir menos, ou até mesmo a não dormir, para praticar. Isso afeta a saúde e a duração da vida?”</p><p id="pt-b00737">O magistrado do mundo dos mortos disse: “O Buda é um praticante dotado de grande sabedoria no universo. O caminho de prática que seguimos já foi percorrido pelo Buda, passo a passo. Como alguém que já passou por ele, o Buda naturalmente sabe como ensinar as pessoas a trilhar esse caminho. Essa maneira de ensinar a prática não prejudica a saúde nem a duração da vida. Somente a prática de ações nocivas nos três campos do carma — corpo, fala e mente — ou causas como deixar de cuidar do corpo ao longo da vida, comer e beber em excesso e sem critério, inverter o dia e a noite na rotina e perder o controle das emoções afetam a duração da vida. <a xlink:href="#loc-1885">[N116]</a></p><p id="pt-b00738">Comer menos e dormir menos são maneiras muito boas de cuidar do corpo. Nós, seres humanos, na verdade podemos ficar sem comer e sem dormir. Se uma pessoa conseguir, a cada pensamento, harmonizar sua respiração com a natureza e alcançar a união entre o Céu e o ser humano, naturalmente terá saúde e longevidade, poderá ficar sem comer e sem dormir e retornará à luminosidade de antes de renascer. Mas as pessoas comuns não conseguem fazer isso. Por isso, o Buda ensina as pessoas a avançar gradualmente, começando por comer menos. Ao comer menos, naturalmente dormem menos e, depois, passam a praticar com diligência sem dormir. <a xlink:href="#loc-1885">[N116]</a></p><p id="pt-b00739">Como já disse há pouco, a quantidade que uma pessoa comerá já foi determinada antes de seu renascimento. Comer menos agora significa acumular as bênçãos originalmente destinadas a esta vida. Mantendo por muito tempo uma prática diligente de comer menos e dormir menos, ou até mesmo de não dormir, certamente se acumulam, dia após dia e mês após mês, bênçãos e bons frutos ainda maiores. Como isso poderia prejudicar a duração da vida? Muito bem! Ayu, você entendeu?” Assenti com a cabeça, indicando que havia entendido. <a xlink:href="#loc-1885">[N116]</a></p><p id="pt-b00740">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Por hoje, ficamos por aqui. Se tiver perguntas, será bem-vinda novamente!”</p><p id="pt-b00741">“Está bem! Amitābha! Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos!”</p><p id="pt-b00742">Eu, Ayu, juntei as palmas das mãos e me inclinei diante do magistrado do mundo dos mortos! Voltei sobre o lótus branco!</p></section><section id="sec-45"><title><p id="loc-743">3 — Finalmente vejo o Espelho dos Atos Nocivos, de que se fala há tanto tempo — diante da Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos, não há gente boa!</p></title><p id="pt-b00744">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00745">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos e saúdo o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00746">“Hoje gostaria de perguntar ao magistrado do mundo dos mortos: como é a lendária Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos? Quando eu era bem pequena, ouvia frequentemente os mais velhos da minha família conversarem e dizerem que, depois de morrer, as pessoas precisam ir ao mundo dos mortos para se verem na Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos. Não sei se isso está correto. Gostaria muito de visitá-la.”</p><p id="pt-b00747">O magistrado do mundo dos mortos explicou: “A Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos foi criada especialmente para aqueles que praticam ações nocivas. É como se, no fundo do coração de cada pessoa, houvesse um aparelho gravador do Espelho dos Atos Nocivos. Todas as ações boas ou más que uma pessoa viva pratica diariamente são registradas e filmadas por esse aparelho, e também são registradas em segredo, uma a uma, pela divindade que a acompanha desde o nascimento.</p><p id="pt-b00748">Os materiais usados na Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos são madeira sagrada e vidro precioso provenientes do mundo dos vivos. Para formar a plataforma, esses materiais são então reunidos às energias espirituais yin e yang do Céu e da Terra. Nessas energias espirituais yin e yang do Céu e da Terra, o yang representa a luz e as boas ações cármicas. Quem pratica boas ações por toda a vida tem a natureza espiritual luminosa. Ao chegar à Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos, tudo é luminosidade e nenhuma imagem é exibida. Por isso, as pessoas boas não precisam se ver no Espelho dos Atos Nocivos. O yin representa a escuridão e as sombras, isto é, as ações cármicas nocivas. Sempre que uma pessoa pratica uma ação nociva em vida, por mais secreta que seja, ela tem plena consciência disso em seu coração. Tudo é armazenado na consciência ālaya, registrado no espelho da mente, no fundo de seu coração, e uma sombra se manifesta em seu interior.</p><p id="pt-b00749">A Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos é, por sua própria origem, formada pela reunião das duas energias, yin e yang. Quando a plataforma encontra a energia espiritual yin das ações nocivas de um espírito culpado, as energias imediatamente interagem e se conectam, exibindo de pronto as ações nocivas de toda a vida desse espírito. Sua verdadeira face é inteiramente revelada, sem que nada seja omitido e sem que ele possa se esconder. É o que diz o Sutra Avataṃsaka: “Se alguém deseja compreender Todos os budas dos três tempos, Deve contemplar a natureza do reino do Dharma: Tudo é criado somente pela mente.” Trata-se, portanto, de uma projeção da mente.</p><p id="pt-b00750">Basta que um espírito culpado fique diante da Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos para que todos os seus atos maus e secretos, grandes ou pequenos, sejam exibidos, um a um. Assim que a plataforma começa a exibi-los, todos os seres ao seu redor conseguem ver simultaneamente todos os crimes e atos maus daquele espírito. Muitos espíritos culpados sentem vergonha, arrependimento, pavor e medo. Mas o arrependimento já não pode desfazer o que fizeram, e só lhes resta ser arrastados pelos ferozes guardas espectrais para continuar as longas e dolorosas punições nos infernos.</p><p id="pt-b00751">Se uma pessoa pratica o bem e acumula virtudes por toda a vida, é íntegra e franca e nada esconde em seu coração, possui uma energia de bondade suprema e de puro yang. Ao chegar diante da Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos, tudo aparece em branco. Quem pratica o bem por toda a vida não precisa vir se ver nessa plataforma. Ao terminar seu tempo de vida, ascende diretamente conforme o grau de luminosidade de sua natureza espiritual. Quanto mais luminosa ela for, mais alto ascenderá. Alguns ascendem a terras de Buda de outras regiões com as quais têm afinidade; outros são recebidos por divindades benevolentes dotadas de bênçãos e virtudes, que os conduzem ao renascimento no reino celestial. Já os corpos espirituais que não são nem bons nem maus passam pelo julgamento dos dez salões e depois são encaminhados ao renascimento no mundo humano. Conforme a extensão de suas bênçãos, renascem como homens ou mulheres, na riqueza e na posição elevada ou na pobreza, com vida longa ou curta, e assim por diante. Aqueles que praticaram ações nocivas terão de vir diante da Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos. Todas as ações nocivas de sua vida serão expostas diante de seus olhos e, em seguida, eles serão levados pelos guardas espectrais, envergonhados e sem poder fazer nada.” <a xlink:href="#loc-1889">[N118]</a></p><p id="pt-b00752">“Ayu, venha comigo visitar o Grande Salão do Espelho do Carma do mundo dos mortos.”</p><p id="pt-b00753">“Às suas ordens, magistrado do mundo dos mortos!”</p><p id="pt-b00754">Agora vejo muitas pessoas à frente. Há um grande espelho oval, muito largo. O magistrado do mundo dos mortos diz que esta é a Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos. No alto do espelho está escrito: “Diante da Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos, não há gente boa”. O magistrado pede que eu tire suas medidas.</p><p id="pt-b00755">A Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos tem aproximadamente 3,3 metros de altura e 1,8 metro de largura. Vejo uma base retangular de madeira verde-azulada, entalhada com desenhos em relevo, que sustenta o espelho. A face do espelho é de vidro precioso, cujas bordas são cercadas por ornamentos de madeira verde-azulada em relevo. Esse vidro precioso é a grande tela que exibe os atos maus de toda a vida dos espíritos culpados. Os ornamentos de madeira verde-azulada em relevo da plataforma emitem um brilho tênue e cintilante. Junto dos guardas espectrais ferozes e de aspecto ameaçador que estão ao lado, isso causa uma sensação de enorme terror! Além disso, a plataforma exibe as ações nocivas secretas de alguns espíritos culpados, que ninguém conhecia enquanto eles estavam vivos. Agora, culpados e provas estão ali, juntos, à vista de todos. Ver isso faz o coração gelar de medo e torna tudo ainda mais aterrorizante!</p><p id="pt-b00756">Os espíritos culpados daqui são todos de pessoas cujo tempo de vida acabou há pouco. Já conseguem sentir a atmosfera do mundo dos mortos, e a maioria está com o semblante aflito. Acabo de ouvir um homem dizer: “Nunca matei ninguém nem provoquei incêndios em toda a minha vida. Por que me arrastaram para cá? Deixem-me sair!” Vejo dois guardas espectrais ferozes segurarem um homem e empurrá-lo com força para diante da Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos. Sentindo muita dor, ele é obrigado a se ajoelhar. O amplo espelho imediatamente faz aparecer cenas da conduta sexual imprópria que ele praticou ao longo da vida, e com mais de uma mulher. São simplesmente insuportáveis de olhar. Isso é uma conduta sexual imprópria extrema: ele fez sua esposa legítima sofrer tamanha indignação que ela ficou acamada e morreu de tristeza. Ainda bem que essas coisas não me afetam; caso contrário, eu teria de lavar os olhos depois de vê-las! A essa altura, as duas pernas do espírito culpado já tremem, e ele é arrastado pelos guardas espectrais.</p><p id="pt-b00757">Vejamos agora o espírito culpado seguinte, uma mulher. Sua aparência é refinada e suas feições são regulares. Que crime terá cometido? O Espelho dos Atos Nocivos mostra que ela acompanhou uma pessoa de seu círculo de amizades na difamação de um praticante leigo que difundia o Dharma e observava os preceitos com rigor. Essa mulher estudava o budismo e possuía conhecimentos budistas muito amplos. Infelizmente, por sentir inveja, difamou deliberadamente esse praticante leigo que difundia o Dharma e observava os preceitos com rigor, afirmando que ele havia estuprado determinada pessoa. Como a difamação teve êxito, ninguém mais foi ouvir seus ensinamentos, e o praticante leigo não teve alternativa a não ser se recolher para praticar.</p><p id="pt-b00758">Essa mulher difamou o praticante leigo de maneira ainda mais grave do que aquela pessoa de seu círculo de amizades. Essa pessoa não tinha conhecimentos do Dharma tão sólidos quanto os dela e pertencia ao tipo de pessoa que, por falta de sabedoria, repete o que os outros dizem. Apenas acompanhou os outros na difamação. Já esse espírito culpado planejou tudo cuidadosamente e usou todos os meios para difamar o praticante leigo, até finalmente levá-lo a se recolher para praticar.</p><p id="pt-b00759">Por causa da difamação, a mulher também contraiu câncer na garganta, acompanhado de complicações. Pus escorria continuamente de sua boca e de seu nariz, e ela ficou deitada no hospital, recebendo infusões intravenosas, até seu tempo de vida terminar em sofrimento. Agora, o espírito dessa mulher já sabe que uma grande desgraça se aproxima e imediatamente se ajoelha, implorando clemência. Com ferocidade, um guarda espectral perfura sua boca com um forcado e diz: “Vamos ver se daqui em diante você ainda terá a ousadia de difamar o Dharma correto e cortar a vida de sabedoria dos outros! Agora vá se apresentar ao Rei Yama!” <a xlink:href="#loc-1887">[N117]</a></p><p id="pt-b00760">Esse espírito feminino é realmente digno de pena! Se soubesse que acabaria assim, por que teria feito aquilo? Sabotar a difusão do Dharma correto é cortar o caminho da libertação dos seres sencientes. Isso constitui uma grave ação cármica nociva, cuja retribuição se recebe nos infernos. As leis do mundo dos mortos dispõem de diversas punições para castigar os difamadores. Mas, quando eles terminarem de sofrer essas retribuições nos infernos, já nem se sabe em que ano e mês o mundo estará!</p><p id="pt-b00761">Atrás deles, ainda há uma fila muito longa. Todos os espíritos culpados estão na fila, em número tão grande que simplesmente se perde de vista. Todos precisam vir se ver na Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos. Isso mostra que, no mundo humano, há realmente muitas, muitas pessoas que praticam ações nocivas!</p><p id="pt-b00762">Hoje, por falta de tempo, não vi muitos casos. Na verdade, observar esta Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos é um tanto penoso, pois tudo o que aparece nela envolve violações dos preceitos. Além de haver coisas impróprias para crianças, há muitos acontecimentos sangrentos e aterrorizantes: cenas de assassinato com derramamento de sangue, todo tipo de cena de crueldade contra pessoas, intrigas e disputas, e assim por diante. Ai!!! Não consigo entrevistar cada espírito culpado individualmente nesse curto tempo, e também não quero descrever muitas coisas em detalhes. Se as descrevesse minuciosamente, este livro, As leis implacáveis do mundo dos mortos, certamente se tornaria um livro extremamente aterrorizante, capaz de causar grandes sustos.</p><p id="pt-b00763">No fim das contas, todos devem valorizar este precioso corpo humano, observar os cinco preceitos e as dez boas ações e acumular muitas bênçãos e virtudes. No mínimo, é preciso preservar a possibilidade de ter um corpo humano. De modo algum caiam nos infernos! Os infernos são realmente dolorosos, dolorosos demais. Até permanecer ali por meio minuto é difícil de suportar!</p><p id="pt-b00764">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Por hoje, ficamos por aqui. Ayu, volte primeiro e escreva seu relato para advertir as pessoas do mundo a cultivar mais a própria conduta e a natureza interior e a praticar o bem com empenho. Que não pratiquem ações nocivas que levam aos infernos por acharem que ninguém sabe e que o Céu nada percebe. É preciso saber que, diante da Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos, todas as ações nocivas, grandes ou pequenas, se revelam, sem exceção. Espero que as pessoas do mundo não atraiam sobre si a retribuição implacável das leis do mundo dos mortos!”</p><p id="pt-b00765">“Amitābha! Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos!”</p><p id="pt-b00766">Eu, Ayu, juntei as palmas das mãos e me inclinei diante do magistrado do mundo dos mortos! Voltei sobre o lótus branco!</p></section><section id="sec-46"><title><p id="o-comandante-supremo-do-mundo-dos-mortos-o-grande-imperador-yama-soberano-do-mundo-dos-mortos">4 — O comandante supremo do mundo dos mortos: o Grande Imperador Yama, Soberano do Mundo dos Mortos</p></title><p id="pt-b00768">Agora eu, Ayu, relato a todos fielmente a aparência do Imperador de Fengdu, conforme o que vi:</p><p id="pt-b00769">O comandante supremo do mundo dos mortos, o Grande Imperador Yama, Soberano do Mundo dos Mortos, também chamado de Imperador de Fengdu, tem um corpo robusto e forte, é alto e imponente, e sua aparência transmite enorme seriedade. Seu rosto é redondo, suas feições são regulares e seus olhos são grandes, com um olhar irado. Tanto suas sobrancelhas quanto seus olhos transmitem uma profunda majestade.</p><p id="pt-b00770">O Grande Imperador sorri para as pessoas que praticam o bem. Quando sorri, sua aparência fica serena. Diante dos espíritos culpados, porém, mostra uma seriedade e uma ira extraordinárias. Suas sobrancelhas e os cantos de seus olhos se erguem, causando temor em quem o vê.</p><p id="pt-b00771">Quando o Grande Imperador repreende os espíritos culpados, sua voz é ensurdecedora. Seus olhos, que já são grandes, se arregalam ainda mais quando ele fica furioso, e sua boca também se abre muito. Ele bate com força na mesa, deixando os espíritos culpados completamente aterrorizados! O Grande Imperador sempre parece inacessível. <a xlink:href="#loc-1678">[N16]</a></p><p id="pt-b00772">O chapéu do Grande Imperador tem uma peça retangular com elementos pendentes na frente e atrás. A peça retangular é preta, e os elementos pendentes são brancos. O chapéu tem uma aparência muito imponente, com desenhos das montanhas, dos rios e das terras do mundo humano. Seu formato é o de um chapéu de autoridade dos tempos antigos, e ele tem cinco cores ao todo. No centro, há um rubi. Dos dois lados do rubi, aparece o oceano azul em forma de ondas. Acima do oceano, há terras de cor amarelo-terra e, sobre elas, florestas verdes e altas montanhas. A composição inteira é extremamente imponente, reunindo no chapéu todas as montanhas, rios e terras do mundo humano.</p><p id="pt-b00773">O traje de corte que o Grande Imperador veste traz a imagem dos seis caminhos do renascimento, em sete cores vivas. A imagem dos seis caminhos do renascimento é circular e está dividida igualmente em cinco partes. Na parte mais alta estão o caminho dos seres celestiais e o dos asuras: seres celestiais masculinos e femininos voam, enquanto asuras lutam e travam batalhas contra os exércitos celestiais. Em oposição aos caminhos dos seres celestiais e dos humanos está o caminho dos infernos. Ali há caldeirões de óleo fervendo com espíritos culpados, guardas espectrais que os espancam, espíritos culpados abraçados a colunas de cobre e assim por diante. Ao lado do reino celestial, no sentido horário, fica o caminho humano. Nele, há três tipos de pessoas: pessoas ricas e de posição elevada, trabalhadores e camponeses pobres. Abaixo do caminho humano, seguindo no sentido horário, fica o caminho dos fantasmas. Entre eles há fantasmas famintos de barriga grande, fantasmas esfomeados, fantasmas extremamente magros e pequenos, fantasmas de fumaça e fogo, e assim por diante. Na direção oposta à do caminho dos fantasmas, há todo tipo de animal, aves domésticas, animais selvagens e outros.</p></section><section id="sec-47"><title><p id="loc-774">5 — Notificação do Mundo dos Mortos sobre Corpos Espirituais — Cabeça de Boi e Cara de Cavalo explicam em detalhes todo o procedimento ao terminar o tempo de vida de uma pessoa</p></title><p id="pt-b00775">Ultimamente, tenho sentido que o tempo em muitas cidades do mundo humano muda de um instante para outro todos os dias, principalmente nas regiões litorâneas. Num momento, o sol brilha por toda parte, enorme e vermelho como fogo, fazendo as pessoas suarem a ponto de encharcar as costas; no seguinte, venta e chove torrencialmente. Quem está na rua com um guarda-chuva um pouco menor chega a vê-lo virar do avesso com o vento e fica completamente encharcado. Ultimamente, esse tipo de mudança acontece praticamente várias vezes ao dia. Para quem mora no litoral, as variações dos ventos, das ondas e do tempo são ainda maiores. Basta ter a resistência física um pouco baixa para pegar um resfriado com facilidade. Muitas pessoas ao meu redor reclamam do mau tempo, do calor abafado e da má qualidade do ar. <a xlink:href="#n119-resfriados">[N119]</a></p><p id="pt-b00776">Quando entramos em centros comerciais grandes ou pequenos e em prédios de escritórios, sentimos o frio intenso do ar-condicionado. Ora sentimos calor, ora sentimos frio; essas mudanças bruscas são penosas, e todos esperam que o tempo melhore e fique mais estável. Embora todos mantenham essa esperança, na realidade o clima continua igual. As pessoas sempre desejam que tudo ao seu redor esteja muito bem, mas a maioria não presta atenção à maneira como trata nossa natureza no dia a dia.</p><p id="pt-b00777">Todos os dias usamos muitos tipos de produtos descartáveis, como hashis, lenços de papel e diversas embalagens sofisticadas, produzindo diariamente muitas coisas que poluem o ambiente. Quando consumimos, todos os dias, artigos de uso cotidiano extremamente refinados, eletrodomésticos, móveis, sofás de couro legítimo, roupas de couro, roupas de seda pura e todo tipo de objeto decorativo deslumbrante, será que pensamos que apenas gastamos algum dinheiro para comprá-los, mas que, para transformá-los em produtos tão belos, muitas vidas dignas de pena foram sacrificadas sem que ninguém soubesse? Ou que foi necessário gastar enormes recursos humanos e materiais para produzir determinado artigo refinado? Esses seres, cuja vida foi sacrificada sem piedade para produzir tais bens, acaso desejavam de livre vontade servir de refeição farta aos seres humanos ou ser esfolados para que eles vestissem suas peles? Se perguntássemos a esses pequenos animais, acredito que certamente não concordariam. Esse é um dos fatores que causam graves danos e poluição ao ambiente.</p><p id="pt-b00778">O segundo fator são os pensamentos humanos. Todos os dias, ao usar o transporte público ou caminhar pelas ruas, vemos muitas pessoas cujas expressões revelam cansaço, infelicidade, aborrecimento, preocupação e medo. Na verdade, muitas pessoas têm corpos espirituais aderidos a elas, e lhes é muito difícil viver felizes e ver as coisas correrem como desejam.</p><p id="pt-b00779">Nossos diversos pensamentos negativos se espalham continuamente ao redor. Os animais que foram mortos também emitem diversos pensamentos de ressentimento e ódio ligados à vida e à morte, que ecoam pelo espaço à nossa volta. Todos eles aguardam oportunidades para se vingar e podem, a qualquer momento, causar todo tipo de calamidade à humanidade. Nossos pensamentos, na verdade, influenciam diretamente as mudanças climáticas de toda a natureza. As mudanças no clima natural que atraímos hoje são precisamente a retribuição dos pensamentos que emitimos todos os dias. Por isso, o sutra diz: “Deve contemplar a natureza do reino do Dharma: Tudo é criado somente pela mente.” <a xlink:href="#loc-1893">[N120]</a></p><p id="pt-b00780">Namo Amitābha! Agradeço a bênção do poder do Buda! Parto sobre o lótus branco!</p><p id="pt-b00781">Estou vendo Cabeça de Boi e Cara de Cavalo logo à frente. Aonde será que vão? Vou até eles cumprimentá-los!</p><p id="pt-b00782">“Amitābha! Posso perguntar aonde vocês dois, Cabeça de Boi e Cara de Cavalo, estão se preparando para ir?”</p><p id="pt-b00783">O irmão mais velho Cabeça de Boi disse: “Ah! Ayu, você chegou! Já terminou de escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos?” <a xlink:href="#n121-forma-de-tratamento">[N121]</a></p><p id="pt-b00784">“Fico envergonhada! Preciso me esforçar mais. Vou terminar o mais rápido possível. Agradeço a preocupação de vocês dois!</p><p id="pt-b00785">Sempre que os encontro, vocês estão muito ocupados. Gostaria de perguntar: costumam sentir pressão no trabalho? Se por acaso levarem a pessoa errada, serão destituídos pelo Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama? Vocês sempre parecem tão ferozes. Por que não sorriem um pouco? Os especialistas dizem que manter sempre um estado de espírito alegre faz bem à saúde e também pode aliviar o estresse!”</p><p id="pt-b00786">O irmão mais velho Cabeça de Boi disse: “Nós, Cabeça de Boi e Cara de Cavalo, fazemos parte do pessoal que trabalha na linha de frente do mundo dos mortos. Todos os dias recebemos uma grande pilha de avisos emitidos pelo mundo dos mortos sobre o fim do tempo de vida de pessoas do mundo dos vivos. São as Notificações do Mundo dos Mortos sobre Corpos Espirituais, chamadas abreviadamente de notificações do mundo dos mortos.</p><p id="pt-b00787">As Notificações do Mundo dos Mortos sobre Corpos Espirituais têm duas cores: amarelo-claro e vermelho-escuro. As notificações amarelo-claras são levadas por funcionários do mundo dos mortos dos Departamentos de Recompensa do Bem e de Punição do Mal, que vêm ao mundo dos vivos receber as almas dos falecidos e conduzi-las ao mundo dos mortos. Somente as notificações vermelho-escuras são levadas por nós, Cabeça de Boi e Cara de Cavalo.</p><p id="pt-b00788">Uma notificação amarelo-clara indica que as boas ações cármicas predominam na pessoa cujo tempo de vida terminou. Uma notificação vermelho-escura indica que as ações cármicas nocivas predominam e que a pessoa terá de cair em diversos infernos para sofrer punições.</p><p id="pt-b00789">O conteúdo da Notificação do Mundo dos Mortos sobre Corpos Espirituais é o seguinte: determinada pessoa do mundo dos vivos chegará ao fim de sua vida em determinado lugar, no ano XX, mês XX, dia XX, às X horas, X minutos e X segundos. As circunstâncias que levarão ao fim de sua vida também ficam registradas em detalhe. Na hora e no lugar exatos, capturamos diretamente o corpo espiritual e o levamos ao mundo dos mortos para receber suas punições. Quando encontramos corpos espirituais obstinados, nós os tratamos com muita severidade e os empurramos para dentro do mundo dos mortos. O lugar e as circunstâncias do fim da vida variam de pessoa para pessoa, mas a maioria adoece e morre deitada em um hospital. Por isso, os hospitais são lugares onde muitas pessoas do mundo dos vivos chegam ao fim da vida, e é justamente por isso que costumamos ir aos hospitais capturar corpos espirituais e levá-los para responder por seus atos.</p><p id="pt-b00790">Em geral, não capturamos a pessoa errada, pois a Notificação do Mundo dos Mortos sobre Corpos Espirituais mostra antecipadamente o processo da morte da pessoa. Quando recebemos a notificação, primeiro assistimos a essa sequência. Antes de chegar ao fim da vida, o corpo de toda pessoa do mundo dos vivos emite uma luz; apenas a intensidade dessa luz varia de pessoa para pessoa. Quanto mais brilhante a luz do corpo, mais isso indica uma pessoa de grande bondade, ou até mesmo alguém que pratica o cultivo espiritual com pureza. Se a luz do corpo de uma pessoa desaparecer por completo e ela ainda estiver envolta pela luz negra do inferno, então esse é um corpo espiritual que nós, Cabeça de Boi e Cara de Cavalo, devemos capturar e levar ao mundo dos mortos. Com a manifestação dessas duas características, em geral não capturamos a pessoa errada. Se por acaso realmente cometermos um engano, devolveremos imediatamente o corpo espiritual ao mundo humano, e o Rei Yama, soberano do mundo dos mortos, também investigará detalhadamente as causas do ocorrido para tomar as devidas providências.</p><p id="pt-b00791">O Rei Yama, soberano do mundo dos mortos, de fato pune com rigor os seres que violam os preceitos. Mas, se nosso erro não foi intencional, ele nos dá uma oportunidade de corrigir a falha e nos renovar. Tudo tem suas causas anteriores e suas consequências. Naturalmente, tratamos os casos com muito cuidado; caso contrário, se capturássemos com frequência os corpos espirituais errados, nossa negligência não acabaria causando tragédias nas famílias do mundo humano? Mesmo que o Rei Yama não nos punisse, nós mesmos teríamos de carregar uma pesada dívida cármica. Em geral, chegamos ao local antes do término da vida da pessoa para examinar o ambiente e conferir os dados de identificação de seu corpo espiritual, a fim de evitar capturar a pessoa errada.</p><p id="pt-b00792">Hoje, entre os corpos espirituais que capturamos diariamente ao término da vida, quase todos são de pessoas que violaram o preceito contra a conduta sexual imprópria. Um corpo espiritual que pode ser capturado por nós e levado ao mundo dos mortos certamente cometeu, em vida, diversas ações cármicas nocivas que levam aos infernos. Hoje, entre as incontáveis pessoas do mundo dos vivos, a maioria cometeu o delito da conduta sexual imprópria. A atmosfera do campo magnético de conduta sexual imprópria de seus corpos espirituais é muito densa. Como poderíamos sorrir ao vê-los?</p><p id="pt-b00793">Entre esses espíritos culpados de ações cármicas nocivas de conduta sexual imprópria, alguns continuam emitindo pensamentos de conduta sexual imprópria mesmo depois do término da vida. Esse é o resultado de um hábito que se tornou uma segunda natureza. Precisamos adotar uma atitude feroz para fazer esses espíritos culpados se darem conta de sua situação e entenderem que suas bênçãos no mundo humano já se esgotaram e que precisam se arrepender sinceramente e receber as punições dos infernos.</p><p id="pt-b00794">Na verdade, também gostaríamos de sorrir, mas realmente não conseguimos. Só conseguiremos sorrir se o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos circular amplamente no mundo humano, todos, depois de lê-lo, respeitarem os princípios éticos das relações humanas e deixarem de cometer ações cármicas nocivas que levam aos infernos, e todos os infernos ficarem vazios. Nesse momento, certamente também sorriremos.</p><p id="pt-b00795">Hoje, são muitas as pessoas do mundo dos vivos que caem nos infernos, e nossa carga de trabalho aumenta cada vez mais. Ayu, você realmente precisa terminar logo de escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos. Esperamos que este livro de exortação ao bem transforme os corações, levando-os à bondade, e reverta as diversas catástrofes futuras do mundo humano.</p><p id="pt-b00796">Amitābha! Temos trabalho a fazer. Conversaremos novamente quando houver oportunidade! Continue sua visita; nós vamos indo. Até mais!”</p><p id="pt-b00797">Amitābha! Cabeça de Boi e Cara de Cavalo são mesmo muito rápidos! Já não consigo vê-los. Embora todos os funcionários do mundo dos mortos pareçam ferozes, têm um forte senso de justiça e também têm muito senso de responsabilidade. Também preciso voltar e me apressar para concluir meus textos.</p><p id="pt-b00798">Namo Amitābha! Vou voltar sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-48"><title><p id="loc-799">6 — Desde a Antiguidade, a retidão e a perversidade são como gelo e brasa; hoje, entre difamações e elogios, distinguem-se a falsidade e a verdade! — Visita ao general Yue Fei, grande herói nacional de sua época, para ouvir em detalhe os acontecimentos daqueles anos</p></title><p id="pt-b00800">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00801">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos e saúdo o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00802">“Magistrado! Hoje gostaria de lhe pedir que me levasse para visitar o general Yue Fei. No mundo humano, há muitas e variadas lendas sobre o general. Quando eu era criança, na escola, já ouvi um professor elogiar o general Yue Fei.”</p><p id="pt-b00803">O magistrado do mundo dos mortos disse: “Yue Fei é um general do mundo dos mortos. Ayu, venha comigo. Vou levá-la à residência do general para que você mesma entreviste o general Yue Fei.”</p><p id="pt-b00804">Chegamos! Estou nervosa e feliz ao mesmo tempo! À frente há uma construção antiga, semelhante a um templo. No centro da fachada está escrito: “Residência do General Yue Fei”. Junto ao grande portão vermelho estão quatro yakshas segurando armas. Ao ver o magistrado do mundo dos mortos, um deles imediatamente o saúda.</p><p id="pt-b00805">O magistrado do mundo dos mortos instruiu o yaksha a anunciar ao general que uma praticante leiga do mundo dos vivos, Shangguan Yuhua, estava encarregada de escrever o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos, por determinação do mundo dos mortos, para purificar os costumes da sociedade humana e salvar os seres sofredores do mundo dos vivos que, iludidos, violavam os preceitos. Por isso, ela precisava colher informações por meio de entrevistas no mundo dos mortos. Agora, Shangguan Yuhua desejava prestar homenagem ao general e entrevistá-lo, e pedia que sua visita fosse anunciada.</p><p id="pt-b00806">O yaksha entrou imediatamente na residência do general para anunciar nossa chegada. Outro yaksha nos conduziu ao salão de entrada e nos acomodou para que nos sentássemos, tomássemos chá e aguardássemos um pouco. Nesse salão havia uma porta que dava acesso direto ao interior. Ficamos sentados esperando.</p><p id="pt-b00807">O ambiente aqui não parece um inferno; tem muito o aspecto da residência de uma autoridade, com yakshas de serviço fazendo a ronda. O yaksha que estava no portão saiu e disse que o general teria uma reunião dali a pouco, mas dispunha de algum tempo para nos receber antes dela. Então, o yaksha nos levou ao salão interno.</p><p id="pt-b00808">Esse salão interno é muito maior que o de entrada. Bem no centro estão escritos quatro grandes caracteres chineses: “尽忠报国” (“Servir à pátria com toda a lealdade”). Esses quatro grandes caracteres, que parecem escritos em caligrafia semicursiva, irradiam uma atmosfera e um campo magnético de defesa da justiça. Parecem saltar, cheios de movimento e de senso de justiça. É comovente! No centro do grande salão há uma escrivaninha, e o general está sentado bem ao meio. Uno as palmas das mãos e saúdo o general Yue Fei!</p><p id="pt-b00809">Eu, Shangguan Yuhua, mulher do povo, venho prestar meus respeitos ao general!</p><p id="pt-b00810">General Yue Fei: “Dispense as formalidades! Shangguan Yuhua, não precisa de cerimônia. Levante-se! Pode dizer diretamente o que tem a dizer.”</p><p id="pt-b00811">O general Yue Fei tem o rosto de tonalidade escura e uma expressão muito séria, mas não parece tão feroz quanto os numerosos reis dos salões do mundo dos mortos. Transmite uma impressão de seriedade e de profundo senso de justiça. O general veste o traje dos funcionários do mundo dos mortos, de cor cinza.</p><p id="pt-b00812">General Yue Fei: “Shangguan Yuhua, você deve escrever com cuidado este livro, As leis implacáveis do mundo dos mortos, para que os seres do mundo humano saibam que, ao cometerem ações cármicas nocivas que levam aos infernos, certamente cairão neles e sofrerão retribuições dolorosas, imensuráveis e sem limites. Cair é fácil; sair é muito, muito difícil. Há alguma pergunta que gostaria de fazer a este general?”</p><p id="pt-b00813">Ayu: “Sim, general! No mundo humano, ficaram muitas e variadas lendas a seu respeito. Por exemplo, quem foi responsável por sua morte? Afinal, foi Qin Hui ou foi o imperador? E como o senhor vê hoje o fato de ter sido vítima daquela perseguição? O que pensa disso? O poema ci Man Jiang Hong, tão conhecido e recitado através dos séculos, é realmente de sua autoria? Diz a lenda que o senhor é a reencarnação de Zhang Fei, da época dos Três Reinos. Isso é verdade? Gostaria de lhe fazer essas perguntas. Além disso, o senhor agora é general no mundo dos mortos; onde está Qin Hui? Peço-lhe o favor de esclarecer as dúvidas desta mulher do povo.”</p><p id="pt-b00814">General Yue Fei: “Em vida, fui de fato vítima de Qin Hui. Naquela época, Qin Hui sempre teve inveja de mim. A princípio, era apenas inveja: ele invejava o apreço de Sua Majestade por meu amor à pátria. Por isso, frequentemente dizia ou fazia coisas diante de Sua Majestade para obstruir meus planos de combate. Também apresentou, diversas vezes, opiniões contrárias aos meus planos pouco antes do início das batalhas, mas suas repetidas tentativas não tiveram êxito.</p><p id="pt-b00815">Naquela época, eu não imaginei que ele chegaria a pensar em me matar. Pensava apenas que, por sentir inveja, Qin Hui tinha uma maneira de agir um pouco diferente da minha. No trabalho, as diferenças de opinião pessoal sempre podem causar atritos. Na verdade, eu pensava que ele apenas desejava realizar algo que levasse Sua Majestade a vê-lo com outros olhos.</p><p id="pt-b00816">Vendo agora, eu realmente fiz um julgamento equivocado de Qin Hui naquela época. Sempre achei que sua maneira de agir era apenas um pouco diferente da minha. Por isso, praticamente não dei atenção à necessidade de me precaver contra ele; pensava apenas em servir à pátria com toda a lealdade e sinceridade.</p><p id="pt-b00817">Quando as pessoas têm maneiras diferentes de agir, basta terem paciência e cederem um pouco umas às outras, e os problemas acabam passando. Eu dava mais importância ao panorama geral: como proteger os lares e defender a pátria? Quanto às disputas e aos ressentimentos pessoais, não valia a pena guardá-los no coração, nem havia necessidade de discutir pequenas questões com ele. Meu coração era inteiramente sincero; eu não precisava explicar coisa alguma. Um homem deve demonstrar sua inocência por meio de ações concretas.</p><p id="pt-b00818">Quanto ao fato de ter sido vítima daquela perseguição, não guardo nenhum ressentimento! Vitórias e derrotas são comuns na vida militar. Hoje eu venço; amanhã, quando for derrotado, certamente terei de enfrentar a morte. Isso pode acontecer a qualquer momento. Não importa quando esse momento chegará; o mais importante é que meu sacrifício tenha valor e que minha morte não envergonhe a nação. Embora eu tenha sido caluniado e morto naquele tempo, em meu coração aceitei a morte como uma ordem recebida, e não sentia medo algum dela.</p><p id="pt-b00819">Antes de morrer, eu ainda pensava nos ensinamentos de minha mãe: servir à pátria com toda a lealdade. Quantos suspiros me arrancava esse pensamento! Pensava que, como filho, ainda não havia retribuído à minha mãe a graça de me criar, nem cumprido minha responsabilidade de servir à pátria com toda a lealdade. E o país estava prestes a perder mais um guerreiro sinceramente dedicado a proteger os lares e defender a pátria. Meu último pensamento foi: se houver uma próxima vida, certamente cumprirei ainda melhor minha responsabilidade de servir à pátria com toda a lealdade. Depois disso, fui executado por ordem imperial! Não odiei ninguém. Não odiei Qin Hui por suas calúnias e seus planos para me prejudicar, nem odiei Sua Majestade por sua falta de discernimento ao ordenar a morte de alguém leal e honrado. Tudo isso já não tem importância para mim.</p><p id="pt-b00820">Quando morri e cheguei ao grande salão de julgamento do mundo dos mortos, o Rei Yama, soberano do mundo dos mortos, viu que, mesmo tendo sido vítima de uma injustiça, eu não guardava ressentimento nem desejo de vingança, e que, até o momento da morte, mantivera no coração a vontade de proteger os lares e defender a pátria. Então, designou-me general do mundo dos mortos. Atualmente, sou responsável pela direção dos assuntos militares do mundo dos mortos. Quando uma guerra está prestes a ocorrer no mundo humano, nós, do mundo dos mortos, organizamos os assuntos da guerra com três meses de antecedência.</p><p id="pt-b00821">Isso porque cada guerra do mundo humano é, na verdade, também um carma coletivo e determinado, criado pela humanidade ao matar seres vivos no passado. Em circunstâncias normais, o carma determinado não pode ser alterado. Para realmente mudá-lo, é preciso transformá-lo por meio de um carma benéfico de enorme força. Em geral, só há uma oportunidade de alterar o carma determinado contando com o poder do Buda, somado à poderosa força de um grande carma benéfico. Essa alteração consiste apenas em reduzir ao mínimo seu poder de causar danos. Hoje, os corações humanos não são bondosos, e é muito difícil alterar o carma determinado. Por isso, é muito bom publicar As leis implacáveis do mundo dos mortos, pois o livro pode exortar os corações humanos à transformação.</p><p id="pt-b00822">Quando ocorre uma guerra no mundo humano, o exército do mundo dos mortos precisa organizar antecipadamente seus diversos detalhes. Por exemplo: quem vencerá e quem perderá? Quantos serão os mortos e os feridos? Organizamos e resolvemos tudo de acordo com as causas e consequências das vidas anteriores. Ou seja, antes mesmo que os combates comecem no mundo humano, os resultados já terão sido organizados e comunicados antecipadamente no mundo dos mortos. Cabe a mim organizar as tropas e cuidar dos diversos trabalhos envolvidos quando a guerra acontece.</p><p id="pt-b00823">As guerras do mundo dos mortos são diferentes das guerras do mundo humano. Quando há guerra no mundo humano, as pessoas têm corpos de carne e sangue; se forem feridas, podem ficar incapacitadas pelo resto da vida ou até morrer. As guerras do mundo dos mortos são combates de poder espiritual e de força da mente. São completamente diferentes.</p><p id="pt-b00824">Por delitos como perseguir e matar pessoas leais e honradas e praticar corrupção, Qin Hui está atualmente cumprindo punição no Inferno do Monte Tai. Depois de cumprir sua pena ali, ainda terá de ir ao Inferno do Arrancamento da Língua, ao Inferno das Flechas nos Olhos e a outros infernos para receber mais punições. Qin Hui cometeu graves ações cármicas nocivas em vida. Imagino que sua saída dos infernos e sua recuperação da liberdade sejam acontecimentos de um futuro muito distante.</p><p id="pt-b00825">Mas também espero que ele possa se libertar logo dos sofrimentos dos infernos. Afinal, em vida, servimos ao mesmo soberano, na mesma época, e vivemos juntos no mesmo território. Apenas os cargos e as funções que exercíamos eram diferentes; para mim, no fundo, não havia diferença alguma. Bastava que cada um cumprisse bem suas próprias obrigações, protegesse a nação e suas instituições e permitisse ao povo viver em estabilidade. Quanto à vida e à morte, à felicidade e ao conforto pessoais, nada disso tem importância. Para comer, bastam três refeições; para dormir, basta uma cama. Não é preciso buscar demais; basta poder beneficiar amplamente o povo.</p><p id="pt-b00826">Como são importantes os pensamentos do coração humano! Agora, Qin Hui e eu estamos ambos no mundo dos mortos, mas nossas condições são tão diferentes quanto o céu e a terra. Todos os dias, continuo ocupado com os diversos preparativos militares. Parte dos subordinados que me seguiam no mundo humano, depois de chegar ao fim da vida, continua agora a me seguir no mundo dos mortos. Qin Hui, por sua vez, embora também esteja no mundo dos mortos, precisa suportar as punições dolorosas dos infernos, imensuráveis e sem limites, por longos kalpas.</p><p id="pt-b00827">Eu, como general, exorto as pessoas do mundo: quem exerce um cargo público jamais deve aceitar subornos e violar a lei, nem usar funções públicas em benefício próprio. Se não cumprir seus deveres com lealdade, enganar o Estado, usurpar os bens do povo, tratar as pessoas comuns como ervas sem valor e não buscar o bem-estar de seus compatriotas, ainda que escape da lei do soberano em vida, dificilmente escapará, depois da morte, das implacáveis leis do mundo dos mortos! Se, porém, servir ao país com toda a lealdade, amar o povo como a seus próprios bebês, colocar sempre o bem-estar da população em primeiro lugar, assumir a grande responsabilidade pela paz e pela estabilidade do território, não enganar seu soberano, não agir com falsidade nem mesmo na solidão de um quarto escuro e praticar diligentemente o bem, então, ao término desta vida, sua alma leal certamente ascenderá diretamente aos céus e desfrutará de felicidade por milhares e milhares, dezenas de milhares de anos!</p><p id="pt-b00828">Você perguntou sobre o poema ci Man Jiang Hong. Ele foi, de fato, composto por mim, inspirado pelos sentimentos que tive naquela época. Quanto à lenda de que sou a reencarnação de Zhang Fei, da época dos Três Reinos, isso é apenas uma lenda, não é verdade. Como poderia eu ter a bravura de Zhang Fei?</p><p id="pt-b00829">Digo-lhe: as leis do mundo dos mortos são absolutamente justas e claras, sem o menor erro ou omissão. Não são como no mundo humano, onde há tantos processos obscuros, injustos, forjados ou julgados erroneamente. Além disso, no mundo dos mortos não há órgãos de combate à corrupção como os do mundo humano. Todos os funcionários do mundo dos mortos servem ao bem público e respeitam a lei; não há autoridades corruptas nem funcionários desonestos. Todos são iguais ao chegar ao mundo dos mortos. Diante da Plataforma do Espelho dos Atos Nocivos, todas as injustiças judiciais do mundo humano se revelam, uma a uma, exatamente como aconteceram. As implacáveis leis do mundo dos mortos só podem prender firmemente quem pratica o mal; não podem deter uma pessoa de grande bondade.</p><p id="pt-b00830">Shangguan Yuhua! Você deve escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos com todo o cuidado, pois hoje são realmente muitos, muitos os seres que caem nos infernos! Espero que este livro seja impresso o mais depressa possível, para que, depois de lê-lo, as pessoas abandonem o mal e se voltem para o bem, aperfeiçoando a si mesmas e estendendo esse aperfeiçoamento aos outros. Assim, os ventos e as chuvas virão no tempo certo, e o país também estará livre de guerras.</p><p id="pt-b00831">Muito bem! Por hoje, ficamos por aqui. Ainda tenho deveres oficiais a cumprir. Se tiver perguntas, será bem-vinda em outra visita!”</p><p id="pt-b00832">Eu, Ayu, uno as palmas das mãos e agradeço ao general Yue Fei!</p><p id="pt-b00833">Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos! Agradeço a todos os guardas yakshas!</p><p id="pt-b00834">Volto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00835">Anexo:</p><p id="pt-b00836">Ao contemplar a estátua de pedra do marquês Yue — Liu Xianlun, dinastia Song</p><p id="pt-b00837">Outrora, ao som dos tambores, servistes nas fronteiras; de vós, alto dignitário, dependia a força da nação. <a xlink:href="#n17-linguagem-do-poema">[N17]</a></p><p id="pt-b00838">Entre os quatro mares, quantos se lembram de Wumu? Passados cem anos, hoje contemplo vossa figura. <a xlink:href="#n122-wumu">[N122]</a></p><p id="pt-b00839">Na ponta do pincel, vento e luar em três mil caracteres; na voz, o rigor do gelo e da geada, e cem mil soldados.</p><p id="pt-b00840">O Céu também sabe que deixastes um pesar não resolvido; certamente vos deveria confiar a restauração da dinastia.</p><p id="pt-b00841">Ao ler a biografia de Yue Wumu — Pan Yin, dinastia Yuan</p><p id="pt-b00842">Por dez mil li, nuvens flutuantes escurecem a vista; entre mil montanhas, o sol poente afunda, sombrio.</p><p id="pt-b00843">A própria corte enfraqueceu a vontade de restaurar a dinastia; além das fronteiras, em vão se empenhou o coração do grande general.</p><p id="pt-b00844">Para os servidores do soberano, a afronta ficou para sempre sem vingança; os pérfidos armaram ciladas com planos de extrema astúcia.</p><p id="pt-b00845">Resta apenas, em uma caixa, o relato de sua lealdade absoluta; enxugando as lágrimas, leio-o repetidamente, sem poder me conter.</p><p id="pt-b00846">Man Jiang Hong — Inscrição sobre uma reprodução a tinta do edito manuscrito de Siling, da dinastia Song, dirigido a Yue Wumu — Wen Zhengming, dinastia Ming <a xlink:href="#n123-siling-e-man-jiang-hong">[N123]</a></p><p id="pt-b00847">Limpo a estela mutilada; as palavras do edito dirigido a Fei ainda se deixam ler, vagamente.</p><p id="pt-b00848">Lamento: no início, quanto se apoiou em Fei; depois, quanta crueldade!</p><p id="pt-b00849">Seria mesmo justo que, cumprida a missão, ele tivesse de morrer? Que pena: passado o acontecido, palavras dificilmente podem repará-lo.</p><p id="pt-b00850">Tão inocente — quanta indignação, quanta compaixão inspira o processo de Fengbo! <a xlink:href="#n126-fengbo">[N126]</a></p><p id="pt-b00851">Não pensava no território da Planície Central, reduzido? Não lamentava a humilhação de Huizong e Qinzong?</p><p id="pt-b00852">Mas, se Huizong e Qinzong voltassem, que lugar restaria para o próprio imperador?</p><p id="pt-b00853">Por mil anos, deixem de falar no erro da retirada para o sul; naquela época, ele próprio temia a recuperação da Planície Central.</p><p id="pt-b00854">É de rir: que poder teria um insignificante Qin Hui? Apenas foi ao encontro dos desejos do imperador.</p><p id="pt-b00855">Reflexões ao visitar o santuário de Yue Wumu — Bazhi Toutuo, dinastia Qing</p><p id="pt-b00856">Na retirada para o sul, contentaram-se com uma paz parcial, e a nação já estava perdida; o templo e as árvores do túmulo ainda guardam seu verde profundo.</p><p id="pt-b00857">Sem integridade extraordinária, dificilmente um homem deixa um nome ilustre; onde há uma alma leal, até a relva é perfumada.</p><p id="pt-b00858">Sob vento e chuva, o lago e as montanhas ainda sentem o pesar; lenhadores e pastores que passam também se entristecem.</p><p id="pt-b00859">Se os dois imperadores tivessem voltado ainda em vida, quem derramaria lágrimas de sangue ao sol poente?</p><p id="pt-b00860">Três quadras de lamento pelo general Yue — Miaozheng</p><p id="pt-b00861"><strong>I</strong></p><p id="pt-b00862">Um coração leal a servir à pátria, uma lança de nove chi; 
o manto de guerra tingido de sangue no antigo campo de batalha.</p><p id="pt-b00863">Os feitos de um general, lágrimas por milênios; 
doze placas de ouro sepultaram o leal e honrado. <a xlink:href="#n127-ordens-imperiais">[N127]</a></p><p id="pt-b00864"><strong>II</strong></p><p id="pt-b00865">Nas costas, em vermelho vivo, tatuou-se a lealdade plena; 
com Zhou Tong aprendeu a flechar uma folha de salgueiro.</p><p id="pt-b00866">Pleno em lealdade e piedade filial, deixou de lado o pequeno eu; 
um homem que chega a isso é um herói.</p><p id="pt-b00867"><strong>III</strong></p><p id="pt-b00868">Recuperar montanhas e rios, receber os dois imperadores; 
ao revelar sua grandiosa aspiração, assombrou dez mil homens.</p><p id="pt-b00869">Cessada a chuva sussurrante, ergo os olhos para longe; 
quem conhece o que sinto neste momento?</p></section><section id="sec-49"><title><p id="loc-870">7 — Um copo da sopa de Meng Po faz esquecer tanto os afetos quanto os rancores! — Visita à Plataforma Yuwang <a xlink:href="#n18-plataforma-yuwang">[N18]</a></p></title><p id="pt-b00871">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00872">Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos e saúdo o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00873">Pergunto ao magistrado do mundo dos mortos: “Todos os seres do mundo dos mortos precisam tomar a sopa de Meng Po antes de renascer?”</p><p id="pt-b00874">O magistrado do mundo dos mortos disse: “A sopa de Meng Po só existe no mundo dos mortos. Nos reinos celestes, no Mundo da Suprema Felicidade do Ocidente ou em qualquer outra terra pura de um Buda, não existe essa questão da sopa de Meng Po. Todos os seres cujas almas retornam ao mundo dos mortos precisam tomar a sopa de Meng Po antes de renascer. Sua função é fazê-los esquecer a vida anterior, para que, de acordo com seu carma, comecem novamente a viver com novos familiares. A natureza humana é originalmente inteligente e dotada de diversas capacidades de análise profunda. Assim, se uma pessoa não tomar a sopa de Meng Po para esquecer completamente tudo do passado, mesmo ao renascer no ciclo de transmigração, embora os obstáculos do carma provoquem o esquecimento ao entrar no ventre, ela ainda poderá recordar fragmentos da vida anterior em determinadas circunstâncias e sob a ação de certas causas e condições. Antes de a divindade Meng Po vir trabalhar no mundo dos mortos, não havia sopa de Meng Po.</p><p id="pt-b00875">As pessoas da Antiguidade eram bondosas por natureza. Os primeiros ancestrais humanos que vieram ao mundo humano eram seres celestes do Céu da Luz e do Som, no reino da forma. Eles usaram seus poderes sobrenaturais para voar até a Terra a passeio. Naquela época, a Terra tinha montanhas belas, águas límpidas e ar puro, ao contrário de hoje, quando há poluição do ar e poluição química industrial por toda parte. E o que mais destrói a natureza do coração humano é a poluição das informações erradas e nocivas dos diversos meios de comunicação.</p><p id="pt-b00876">Naquela época, crescia no solo uma substância chamada difei, que tinha a forma de frutas muito frescas e espalhava um aroma frutado por toda parte. Essa difei também se parecia um pouco com as frutas dos reinos celestes, e os seres celestes foram atraídos por essas frutas. Naquele tempo, ainda não havia nenhum ser humano na Terra. Os seres celestes observavam os cinco preceitos e não violariam o preceito contra o roubo. Como a difei não pertencia a ninguém, pertencia à própria terra; assim, os seres celestes começaram a prová-la. Depois de comer, acharam-na muito saborosa, e todos continuaram a comer em grande quantidade.</p><p id="pt-b00877">Depois de se fartarem de difei, os seres celestes perceberam que a luminosidade espiritual inata de todos havia enfraquecido por terem ingerido a matéria grosseira da Terra. Sentiram seus corpos ficarem pesados e perderam completamente o poder sobrenatural de voar livremente. Por fim, não conseguiram voltar voando ao Céu da Luz e do Som. Mais tarde, não tiveram outra escolha senão começar a cultivar a terra e se reproduzir na Terra, vivendo em paz e trabalhando com satisfação. Assim, tornaram-se os ancestrais da humanidade.</p><p id="pt-b00878">A difei pertence à terra. Ao comerem uma substância que crescia na terra, os seres celestes estabeleceram com ela um vínculo indissolúvel. Por isso, passaram a ter de caminhar com os pés tocando o chão e ficaram impossibilitados de voar. Embora tivessem perdido o poder sobrenatural de voar livremente e não pudessem voltar voando aos reinos celestes, ainda possuíam poderes sobrenaturais; haviam perdido apenas a capacidade de voar.</p><p id="pt-b00879">Todos os seres celestes haviam ascendido aos reinos celestes por observar os cinco preceitos e praticar as dez boas ações. Os que vieram viver na Terra naquela época ainda conservavam sua disposição de observar os preceitos, acreditavam nas causas e consequências cármicas e eram bondosos e puros. Todos conviviam em harmonia, em uma atmosfera de paz, sem nenhuma ação cármica nociva nem violação dos preceitos. Mas esse cenário não durou muito. Quanto mais tempo os descendentes dos seres celestes viviam na Terra, mais sua luminosidade espiritual diminuía gradualmente. Com a poluição da Terra, também começaram a desaparecer a beleza original das montanhas, a limpidez das águas e a pureza do ar. Apesar disso, a humanidade daquela época ainda era muito melhor que a de hoje. À medida que os seres humanos continuavam a se reproduzir e sua luminosidade espiritual inata declinava, suas bênçãos diminuíam continuamente. As pessoas começaram a deixar de observar os preceitos e, aos poucos, tornaram-se egoístas. Pequenas catástrofes e pequenas doenças também começaram a surgir, umas após as outras, e os infernos começaram gradualmente a se manifestar de acordo com as ações cármicas nocivas.</p><p id="pt-b00880">Antigamente, os infernos eram muito pequenos, e poucas pessoas caíam neles. Mesmo quando alguém era condenado a uma pena, ela durava apenas alguns anos. Alguns, depois de sofrerem punições nos infernos por alguns anos e renascerem no mundo humano, corrigiam seus erros e recomeçavam a vida. Depois, cada vez mais pessoas do mundo dos vivos passaram a cair nos infernos, até chegarmos à superlotação de hoje. Atualmente, as penas impostas a quem cai nos infernos costumam ser de cem anos ou mais; já não há condenações de apenas alguns anos. Isso resulta das ações e dos pensamentos incorretos das pessoas e de sua grave falta de compreensão das causas e consequências cármicas.”</p><p id="pt-b00881">O magistrado do mundo dos mortos continuou: “Como acabei de dizer, os seres celestes do Céu da Luz e do Som desceram à Terra e, por comerem difei, perderam seus poderes sobrenaturais e não puderam voltar voando aos reinos celestes. No Sutra Śūraṅgama, o Buda ensinou: ‘Assim como as pessoas, ao comerem os diversos cereais, já não afastam os pés do chão.’ Isso mostra que cada um de nós deve, a todo instante, prestar muita atenção às próprias ações e intenções cotidianas. Um único pensamento sem atenção desperta basta para nos deixar conduzir pelas circunstâncias ilusórias externas. Os seres do Céu da Luz e do Som, que tinham liberdade para exercer seus poderes sobrenaturais, viram a beleza da Terra recém-formada (forma) e vieram voando passear por aqui. Perceberam que a difei era fresca e suculenta como frutas e exalava diversos aromas naturais. Foram então atraídos por seu aroma (odor) e passaram a comê-la (sabor) e absorvê-la (contato). Naquele momento, surgiu em sua mente o desejo de comer. Assim que esse pensamento surgiu, tornou-se um pensamento ilusório que obstruía a boa natureza da mente (objeto mental), e esse pensamento ilusório daria origem a diversas ações externas, sendo posto em prática. <a xlink:href="#n125-alcance-da-perda-dos-poderes">[N125]</a></p><p id="pt-b00882">Embora os seres celestes não tivessem violado o preceito de não roubar, era necessário algum tempo para saldar o vínculo indissolúvel que haviam criado com a terra. Durante esse período, porém, diversos acontecimentos continuariam a ocorrer sem cessar. Se não conseguissem manter a atenção plena correta a cada pensamento, a qualidade de sua existência continuaria a declinar, e ainda semeariam diversas ações cármicas nocivas que levam ao sofrimento nos infernos.</p><p id="pt-b00883">Originalmente, os seres do Céu da Luz e do Som eram massas de luz. Voavam por meio de poderes sobrenaturais e podiam se transformar livremente, sem o pesado corpo de carne e sangue das pessoas do mundo dos vivos. Essas já eram bênçãos celestes que haviam alcançado por sua prática diligente e pela observância de preceitos puros no passado. Mas bastou surgir o pensamento de provar a difei para que a luminosidade espiritual de sua existência diminuísse. À medida que aumentavam seus pensamentos ilusórios e apegos, seus poderes sobrenaturais também desapareciam gradualmente.</p><p id="pt-b00884">Os descendentes daqueles seres celestes, ou seja, os primeiros seres humanos, lembravam-se de favores e ressentimentos, relacionamentos amorosos e outras coisas de vidas passadas, e essas lembranças acabavam interferindo na vida normal do mundo humano e a perturbando. Depois de beberem a sopa de Meng Po, porém, passavam a seguir o fluxo do carma e esqueciam todas as pessoas e acontecimentos da vida anterior, podendo novamente aprimorar a natureza da mente.</p><p id="pt-b00885">A sopa de Meng Po reúne os cinco sabores da vida humana: doce, azedo, amargo, picante e salgado. Esses cinco sabores também representam o destino depois do renascimento no mundo humano, com toda a sua doçura, acidez, amargura e ardência. Todos os copos de sopa de Meng Po parecem iguais, mas, na verdade, as quantidades dos ingredientes variam, embora os ingredientes sejam os mesmos. Por exemplo, alguns seres têm um destino relativamente bom, grandes bênçãos, nascimento em posição elevada, riqueza abundante, respeito das pessoas, boa saúde e assim por diante. A sopa de Meng Po que essas pessoas bebem tem um sabor doce mais acentuado. Quem tem poucas bênçãos sente um sabor muito amargo e muito azedo; quem tem bênçãos medianas sente uma mistura dos cinco sabores, e, ao beber, também tem a sensação de saciar a sede. Como a força do carma difere, cada ser tem uma experiência diferente ao beber a sopa de Meng Po. A divindade Meng Po também veio do mundo humano, mas não caiu nos infernos: foi enviada pelo Imperador Celestial para exercer uma função no mundo dos mortos.</p><p id="pt-b00886">No mundo humano, a divindade Meng Po era uma praticante budista que manteve a castidade e cultivou uma vida de pureza durante toda a existência. Quando vivia entre os humanos, seu nome secular era Meng Po. Bondosa por natureza, ajudava com dedicação as pessoas pobres ao seu redor. Meng Po via o quanto os seres do mundo humano sofriam por afeições e amores, conflitos entre familiares e outras questões; naquela época, sobretudo, muitas mulheres viviam em grande sofrimento. Na Antiguidade, considerava-se uma virtude a mulher não ter instrução nem talentos, e seu papel se limitava a dar continuidade à linhagem, ter e criar filhos, auxiliar o marido e educar os filhos. Justamente por isso, muitas mulheres viviam em sofrimento e impotência, chorando sozinhas de tristeza. Meng Po guardava tudo isso no coração e fazia o possível para ajudar algumas das mulheres sofredoras com quem tinha afinidade cármica. Isso também a inspirou a fazer o voto de ajudar todos os seres a esquecer o sofrimento, para que todos pudessem esquecer o passado e recomeçar a vida. Já naquela época eram muito numerosos os seres que Meng Po havia orientado e transformado. Por toda parte, ela aconselhava as pessoas a se absterem de matar, adotarem uma alimentação vegetariana, recitarem sutras e o nome do Buda.</p><p id="pt-b00887">Naquela época, Meng Po pensava: como seria bom se, no futuro, existisse uma sopa que não causasse nenhum dano ao corpo e que permitisse às pessoas esquecer todos os sofrimentos depois de bebê-la! Quando sua vida chegou ao fim, ela ascendeu aos reinos celestes pela força dos méritos e virtudes adquiridos ao ajudar e orientar seres sencientes em dificuldades durante a vida. O Imperador Celestial conferiu a Meng Po a condição de divindade, e ela passou a ter seu próprio palácio nos reinos celestes, onde desfrutava de diversas bênçãos celestes.</p><p id="pt-b00888">Mais tarde, o Imperador Celestial viu que a natureza mental dos seres do mundo humano também começava a se deteriorar. Depois de renascerem no ciclo das existências, algumas pessoas se lembravam de pessoas, acontecimentos e coisas de vidas anteriores, e ocorriam com frequência perturbações da ordem ética da vida humana e outros problemas. Como Meng Po havia feito em vida o bom voto de ajudar os seres a esquecer o sofrimento, essas causas e condições também permitiam realizar seu voto. Por isso, foi construída especialmente no mundo dos mortos a ‘Plataforma Yuwang’, cuja administração foi confiada à divindade Meng Po. A Plataforma Yuwang se dedica a desenvolver e preparar a sopa de Meng Po para os seres que estão prestes a renascer. Ali há guardas do mundo dos mortos, yakshas e outros à disposição de Meng Po. Ayu, vou levá-la por uma passagem especial para fazer a visita; o caminho será bem mais curto. A Plataforma Yuwang fica atrás do Décimo Salão do mundo dos mortos.”</p><p id="pt-b00889">Eu disse, agradecida: “Obrigada pelo trabalho, magistrado!”</p><p id="pt-b00890">Essa passagem especial era realmente muito peculiar: não se ouvia nenhum grito de sofrimento dos infernos. Parecia ter um ótimo isolamento acústico. Agora eu via uma sala, com mesas e bancos dentro, mas por que não havia ninguém?</p><p id="pt-b00891">O magistrado disse: “Este é o salão de reuniões. Agora todos estão ocupados lá fora, e não há reuniões nestes dias. Se houvesse uma reunião, eu não poderia trazê-la por este atalho. Usamos estas coisas durante as reuniões. Antes de encarregá-la de escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos, fizemos uma reunião aqui. Foi também aqui que recebi o documento oficial emitido pelo mundo dos mortos, determinando que eu ficasse responsável por recebê-la, Ayu, e acompanhá-la em visitas ao mundo dos mortos, concedendo-lhe ampla revelação dos segredos celestes para que, ao voltar ao mundo dos vivos, escrevesse sobre o que viu e ouviu aqui e orientasse as pessoas a praticar o bem e acumular virtudes.”</p><p id="pt-b00892">Ah! Então era isso! À frente, a passagem continuava, e nós a atravessamos bem depressa.</p><p id="pt-b00893">Vi os três grandes caracteres chineses ‘醧忘台’ (‘Plataforma Yuwang’). O lugar também era enorme! Parecia um pouco uma loja gigantesca de chás de ervas do mundo humano. Ali havia três tipos de recipientes de cores diferentes. O magistrado me explicou que os transparentes continham a sopa mais doce, destinada aos que tinham as maiores bênçãos; os brancos continham a sopa para os seres de bênçãos medianas; e os pretos, a sopa para os seres com menos bênçãos. Até as cores das roupas dos três tipos de guardas que distribuíam a sopa de Meng Po correspondiam às dos recipientes: os que distribuíam a sopa dos recipientes transparentes usavam roupas transparentes; os dos recipientes brancos usavam roupas brancas; e os dos recipientes pretos usavam roupas pretas.</p><p id="pt-b00894">Muitos guardas estavam ocupados despejando a sopa de Meng Po em copos. Os copos eram redondos, com uma haste sustentando o corpo, e pareciam todos ter a mesma cor, o mesmo tamanho e o mesmo modelo. Olhando com mais atenção, embora parecessem iguais, havia, na verdade, uma pequena diferença. Todos eram transparentes e do mesmo tamanho, mas se diferenciavam pelos desenhos em relevo na haste. A haste de um tipo de copo transparente era lisa, sem desenhos, e, quando um espírito o pegava para beber a sopa de Meng Po, o toque era agradável. Outro tipo de copo transparente tinha desenhos ligeiramente salientes na haste, perceptíveis ao toque. O último tipo tinha desenhos triangulares em relevo na haste; quando um espírito o pegava para beber a sopa de Meng Po, sentia pequenas pontadas na mão e um certo desconforto.</p><p id="pt-b00895">Dentro da Plataforma Yuwang havia muitas salinhas, distribuídas à esquerda e à direita. As da esquerda eram destinadas aos que tinham grandes bênçãos e bebiam a sopa de Meng Po mais doce. Primeiro, olhei cada salinha da esquerda: todas tinham uma mesa e bancos. Sobre cada mesa havia um copo de sopa de Meng Po bem doce, e duas atendentes o serviam ao espírito. Assim, quem tinha boas bênçãos podia beber sentado em uma sala, um pouco como uma sala VIP no mundo humano, desfrutando de tratamento especial. Depois, olhei cada salinha da direita: todas também tinham uma mesa e bancos. Sobre cada mesa havia um copo de sopa de Meng Po com os cinco sabores, mas apenas uma atendente o servia ao espírito. Ou seja, quem tinha bênçãos medianas também podia beber sentado em uma sala.</p><p id="pt-b00896">Continuando em frente, vimos o Pavilhão de Meng Po. Era ali que estava a divindade Meng Po.</p><p id="pt-b00897">“Ayu a saúda com as palmas unidas, divindade Meng Po!”</p><p id="pt-b00898">A divindade Meng Po sorriu para mim. O magistrado disse que ela costumava ficar no Pavilhão de Meng Po. Era ali que aconteciam mais incidentes: às vezes apareciam espíritos que se recusavam a beber a sopa. Os seres que vinham beber a sopa de Meng Po nesse pavilhão tinham relativamente poucas bênçãos, ou seja, obstáculos cármicos mais pesados. Por isso, também havia muito mais guardas ali, todos segurando forcados pontiagudos.</p><p id="pt-b00899">Vi muitos espíritos chegando em fila ao Pavilhão de Meng Po. Todos pareciam muito cansados e extremamente sedentos. Alguns já estavam completamente sem forças. Os que conseguiam andar caminhavam por conta própria e, quando chegava sua vez, pegavam a sopa e bebiam. Os que não tinham forças eram amparados pelos guardas até o pavilhão, e os guardas lhes davam a sopa para beber.</p><p id="pt-b00900">Nesse momento, ouvi um grito agudo. Era um espírito feminino que se recusava a beber e havia sido espancado por dois guardas. Ai! Como ela sofria! Um dos guardas golpeou seus pés com o forcado, e ela caiu no chão, com os pés sangrando. Ao ver isso, o outro guarda imediatamente a ergueu espetada no forcado e a obrigou a beber três copos. O magistrado disse que, mais tarde, no mundo humano, esse espírito feminino teria dores nos pés e problemas na garganta. Pelo visto, os espíritos que se recusavam a beber a sopa de Meng Po não só eram espancados pelos guardas, como ainda eram punidos com dois copos adicionais de sopa amarga. A consequência seria sofrer mais dores físicas. Depois de beberem a sopa de Meng Po, todos os espíritos ficavam atordoados e eram amparados pelos guardas até o lugar onde renasceriam. <a xlink:href="#loc-1901">[N124]</a></p><p id="pt-b00901">Vi um grande rio diante do Pavilhão de Meng Po. Ao caírem no rio, os espíritos renasciam no mundo humano.</p><p id="pt-b00902">O magistrado disse: “O tempo de hoje terminou. Ayu, volte na próxima vez!”</p><p id="pt-b00903">Eu, Ayu, uni as palmas e me prostrei em reverência ao magistrado! Voltei sobre o lótus branco!</p></section><section id="sec-50"><title><p id="loc-904">8 — A dolorosa retribuição por desperdiçar alimentos — Inferno da Colheita Abundante dos Cinco Cereais</p></title><p id="pt-b00905">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parti sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00906">Amitābha! Eu, Ayu, uni as palmas das mãos diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00907">“Magistrado! Hoje gostaria de perguntar: qual é a retribuição cármica por desperdiçar alimentos?”</p><p id="pt-b00908">O magistrado disse: “Quem desperdiça alimentos cairá nos infernos para sofrer a retribuição cármica. Ao comer cada bocado de qualquer alimento, todos devem fazê-lo com gratidão e um sentimento de contrição: agradecer ao Céu e à Terra por nutrirem os alimentos, aos agricultores por seu trabalho árduo, aos pais por criarem e sustentarem os filhos e às bênçãos alimentares que cada um acumulou em vidas passadas. Para sobreviver, as pessoas dependem de alimentos, ar, água e luz solar. Essas são algumas das causas e condições externas; sem essas condições relacionadas, não haveria bons alimentos no mundo humano. Por isso, primeiro devemos agradecer ao Céu e à Terra. Sem a luz solar e o ar da natureza e sem o sustento da terra, de onde viriam os cereais e os alimentos? Uma vez reunidas as condições naturais necessárias, os cereais ainda precisam passar pelo trabalho árduo dos agricultores: preparar a terra, semear, irrigar, colher, embalar e todos os demais processos correspondentes. A semeadura ocorre na primavera e a colheita no outono, atravessando três estações: primavera, verão e outono. Como diz o verso: 
Capina-se o cereal sob o sol do meio-dia, 
O suor pinga na terra sob as plantas; 
Quem sabe que, do alimento no prato, 
Cada grão custou tanto trabalho! 
Sob o sol e a chuva, os agricultores trabalham arduamente para cultivar os alimentos aos poucos, com todo o cuidado. Devemos agradecer por seu trabalho árduo!</p><p id="pt-b00909">Todos vêm ao mundo humano e nascem como pessoas a partir da essência paterna e do sangue materno. Quando pequenos, todos estendem os braços para que os vistam e abrem a boca para que os alimentem. Por isso, devemos agradecer aos nossos pais pelo cuidado de nos criar. Além disso, devemos valorizar as bênçãos que acumulamos pouco a pouco em vidas passadas por meio de doações, da observância dos preceitos e da prática do bem. Entre aqueles cujas bênçãos são insuficientes, como na África, na Etiópia, no Congo, nas regiões remotas, pouco povoadas e atrasadas da China e em outros países pobres, há grave escassez de alimentos. Muitos adultos e crianças morrem de fome ou ficam pálidos e esqueléticos, com grave desnutrição, à espera da ajuda de outras pessoas. Às vezes, morrem de fome antes que essa ajuda chegue! <a xlink:href="#loc-1909">[N128]</a></p><p id="pt-b00910">Quando cada pessoa nasce no mundo humano, já estão predeterminados quanto comerá e quanto terá para vestir, sua altura, seu peso, sua posição elevada ou humilde, as catástrofes que enfrentará, seus bens, o momento em que sua vida terminará e assim por diante. Portanto, cada bocado que comemos também significa que desfrutamos de uma parte das bênçãos predestinadas para esta vida; no tempo que nos resta, haverá uma oportunidade a menos de desfrutar dessas bênçãos. As pessoas comuns do mundo dos vivos não conseguem romper esse carma determinado. Apenas dois tipos de pessoas podem influenciá-lo: as de extrema bondade e as de extrema maldade.</p><p id="pt-b00911">Há duas categorias de pessoas de extrema bondade. Uma delas é a dos seres santos — budas e bodhisattvas — que, por compaixão e movidos por seus votos, retornam para orientar e libertar os seres sencientes do mundo humano. Budas e bodhisattvas podem vir e partir livremente, sem estarem presos ao carma determinado. Às vezes, para orientar mais seres humanos com quem têm afinidade cármica, os seres santos manifestam deliberadamente diversos sofrimentos e dificuldades, ensinando por meio do próprio exemplo para transformar os demais. Na verdade, nada disso pode aprisionar a mente de um ser santo. Somente as pessoas comuns se deixam iludir pelas circunstâncias dos cinco desejos e das aflições do mundo humano. A outra categoria de pessoas de extrema bondade é a de pessoas comuns que têm um coração de grande benevolência e compaixão e acumulam continuamente grandes bênçãos e virtudes ocultas. Essas pessoas bondosas também podem romper as correntes do destino e ascender diretamente. O outro tipo é o das pessoas de extrema maldade, que, devido ao peso excessivo de seu carma nocivo, também descem diretamente aos infernos. Por isso, devemos desfrutar dos diversos alimentos com um sentimento de contrição. Os alimentos apenas nutrem nosso corpo físico, e o corpo físico é um instrumento que nos ajuda a cultivar o Caminho. Não devemos dar importância excessiva à comida, a ponto de nos tornarmos escravos das iguarias e sermos dominados por ela. Tampouco podemos desperdiçar alimentos, maltratando os cereais.</p><p id="pt-b00912">Antigamente, havia no mundo dos mortos um pequeno Inferno da Fome. Os que caíam ali para receber punição eram pessoas de famílias ricas e abastadas que haviam desfrutado de boas bênçãos no mundo dos vivos, esposas de homens ricos ou comerciantes. Por terem boas bênçãos, desperdiçavam e estragavam cereais e alimentos à vontade e, ao fim da vida, caíam no Inferno da Fome. Quem tinha dinheiro, mas se recusava a fazer doações a mendigos e pobres, também caía no Inferno da Fome ao fim da vida para receber punição. Ali, os espíritos culpados sofriam intensamente com a fome para experimentar o valor dos cereais e dos alimentos e, assim, eliminar a ganância e a avareza. Antigamente, as penas no Inferno da Fome eram muito curtas: começavam em 3 anos, e a mais longa era de 50 anos. Mas poucas pessoas caíam ali, e a maioria era de pessoas ricas de idade avançada.</p><p id="pt-b00913">Atualmente, ao sul do mundo dos mortos, há uma região de infernos da espiritualidade. Nessa região existe um grande inferno chamado ‘Colheita Abundante dos Cinco Cereais’. A maioria dos que estão nesse inferno é jovem. Há alimentos desperdiçados de todos os tipos, acumulados em tamanha quantidade que parecem cadeias intermináveis de montanhas. Antigamente, quem desperdiçava alimentos era condenado pelas leis do mundo dos mortos a sofrer fome depois de morrer. Hoje, os seres que desperdiçam alimentos sofrerão, ao fim da vida, a retribuição do Inferno da Colheita Abundante dos Cinco Cereais. Todo e qualquer alimento desperdiçado no mundo dos vivos é registrado pela divindade que acompanha cada pessoa desde o nascimento. Ao fim da vida, a pessoa vem para esse inferno e precisa comer, um por um, todos os alimentos que desperdiçou em vida. No mundo dos vivos, muitos jovens gostam de comprar grandes quantidades de comida continuamente e jogam fora o que não conseguem terminar. As leis do mundo dos mortos impõem aos espíritos culpados uma punição para que aprendam que, se não conseguem comer tudo, não devem comprar para desperdiçar. Uma vez comprado, o alimento faz parte das suas bênçãos, e você precisa comê-lo por inteiro. Ayu, venha comigo. Vou levá-la para uma visita agora.”</p><p id="pt-b00914">Já sentia um cheiro azedo, o mau cheiro dos alimentos e o de vômito, e ouvia sons de vômitos e tosses. Vi os grandes caracteres que diziam ‘Inferno da Colheita Abundante dos Cinco Cereais’. Esse inferno também era gigantesco! Lá dentro havia, de fato, uma colheita abundante dos cinco cereais: tanta comida que não se via o fim, formando montanhas e vales. Era assustador! Havia uma quantidade incontável de arroz, pratos preparados, biscoitos e outros alimentos, em pacotes grandes e pequenos. Eram tantos e tão variados que seria impossível enumerá-los. Havia também água, bebidas e coisas assim, tudo armazenado em recipientes e mais recipientes.</p><p id="pt-b00915">O magistrado disse que cada espírito culpado tinha sua própria área particular de alimentos. Em cada uma dessas áreas estavam os alimentos que aquele espírito havia desperdiçado em vida, sem o menor engano. Vi muitos jovens no Inferno da Colheita Abundante dos Cinco Cereais. O magistrado disse que, além dos atos pelos quais haviam sido condenados a esse inferno, eles também haviam cometido conduta sexual imprópria e outras transgressões.</p><p id="pt-b00916">Agora, vou até ali conversar com um espírito feminino jovem! Só a visão da enorme área de alimentos que lhe pertencia já era assustadora. Não se sabia em que ano ou mês ela conseguiria terminar de comer tudo. Ainda tinha traços delicados e estava vomitando com grande sofrimento!</p><p id="pt-b00917">“Amitābha! Como você está se sentindo? Pode me dizer por que veio parar aqui?”</p><p id="pt-b00918">O espírito feminino disse: “É um sofrimento extremo, extremo! Sinto uma dor terrível a cada segundo! De tanto vomitar, já não aguento mais! Quem é você? Por favor, pode me salvar e me tirar daqui?”</p><p id="pt-b00919">“Pode me dizer por que veio parar aqui?”</p><p id="pt-b00920">“Eu conto! Eu conto! Em vida, gostava de comprar muita comida, principalmente todo tipo de iguaria. Mas eu mesma não comia muito, com medo de engordar e prejudicar minha silhueta e minha aparência. Ainda assim, todos os dias eu comprava as comidas de que gostava e as levava para casa. Eu tinha o hábito de nunca comer comida de dias anteriores; só comia alimentos frescos. Sempre que via um produto novo, tinha de comprá-lo, e jogava fora o que não conseguia comer. Isso foi se acumulando dia após dia, e agora acabei no inferno, condenada a comer tudo. É uma desgraça! Também há muita água que desperdicei deixando a torneira aberta enquanto escovava os dentes e lavava o rosto!” O espírito feminino começou a chorar aos berros! De fato, ver aqueles alimentos azedos, fedorentos, mofados e cheios de vermes grandes tirava qualquer apetite.</p><p id="pt-b00921">Olhei então para o espírito feminino mais velho que estava ao lado. Sua área de alimentos era muitas vezes maior que a da jovem anterior, ainda mais assustadora! Além de ser grande, havia ali uma quantidade imensa de comida extremamente azeda, fedorenta e repugnante: tudo estragado, tomado por mofo, com a cor alterada e coberto de vermes e microrganismos. Como seria possível comer aquilo? Só de ver, meu coração estremecia!</p><p id="pt-b00922">“Amitābha! Pode me contar como veio parar aqui?”</p><p id="pt-b00923">“Em vida, eu era dona de casa e não gostava de fazer os afazeres domésticos. Para economizar o tempo de ir comprar alimentos, costumava comprar muita coisa e deixar em casa. Os alimentos não podiam ficar guardados por muito tempo; com o passar do tempo, estragavam. Além disso, eu frequentemente preparava comida demais e jogava fora o que não conseguíamos comer. Também jogava fora muitos alimentos que haviam estragado por ficarem guardados. Meu marido sempre me repreendia, pedindo que eu não desperdiçasse água e não deixasse a torneira totalmente aberta o tempo todo enquanto lavava a louça. Quando ele me repreendia, eu sempre respondia com palavras agressivas e fazia uma grande discussão, até ele se calar. Quando ele me pedia que não desperdiçasse alimentos, além de não escutar, eu comprava ainda mais de propósito, esperava apodrecer e jogava fora. No fim, quando minha vida terminou, o Rei Yama me condenou ao Inferno da Colheita Abundante dos Cinco Cereais para comer todos os alimentos que eu havia jogado fora. Agora me arrependo muito de não ter escutado meu marido.” Nesse momento, um guarda veio agarrá-la e levá-la para continuar a comer.</p><p id="pt-b00924">Eu, Ayu, quis perguntar ao magistrado: “Então, se o alimento estragou sem que isso tenha sido provocado de propósito, também precisamos comê-lo?”</p><p id="pt-b00925">O magistrado disse: “Se o alimento estragou sem intenção ou sem que você soubesse, não o coma. Se comê-lo causar uma doença ou outro problema no corpo, o prejuízo será maior que o benefício. Primeiro, também devemos nos arrepender dessa falha involuntária e, no futuro, prestar atenção para não repeti-la, evitando que Hei Wuchang volte a registrar a falta e que ela atraia a punição das leis do mundo dos mortos. Depois, podemos recitar o nome do Buda ou mantras sobre os alimentos estragados e colocá-los num bosque ou entre a vegetação, como doação aos pequenos animais, estabelecendo uma boa afinidade com eles. Também podemos colocá-los no mar como doação aos seres aquáticos.” <a xlink:href="#n129-cuidado-com-animais-e-alimentos-estragados">[N129]</a></p><p id="pt-b00926">“Por hoje, ficamos por aqui. Ayu, volte primeiro. Se tiver perguntas, será bem-vinda para uma nova visita.”</p><p id="pt-b00927">Amitābha! Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos! Eu, Ayu, uni as palmas das mãos e saudei o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00928">Voltei sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-51"><title><p id="loc-929">9 — Ensinamento dado pessoalmente pelo Buda: desperdiçar comida e bebida leva inevitavelmente à queda nos infernos e ao sofrimento!</p></title><p id="pt-b00930">O Buda disse: “Quanto à dor nos infernos, mesmo a dor de feridas de lança multiplicada cem quintilhões de vezes ainda não se compara a ela. Uma pequena pedra na mão representa a dor de trezentas feridas de lança; uma montanha representa a dor nos infernos. As pessoas ignorantes pensam o mal, dizem o mal e praticam o mal com o corpo; depois da morte, caem nos infernos. Nos infernos há espíritos bestiais que arrastam a pessoa para diante de si, prendem um gancho em sua gengiva superior e outro em seu maxilar inferior, escancarando-lhe a boca. Então despejam cobre derretido em sua boca; os lábios, a língua, os intestinos e o estômago ficam inteiramente queimados e destruídos, e o cobre desce e atravessa o corpo. A dor atroz é insuportável. Como essa pessoa, durante sua vida no mundo, buscava riqueza e vantagens e fazia mau uso da comida e da bebida, despejam-lhe cobre derretido. Assim são os tormentos nos infernos. Os espíritos dos infernos agarram a pessoa, prendem ganchos em seus maxilares superior e inferior e os escancaram; depois enfiam em sua garganta um pilão de ferro incandescente. Os lábios, a língua, os intestinos e o estômago ficam inteiramente queimados e destruídos, e a dor atroz é insuportável. Como suas faltas e seus males ainda não foram expiados, ela não morre. Assim são os tormentos nos infernos.” (Sutra dos Infernos Proferido pelo Buda, traduzido por Zhu Tanwulan, śramaṇa das Regiões Ocidentais, durante a dinastia Jin Oriental) <a xlink:href="#loc-1684">[N19]</a></p><p id="pt-b00931">Jiadong disse: Preparar comida suja e dá-la às pessoas certamente provoca a indignação delas e também a aversão das divindades. Descartar comida contaminada equivale a desperdiçar os bens da natureza. Desperdiçar água e outras bebidas, despejando-as em valas e latrinas, é uma grave criação de carma. Havia uma velha chamada Qiu que morreu de doença e voltou à vida. Contou que chegara a um lugar onde havia dois barcos carregados de comida suja que fora descartada. Um espírito a açoitou e disse: “Isto é o que você desperdiçou durante toda a vida. Como permitir que não o coma?” A velha engoliu à força alguns bocados, sentiu a barriga cheia e voltou à vida assustada. Assim que terminou de contar, morreu. (Comentários ao Ganying Pian) <a xlink:href="#n130-alimentos-contaminados-ou-estragados">[N130]</a></p><p id="pt-b00932">Repreensão pelo descarte de resíduos de tofu</p><p id="pt-b00933">Quem desperdiça os bens concedidos pelo Céu certamente sofrerá desgraças. Quem despreza os cinco cereais muitas vezes é atingido por raios. Cães e porcos consumiam a mesma comida que as pessoas, e por isso Mêncio sentiu profunda dor. Com vinho e carne, fizeram-se, em extravagante luxo, lagos e florestas; por isso o rei de Shang perdeu seu reino. Além disso, os antigos chegavam a engolir borras de cereais e farelo; estes resíduos de tofu são tão saborosos que o farelo não se compara a eles. Os grandes seres ainda se alimentavam de ervas e frutos; como poderiam as ervas se comparar ao sabor destes resíduos de tofu? Por que se entregar à arrogância e ao luxo, como o filho pródigo de uma família rica? Por que viver em confusão e engano, como um bebê envolto em panos? Primeiro é preciso lacrar o moinho como punição; depois será necessário quebrar a panela, para proibir isso para sempre. (Escritos Póstumos do Mestre Yunqi, volume 3)</p></section><section id="sec-52"><title><p id="loc-934">10 — O Buda diz: apegar-se às comidas saborosas e comer demais, até ficar excessivamente cheio, facilita a queda nos destinos ruins!</p></title><p id="pt-b00935">O Buda disse: Para o praticante, há onze condições que destroem o caminho; refreá-las impede que se caia nos destinos ruins. Quanto ao que não se deve conhecer, isso se refere às inúmeras coisas. A primeira é a grande reunião, isto é, a multidão. A segunda é comer muito, isto é, as diversas comidas saborosas; também significa ficar excessivamente cheio. A terceira é agir em excesso, isto é, realizar muitas atividades. A quarta é fazer muito alarde, isto é, falar muito. A quinta é dormir demais. A sexta é reunir-se, isto é, durante a meditação. A sétima é dedicar-se repetidamente a atividades, isto é, ocupar-se de muitos assuntos. A oitava é apegar-se ao corpo. A nona é a leviandade, isto é, falar em desacordo com o Dharma. A décima é a cobiça, isto é, ter muitos desejos. A décima primeira é não gostar de morar em um bom lugar, isto é, viver entre pessoas más. Quem pratica o caminho deve eliminar essas onze condições e assim o alcançará rapidamente. (Sutra das Seções e Frases sobre a Contemplação do Corpo Interior, Proferido pelo Buda) <a xlink:href="#loc-1686">[N20]</a></p></section><section id="sec-53"><title><p id="loc-936">11 — As bênçãos e os anos de vida que uma pessoa acumulou com tanto esforço acabam sendo desperdiçados pelo hábito de fumar!</p></title><p id="pt-b00937">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parti sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00938">Amitābha! Eu, Ayu, uni as palmas das mãos e saudei o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00939">“Magistrado! Hoje gostaria de lhe perguntar sobre a questão do cigarro. Há anúncios de cigarros em muitas cidades. Em algumas cidades um pouco mais prósperas, a situação é um pouco melhor: os anúncios informam que o cigarro contém nicotina e que fumar prejudica a saúde, ou então é proibido fumar em locais públicos. Já em algumas cidades menos desenvolvidas, há cinzeiros nos restaurantes, nos hotéis e sobre as mesas, e por toda parte se veem pessoas fumando. Afinal, segundo as leis do mundo dos mortos, fumar constitui alguma falta e acarreta alguma punição?”</p><p id="pt-b00940">O magistrado disse: “Fumar causa danos demais: traz cem males e nenhum benefício. Para falar de modo geral, além de prejudicar diretamente a própria saúde, reduzir as bênçãos e os anos de vida, dissipar os recursos financeiros, causar aversão nas pessoas, provocar mau hálito, tornar opaca a luminosidade do corpo, gerar frequentemente doenças ocultas e enfraquecer a energia reta, também polui diretamente o ambiente e prejudica a saúde dos outros. Se a pessoa estuda e pratica o Dharma do Buda, os protetores do Dharma se afastam dela, e ela não consegue renascer na Terra Pura. <a xlink:href="#v2ch11-editorial-energy">E2</a></p><p id="pt-b00941">Segundo as leis do mundo dos mortos, fumar acarreta algumas punições. As pessoas do mundo dos vivos que fumam reduzem suas próprias bênçãos, e essa redução se divide em duas categorias. A primeira é a deterioração das diversas funções de todos os órgãos internos de seu corpo de carne e osso nesta vida. Por exemplo, órgãos e estruturas muito importantes, como os pulmões, o fígado, o cérebro, os olhos, o nariz, os brônquios e as artérias grandes e pequenas de todo o corpo, sofrem uma rápida degeneração por causa do cigarro; em casos ainda mais graves, surgem diversas doenças crônicas dos órgãos internos. Para essas doenças provocadas pelo cigarro, basta parar de fumar para que melhorem aos poucos. Já as bênçãos e os anos de vida anteriormente perdidos por fumar também podem ser recuperados por meio do arrependimento, do acúmulo de bênçãos, do incentivo a outras pessoas para que parem de fumar e de outras ações semelhantes. <a xlink:href="#v2ch11-editorial-health">E1</a></p><p id="pt-b00942">A segunda é a redução da luminosidade espiritual inata da pessoa. Essa redução tem consequências mais amplas. Afinal, as pessoas precisam elevar continuamente sua própria luminosidade inata. Se ela for reduzida, a vida de qualquer pessoa certamente caminhará em direção à escuridão, ou seja, ao sofrimento. Ninguém deseja sofrer; todos os seres sencientes desejam ser felizes. O corpo de quem fuma perde a saúde, e os fumantes vivem menos do que os não fumantes. Fumar causa infertilidade em rapazes e moças; nas moças, em particular, provoca irregularidades no ciclo menstrual. Quando chega a menstruação, surgem diversos tipos de dor abdominal, dor na região lombar e nas costas, dor de cabeça, mau humor, calafrios, sensação de calor, febre e assim por diante. Muitas pessoas do mundo dos vivos consideram isso normal, mas, na verdade, tudo isso é causado pelo cigarro. Se abandonarem o veneno do tabaco, a menstruação certamente apresentará alguma melhora.</p><p id="pt-b00943">Naturalmente, há casos que não têm nenhuma relação com fumar. A menstruação das mulheres também está relacionada ao carma de suas vidas anteriores. Algumas têm uma situação menstrual bastante peculiar: nunca fumaram, mas justamente a menstruação é seu período de sofrimento extremo. Elas têm cólicas tão intensas que, por mais que procurem atendimento médico e tomem remédios, nada produz efeito. Só lhes resta esperar que o doloroso período menstrual de cada mês passe naturalmente; trata-se de um doloroso desgaste dos obstáculos cármicos. Há ainda outro tipo: mulheres que permanecem menstruadas por meses e anos, vivendo sempre entre os diversos transtornos e inconvenientes da menstruação. O sangue continua escorrendo lentamente, sem nunca parar; elas nunca melhoram, e consultar médicos também não adianta. <a xlink:href="#v2ch11-editorial-health">E1</a></p><p id="pt-b00944">Esses dois tipos de mulheres apresentam distúrbios menstruais nesta vida devido às retribuições remanescentes do carma de matar e da conduta sexual imprópria, ambos muito graves em suas vidas anteriores. Elas precisam despertar a intenção de se arrepender do carma das vidas passadas e ajustar sua disposição interior para eliminar esse carma anterior. Em primeiro lugar, devem adotar uma alimentação vegetariana, recitar o nome do Buda, praticar o bem e acumular virtude. Somando a isso uma alimentação que nutra e fortaleça o corpo de acordo com suas necessidades, poderão se recuperar gradualmente após algum tempo. As mulheres com esses distúrbios precisam, antes de tudo, despertar a intenção de eliminar o mau carma das vidas passadas. Ao poder do arrependimento diário pelo mau carma que criaram anteriormente, devem somar o grande poder das bênçãos recebidas pela recitação diária do nome do Buda e o poder dos méritos das boas ações e da virtude acumulada. Assim, o poder do arrependimento, o poder do Buda e o poder dos méritos se unem em uma só força. Se perseverarem diariamente no que foi dito acima, com essas três forças certamente poderão eliminar aos poucos os obstáculos cármicos e voltar ao normal.</p><p id="pt-b00945">Quanto ao tempo necessário para cada pessoa voltar ao normal, haverá algumas diferenças. Como o carma passado de cada uma é diferente, também haverá diferenças no tempo durante o qual terão de suportar a retribuição quando ela se manifestar. Afinal, o carma exige algum tempo para que os seres sencientes experimentem os diversos sofrimentos do corpo; só então ele poderá ser desgastado gradualmente.</p><p id="pt-b00946">Muitas pessoas do mundo dos vivos não conseguem enxergar as diversas violações dos preceitos que cometeram em vidas anteriores. Veem apenas as condições adversas e as retribuições que enfrentam agora, nesta vida, e desenvolvem todo tipo de insatisfação e ressentimento em relação às pessoas e aos acontecimentos ao seu redor. Isso ocorre, na maioria das vezes, porque não compreendem profundamente a causa e o efeito ao longo das três existências — passada, presente e futura —, o que faz surgir nelas diversos mal-entendidos e opiniões equivocadas. É também assim que começam os desentendimentos entre as pessoas.</p><p id="pt-b00947">Quando encontrarem contrariedades na vida, primeiro examinem o próprio coração e se perguntem por que os outros estão bem e só vocês enfrentam tamanhas dificuldades. São seus próprios obstáculos cármicos que estão se manifestando. É preciso primeiro arrepender-se do próprio carma e corrigir os diversos comportamentos cotidianos, fazendo tudo de acordo com os princípios e o Dharma. Mesmo que suas capacidades sejam insuficientes, desde que façam o melhor possível, sob o ponto de vista da causa e do efeito isso continuará sendo completo e sem falhas. As regras de causa e efeito das leis do mundo dos mortos são sempre justas, rigorosas e imparciais.</p><p id="pt-b00948">Se uma gestante fuma, isso reduz a imunidade inata do feto, afeta o desenvolvimento normal de seu cérebro e também prejudica diretamente as diversas funções de seus órgãos internos. Os filhos de gestantes que fumam têm baixa imunidade, adoecem com facilidade, pegam resfriados e têm febre; suas vias respiratórias são frágeis, e eles tossem com facilidade. Também têm um temperamento ruim, pouca concentração para estudar e se distraem facilmente.</p><p id="pt-b00949">Enquanto qualquer vida está sendo gestada no ventre materno, ela atravessa o período de formação de sua constituição inata, isto é, o período de criação da constituição inata do corpo físico de uma pessoa para sua próxima existência. Antes de entrar no ventre, a medida das bênçãos de cada pessoa na próxima vida já está predeterminada. Embora esse carma esteja fixado, os hábitos e comportamentos bons ou maus adquiridos depois podem ser transformados; assim, é possível continuar a se elevar ou a declinar.</p><p id="pt-b00950">Os dez meses de gestação são extremamente importantes. Se a mãe fuma durante a gravidez, o feto passa a ter uma deficiência em sua constituição inata; o grau dessa deficiência depende da frequência com que a gestante fuma. Se ela cultiva bons pensamentos e comportamentos de educação pré-natal, estabelece uma boa base inata para as décadas seguintes da vida da criança. Os seres sencientes que têm a afinidade de encontrar este texto ainda possuem bênçãos. Espero que todos o façam circular e transmitam estas informações uns aos outros. <a xlink:href="#v2ch11-editorial-ten-months">E3</a></p><p id="pt-b00951">Se, durante os dez meses de gestação, a mulher mantém a conduta pura de abstinência sexual, ou seja, abstém-se até mesmo das relações sexuais permitidas, não fuma nem bebe, mantém uma alimentação vegetariana pura, recita o nome do Buda e conserva a mente serena, isso traz enormes benefícios e ajuda ao desenvolvimento da cabeça e dos diversos órgãos internos do feto, bem como à formação de seu temperamento depois do nascimento. Embora atualmente os alimentos vegetais do mundo dos vivos contenham agrotóxicos, ainda são preferíveis aos diversos males do consumo de carne e evitam que se criem vínculos cármicos negativos com outros seres sencientes. Não falarei mais aqui sobre os benefícios da alimentação vegetariana; há muitos livros no mundo dos vivos sobre suas vantagens que podem ser consultados.</p><p id="pt-b00952">Os fetos nutridos por uma alimentação vegetariana também são chamados de ‘vegetarianos desde o ventre’. A sabedoria dessas crianças certamente será superior à dos fetos nutridos por uma alimentação com carne; seus corpos serão mais saudáveis, e elas também poderão preservar sua boa luminosidade espiritual inata. Esse ponto é muito importante. <a xlink:href="#v2ch11-editorial-health">E1</a></p><p id="pt-b00953">A luminosidade inata de cada pessoa vai sendo contaminada aos poucos depois que ela renasce no mundo humano. Se o hábito de fumar da gestante causa uma deficiência inata no feto, após o nascimento será necessário muito mais tempo, além de diversas causas e condições, para compensar essa deficiência.</p><p id="pt-b00954">Além de perder suas próprias bênçãos e anos de vida, se um fumante faz com que pessoas não fumantes ao seu redor inalem diretamente a fumaça de seus cigarros durante muito tempo, ele também sofrerá uma redução ainda maior de suas bênçãos. Como prejudica diretamente a saúde dos outros, está praticando ações que reduzem suas bênçãos, prejudicam os demais e não trazem benefício a si mesmo.</p><p id="pt-b00955">Sempre que um fumante fuma um cigarro, entre as divindades do carma branco e negro, bom e mau, que acompanham cada pessoa desde o nascimento, a divindade do carma negro registra imediatamente um cigarro fumado sozinho. Quando o total chega a um maço, ela registra uma redução de bênçãos. Essa redução se manifesta, por exemplo, nos diversos obstáculos encontrados ao fazer as coisas, e assim por diante. A partir de dois maços, os obstáculos se agravam. Se houver outras pessoas presentes junto ao fumante, a redução de bênçãos será maior; poderão ocorrer, por exemplo, relações interpessoais ruins, insultos inesperados e outros acontecimentos envolvendo pessoas. Além da redução de bênçãos, quem fuma durante muito tempo também perde anos de vida.</p><p id="pt-b00956">Se estava originalmente predestinado que o fumante receberia um aumento de salário neste ano, essa bênção será anulada. Ou, caso seja alguém que faz negócios, tudo poderia estar correndo bem e ele poderia ganhar uma quantia em dinheiro, mas justamente no momento decisivo surgirá um problema que impedirá a conclusão da transação, e assim por diante. A luminosidade espiritual inata de quem fuma durante muito tempo vai se dissipando lentamente. Ao chegar ao fim da vida, essa pessoa não poderá renascer em um destino favorável; só poderá cair, pois toda a luminosidade de seu corpo estará encoberta pela fumaça.”</p><p id="pt-b00957">Eu disse: “Magistrado! Gostaria de perguntar: meu avô paterno também fumou durante muitos anos, mas viveu até os 92 anos! Isso acabou se tornando uma justificativa que dificulta minhas tentativas de convencer meu pai a parar de fumar!”</p><p id="pt-b00958">O magistrado disse: “Ayu, seu avô foi uma pessoa bondosa na vida anterior e acumulou algumas bênçãos de longevidade, descendência próspera e uma casa cheia de filhos e netos. Nesta vida, ele deveria ter vivido 102 anos. Infelizmente, por fumar, já havia perdido dez anos.</p><p id="pt-b00959">Seu avô era, desde o princípio, uma pessoa destinada à longevidade; 92 anos foi a duração de sua vida depois da redução. Ao final, ele deixou de respirar e passou para outra existência devido à grave degeneração da função pulmonar, à tosse e à fome que o matou. Sua morte antecipada também não se deveu inteiramente à redução de vida causada pelo cigarro. Houve outro motivo, relacionado à sua tia, esposa do irmão mais novo de seu pai. Quando ele tinha 90 anos, depois que sua avó faleceu, não havia ninguém para cuidar dele de perto. Sua tia o maltratava: frequentemente não lhe dava comida e ainda o insultava com palavras cruéis. No início, ela insistiu muito em cuidar de seu avô, com a intenção de se apoderar de todos os bens dele. Sem compreender a causa e o efeito, pensou que havia conseguido. Seu avô, por sua vez, para preservar a harmonia da família, escolheu suportar tudo sozinho, sem contar a ninguém, até morrer solitário. Outra verdadeira causa de sua morte foi ter sido deixado sem comida. Nesse episódio, ele não apenas eliminou carma, mas também acumulou algumas bênçãos. Por isso, pouco depois de você, Ayu, começar a estudar o budismo, foi possível conduzir seu avô ao reino celestial por meio de uma breve recitação do nome do Buda. Essa foi a boa retribuição por ter suportado tudo sem nenhuma queixa antes de morrer, eliminando assim parte de seu carma. Sua tia, por outro lado, semeou um mau carma muito grande. <a xlink:href="#v2ch11-recitation-agent">N31</a></p><p id="pt-b00960">Por tamanha falta de respeito filial, daqui a seis anos seu único filho, tão amado e obediente, a deixará. Sua retribuição ainda não terá terminado: depois, a filha de sua tia tomará todos os bens dela e também a tratará sem respeito filial. Sua tia acabará morrendo de doença, em sofrimento.</p><p id="pt-b00961">Como se diz: o bem e o mal, no fim, sempre recebem sua retribuição; a causa e o efeito são justos — a quem deixariam escapar?! Eu, este magistrado, aconselho as pessoas do mundo a jamais agir contra a própria consciência. Tudo o que as pessoas fazem fica registrado nos arquivos da administração do mundo dos mortos. Quem pratica muitas injustiças certamente sofrerá o castigo do Céu; quem pratica o bem com sinceridade certamente receberá bênçãos do Céu. Todos devem guardar minhas palavras.”</p><p id="pt-b00962">Eu disse: “O que o senhor contou foi realmente uma enorme surpresa para mim, e senti uma onda de dor e tristeza no coração. Naquela época, meu avô de fato morreu depois que sua função pulmonar se deteriorou gravemente e ele perdeu o fôlego ao tossir. Quanto aos bens dele, também ouvi meus pais dizerem que minha tia havia tomado tudo; eles ficaram um tanto ressentidos com isso. Sobre ter morrido de fome, agora me lembro: não era à toa que, toda vez que eu o visitava, ele devorava imediatamente a comida que eu comprava para ele. Na época, minha tia dizia apenas que, entre todos da família, grandes e pequenos, eu era quem melhor sabia fazer compras, que meu avô gostava mais da comida que eu comprava e que não era à toa que eu havia sido criada por ele. Quando ouvi isso, fiquei até muito contente. Eu realmente não tinha sabedoria alguma! Também me lembro de que, toda vez que ia vê-lo, minha tia ficava sempre ao meu lado. Na época, eu pensava em levar ainda mais alimentos de que ele gostava na visita seguinte. Como eu trabalhava longe, só voltava à minha terra natal uma vez a cada seis meses. Quando voltei da vez seguinte, meu avô já havia… Que tristeza!!!”</p><p id="pt-b00963">O magistrado disse: “É o carma! Nada está separado da causa e do efeito! As leis do mundo dos mortos não julgam de maneira errada nenhuma das incontáveis relações de causa e efeito, por mais complexas e entrelaçadas que sejam. Tal causa, tal efeito. Por fumar, seu avô recebeu a retribuição de fumar. O hábito dele de fumar durante muitos anos prejudicou os pulmões de sua avó. Ela faleceu porque a degeneração dos pulmões a fazia tossir; o catarro ficou preso na garganta, não conseguia sair e obstruiu sua respiração. Ela não conseguiu puxar o ar novamente e morreu. Nesse acontecimento, seu avô também precisou arcar com parte das consequências cármicas. Por outro lado, ao praticar a paciência diante das ofensas, ele também adquiriu os méritos dessa paciência.</p><p id="pt-b00964">Ninguém deveria fumar. Fumar prejudica nosso pensamento normal, e os discípulos do Buda precisam abandonar o cigarro. O hábito de fumar se enquadra no preceito de não beber álcool, um dos cinco preceitos. Quando o Buda estabeleceu os cinco preceitos para os praticantes leigos, segundo as principais escrituras hoje existentes, embora não tenha dito diretamente que não se podia fumar, ensinou que não se podia beber álcool. O álcool entorpece ainda mais nosso sistema nervoso, prejudica o pensamento normal e a prática espiritual, leva os seres sencientes a praticar o mal e, por fim, a cair nos infernos. Exceto para uso externo no tratamento de doenças, ou quando uma doença grave que ameaça a vida exige a ingestão de um medicamento preparado com álcool e não existe substituto, não se deve consumir nem uma gota de álcool. Não enganem a si mesmos nem aos outros pensando que beber sem ficar embriagado não constitui falta.</p><p id="pt-b00965">Portanto, o verdadeiro propósito de observar o quinto preceito, o de não beber álcool, é este: abster-se de todo produto de consumo que possa entorpecer e prejudicar o pensamento normal das pessoas. Não se trata apenas do álcool. A ciência e a tecnologia da sociedade atual estão em constante transformação, e no futuro o mundo humano ainda produzirá diversos produtos novos semelhantes ao álcool ou ao cigarro. Todo produto de consumo que tenha efeito entorpecente e prejudique o pensamento normal deve ser abandonado. Espero que todos observem isso com atenção; caso contrário, violarão as leis do mundo dos mortos, perderão bênçãos e anos de vida, e serão vocês mesmos que sofrerão!</p><p id="pt-b00966">Muito bem! Ayu, por hoje encerramos aqui nossa conversa sobre o cigarro. Volte agora! Será bem-vinda na próxima visita!”</p><p id="pt-b00967">Eu disse: “Com as palmas das mãos unidas, agradeço ao senhor, magistrado, por me contar hoje tantos acontecimentos de causa e efeito que ninguém da família conhecia. Aprendi realmente muito!”</p><p id="pt-b00968">Voltei sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-54"><title><p id="loc-969">12 — A promoção do Imperador de Dongyue e as catástrofes de Jambudvīpa do Sul</p></title><p id="pt-b00970">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parti sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00971">Amitābha! Eu, Ayu, uni as palmas das mãos e saudei o magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b00972">“Magistrado! Hoje gostaria que o senhor me levasse para visitar o lendário Imperador de Dongyue.”</p><p id="pt-b00973">O magistrado disse: “Atualmente, o Imperador de Dongyue é um dos reis sob o comando do soberano Rei Yama do mundo dos mortos. Antes da dinastia Song, o Imperador de Dongyue também era chamado de Imperador de Fengdu e era o governante supremo do mundo dos mortos, ocupando um cargo equivalente ao do atual soberano Rei Yama. Hoje, porém, o Imperador de Dongyue é um dos reis dos Doze Salões subordinados ao soberano Rei Yama; houve uma mudança de cargos. Como os infernos continuam sendo ampliados, depois da dinastia Song o ritmo de ampliação superou o de antes. A partir de 1995, no calendário do mundo dos vivos, os infernos passaram a ser ampliados ainda mais rapidamente. Até agora, eles já estão quase saturados, pois há realmente gente demais, gente demais cometendo crimes no mundo dos vivos! Sei que alguns fiéis, depois de lerem As leis implacáveis do mundo dos mortos, se perguntam por que existem ampliações dos infernos e mudanças de cargos na administração do mundo dos mortos. Pensem: no mundo dos vivos, as instituições públicas e seu pessoal também podem aumentar ou diminuir. Na verdade, o princípio é semelhante nos dois mundos, o dos mortos e o dos vivos; nem mesmo o reino celestial é diferente. Ayu, venha comigo!”</p><p id="pt-b00974">O magistrado disse: “No 350º ano após a dinastia Song, começaram a aumentar continuamente, no mundo humano, os casos de injustiça, grandes e pequenos, que eram abandonados sem solução. Depois que as almas dessas vítimas chegavam ao mundo dos mortos, todas precisavam recorrer ao Imperador de Dongyue. Muitas almas injustiçadas passaram a se reunir no salão de julgamento do imperador, que também ficou extremamente ocupado. Depois, a administração do mundo dos mortos construiu uma residência oficial ampla e espaçosa para o soberano Rei Yama, e assim o Imperador de Fengdu também passou a ser chamado de soberano Rei Yama do mundo dos mortos. A nova residência oficial reunia em um único palácio a moradia e o local de trabalho do soberano Rei Yama, facilitando ainda mais sua administração do mundo dos mortos. O salão supremo de julgamento do mundo dos mortos que você visitou da última vez, Ayu, foi construído nessa época. O Imperador de Fengdu também se mudou para a residência oficial do soberano Rei Yama, onde passou a morar e trabalhar. <a xlink:href="#loc-1688">[N21]</a></p><p id="pt-b00975">O atual Imperador de Dongyue foi promovido do cargo de Rei Qinguang do Primeiro Salão. O Rei Qinguang do Primeiro Salão havia sido um monarca justo e benevolente no mundo dos vivos e, ao chegar ao fim da vida, foi designado rei do Primeiro Salão. As atribuições do Imperador de Dongyue são semelhantes às do soberano Rei Yama. A diferença é que alguns espíritos, depois que suas almas chegam aos infernos, insistem em levar suas queixas ao rei supremo. Praticamente todos esses espíritos são encaminhados ao salão de julgamento da residência oficial do soberano Rei Yama, para serem julgados pessoalmente por ele. Na verdade, isso é um hábito que as pessoas trazem do mundo dos vivos. Para todos os que chegam ao mundo dos mortos, qualquer um de seus reis é justo, rigoroso e imparcial. Todos os reis tratam dos diversos casos de acordo com as leis do mundo dos mortos e com o que determina a causa e o efeito, sem favorecer minimamente parentes ou amigos. Todos examinam o crime cometido pelo espírito culpado e, conforme ele, o condenam ao inferno correspondente; conforme a injustiça sofrida, também emitem o tipo correspondente de credencial de autorização legal do mundo dos mortos para cobrar uma vida.”</p><p id="pt-b00976">Depois de atravessarmos esta ponte em arco arredondado, a residência oficial logo adiante será a do Imperador de Dongyue. A atmosfera de repartição oficial é muito marcante. Já aqui na ponte há yakshas patrulhando sem parar de um lado para outro; ao verem o magistrado, todos o saúdam. Com o magistrado me guiando, não preciso procurar sozinha as placas de orientação por toda parte, o que torna tudo muito mais simples e rápido. Na verdade, caminhamos muito depressa nos infernos, ao contrário do mundo humano, onde andamos devagar, dando um passo após o outro com os pés no chão. Às vezes, quando o magistrado anda depressa, também preciso acelerar; caminhamos com a força da mente, sem que os pés toquem o chão. Os infernos são realmente imensos. Este caminho também é um por onde nunca passei, mas não quero memorizar os caminhos dos infernos. Desejo que os seres dos infernos possam logo ouvir o Dharma correto e praticá-lo, e que todos possam logo ascender e se libertar dos sofrimentos dos infernos. Agora vejo a residência oficial do Imperador de Dongyue. À entrada, yakshas segurando grandes sabres permanecem eretos diante das duas folhas vermelhas do portão. Depois de saudarem sorrindo o magistrado, os yakshas abrem o portão e nos deixam entrar por conta própria.</p><p id="pt-b00977">Depois que entramos, outro guarda espectral também recebe o magistrado sorrindo e nos conduz por um corredor de um pequeno jardim até o salão de julgamento. Pelo jeito, o magistrado conhece muito bem todos os yakshas da residência do imperador. Este salão de julgamento é claramente muito menor que o salão supremo de julgamento do soberano Rei Yama. Aqui a impressão de antiguidade é ainda maior: o edifício tem um grande portão de ferro vermelho ao estilo antigo, e os móveis e a decoração do interior são todos de gosto antigo. As pinturas penduradas nas paredes também retratam pessoas da antiguidade. Junto à parte inferior das paredes dos dois lados, há ainda algumas armas antigas. Bem em frente ao centro da entrada, uma placa traz os quatro caracteres chineses “东岳大帝” (“Imperador de Dongyue”). Há um rei do mundo dos mortos sentado ali; deve ser o Imperador de Dongyue. Ele veste os trajes de um rei do mundo dos mortos, tem o rosto cinzento, usa uma coroa cerimonial e seus olhos emitem uma luz negra. Ah! Mais um rei do mundo dos mortos de aparência extremamente séria e um tanto feroz! Sobre sua mesa de trabalho também estão escritos os quatro caracteres chineses “东岳大帝” (“Imperador de Dongyue”).</p><p id="pt-b00978">“Esta mulher do povo, Shangguan Yuhua, prostra-se diante do Imperador de Dongyue!”</p><p id="pt-b00979">O Imperador de Dongyue disse: “Shangguan Yuhua, dispense as formalidades! Seja bem-vinda! Se tiver alguma pergunta, pode fazê-la diretamente, sem receio!”</p><p id="pt-b00980">Ayu: “Sim, imperador, rei do mundo dos mortos! Esta mulher do povo gostaria de lhe fazer algumas perguntas:</p><p id="pt-b00981">Primeiro: ouvi dizer que os infernos já estão lotados. Se a conduta sexual imprópria continuar se alastrando entre os vivos e os infernos estiverem superlotados, sem novos infernos disponíveis para receber quem a pratica, isso significa que, mesmo chegando ao fim da vida, essas pessoas poderão ficar temporariamente isentas das penas dos infernos, esperando que haja vagas para então cumprir as penas? Ou os seres que estão atualmente nos infernos serão libertados antes do tempo, cedendo lugar para que os novos espíritos culpados sejam punidos?</p><p id="pt-b00982">Segundo: para quem já cometeu muitos delitos de conduta sexual imprópria e, segundo as leis do mundo dos mortos, teve suas bênçãos e sua longevidade reduzidas, que método pode livrar por completo esses seres da culpa que os levaria a cair nos infernos ao fim da vida?</p><p id="pt-b00983">Terceiro: que método pode eliminar por completo a prática da conduta sexual imprópria?”</p><p id="pt-b00984">O Imperador de Dongyue disse: “Ah! Uma poderosa corrente de energia da conduta sexual imprópria do mundo dos vivos já atravessou as nuvens e chegou diretamente ao grande salão do Imperador Celestial. A conduta sexual imprópria já compromete gravemente o equilíbrio da energia reta da natureza. Se o mundo humano continuar perdendo esse equilíbrio, ocorrerão diversas calamidades naturais. Por exemplo: a instabilidade do clima, que pode sofrer todo tipo de mudança em um instante, ora com sol, ora com chuva; a temperatura pode variar enormemente em um único dia, fazendo sentir como se as quatro estações — primavera, verão, outono e inverno — ocorressem no mesmo dia. Os tsunamis, as inundações, os incêndios, os terremotos e as diversas epidemias de grandes proporções no mundo humano são um alerta.</p><p id="pt-b00985">Ayu! Pense por um momento: por que tantos acontecimentos tristes ocorrem na Terra, em Jambudvīpa do Sul? Certamente existem causas de carma coletivo produzidas posteriormente pelas ações humanas. Por isso, espero que o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos desperte o quanto antes os corações iludidos e equivocados no mundo dos vivos, contribuindo para resgatar os corações e os costumes da sociedade e para que os numerosos seres cumpram seus deveres e observem a moral das cinco relações humanas fundamentais. Assim, poderão ser revertidas as diversas calamidades que a energia da conduta sexual imprópria traz ao mundo humano, a superlotação dos infernos também poderá ser aliviada e o mundo humano não precisará sofrer grandes calamidades repetidas vezes em um curto período. Se a atual proliferação das diversas formas de conduta sexual imprópria continuar no mundo humano, em breve grandes calamidades se sucederão, cobrindo o céu e a terra. Todos os seres que praticam conduta sexual imprópria ou quaisquer outros delitos certamente não escaparão à rede celeste implacável e sem falhas das leis do mundo dos mortos. Todos serão apanhados nessa rede durante as grandes calamidades e cairão nos infernos para sofrer penas imensuráveis e ilimitadas.</p><p id="pt-b00986">Embora este inferno do mundo dos mortos já esteja lotado, a administração do mundo dos mortos providenciará a busca de outros lugares para construir novos infernos. Mesmo quando este inferno tiver sido inteiramente destruído, se o carma dos delitos de seus seres ainda não tiver se esgotado, transferiremos esses espíritos culpados de um inferno a outro para que continuem sendo punidos, até que todo o carma de seus delitos seja completamente eliminado. Só então poderão deixar os infernos. Há apenas duas razões pelas quais os seres podem sair dos infernos. A primeira é o término do período de seu próprio carma de delitos infernais, ou seja, o esgotamento da retribuição de seu mau carma dos infernos. Só então poderão passar por renascimentos em condições correspondentes às retribuições residuais dos infernos.</p><p id="pt-b00987">No mundo dos mortos também há um salão de assembleias do Dharma para os ensinamentos compassivos de Kṣitigarbha. Se, em qualquer um dos grandes infernos, algum espírito tiver um único pensamento de arrependimento sincero, poderá ser levado pelos yakshas para ouvir os ensinamentos compassivos de Kṣitigarbha. Assim, receberá a bênção protetora do Buda, terá suas raízes de bondade despertadas e poderá ascender a um destino favorável de renascimento. O mais terrível é quando os seres não despertam a intenção de se arrepender de suas ações erradas do passado, permanecem obstinados na ilusão, mergulhados na degradação e no sofrimento, e chegam até a agravar continuamente o carma de seus diversos delitos.</p><p id="pt-b00988">Um único pensamento de arrependimento que venha sinceramente do coração basta para dissolver o carma imensurável e ilimitado dos delitos. As leis implacáveis do mundo dos mortos jamais restringem impiedosamente qualquer ser senciente que se arrependa de coração. A maioria dos que saem dos infernos renasce no reino animal como criaturas de condição inferior, pequenas e de pensamento simples; mesmo quando renascem no mundo humano, têm poucas bênçãos, não possuem todas as cinco faculdades sensoriais, entre outras condições. A segunda razão é ter a sorte de receber uma forte ajuda de libertação espiritual de seus familiares no mundo dos vivos; esses seres também podem deixar os infernos. É relativamente difícil que a ajuda de libertação espiritual oferecida pelos familiares no mundo dos vivos produza a correspondência necessária, pois essa libertação depende de causas e condições ligadas à força de outros. No mundo dos mortos há muitos registros de espíritos culpados que, graças à ajuda de seus familiares vivos, foram elevados com sucesso a destinos favoráveis de renascimento. Alguns chegaram até a ser elevados aos mundos celestiais e à Terra Pura do Ocidente. Mas isso tampouco acontece por acaso: antes de caírem nos infernos, esses espíritos culpados haviam acumulado, em vidas passadas, algumas bênçãos correspondentes. Sua libertação não ocorreu de repente sem causa; certamente houve boas causas e condições que a produziram. Por isso, todos os seres devem aproveitar enquanto ainda têm os cinco órgãos dos sentidos íntegros e o corpo saudável para praticar muitas boas ações, cumprir seus deveres públicos e as leis, observar os preceitos e acumular méritos, reunindo mais bênçãos para si. Jamais devem usar um corpo saudável para cometer toda espécie de violação dos preceitos que os faça cair nos infernos. Uma vez que caiam nos infernos, terão sofrimentos imensuráveis e ilimitados, sem uma data de saída.</p><p id="pt-b00989">Para os seres que já cometeram delitos de conduta sexual imprópria ou já produziram mau carma que leva aos infernos, havendo causa, haverá efeito. Quem produz mau carma que leva aos infernos certamente terá de suportar a retribuição dos infernos no futuro. Para não sofrer essa retribuição, é preciso, antes que ela se manifeste, eliminar toda e qualquer condição auxiliar que contribua para sua realização. Se alguém quiser, nesta vida, livrar-se completamente de cair nos infernos por delitos de conduta sexual imprópria, há apenas um método: eliminar por completo toda conduta sexual imprópria. Primeiro, é indispensável controlar e disciplinar rigorosamente os próprios pensamentos, sem tolerar que surja no coração nem o mais sutil pensamento de conduta sexual imprópria. Nem um único pensamento é permitido. Mesmo que surja um pensamento muito sutil, é preciso arrepender-se imediatamente e tomar, de todo o coração, a firme resolução de não voltar a ter esse pensamento. Além disso, é preciso aconselhar continuamente os vivos, de pessoa em pessoa, a não praticarem conduta sexual imprópria. Essa disposição do coração é muito importante.</p><p id="pt-b00990">Os seres que tiverem a oportunidade de ler este texto e realmente quiserem eliminar por completo a conduta sexual imprópria, mas fracassarem repetidamente, poderão jurar diante do céu, no primeiro e no décimo quinto dia de cada mês lunar, que dali em diante, vida após vida, jamais praticarão conduta sexual imprópria. Deverão também divulgar de pessoa em pessoa este livro de exortação ao bem, As leis implacáveis do mundo dos mortos, e ajudar a custear sua impressão. No dia a dia, deverão igualmente eliminar com rigor todas as palavras e ações relacionadas à conduta sexual imprópria. Devem adotar uma alimentação vegetariana e não comer certos alimentos que aumentam o desejo; por exemplo, cebolinha e alho cozidos aumentam o desejo. Também devem reduzir ao mínimo o uso de substâncias medicinais que tenham o efeito de aumentar o desejo, como o baji.</p><p id="pt-b00991">O desejo dos animais é maior que o dos seres humanos; por isso, não consumam alimentos de origem animal. Além de perturbarem o autocontrole, eles também fazem contrair dívidas de vida. O álcool também perturba o autocontrole e não deve ser consumido. Os olhos e os ouvidos não devem ver nem ouvir quaisquer publicações pornográficas que agitem a mente e o desejo sexual. No cotidiano, é preciso avançar continuamente e com diligência na prática do Dharma do Buda, tomar a resolução de difundir e sustentar o Dharma correto e arrepender-se sinceramente do carma dos delitos de conduta sexual imprópria do passado. É muito importante despertar a intenção sincera de eliminar por completo a conduta sexual imprópria. Se realmente for possível alcançar o estado em que ‘a mente que dá origem ao delito cessa, o delito se extingue, e ambos ficam vazios’, não será preciso preocupar-se com o mau carma que leva aos infernos.</p><p id="pt-b00992">Recitar o nome sagrado ‘Namo Avalokiteśvara’ também pode eliminar gradualmente a conduta sexual imprópria. Basta recitar devotamente o nome sagrado do bodhisattva todos os dias, e certamente se receberá sua bênção compassiva e invisível, reduzindo o carma dos delitos de conduta sexual imprópria que levam aos infernos. Os seres que, depois de fazerem o juramento, o cumprirem rigorosamente ficarão livres do mau carma que os faria cair nos infernos ao fim da vida e poderão renascer em destinos favoráveis. Quanto à redução exata das penas que sofreriam nos infernos, a decisão final dependerá da força da intenção e do arrependimento desses seres sencientes.”</p><p id="pt-b00993">“Shangguan Yuhua! Você tem mais alguma pergunta?”</p><p id="pt-b00994">“Por enquanto, não. Sou muito grata pelas explicações do imperador. Esta mulher do povo se prostra e pede licença para se retirar!”</p><p id="pt-b00995">Eu, Ayu, prostro-me diante do Imperador de Dongyue, do magistrado do mundo dos mortos e de todos os oficiais!</p><p id="pt-b00996">Volto sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-55"><title><p id="loc-997">13 — Tudigong, a divindade reta das bênçãos e da virtude</p></title><p id="pt-b00998">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b00999">Amitābha! Eu, Ayu, prostro-me diante do magistrado do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b01000">Hoje gostaria de perguntar ao magistrado sobre os Tudigong venerados pelas pessoas nos templos da terra: eles são divindades celestiais ou divindades terrestres? São enviados pelo céu ou são apenas espíritos e fantasmas que se alojam ali? Quais são suas funções e o alcance de sua administração? E qual é a diferença entre o Tudigong dentro de cada casa e o Tudigong à entrada?</p><p id="pt-b01001">O magistrado disse: “Os Tudigong dos templos da terra são divindades que possuem bênçãos e virtude e pertencem à categoria das divindades retas das bênçãos e da virtude. Eles podem receber o incenso e as oferendas dos vivos e são nomeados pelo céu. Essas divindades têm diferentes graus de bênçãos e virtude. Os Tudigong que as possuem em maior grau administram áreas maiores. Por exemplo, nas zonas rurais, alguns Tudigong são responsáveis por uma aldeia inteira; nas cidades, a administração é dividida entre vários Tudigong.</p><p id="pt-b01002">Para esses grandes Tudigong regionais, os vivos constroem pequenos templos da terra. O trabalho dos Tudigong regionais é cuidar das bênçãos e da virtude dos seres de sua região e da segurança de suas idas e vindas. Sempre que alguém nasce ou morre, a administração do mundo dos mortos envia uma notificação ao Tudigong. Quando alguém se muda para fora da área sob sua jurisdição, ele também recebe um registro.</p><p id="pt-b01003">O trabalho dos Tudigong é manter a ordem e a segurança no ambiente em que vivem os seres sencientes. Se espíritos malignos, divindades, fantasmas ou seres semelhantes quiserem entrar na área sob sua jurisdição, o Tudigong lidará adequadamente com a situação, cumprindo sua função de proteger a segurança dos vivos. Todos os Tudigong foram pessoas que, em vida, gostavam de ajudar os outros e tinham senso de justiça. Ao fim da vida, foram designados Tudigong para receber incenso e oferendas do mundo humano. São esses Tudigong, dotados de maiores bênçãos e virtude, que têm condições de receber a veneração e as oferendas do público.</p><p id="pt-b01004">Os Tudigong que ficam dentro de cada casa e os que ficam à entrada pertencem à categoria dos fantasmas de conduta reta, dotados de bênçãos e virtude em grau um pouco menor. Na verdade, são os próprios vivos que colocam uma tabuleta de Tudigong para lhes prestar culto e os chamam de Tudigong da casa ou Tudigong da entrada. Na realidade, eles são fantasmas que já moravam na casa o tempo todo, e sua vida é mais longa que a dos seres humanos. Se as pessoas não forem morar na casa, os fantasmas não receberão nenhuma oferenda. Quando os vivos lhes fazem oferendas, os fantasmas também retribuem a bondade e, naturalmente, protegem a segurança de suas idas e vindas.</p><p id="pt-b01005">Hoje os vivos compram e vendem casas com frequência, mas os fantasmas não vão embora com as pessoas. Só muda o proprietário da casa no mundo dos vivos; esses fantasmas não são Tudigong enviados pelo céu. Os enviados pelo céu são os Tudigong regionais, os Tudigong dos centros comerciais e os Tudigong dos edifícios, ou seja, dos prédios altos onde os vivos moram atualmente. À entrada desses edifícios há um Tudigong enviado pela administração do mundo dos mortos. Esses Tudigong dos edifícios estão subordinados ao Tudigong regional. Os que ficam às entradas dos centros comerciais e das lojas são Tudigong enviados pela administração do mundo dos mortos, porque nesses locais há mais pessoas e são necessários Tudigong com bênçãos e virtude relativamente maiores para receber o incenso e as oferendas. Muito bem, Ayu, por hoje ficamos por aqui. Volte agora.”</p><p id="pt-b01006">Amitābha! Eu, Ayu, prostro-me diante do magistrado do mundo dos mortos! Volto sobre o lótus branco.</p><p id="pt-b01007">Antes de voltar para casa, vou cumprimentar o Tudigong da região aqui perto.</p><p id="pt-b01008">Eu disse: “Amitābha! Olá, vovô Tudigong!”</p><p id="pt-b01009">O vovô Tudigong disse: “Ayu! Já está tão tarde, volte logo para casa e tome cuidado!”</p><p id="pt-b01010">Eu disse: “Obrigada, vovô Tudigong. O senhor não fica entediado sentado aqui todos os dias?”</p><p id="pt-b01011">O vovô Tudigong disse: “Agora estou muito mais ocupado do que antes!”</p><p id="pt-b01012">Eu disse: “Há algum tempo passei por aqui e não vi o senhor sentado neste lugar?”</p><p id="pt-b01013">O vovô Tudigong disse: “Quando digo antes, Ayu, refiro-me a antes de você nascer, há 150 anos. Naquela época eu não estava tão ocupado quanto agora. Hoje a vida afetiva das pessoas é complicada e cheia de problemas. Doenças, mortes, nascimentos e todo tipo de questão também aumentaram bastante em comparação com antes.”</p><p id="pt-b01014">Eu disse: “Vovô Tudigong! Quando as pessoas adoecem, procuram atendimento; depois que morrem, são cremadas; para dar à luz, vão ao hospital. Nada disso precisa incomodar o senhor. Como pode deixá-lo tão ocupado?”</p><p id="pt-b01015">O vovô Tudigong disse: “Ayu, você não sabe, mas sou responsável pela segurança das idas e vindas dos seres do mundo dos vivos. Antes que algo lhes aconteça, fico sabendo com antecedência. Alguns acontecimentos envolvem o aumento ou a redução de suas bênçãos, e preciso tratar deles antes que ocorram. Lidar com esses acontecimentos exige organizar tanto os momentos quanto as pessoas envolvidas. Cada pessoa tem uma luz própria em seu corpo, e cada uma tem seus credores cármicos, entre desafetos e pessoas próximas. Observe os seres na rua e veja se não são todos diferentes.”</p><p id="pt-b01016">Está bem! Vejo muitos credores cármicos, entre desafetos e pessoas próximas, seguindo cada ser, em fileiras e mais fileiras. Alguns estão muito furiosos! Há os que não param de bater na cabeça de uma pessoa viva, e ela sente uma dor de cabeça constante. Muitos estão alojados no corpo dos vivos. Outros esfregam os punhos e as mãos, preparando-se para bater nas pessoas ou beliscá-las.</p><p id="pt-b01017">Nesse momento, vejo um homem com um pouco de luz branca, que tem um pouco mais de energia reta. Quando ele entra em um beco escuro e sem iluminação, todos os fantasmas abrem caminho para deixá-lo passar. Depois que ele vai embora, os fantasmas voltam ao beco. Vendo assim, realmente há diferenças.</p><p id="pt-b01018">O vovô Tudigong disse: “Recentemente, houve aqui um homem solteiro que praticou conduta sexual imprópria e engano. Ele enganou uma mulher em seus sentimentos e em questões de dinheiro e a instigou a abortar várias vezes. Essa mulher tampouco é de boa índole. Ela já tem a intenção de matá-lo e planeja morrer junto com ele, mas as bênçãos dele ainda não se esgotaram, e sua vida ainda não deve terminar. Na vida passada, ele era um praticante espiritual que não observava os preceitos com pureza e cometeu conduta sexual imprópria. Nesta vida, voltou a cometê-la. Agora estou usando alguns métodos para ajudá-lo e alertá-lo. Nestes últimos dias, ele próprio já percebeu que algumas coisas não estão correndo muito bem. Por exemplo, alguns dias atrás, quando foi sacar dinheiro no caixa eletrônico, o dinheiro não saiu. Embora depois tenha conseguido sacar, o processo não correu bem. Mesmo quando todos os procedimentos que segue estão corretos, surgem problemas que as pessoas não conseguem explicar. A ajuda que estou lhe dando desta vez pode levá-lo, aos poucos, a refletir sobre si mesmo.</p><p id="pt-b01019">Esse é apenas um ser. Todos os dias há muitos seres de diferentes tipos e muitos acontecimentos; por isso, naturalmente fico muito ocupado. Há pouco você viu que os fantasmas abrem caminho para certos seres. Na verdade, também ajudo esses seres. Se algum deles estiver mesmo prestes a cair, eu o amparo ou procuro ajudá-lo a evitar a queda, mas os vivos não percebem minha presença. Só pensam: ‘Ainda bem que não caí! Quase caí, que sorte!’ Na verdade, esse ‘quase’ vem das próprias bênçãos deles.”</p><p id="pt-b01020">Eu disse: “O senhor trabalha tanto, vovô Tudigong! Então o senhor sempre esteve nos ajudando silenciosamente, nos bastidores. Só hoje eu, Ayu, fiquei sabendo. Sou muito grata! Até logo, vovô Tudigong!”</p><p id="pt-b01021">Eu, Ayu, uno as palmas das mãos!</p></section><section id="sec-56"><title><p id="loc-1022">14 — Uma mentira pode ser grave ou leve — Visita ao Inferno do Gelo, do Arrancamento da Língua e do Despedaçamento do Corpo</p></title><p id="pt-b01023">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b01024">“Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos e me prostro diante do magistrado do mundo dos mortos! Gostaria de perguntar: quando os vivos mentem, que retribuição sofrerão nos infernos? Quando eu era pequena, ouvia minha avó paterna dizer que quem mente vai para os infernos e apanha dos fantasmas, entre outras coisas. Hoje gostaria de pedir ao magistrado que me levasse para conhecer um desses lugares.”</p><p id="pt-b01025">O magistrado disse: “Há muito a dizer sobre a mentira. Hoje farei uma explicação geral. Na verdade, a mentira tem um alcance muito amplo. Uma única mentira pode pôr em risco a vida de uma pessoa e até de inúmeras pessoas. A mentira é companheira da cobiça, da aversão e da ignorância. Quando os vivos mentem, atraem para si retribuições nos infernos.</p><p id="pt-b01026">O mais importante, no caso da mentira, é observar a intenção da pessoa viva que mente e qual dos três venenos — cobiça, aversão e ignorância — predomina em seu pensamento no momento em que mente. Algumas mentiras contêm apenas um dos três venenos; por exemplo, só cobiça, sem nenhum outro componente. Algumas contêm apenas aversão, outras apenas ignorância, e outras têm dois ou os três componentes.</p><p id="pt-b01027">De modo geral, a mentira se divide em dois tipos: a mentira propriamente dita e a mentira apenas aparente. A mentira propriamente dita atrai retribuições de diferentes graus nos infernos. Naturalmente, a gravidade dessa retribuição é determinada pelo dano que a mentira causou aos outros. Já a mentira apenas aparente não exige sofrer retribuição nos infernos; algumas mentiras apenas aparentes chegam até a gerar mérito.</p><p id="pt-b01028">O que é uma mentira apenas aparente? É uma mentira dita inteiramente para salvar e libertar os seres, sem o menor traço de egoísmo ou interesse próprio. A isso se chama mentira apenas aparente. Há ainda um tipo relativamente próximo da mentira apenas aparente, que muitos vivos usam com frequência. Por exemplo: quando alguém pergunta a você, Ayu, se já comeu, você mente e diz que sim apenas porque não quer que a outra pessoa tenha o trabalho de cozinhar e porque receia ficar lhe devendo um favor. Isso se chama mentira de conveniência. Nessa mentira de conveniência existe um pensamento de interesse próprio. Qualquer mentira que contenha um pensamento de interesse próprio não pode ser chamada de mentira apenas aparente. Quem já contou mentiras de conveniência pode purificá-las por meio do arrependimento sincero antes do fim da vida. É indispensável arrepender-se, porque a mentira de conveniência é precursora da mentira propriamente dita. Se for contada com frequência, contaminará nossa natureza espiritual inata e, aos poucos, criará o hábito de contar mentiras propriamente ditas.</p><p id="pt-b01029">Para se arrepender de uma mentira de conveniência, a pessoa pode relatar diante do Buda quando e onde contou essa mentira por causa de determinado assunto e declarar que agora se arrepende sinceramente dela. Se tiver esquecido o ocorrido, poderá tomar de coração a resolução de corrigir inteiramente seus erros passados e nunca mais repeti-los. Lembrem-se: embora as leis do mundo dos mortos punam implacavelmente a perversidade e o mal, o céu sempre se compadece dos seres sencientes que se arrependem de coração e certamente deixa um degrau para que aqueles que sinceramente se corrigem avancem aos poucos em direção à luz, recuperando a luminosidade inata que tinham quando desceram inicialmente ao mundo humano. Depois, devem suplicar e confiar na bênção protetora do poder do Buda para eliminar os obstáculos cármicos e, dali em diante, tomar a resolução de recitar o nome do Buda e buscar o renascimento na Terra Pura. Quem não tiver uma imagem do Buda em casa poderá fazer seu relato voltado para o céu. Desde que o arrependimento seja sincero, os budas e bodhisattvas estão em toda parte. Ao lado de cada pessoa já estão os dois Wuchang, o Negro e o Branco, registrando o bem e o mal que todos praticam a cada dia.</p><p id="pt-b01030">Quando a causa não é verdadeira, o fruto encontra desvios e dificuldades. Contar mentiras de conveniência também atrai a retribuição da mentira. Por isso, é indispensável purificá-las por meio do arrependimento, eliminando inteiramente a causa não verdadeira com a força do coração sinceramente arrependido e com o poder do Buda obtido pela recitação de seu nome. Caso contrário, certamente haverá uma retribuição de desvios e dificuldades. O pensamento com que se conta uma mentira de conveniência atrai uma retribuição correspondente à intenção presente no momento em que se mentiu. Há muitos infernos destinados aos delitos de mentira. Vou levá-la para visitar um inferno de mentiras relativamente novo. Ayu, venha comigo!”</p><p id="pt-b01031">Obrigada pelo trabalho, senhor magistrado! Parti seguindo o magistrado, e chegamos rapidamente a uma região dos infernos.</p><p id="pt-b01032">O magistrado explicou: “Esta é a parte norte do nosso mundo dos mortos. Todos os infernos desta região pertencem à categoria dos infernos da mentira.”</p><p id="pt-b01033">Uau! Mais uma região de dimensões imensas! Com a minha capacidade de visão, não consigo enxergar onde termina. E esta ainda é uma ampliação! É inacreditável!</p><p id="pt-b01034">O magistrado disse: “Ayu, hoje visite primeiro um desses infernos da mentira! Depois marcaremos um momento oportuno para você voltar e visitar os outros.”</p><p id="pt-b01035">Sou grata ao magistrado! A temperatura aqui é baixa demais, faz muito frio! Estou com um pouco de dificuldade para me adaptar. No mundo dos vivos, consigo me adaptar até às enormes diferenças de temperatura entre o norte e o sul no inverno, mas a temperatura deste inferno é realmente baixa demais. Que frio! Preciso recitar imediatamente o nome do Buda e ajustar a força da minha mente para me adaptar a este ambiente extremamente gelado!</p><p id="pt-b01036">O magistrado disse: “A temperatura aqui é de 150 graus abaixo de zero. Esta é uma nova região de infernos da mentira cuja construção começou no ano 2000, segundo o tempo do mundo dos vivos. Neste momento, estamos no Inferno do Gelo, do Arrancamento da Língua e do Despedaçamento do Corpo, onde o castigo é o mais severo de toda a região da mentira. Aqui, o frio e o sofrimento são extremos. Na antiga área dos dez salões, ao sul do mundo dos mortos, existe um antigo inferno da mentira, onde o sofrimento do castigo é um grau menor. Ah! Hoje, o mundo está em decadência, e os corações humanos são insensíveis. Aqui há muitos que, em vida, contaram mentiras que levaram pessoas do mundo dos vivos a abandonar uma vida pura de cultivo pessoal e aprimoramento da natureza interior. Acreditando nessas mentiras, elas passaram a buscar por toda parte, caindo numa vida de entrega aos cinco desejos, de embriaguez e torpor. Ao cortar a vida de sabedoria dessas pessoas, os mentirosos atraíram para si, ao fim da vida, a queda no Inferno do Gelo, do Arrancamento da Língua e do Despedaçamento do Corpo. Ayu, hoje você visitará primeiro este inferno!” <a xlink:href="#n13-temperaturas">[N13]</a> <a xlink:href="#n22-os-dez-tribunais">[N22]</a></p><p id="pt-b01037">Mesmo sem eu explicar, todos sabem que uma característica dos infernos são os uivos, os gemidos de dor e os gritos de terror que nunca cessam. Mas o sofrimento aqui dá a impressão de que até o tempo e o espaço foram desacelerados pelo frio; parece que tudo fica muito lento.</p><p id="pt-b01038">Os grandes caracteres cor de bronze antigo com os dizeres “Inferno do Gelo, do Arrancamento da Língua e do Despedaçamento do Corpo” surgiram diante dos meus olhos. A entrada deste inferno parecia muito moderna. Ao nos ver chegar, os yakshas que estavam à porta se prostraram diante do magistrado e abriram a porta para nos deixar entrar.</p><p id="pt-b01039">Este inferno é imenso. Vi incontáveis pessoas sofrendo castigos lá dentro. À esquerda, alguns espíritos condenados recebiam retribuições quase iguais. Havia muitos computadores usados como instrumentos de tortura, todos automatizados. De dentro deles eram disparados instrumentos de tortura que perseguiam os espíritos condenados, com uma precisão absoluta, de cem por cento, sem jamais deixar escapar nenhum deles. As paredes e o teto também tinham mecanismos dos quais saíam voando instrumentos de tortura. Era um inferno moderno. Além de tratar com fúria os espíritos que tentavam se esconder, os yakshas ainda se ocupavam operando numerosos computadores para puni-los. O sofrimento dos espíritos condenados aqui era realmente sem limites: além de enfrentar yakshas extremamente ferozes, tinham de enfrentar os implacáveis computadores de tortura. Neste inferno há muitos espíritos condenados e computadores de tortura, mas poucos yakshas. Vamos primeiro observar aqueles dois espíritos junto à parede! São um homem e uma mulher, e ambos recebem a mesma retribuição.</p><p id="pt-b01040">A mulher condenada começou a tremer um pouco de frio. Com enorme dificuldade e movimentos extremamente lentos, ergueu-se do chão, finalmente recuperando a aparência de uma pessoa normal. Nesse instante, um yaksha muito feroz lhe cravou uma lança nas costas. Enquanto ela gritava de dor, ele a levou espetada na lança até um computador de mesa ao lado. Num instante, duas serpentes voaram para fora da tela: uma preta e uma vermelha. As duas se lançaram ferozmente sobre a boca da condenada. A serpente vermelha rasgou sua boca com uma mordida, enquanto a preta mordeu sua língua e a puxou para fora, arrancando-a e jogando-a no chão. Depois, para meu espanto, o retorno para dentro da boca ensanguentada e dilacerada da condenada se dava em voo, com precisão. <a xlink:href="#loc-1712">[N32]</a></p><p id="pt-b01041">De dentro do computador também saíam voando contra o corpo da condenada muitos objetos pontiagudos, que pareciam facas muito afiadas e também se assemelhavam a pregos — nunca vi objetos assim no mundo dos vivos. Depois que esses instrumentos de tortura se cravaram em seu corpo, a mulher caiu no chão e perdeu completamente os sentidos de tanta dor. Mesmo depois de desmaiar, muitos vermes vieram devorar seu corpo. Seu sangue espirrou por toda parte, e até o sangue que escorreu pelo chão acabou inteiramente sugado pelos vermes. Em seguida, devido à força do carma, a condenada voltava a despertar e continuava sofrendo nesse ciclo sem fim.</p><p id="pt-b01042">O homem condenado recebia a mesma retribuição. Alguns espíritos condenados eram golpeados pelos yakshas dos dois lados da boca com barras de ferro cheias de pregos. Bastavam alguns golpes para que a boca ficasse dilacerada e sangrando. Depois, eram arrastados até outro tipo de estação de computador. Nela, vermes aterradores, parecidos com lacraias pretas, sugavam todo o sangue da boca dos condenados e, ao mesmo tempo, devoravam lentamente suas línguas. Em seguida, agulhas saíam voando e costuravam suas bocas, fechando-as. Outros eram arrastados pelos yakshas até uma estação de computador por ganchos presos à boca e à cabeça, enquanto muito sangue escorria sem parar.</p><p id="pt-b01043">Agora vejo uma mulher condenada presa por um gancho, gritando de dor. Este computador fica pendurado na parede e emite sons aterradores, extremamente desagradáveis. De dentro dele saem voando pequenos objetos pontiagudos de um vermelho ardente. Assim que tocam a boca da condenada, ouve-se “tsss — tsss — tsss”, e a boca derrete imediatamente. Ah! Que horror, que sofrimento enorme! É terrível!</p><p id="pt-b01044">Nesse momento, o magistrado mandou que um dos yakshas responsáveis pela aplicação dos castigos viesse explicar quais delitos os espíritos daquele inferno haviam cometido para cair no Inferno do Gelo, do Arrancamento da Língua e do Despedaçamento do Corpo e ali sofrer punição.</p><p id="pt-b01045">O yaksha conteve sua expressão feroz e me disse: “Ayu, aquela mulher condenada que você acabou de ver, quando estava viva, por inveja, mentiu para difamar um praticante que observava preceitos puros. Fez isso com a intenção de prejudicar a divulgação do Dharma correto por esse praticante. Suas mentiras também levaram muitas pessoas a acreditar nelas, e muitas perderam a convicção fundamental de estudar os ensinamentos do Buda, praticar o bem e observar os preceitos. Foi precisamente por essas mentiras que, ao fim da vida, ela caiu neste inferno para sofrer castigo. O soberano do mundo dos mortos, o Rei Yama, ficou furioso e a lançou neste inferno por um kalpa. Quando terminar seu período aqui, ela ainda terá de ir a outros infernos para continuar recebendo retribuição.</p><p id="pt-b01046">Quanto àquele homem condenado, em vida ele trabalhava no ramo da publicidade médica. Por meio de mentiras, ganhou muito dinheiro sem escrúpulos em pouco tempo. Muitas pessoas do mundo dos vivos acreditaram em seus anúncios mentirosos e sofreram danos em diversas funções dos órgãos internos. Nos casos mais leves, passaram a sofrer pelo resto da vida de insuficiências crônicas no funcionamento dos órgãos internos; nos mais graves, as funções do organismo se deterioraram rapidamente, chegando até à morte. Mas essas pessoas nunca imaginaram que haviam sido induzidas ao erro por seus anúncios médicos. O mundo dos mortos reduziu as bênçãos e o tempo de vida desse homem condenado. Ele sofreu um acidente de trânsito e caiu no inferno antes da hora para receber castigo.</p><p id="pt-b01047">Todos os que caem neste inferno mentiram em vida: difamaram com mentiras pessoas que difundiam o Dharma correto; mentiram com maldade, causando danos à vida e aos bens de outras pessoas; ou, com mentiras, incitaram outros a cometer toda espécie de violação dos preceitos; usaram mentiras para vender todo tipo de produto prejudicial ao corpo e à mente das pessoas do mundo dos vivos; enganaram outros com mentiras para obter seus bens ou sua castidade, além de outros atos cármicos negativos. Há casos demais de espíritos condenados por mentiras aqui, tantos que não é possível enumerá-los um a um. Acabei de mencionar apenas os delitos que atualmente levam mais pessoas a cair neste inferno.”</p><p id="pt-b01048">O magistrado continuou: “Em suma, todas as mentiras contadas intencionalmente em vida, desde que prejudiquem o corpo, a mente, a vida ou a saúde de pessoas do mundo dos vivos, levam à queda no inferno para receber o castigo correspondente. Espero que aqueles que tiverem a afinidade de ler este texto possam tomar de coração a resolução de corrigir inteiramente seus erros passados e que, uns após os outros, incentivem as pessoas a recitar o nome do Buda — confiando na bênção protetora de seu poder para eliminar a força do carma negro das mentiras já cometidas no passado —, mantendo sempre a pureza das intenções do corpo e da mente e ensinando a todos que jamais devem mentir. A cada mentira, nossa luminosidade inata se torna um pouco mais tênue. Quando a luminosidade inata de uma pessoa do mundo dos vivos enfraquece, torna-se muito fácil que ocorram acontecimentos contrários aos seus desejos, que ela atraia diversas doenças e até que toda espécie de calamidade venha uma após a outra.</p><p id="pt-b01049">Bem, Ayu, por hoje encerre a visita por aqui! Daqui a pouco tenho uma reunião. Volte amanhã, se as condições forem propícias!” “Amitābha! Sou grata ao magistrado! Vou voltar agora mesmo para casa para escrever o texto. Quando terminar este artigo, voltarei a tomar seu tempo.”</p><p id="pt-b01050">Volto para casa sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-57"><title><p id="loc-1051">15 — O castigo doloroso da fala frívola — o Inferno dos Computadores de Vidro, onde serpentes espinhosas se enrolam nas línguas até rompê-las</p></title><p id="pt-b01052">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b01053">“Amitābha! Ayu une as palmas das mãos e se prostra diante do magistrado!”</p><p id="pt-b01054">“Senhor magistrado! Hoje vi num site um tema sobre alimentação saudável. Esse especialista em alimentação tem toda uma teoria sobre saúde e alimentação, dispõe de dados científicos de várias áreas e conhece profundamente a alimentação saudável. Ele escreveu um texto que explicava, por meio de uma analogia, como transformar alimentos em pratos saborosos, saudáveis e capazes de trazer alegria. Usou uma linguagem concisa, vívida e muito bem pensada. Ensinar as pessoas a dar atenção à alimentação saudável seria, por si só, um ótimo tema. Mas ele comparou todo o processo ao de uma relação sexual saudável, usando palavras explícitas que despertam toda espécie de fantasia ilusória e fazem perder a atenção plena correta. Ao ler o texto, senti muita pena daquele autor: dedicou tanto tempo ao estudo de tantas teorias sobre alimentação saudável e acabou publicando um artigo assim na internet.”</p><p id="pt-b01055">Ayu gostaria de perguntar ao magistrado: “Se uma pessoa do mundo dos vivos usar esse tipo de linguagem para despertar pensamentos e atos impróprios nos outros, terá de cair no inferno para ser punida? Se houver um inferno assim, eu também gostaria de visitá-lo.”</p><p id="pt-b01056">O magistrado disse: “Quando uma pessoa do mundo dos vivos usa palavras exageradas e vazias que despertam pensamentos e atos impróprios nos outros e aumentam a contaminação de sua natureza espiritual; ou usa palavras falsas, melosas e astutas, escondendo uma lâmina por trás de um sorriso; ou faz comentários de brincadeira que, para agradar aos outros, são vazios e parecem verdadeiros sem o ser, zombando das pessoas e proferindo outras palavras dispersivas e inúteis; ou conta piadas obscenas no dia a dia, confundindo os corações, incitando o desejo e despertando apego passional; ou cria canções, romances sentimentais, filmes, programas de televisão, apresentações de canto e dança, música, pinturas e outras obras que aumentam os desejos, cujo conteúdo e linguagem indecorosos fazem crescer em muitos adolescentes e jovens a cobiça, a aversão, a ignorância, o ato de matar, o roubo, a conduta sexual imprópria e a mentira, levando à perda da atenção plena correta — tudo isso constitui fala frívola.</p><p id="pt-b01057">Ao chegar ao fim da vida, quem pratica a fala frívola cai no Inferno dos Computadores de Vidro para receber castigo. Esse inferno é um dos que pertencem à região dos infernos da mentira. A fala frívola acompanha a cobiça, a aversão, a ignorância e a arrogância; ela contamina a natureza espiritual das pessoas sem que percebam. Como temos pouco tempo, vamos visitá-lo agora.”</p><p id="pt-b01058">Está bem! Atravessamos rapidamente a parte central dos infernos. Quando começamos a distinguir as duas grandes serpentes da região dos infernos da mentira — ah, eram as duas grandes serpentes do Inferno da Fala Ofensiva! —, começamos a descer lentamente até o chão. Durante a descida, avistei claramente um inferno de vidro refletivo, de arquitetura muito moderna. Esse inferno parecia muito atual, mas o que estragava completamente a impressão era o som estridente do vidro, somado aos gemidos de dor. Era barulhento demais!</p><p id="pt-b01059">A decoração da entrada deste inferno parecia magnífica, e as diversas combinações de tipos de letra e cores não causavam medo. Se não fossem os sons estridentes e desagradáveis de sofrimento e uma espécie de energia yin própria do inferno, ficar diante daquela entrada nem pareceria estar no inferno. Seguimos os yakshas para dentro, para fazer a visita.</p><p id="pt-b01060">Dentro do inferno havia muitos pequenos aposentos separados por vidro transparente. Cada espírito condenado sofria em seu próprio aposento de vidro. O ritmo do sofrimento variava um pouco: à esquerda, predominavam os computadores do tipo vermelho, e os castigos se sucediam mais depressa; à direita, todos os computadores eram pretos, e o ritmo era mais lento.</p><p id="pt-b01061">Vamos primeiro observar os condenados à esquerda! Num aposento de vidro transparente, uma mulher condenada acabava de recuperar uma forma humana normal e saudável e se pôs de pé. Ela foi atraída pela tênue luz verde e por sons como “dim — dim — piu — piu — trim — trim” que saíam de um computador de cristal vermelho-vivo. Quando ela se aproximou, uma pequena serpente vermelha, de focinho pontudo e corpo coberto de espinhos, voou imediatamente para fora da tela do computador de cristal e mordeu sua língua. A condenada gritou apavorada! Depois de morder a língua, a pequena serpente vermelha enrolou nela seu corpo espinhoso, apertando até que a língua se partisse e caísse no chão, deixando a boca da condenada cheia de sangue. Nesse instante, o computador de cristal inteiro se despedaçou de repente, com um som de vidro explodindo e se estilhaçando. Todos os fragmentos de suas peças atingiram o corpo da condenada. Ela tentou se esquivar, aterrorizada, mas o aposento de vidro era pequeno demais, e não havia absolutamente onde se esconder. Só lhe restava, em sofrimento e sem saída, receber esse castigo num ciclo contínuo. Já os computadores pretos que vi à direita emitiam uma luz cinza-escura, e deles saíam voando lacraias pretas. Os demais castigos eram iguais, apenas com um ritmo um pouco mais lento.</p><p id="pt-b01062">O magistrado mandou que um yaksha trouxesse a mulher condenada para eu entrevistá-la. Chorando, ela contou que, em vida, gostava de fazer habitualmente piadas obscenas que pareciam verdadeiras sem o ser, no trabalho e diante dos amigos, provocando de propósito as pessoas para que admirassem seu belo corpo.</p><p id="pt-b01063">Ela disse: “As quatro paredes da minha casa tinham espelhos, de modo que eu podia ver meu corpo de qualquer ângulo. Eu também tinha o hábito de andar completamente nua pela casa. Às vezes, convidava algumas amigas próximas para se reunirem lá, deixando que apreciassem minha nudez. No dia a dia, também gostava de enfeitar e exagerar todo tipo de coisa. Algo que originalmente não era muito assustador ganhava elementos aterrorizantes quando passava pela minha boca. Quando via a pessoa apavorada, eu dizia: ‘Estou só brincando com você! Você tem tanto medo! Assim não tem graça nenhuma.’</p><p id="pt-b01064">Eu gostava de usar minha esperteza para pregar peças nas pessoas ao meu redor e me divertir às custas delas. Quando minha vida chegou ao fim, Cabeça de Boi e Cara de Cavalo me arrastaram para o inferno. O Rei Yama ficou furioso. Disse que minhas piadas obscenas e meu comportamento no trabalho haviam abalado o coração e a natureza de alguns jovens que acabavam de sair da escola e começar a trabalhar, levando-os depois a cometer graves atos de conduta sexual imprópria. Disse que eu havia praticado a fala frívola em vida e me condenou a sofrer castigo por quinhentos anos neste inferno da fala frívola, o Inferno dos Computadores de Vidro. Buá, buá, buá! Naquela época eu só queria que todos se divertissem um pouco. Não imaginava que as consequências seriam tão graves, a ponto de eu ter de cair no inferno para receber castigo. Você vai escrever um livro; por favor, diga às pessoas do mundo que jamais contem piadas obscenas, que não usem palavras exageradas e, muito menos, que façam os outros de brinquedo para se divertir. Buá, buá, buá! Nunca mais vou ousar fazer isso! Imploro a este magistrado que me salve e me deixe sair. Quero ir embora daqui.”</p><p id="pt-b01065">O magistrado disse: “O tipo de carma negativo criado em vida atrai a retribuição correspondente no inferno. Examine bem seus diversos pensamentos e comportamentos. Como temos pouco tempo, por hoje encerramos aqui.”</p><p id="pt-b01066">Perguntei ao magistrado: “Por que os computadores do lado direito deste inferno fazem os condenados sofrerem num ritmo um pouco mais lento?”</p><p id="pt-b01067">O magistrado explicou: “Entre as palavras de quem pratica a fala frívola, algumas prejudicam os seres sencientes mais depressa, enquanto outras abalam aos poucos sua boa natureza inata. Nada, nenhum fenômeno ou coisa, está fora da lei de causa e efeito. Por isso, devemos prestar atenção às nossas palavras e ações no dia a dia. Sobretudo quando estamos sozinhos, devemos cuidar ainda mais da disciplina de nossa mente e natureza, sem jamais violar as leis do mundo dos mortos. Hoje haverá uma grande reunião no mundo dos mortos. Ayu, você será bem-vinda para voltar em outro dia.”</p><p id="pt-b01068">Amitābha! Ayu une as palmas das mãos em agradecimento ao magistrado!</p><p id="pt-b01069">Volto para casa sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-58"><title><p id="loc-1070">16 — Pregos voadores cortam línguas — uma primeira visita aos castigos dos infernos da fala divisiva</p></title><p id="pt-b01071">Sou grata pela bênção protetora do poder do Buda. Parto na flor de lótus branca!</p><p id="pt-b01072">“Amitābha! Ayu une as palmas das mãos e saúda o magistrado!</p><p id="pt-b01073">Senhor magistrado! Hoje gostaria de perguntar: se uma pessoa do mundo dos vivos praticar a fala divisiva, terá de cair no inferno para receber castigo?”</p><p id="pt-b01074">O magistrado disse: “Se uma pessoa do mundo dos vivos praticar a fala divisiva, terá de cair no inferno para receber castigo nos casos graves. O que se chama de fala divisiva é uma pessoa contar, separadamente, versões contraditórias de um acontecimento a duas ou mais pessoas, semeando maliciosamente a discórdia e prejudicando as relações entre elas, de modo a provocar discussões ou conflitos mal-intencionados entre os dois lados.</p><p id="pt-b01075">A lei de causa e efeito das leis do mundo dos mortos dá importância primordial à intenção mental, isto é, ao pensamento anterior à ação. Esse pensamento impulsiona toda a linguagem e todos os movimentos do corpo. Quando alguém está pensando em como praticar a fala divisiva maliciosamente, já está plantando causas e condições incipientes para o inferno. A fala divisiva acompanha os três venenos — cobiça, aversão e ignorância — e a mentira.</p><p id="pt-b01076">Também há uma distinção entre graus graves e leves de fala divisiva. Os casos graves são aqueles que já prejudicaram e destruíram diversos interesses ligados ao corpo e à mente de pessoas do mundo dos vivos; quem os comete certamente cairá no inferno para receber retribuição. Quanto aos casos leves, incluem aqueles em que a pessoa age apenas em benefício dos dois lados, sem qualquer vantagem pessoal, movida somente pela intenção de ajudar os outros. Ela conta versões diferentes conforme o caráter e o temperamento de cada lado, tomando como ponto de partida a intenção de harmonizar as pessoas. Quem assume assim o papel de quem pratica a fala divisiva se enquadra nos casos leves. Quem pratica a fala divisiva em grau leve pode purificar-se pelo arrependimento ainda em vida, sem precisar cair no inferno para receber castigo. Quanto ao conteúdo desse arrependimento, é o mesmo que foi explicado anteriormente a respeito do arrependimento pelas mentiras de conveniência. Basta substituir ‘mentiras de conveniência’ por ‘fala divisiva’; todo o restante permanece igual.</p><p id="pt-b01077">Atualmente, muitas pessoas do mundo dos vivos praticam a fala divisiva. Até as crianças seguem os pais na fala divisiva e na mentira. Esse é um dos fatores importantes que levam à deterioração dos costumes sociais. A linguagem é um instrumento essencial de comunicação na vida em sociedade. Ensinar pelo exemplo vale mais do que ensinar por palavras. Os pais devem dar um bom exemplo, agindo de acordo com o que dizem, e as crianças naturalmente os seguirão, tornando-se melhores aos poucos.</p><p id="pt-b01078">No início da vida, a natureza humana é boa. O bom exemplo começa em cada um de nós. Se todos servirem ao bem público, respeitarem as leis e não violarem a lei de causa e efeito das leis do mundo dos mortos, a humanidade certamente poderá ser salva, e as calamidades certamente serão adiadas por algum tempo. O céu tem a virtude de prezar a vida e certamente deixará um degrau de luz para que os seres que se arrependem sinceramente corrijam seus erros aos poucos. O único receio é que você não desperte esse coração arrependido.</p><p id="pt-b01079">Ayu! Agora vou levá-la para visitar os infernos destinados a quem praticou a fala divisiva em vida.” Como temos pouco tempo, chegamos rapidamente ao extremo norte da região dos infernos da mentira e pousamos diante de uma placa com um mapa: o Inferno da Corrida de um Lado para o Outro estava indicado à esquerda; o Inferno das Agulhas Negras que Perfuram a Língua e Selam a Boca, à direita. Para qual dos dois seria melhor ir? Com o olho da mente auxiliado pela bênção do poder do Buda, observei a diferença entre os dois infernos. O da esquerda era maior, com mais seres sencientes sofrendo, mas o da direita era mais desolador. Então vamos para o da esquerda! <a xlink:href="#n23-encerramento-de-uma-fala">[N23]</a></p><p id="pt-b01080">Por coincidência, o magistrado também queria que eu visitasse o Inferno da Corrida de um Lado para o Outro. Chegamos rapidamente a esse inferno, e o magistrado explicou aos yakshas da entrada o trabalho que eu estava realizando. A porta se abriu. Uau! Mais um inferno imenso! Vamos primeiro observar o que está bem à nossa frente! O que eu conseguia ver estava dividido em duas partes, uma à esquerda e outra à direita. À esquerda, muitos espíritos, homens e mulheres, corriam de um lado para o outro, sofrendo sem saída, todos com a boca sangrando. Por mais que corressem, não conseguiam escapar do rastreamento dos computadores que lhes arrancavam as línguas.</p><p id="pt-b01081">Dentro do inferno, muitos yakshas ferozes, armados de martelos de ferro, espadas compridas e lanças, mantinham a ordem entre os espíritos condenados e não os deixavam sair da área de atuação dos computadores de punição. Os instrumentos de tortura disparados de dentro dos computadores rastreavam com precisão a língua de cada espírito. Cada computador se encarregava automaticamente de punir os espíritos dentro de uma área determinada. Assim que qualquer espírito entrava nessa área, o computador disparava cinco lâminas em forma de prego para cortar sua língua, primeiro usando os pregos para puxá-la para fora.</p><p id="pt-b01082">Vamos observar esta mulher sofredora que acaba de chegar! Seu rosto expressa pavor, e suas pernas não têm força para andar. Um yaksha feroz a empurra para dentro da área de punição, espetando-a com uma lança. Uau! Suas costas doem muito e continuam sangrando. O computador emite imediatamente dois bipes, diz o nome da condenada e logo dispara lâminas em forma de prego, mirando sua boca. Ao vê-las, a mulher grita e, suportando a dor nas costas, tenta fugir ora para a esquerda, ora para a direita.</p><p id="pt-b01083">Tenho a impressão de que o computador está perguntando à condenada se seu nome é xxx. A mulher está prestes a responder; assim que abre a boca, os pregos voam para dentro dela e puxam sua língua para fora. Com dor, ela tenta retirar os pregos com as mãos. Estranhamente, eles ficam moles de repente e não ferem suas mãos. Ela então os solta e tenta fugir ora para a esquerda, ora para a direita. Mas, para qualquer lado que corra, a cada passo sua língua é esticada pelos cinco pregos, e a parte alongada é cortada pelas lâminas nas extremidades traseiras dos pregos, caindo no chão. Esse sofrimento a faz tentar com todas as forças escapar da área de atuação do computador. Por fim, ela ergue a cabeça e foge para a esquerda.</p><p id="pt-b01084">Ah! Os yakshas ferozes dos dois lados de modo algum a deixarão escapar. À esquerda, o yaksha do martelo de ferro ruge de raiva e, enfurecido, golpeia a cabeça da mulher com o martelo. Um único golpe a faz desmaiar. Mas o yaksha não permite que ela permaneça inconsciente: engancha brutalmente sua boca com um prego de ferro e depois lhe dá uma bofetada. Ela volta a sangrar e recobra a consciência, atordoada. Levanta-se e foge para a direita. Desse lado também há um yaksha verde espectral e gélido, que imediatamente libera gases gelados e blocos de gelo que atingem as pessoas. As pernas da mulher deixam de lhe obedecer; apavorada, ela recua até o computador e volta a sofrer os mesmos castigos. Fico tonta só de olhar. Que sofrimento não ter para onde fugir!</p><p id="pt-b01085">Olho para o yaksha e pergunto: “Yaksha do martelo de ferro, será que poderia poupá-la um pouco? As feridas anteriores desta mulher ainda nem cicatrizaram, e o senhor já volta a golpeá-la. Ela já está sofrendo tanto, sem sequer uma oportunidade de descansar por um instante.”</p><p id="pt-b01086">O yaksha do martelo de ferro diz: “Esta condenada gostava especialmente de praticar a fala divisiva quando estava viva. Qualquer acontecimento que chegasse ao seu conhecimento, ela o enfeitava e exagerava até transformá-lo em algo prejudicial às duas partes. Suas relações com as outras pessoas eram péssimas: aonde quer que fosse, criava inimizades e despertava antipatia. O mais grave foi o mal que causou à sogra.</p><p id="pt-b01087">Antes de se casar com ela, seu marido, o senhor A, era muito dedicado à mãe. Ela ficara viúva depois que ele fez três anos e o criara sozinha. Mãe e filho sempre haviam se apoiado um no outro para viver e levavam uma vida tranquila. Depois que a condenada entrou para a família, começou a sentir ciúmes da sogra. Passou então a praticar continuamente a fala divisiva, destruindo de propósito a relação entre mãe e filho, e chegou a caluniar deliberadamente a sogra, dizendo que ela tinha um caso com um homem. Muito ocupado com o trabalho, o senhor A acreditou nas palavras que a condenada lhe dizia na intimidade. Isso levou ao rompimento da relação entre mãe e filho. Por fim, a mãe idosa, que tanto amava o filho, morreu consumida pela tristeza.</p><p id="pt-b01088">Ao retornar em espírito ao mundo dos mortos, a sogra apresentou uma queixa contra a condenada por fala divisiva e calúnia. Como esta mulher praticou a fala divisiva no mundo humano, agora tem de vir sofrer no Inferno da Corrida de um Lado para o Outro, destinado à fala divisiva, e ser golpeada por nós. Esta é a primeira etapa de suas punições nos infernos. Depois de cumprir a pena neste inferno, ela ainda terá de sofrer castigos em outros.”</p><p id="pt-b01089">Nesse momento, um yaksha feroz, de um verde espectral extremamente intenso, olha em nossa direção.</p><p id="pt-b01090">O magistrado diz: “Yaksha do martelo de ferro, pode voltar ao seu trabalho. O Rei dos Fantasmas que Captura as Almas tem assuntos urgentes aguardando providências.”</p><p id="pt-b01091">O yaksha do martelo de ferro saúda o magistrado e diz: “Por favor, continue sua visita, senhor magistrado. Eu, yaksha do martelo de ferro, peço licença para me retirar.”</p><p id="pt-b01092">O magistrado diz: “Ayu! Hoje precisamos tratar com urgência de vários desastres e acidentes no mundo dos vivos, por isso todos estão muito ocupados. Você será bem-vinda para continuar sua visita outro dia!”</p><p id="pt-b01093">“Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado! Agradeço por todo o seu esforço! Pode cuidar dos seus afazeres. Muito obrigada!”</p><p id="pt-b01094">Volto para casa sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-59"><title><p id="loc-1095">17 — A retribuição pela fala ofensiva — o sofrimento extremo do Inferno das Serpentes Venenosas e dos Intestinos Cravados de Pregos</p></title><p id="pt-b01096">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b01097">“Amitābha! Eu, Ayu, uno as palmas das mãos diante do magistrado!”</p><p id="pt-b01098">“Gostaria de perguntar ao magistrado: se uma pessoa do mundo dos vivos usa palavras que ultrapassam todos os limites, fere a dignidade dos outros com todo tipo de expressão e os insulta com raiva; se os pais batem nos filhos e os repreendem, ou se marido e mulher discutem, sem poupar o outro em nada e lançando insultos com palavras venenosas — essas condutas levam à queda nos infernos para sofrer punição?”</p><p id="pt-b01099">O magistrado responde: “Se alguém costuma proferir palavras ofensivas, guarda raiva no coração, não poupa os outros em nada e usa palavras venenosas para ferir e insultar, tudo isso constitui fala ofensiva. Por exemplo, chamar alguém de animal, mandar que morra, desejar que sua linhagem se extinga ou que morra sem ter onde ser enterrado, e até lançar maldições contra aquilo a que a pessoa mais dá valor. Suponhamos que um homem deseje muito ter um filho homem, mas que sua esposa já não possa ter mais filhos nesta vida e que o casal tenha apenas cinco filhas. Quem pratica a fala ofensiva o ataca de propósito com expressões cruéis como ‘Que sua linhagem se extinga!’ ou ‘Tem dinheiro e casa, mas ninguém para morar nela; que os fantasmas morem lá!’. Nos casos mais leves, isso o deixa de mau humor; nos mais graves, provoca desavenças na família e até o leva a ter um caso extraconjugal, procurando outra pessoa para ter um filho homem. Se nenhuma família conseguir conviver em harmonia, isso causará instabilidade na sociedade. Atualmente, há muitas pessoas cujas palavras ofensivas fazem os outros se sentirem sem ter onde se esconder, envergonhados de sua própria vida, chegando alguns até a tirar a própria vida. Toda palavra grosseira e cruel que prejudica o corpo, a mente ou o espírito de uma pessoa do mundo dos vivos constitui fala ofensiva, sobretudo as expressões extremamente venenosas.</p><p id="pt-b01100">Quem pratica a fala ofensiva terá de cair nos infernos e sofrer punições. A fala ofensiva faz parte de um círculo vicioso de maus hábitos. Ela acompanha a cobiça, a ira e a ignorância. Todos os que a praticam têm a ira em comum; apenas variam o grau de maldade de seus pensamentos e a intensidade de seu carma. Uma única palavra ofensiva dirigida a um santo que, por meio da prática, tenha alcançado uma realização espiritual já basta para fazer uma pessoa do mundo dos vivos cair nos infernos e sofrer padecimentos imensuráveis e sem limites. Mesmo depois de esgotada a retribuição nos infernos, ela continuará a transmigrar pelo caminho dos animais, padecendo todos os sofrimentos dessa condição. Ao renascer como ser humano, também viverá numa condição desprezada, até que os efeitos restantes da fala ofensiva sejam inteiramente eliminados. Durante esse longo período de amadurecimento da retribuição cármica da fala ofensiva, o sofrimento excessivo torna muito fácil voltar a produzir novo carma, fazendo com que o sofrimento não tenha mais fim. Somente ao encontrar a orientação de um verdadeiro amigo espiritual, decidir corrigir suas condutas erradas, praticar o bem e acumular virtudes, a pessoa terá as boas causas e condições para ser libertada e sair do mar de sofrimento. Caso contrário, esse mar será de fato sem margens, e ela permanecerá submersa por dez mil kalpas!</p><p id="pt-b01101">Entre os que caem nos infernos para sofrer punições, muitos, em vida, praticavam a fala ofensiva nas relações entre cônjuges, amigos, colegas de trabalho, pais, irmãos e irmãs. Os casos entre marido e mulher são os mais numerosos, e é também nessa relação que mais facilmente se incorre em fala ofensiva; a proporção de mulheres é um pouco maior. Por isso, eu, este magistrado, aconselho todas as mulheres a vigiarem cuidadosamente o carma de sua fala. Muitas mulheres, por terem um carma negro pesado e serem arrastadas pelo carma negro do passado, enfrentam toda espécie de dificuldade física e mental na vida. Há também aquelas que, nos períodos de desconforto fisiológico de cada mês, inevitavelmente proferem toda sorte de palavras ofensivas, ferindo quem está ao seu redor.</p><p id="pt-b01102">As pessoas têm o hábito de olhar as coisas a partir do que favorece seus próprios interesses. Basta que algo saia um pouco diferente do que desejam para começarem a reclamar de todas as pessoas e coisas ao redor, do céu, da terra e do ambiente, por não colaborarem. Quem está errado nunca é a própria pessoa. Assim, ela se deixa levar pelas oscilações instantâneas do mau humor e acaba ferindo os outros com toda espécie de fala ofensiva.</p><p id="pt-b01103">Para evitar a fala ofensiva, primeiro é preciso manter a mente serena e estável. Para isso, é necessário começar por examinar a si mesmo, perguntando-se a todo momento se fez algo errado ou empregou palavras inadequadas. Na atual época de maus costumes e turbulência na sociedade do mundo dos vivos, de fato é muito difícil manter a serenidade e a estabilidade da mente. As tentações externas e os obstáculos são numerosos demais. Mesmo com toda essa dificuldade, porém, precisamos superar os obstáculos. Se não os superarmos e cometermos toda sorte de fala ofensiva, ao fim da vida cairemos nos infernos, e quem sofrerá seremos nós mesmos, não outra pessoa.</p><p id="pt-b01104">Quando o compassivo Buda estava neste mundo, previu os muitos obstáculos que os seres encontrariam para sair do mar de sofrimento na era do declínio do Dharma. Seria muito difícil despertar a atenção plena correta e cultivar o caminho. Por isso, transmitiu especialmente o método da recitação do nome do Buda, para que todos pudessem alcançar a libertação com mais facilidade. Basta recitar o nome do Buda de maneira simples, recitá-lo continuamente todos os dias e manter uma alimentação vegetariana. Confiando na bênção protetora do poder do Buda para uma transformação gradual e sutil, purificamos pouco a pouco nosso corpo e nossa mente e mantemos a tranquilidade dos pensamentos a cada dia. Transformamos, num instante, os pensamentos ilusórios negativos de nosso cotidiano em bons pensamentos de recitação do nome do Buda. Esses bons pensamentos formam um bom hábito, que então substitui nossos antigos maus hábitos. Assim, nosso destino também será reescrito gradualmente, o futuro caminhará pouco a pouco em direção à luz e recuperaremos nossa luminosidade espiritual inata.</p><p id="pt-b01105">A luz do corpo de quem pratica a fala ofensiva torna-se, no mínimo, vermelha. Nos casos mais graves, passa do vermelho ao vermelho-escuro. Se a pessoa continua a praticar a fala ofensiva sem se arrepender nem mudar, essa luz vai lentamente do vermelho-escuro ao preto. O preto já indica uma situação muito grave, que atrai todo tipo de acontecimento indesejável. Quem tem a luz do corpo vermelha já apresenta relações difíceis com os outros, sente-se abatido e perde a paciência com facilidade. Os seres cuja luz do corpo é vermelho-escura são os que mais facilmente atraem a aproximação de seres do caminho dos fantasmas. Esses seres têm forte ressentimento e ira e se enfurecem com muita facilidade. Assim que uma pessoa do mundo dos vivos sente raiva, um fantasma que gosta de se irritar vem correndo atender ao chamado. Junto com ele, há ainda alguns credores cármicos do mundo espiritual ligados à pessoa por relações de inimizade ou afeto — todos têm alguns ao seu redor, variando apenas a quantidade. Eles atiçam o fogo ao lado da pessoa enfurecida. Basta você ficar com raiva para aquele fantasma irado, ao seu lado, instigá-lo a se irritar ainda mais e a dizer coisas cada vez mais excessivas, ácidas e cruéis. Isso faz a pessoa, sem conseguir se controlar, arder de ira, como se o fogo de sua ignorância subisse a três mil zhang. Então o carma da fala ofensiva se torna incontrolável.”</p><p id="pt-b01106">“Muito obrigada, senhor magistrado! Sua explicação foi excelente. Finalmente compreendo por que, antes de começar a estudar o budismo, eu não convivia em harmonia com minha família e era sempre repreendida e controlada sem entender o motivo. Toda vez, minha família se tornava repentinamente muito agressiva, o que me deixava apavorada. Esse medo só começou a se dissipar aos poucos depois que passei a estudar o budismo.”</p><p id="pt-b01107">O magistrado diz: “Sim, Ayu! Parte do que aconteceu com você pertence a esse tipo de situação. Outra parte se deve ao fato de que aquela pessoa de sua família renasceu vinda do domínio dos demônios. Nesta vida, ela tem um único objetivo: obstruir sua prática e impedir que você trabalhe para proteger o Dharma correto. Você deve retribuir a hostilidade com virtude, praticar com empenho e observar os preceitos com pureza, para transformá-la gradualmente pelo seu exemplo. Quando o comportamento dela for muito violento, você pode se afastar na medida adequada. Justamente essas várias atitudes violentas dela também contribuíram, sem que isso fosse perceptível, para formar em você uma firmeza de caráter diferente da das outras pessoas. Você ainda deve ser grata a ela por pôr continuamente à prova a firmeza de sua prática, para ver se, em meio às dificuldades, consegue conservar essa firme mente de bodhi voltada à libertação do nascimento e da morte.”</p><p id="pt-b01108">“Entendi. Muito obrigada pelos ensinamentos, senhor magistrado! Eu, Ayu, certamente me lembrarei da solução que o senhor me ensinou: retribuir a hostilidade com virtude, praticar com empenho e observar os preceitos, transformando aos poucos minha família pelo exemplo. Com certeza colocarei isso em prática.”</p><p id="pt-b01109">“Continue se esforçando, Ayu! Agora vou levá-la para visitar os infernos da fala ofensiva. Perto do ‘Inferno do Gelo, do Arrancamento da Língua e do Despedaçamento do Corpo’, há outros infernos da mentira. Neles, a temperatura é um pouco mais alta e não faz tanto frio, mas o sofrimento também é extremo. Hoje vou levá-la à segunda parte da região dos infernos da mentira, onde já não faz frio.”</p><p id="pt-b01110">Chegamos voando muito depressa. Quando estamos prestes a pousar, o magistrado aponta e diz que o lugar fica logo adiante. Olho para baixo. Oh! Há duas serpentes assustadoras, de cabeças enormes, enrodilhadas ali. As cabeças são tão grandes que dão medo. Ainda bem que não se movem! Nunca vi serpentes com cabeças tão grandes. Uma tem a cabeça gigantesca vermelho-escura; a outra, preta. Ambas estão com a boca escancarada. A boca daquela terrível serpente de cabeça vermelha é a entrada deste inferno. Ao lado da entrada, há muitas outras serpentes assustadoras um pouco menores. Na verdade, elas não são pequenas; só parecem muito menores que as duas enormes que acabei de ver. Há vermelhas, pretas e verdes. A construção deste inferno reproduz a aparência de serpentes.</p><p id="pt-b01111">Acima da entrada está escrito: ‘Inferno das Serpentes Venenosas e dos Intestinos Cravados de Pregos’. Ah! Depois de serem envenenados, ainda são perfurados por pregos. Os yakshas saúdam o magistrado, abrem a entrada e nos conduzem para dentro. Antes mesmo de entrarmos, já ouvimos sons aterrorizantes: ‘ss, ss’, ‘ah, ah’, ‘crac’, como se algo estivesse sendo partido por uma mordida, além do assobio prolongado e lamentoso do vento. Tenho a impressão de que os ruídos assustadores daqui são numerosos e desordenados; todos se misturam num barulho extremo, que incomoda os ouvidos. Entramos na enorme boca da terrível serpente. Um yaksha me manda não avançar muito para dentro e ficar de lado observando, pois há muitos mecanismos no interior. Este inferno também tem muitos computadores. Os yakshas ferozes estão todos ocupados, operando rapidamente inúmeros computadores para punir os espíritos condenados. É evidente que faltam trabalhadores aqui; todos os yakshas operam os computadores com movimentos muito rápidos e habilidosos. Sem a ajuda dos computadores, certamente estariam ainda mais ocupados. De fato, como o magistrado acabara de dizer, a maioria das pessoas condenadas neste inferno da fala ofensiva é de mulheres. Ao chegar aqui, sinto uma pressão especialmente forte na cabeça e na mente, dor de cabeça e um mal-estar interior indescritível. Vamos continuar a visita! Diante dos espíritos que sofrem, tudo isso que sinto nem merece ser mencionado.</p><p id="pt-b01112">Há aqui muitas condenadas. Serpentes venenosas vermelho-escuras saem voando dos computadores e mordem suas bocas e línguas. Cada computador emite sons aterrorizantes, extremamente desagradáveis de ouvir. Quando as serpentes mordem suas bocas e línguas, o veneno se espalha pelo corpo inteiro, que fica preto e roxo, e elas caem no chão de dor. Algumas gritam; outras não emitem som algum, apenas caem desmaiadas. Nesse momento, as serpentes produzem toda sorte de ruído assustador junto aos ouvidos das condenadas para despertá-las. Assim que elas recobram a consciência, ganchos pontiagudos, incandescentes e vermelhos de tão quentes saltam do chão e se prendem às duas orelhas. Com um som de ‘ss, ss, ss’, as orelhas imediatamente derretem. Ao mesmo tempo, as serpentes continuam a puxar as línguas e os intestinos das condenadas para fora e os jogam no chão. Depois, dos computadores jorra água fervente, soltando vapor, que escalda as línguas e os intestinos até cozinhá-los e fazê-los encolher muito. Há também computadores dos quais voam blocos duros de gelo, que esmagam as línguas e os intestinos, fazendo o sangue espirrar por toda parte.</p><p id="pt-b01113">Depois que as línguas e os intestinos são cozidos pela água fervente e esmagados pelos blocos duros de gelo, pequenos pregos de ferro, pontiagudos nas duas extremidades, saem voando dos computadores e se cravam densamente nas línguas e nos intestinos das condenadas. Então as serpentes os agarram com a boca e enfiam tudo de volta na boca das condenadas, que gritam de dor, rolam pelo chão e gemem. Assim, elas sofrem continuamente nesse ciclo, sem descanso.</p><p id="pt-b01114">Os castigos deste inferno da fala ofensiva se sucedem a uma velocidade extrema, deixando a vista atordoada. A descrição por escrito continua sendo bastante limitada. De qualquer modo, eu, Ayu, procuro expressar o máximo possível para que todos saibam. Na visita, vi na verdade muitos outros castigos, mas, por falta de tempo, não posso descrevê-los um por um.</p><p id="pt-b01115">Nesse momento, uma mulher condenada de repente se ajoelha em minha direção e bate a testa no chão com toda a força. O yaksha certamente não a deixa escapar: com brutalidade, chuta-a de volta para perto do computador. Ah! Os infernos são de uma crueldade desumana! Que pena dessa mulher! Então o magistrado manda o yaksha trazê-la até mim, para que eu a entreviste e escreva um relato. O yaksha a pega e a traz.</p><p id="pt-b01116">A mulher condenada se ajoelha diante de mim e diz: “Xiaoyuzi, salve-me! Xiaoyuzi, salve-me! Xiaoyuzi, salve-me! A senhora só pode ser Xiaoyuzi!” Xiaoyuzi era o apelido pelo qual todos costumavam me chamar quando eu era criança e morava na casa de minha avó paterna. Saí daquela cidade há mais de vinte anos. Quem será esta mulher diante de mim? Certamente era uma vizinha de minha infância.</p><p id="pt-b01117">Naquele momento, fiquei atônita e disse: “Desculpe! Certamente já nos vimos antes. A senhora é amiga de minha avó paterna? Faz muito tempo que não ouço uma pessoa mais velha me chamar assim. Poderia me dizer como veio parar aqui?”</p><p id="pt-b01118">Com a morte de minha avó, esse apelido havia desaparecido por completo. Nunca imaginei que hoje, nos infernos, voltaria a ouvir alguém me chamar assim. Cenas e lembranças do passado, como se o tempo voltasse atrás: de repente, uma onda de tristeza me invadiu o coração.</p><p id="pt-b01119">A mulher condenada diz: “Xiaoyuzi! É normal que a senhora não se lembre de mim. Eu tinha pouco contato com sua avó. Morávamos não muito longe uma da outra, mas minha casa ficava no caminho por onde todos tinham de passar. Quando era criança, a senhora sempre gostava de andar saltitando. Sempre que passava, bastava eu ouvir os passos para saber que era a senhora. A senhora passava com frequência diante de minha casa, e eu sempre estava trabalhando na sala e via a senhora de perfil. Naquele tempo, minhas duas filhas sempre perguntavam: por que Xiaoyuzi podia brincar todos os dias, enquanto elas tinham de fazer sem parar tantos serviços de casa? Eu então insultava minhas filhas com palavras ofensivas: ‘Quem mandou vocês nascerem umas ordinárias, com um destino miserável, numa família pobre e numa casa pequena? Suas desgraçadas, não vão viver muito! E ainda me decepcionam, nascendo meninas! Se fossem meninos, eu deixaria vocês saírem para brincar todos os dias. Tratem de ir trabalhar já! O que há para invejar? Xiaoyuzi só tem um pouco mais daquele maldito dinheiro em casa. De que adianta uma casa grande se ninguém mora nela? Pode brincar todos os dias; que grande coisa! Não passa de uma desgraçada de vida curta, igual a vocês. Isso não vai transformá-la num menino.’</p><p id="pt-b01120">Sua avó era conhecida em nossa região por ser uma pessoa honesta e sempre disposta a ajudar. Tudo o que tinha, ela certamente emprestava aos outros, e não havia problema se não devolvessem. Mas, depois que as noras foram entrando para a família, uma após a outra, sua avó precisava emprestar as coisas às escondidas delas, pois, caso contrário, era insultada. Ela sofreu todo tipo de abuso por parte das noras. Naquela época, eu sempre pensava que era justamente por ser tão honesta que sua avó era maltratada havia tanto tempo pelas várias noras da casa. Por isso, eu precisava ser ainda mais feroz e não deixar que ninguém me maltratasse. Sua avó dizia que, desde seu nascimento, ficara muito mais feliz. Também costumava contar a todos como a senhora era determinada e tinha um jeito muito parecido com o de um menino. Foi seu perfil que, agora há pouco, me fez reconhecer de repente que a senhora era Xiaoyuzi. A senhora se lembra do caso, há vinte anos em nossa terra natal, de uma nora que arrancou com uma mordida um dedo da sogra?”</p><p id="pt-b01121">Ayu: “Ah! Agora me lembro. Então a senhora é aquela tia! Esse caso ficou muito conhecido. Eu tinha ouvido falar, mas não sabia quem era. Naquela época, eu ainda era pequena e não entendia os assuntos dos adultos. Minha avó dizia que a senhora e sua sogra não se davam bem. Parece que sua sogra queria um neto, mas a senhora acabou tendo duas meninas seguidas. Também ouvi dizer que vocês duas discutiam com frequência. Mas a senhora não é tão velha, tia. Como veio parar nos infernos tão depressa?”</p><p id="pt-b01122">A mulher condenada, chorando de tristeza, diz: “Quando estava viva, eu tinha um temperamento péssimo e insultava as pessoas todos os dias. Eu xingava qualquer um. Bastava algo me desagradar um pouco para que eu passasse a gritar com a pessoa, furiosa, usando palavras ácidas e cruéis. Até quando o mau tempo atrapalhava o que eu queria fazer, eu xingava: ‘Maldito céu nojento! Essa chuva desgraçada está me deixando louca de tanta irritação!’. Minha sogra e minhas filhas eram insultadas por mim todos os dias. Quando a senhora ainda morava em nossa terra natal, fazia pouco tempo que eu tinha me casado, e minha sogra ainda era jovem. Mesmo assim, arranquei um dedo dela com uma mordida. Mais tarde, como já não podia ter filhos, meu humor e meu temperamento pioraram ainda mais. Naturalmente, minha sogra não era páreo para mim. Todos os dias eu a chamava de velha que não morria. Quando ela ia sair, eu gritava: ‘Sua velha prostituta, sua velha bruxa! Vai sair para procurar homens! Se morrer lá fora, não vou recolher seu corpo!’. Ela sempre ficava furiosa e me respondia com alguns insultos antes de sair. Mas sempre perdia para mim; eu fazia questão de vencê-la. Às vezes, eu batia tanto nela que lhe abria feridas na cabeça e a deixava ensanguentada. Arrancar seu dedo com uma mordida foi a maneira que encontrei, logo depois de me casar, de mostrar quem mandava.</p><p id="pt-b01123">Morri de hepatite em casa. Cabeça de Boi e Cara de Cavalo me arrastaram para os infernos. O Rei Yama ficou furioso e disse que, em vida, eu ferira os outros com minha fala ofensiva, batera em minha sogra e a insultara, e lançara ofensas contra o céu e a terra. Assim, eu cometera faltas contra a piedade filial, a retidão, a integridade, o senso de vergonha, as normas de conduta e a reverência. Ele me condenou a sofrer por quatrocentos anos no Inferno das Serpentes Venenosas e dos Intestinos Cravados de Pregos. Sinto como se já tivesse passado muitíssimo tempo aqui. O sofrimento neste lugar é realmente extremo e incomparável! Durante toda a minha vida, achei que bastava falar mais alto e ser mais feroz para dominar as pessoas ao meu redor. Agora finalmente reconheço meu erro. ‘Uu, uu, uu’... É sofrimento demais!</p><p id="pt-b01124">Ah, Xiaoyuzi! Como é que a senhora veio parar nos infernos? Por favor, eu lhe imploro: tire-me daqui!”</p><p id="pt-b01125">Nesse momento, o yaksha gritou ferozmente: “Chega de conversa fiada! Volte já para o castigo. Ayu está ocupada visitando os infernos para escrever um livro e conduzir as pessoas do mundo à libertação. Ela não tem tempo para ouvir suas tolices. Suma daqui de uma vez!” Imediatamente, o yaksha desferiu um golpe com seu forcado.</p><p id="pt-b01126">Meu coração ficou apertado. Ao ver minha expressão de tristeza, o magistrado mandou o yaksha parar e deixar que a alma culpada falasse mais um pouco, para ver o que mais ela queria dizer.</p><p id="pt-b01127">A alma culpada da mulher tremia e, chorando de dor, disse: “Ah, Xiaoyuzi! A senhora poderia me levar para escrever o livro com a senhora? Em nossa terra, todos sabem que, desde pequena, sob a influência e os ensinamentos de sua avó paterna, a senhora desenvolveu o gosto por ajudar os outros. Acredito que a senhora certamente me salvará, Xiaoyuzi. Sei que não me deixará sem socorro. Embora tivéssemos pouco contato, chegamos a ser vizinhas. Leve-me para escrever o livro com a senhora e exortar as pessoas do mundo a não praticarem a fala ofensiva. Eu certamente darei meu testemunho de como cometi todo tipo de fala ofensiva e caí nos infernos para sofrer. Vou ajudá-la a aconselhar todos a evitarem a fala ofensiva. Por favor, eu lhe imploro: tire-me daqui!”</p><p id="pt-b01128">“Tia, Amitābha! Fico muito triste ao vê-la caída nos infernos. Também desejo muito tirá-la daqui o quanto antes, mas não tenho o poder de levá-la para fora. Venho visitar os infernos para escrever o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos graças ao poder das bênçãos do Buda. Quanto à escolha de quem escreverá o livro, ela cabe ao Buda; também não tenho autoridade para decidir isso por conta própria. Sou uma discípula budista que observa os cinco preceitos, recita o nome do Buda e mantém uma alimentação vegetariana pura. Tia, comece também a despertar a intenção de recitar o nome do Buda e se arrepender! Certamente dedicarei o mérito de escrever o livro para que a senhora logo se liberte do sofrimento, alcance a felicidade, ascenda à Terra Pura e nasça de uma flor de lótus. Vou tentar interceder pela senhora junto a este senhor magistrado. Espero poder ajudá-la!”</p><p id="pt-b01129">Nesse momento, a alma culpada da mulher disse: “Eu lhe imploro, senhor magistrado! Eu lhe imploro, senhor magistrado! Prostro-me diante do senhor, batendo a testa no chão. Mereço morrer! Mereço morrer! Em vida, não fiz nada de bom. Agora desejo muito fazer algo de bom por todos, assim como Xiaoyuzi. Eu lhe imploro! Reconheço de verdade o meu erro!”</p><p id="pt-b01130">O magistrado disse: “Em vida, você feriu os outros com sua fala ofensiva. Ao bater em sua sogra, repreendê-la e insultá-la, cometeu uma grave falta de piedade filial perante as leis do mundo dos mortos. Essas leis castigam os perversos e punem o mal. Uma vez cometido o mau carma que leva à queda nos infernos, as leis dos infernos a manterão firmemente presa. Só poderá sair quando todo esse mau carma tiver sido desgastado. Os regulamentos do mundo dos mortos não reduzirão sua pena por um favor pessoal só porque você conhece alguém que trabalha aqui. Nem mesmo entre parentes tão próximos quanto pai e filho há lugar para favorecer laços familiares. Todos os que infringem as leis do mundo dos mortos devem ser punidos. Mesmo que a vítima que você prejudicou aceite perdoá-la, mesmo que sua sogra não exija que você responda por nada e perdoe sua falta de piedade filial, a imparcialidade e a justiça dessas leis não a deixarão escapar. A lei de causa e efeito do mundo dos mortos aguarda até que se esgotem sua duração de vida no mundo dos vivos e suas bênçãos; então, Cabeça de Boi e Cara de Cavalo a trazem impiedosamente aos infernos para ser punida. Sei também que, por ora, surgiu em você a intenção de se arrepender. Como hoje você colaborou bastante, mandarei o yaksha registrar que colaborou e se arrependeu uma vez, o que equivalerá ao registro de uma ocasião em que ouviu o Dharma no mundo dos mortos. Por ter faltado à piedade filial em vida, você agora atraiu a situação em que seus descendentes não praticam o bem nem acumulam méritos segundo os princípios corretos e o Dharma para dedicá-los a você. Quanto a você e Ayu, amadureceu o vínculo de terem sido parentes distantes no passado, proporcionando-lhes esta oportunidade de se encontrarem por um momento hoje. Espero que valorize devidamente este vínculo benéfico e impermanente.</p><p id="pt-b01131">O mundo dos mortos também oferece a quem se arrepende sinceramente oportunidades de ouvir o Dharma e alcançar a libertação. Mas a condição prévia é que seus próprios pensamentos de arrependimento atinjam certo grau de luminosidade. Quando os yakshas virem essa luminosidade, naturalmente a levarão para ouvir Kṣitigarbha ensinar o Dharma. As condições auspiciosas para ouvir o Dharma também são iguais para todos. Basta que você se arrependa sinceramente durante certo tempo para que isso atraia naturalmente um yaksha que suspenda sua punição e a leve para ouvir o Dharma. Os yakshas do mundo dos mortos registram cada ocasião em que alguém ouve o Dharma. A cada vez, sua natureza espiritual também é purificada, tornada melhor e abençoada pela voz compassiva do Dharma de Kṣitigarbha. No momento, a luz de seu coração arrependido ainda não é suficiente. Por enquanto, volte e empenhe-se em desgastar seu carma.”</p><p id="pt-b01132">O yaksha voltou a falar ferozmente à alma culpada da mulher: “Hoje você saiu no lucro! Encontrou o magistrado, que lhe explicou tantos princípios. Volte logo para o castigo!” E lhe deu mais um pontapé. Ai! Yaksha, ah, yaksha! Sempre tão feroz, tão grosseiro! Todos os yakshas daqui são ferozes assim! Ai! Não caiam nos infernos para sofrer, de jeito nenhum! Por toda parte, só há desolação e miséria!</p><p id="pt-b01133">Então o magistrado continuou: “As pessoas vivas que já praticaram a fala ofensiva e que, depois de ler este texto, desejam evitar cair nos infernos para sofrer podem, ainda em vida, arrepender-se desse carma da fala ofensiva. Naturalmente, é preciso considerar a gravidade desse carma, se houve dano à vida de outras pessoas e assim por diante. Mesmo nos casos graves, o arrependimento ainda trará uma grande melhora. Se for um carma de fala ofensiva de caráter comum, é possível purificá-lo pelo arrependimento antes do fim da vida. O método de arrependimento é igual ao que expliquei ontem para quem cometeu a mentira. Basta trocar a falta da mentira pela da fala ofensiva. Por exemplo: ‘Eu, fulano de tal, em tal ocasião e em tal lugar, pratiquei a fala ofensiva em tal acontecimento.’ Basta assim substituir a mentira pela fala ofensiva.</p><p id="pt-b01134">Lembrem-se! É indispensável arrepender-se de coração! Isso é muito importante. Um único pensamento sincero alcança os três tempos; um único pensamento sincero é suficiente para desgastar um mau carma incalculável; um único pensamento sincero chega diretamente às leis do céu, da terra e do mundo dos mortos! Ao reproduzir e divulgar o método de arrependimento sincero deste livro, As leis implacáveis do mundo dos mortos, certamente será possível eliminar o mau carma do passado. O mundo dos mortos mantém registros detalhados de todo o bem e todo o mal de cada pessoa viva. Não deixem de fazer uma boa ação só por ela ser pequena. As grandes bênçãos vêm, na verdade, de pequenos atos de bondade e da observância rigorosa e minuciosa dos preceitos. Lembrem-se: não é porque leram este texto e terminaram de se arrepender que podem pensar que, por disporem desse método de arrependimento, lhes é permitido fazer o que bem entendem, voltar a praticar o mal e voltar a se arrepender sem parar, repetindo conscientemente a falta. Quem erra sabendo que está errando recebe uma pena mais grave!</p><p id="pt-b01135">Ayu! Vamos encerrar por hoje a visita aos infernos da fala ofensiva. Será bem-vinda se reservar outro horário para voltar! Também preciso cuidar dos assuntos de meu ofício.”</p><p id="pt-b01136">“Ayu presta suas reverências ao magistrado! Estou muito grata pela ajuda que o senhor deu hoje àquela tia.”</p><p id="pt-b01137">O magistrado disse: “Não precisa agradecer! Para nós, todas as almas culpadas são iguais. Todos nós, no mundo dos mortos, desejamos que elas saiam dos infernos o mais cedo possível. Além disso, ajudá-la a escrever o livro também é minha responsabilidade. O objetivo é evitar que mais pessoas vivas caiam nos infernos para sofrer ao fim da vida. Na verdade, isso também reduz nosso volume de trabalho no mundo dos mortos. Sou eu quem deve agradecer a você, Ayu! O melhor é que venha mais vezes e publique o livro o quanto antes, apresentando ao mundo dos vivos os diversos sofrimentos dos infernos, para tocar o coração das pessoas e levá-las a observar os preceitos, recitar o nome do Buda e praticar o bem. Jamais se deve corresponder com ingratidão à bondade do Buda nem ao esforço do Imperador de Jade e dos reis dos salões do mundo dos mortos, que desta vez revelam inteiramente os segredos celestes para salvar os seres do mundo dos vivos, tornando pública a verdade sobre o mundo dos mortos e as diversas penas dos infernos. Hoje, os seres do mundo dos vivos praticam o mal, não creem na causa e no efeito e agem como bem entendem. A conduta sexual imprópria, a matança, o roubo e a mentira quase chegaram a um ponto impossível de controlar, ofendendo gravemente o Céu e perturbando o equilíbrio da energia reta entre o céu e a terra. O surgimento do livro As leis implacáveis do mundo dos mortos tem por objetivo resgatar do mar de sofrimento uma parte daqueles que, embora tenham praticado o mal, ainda não perderam por completo a consciência moral.</p><p id="pt-b01138">Está bem! Volte logo para escrever o texto. Preciso cuidar de meus afazeres!”</p><p id="pt-b01139">“Amitābha! Agradeço ao compassivo magistrado pela ajuda em meio a tantos afazeres. Ayu junta as palmas das mãos em gratidão!”</p><p id="pt-b01140">Volto para casa sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-60"><title><p id="loc-1141">18 — Nunca pesque com vara — Inferno da Alma Solitária que Pesca Peixes Sozinha no Mar de Espadas</p></title><p id="pt-b01142">Namo Amitābha! Prostro-me em reverência ao magistrado!</p><p id="pt-b01143">Ayu: “Hoje gostaria de perguntar ao magistrado que retribuição terão os seres que gostam de pescar. Vejo no mundo humano alguns aficionados que tratam a pesca como diversão. Eles também sabem que a poluição das águas marinhas nas cidades traz os perigos dos metais pesados. Pescam os peixes, trazem-nos para a margem e se divertem um pouco com eles. Alguns raspam parte de suas escamas e chegam até a arrancar-lhes os olhos, cortar-lhes as barbatanas e retirar-lhes as vísceras, entre outras coisas, antes de jogá-los de volta ao mar. Gostaria de saber se esses atos levam à queda nos infernos. Se houver um inferno assim, Ayu também gostaria de visitá-lo.”</p><p id="pt-b01144">O magistrado: “Pescar é um ato de matar. Quer seja por diversão, quer seja para comer o que se pesca, trata-se de carma negro decorrente da transgressão do preceito de não matar, que levará à queda nos infernos para sofrer punição. As diferenças são estas: se alguém pesca por diversão, sem mutilar fisicamente o peixe, e ele ainda consegue nadar de volta ao mar e viver normalmente, a retribuição cármica é relativamente menor. Mesmo assim, isso prejudica a mente do peixe, ou seja, sua consciência espiritual, causando-lhe pânico e terror e estabelecendo um vínculo maléfico com o peixe pescado.”</p><p id="pt-b01145">“Se a intenção for se divertir, sem qualquer intenção de matar, cada vez que a pessoa pesca ela perde um mês de bênçãos, incluindo um mês de alimentos e de todos os tipos de benefícios de que poderia desfrutar. Por exemplo, se o pescador estava para receber um aumento salarial no mês seguinte, agora o carma negro da pesca impedirá esse aumento. Ele será repreendido injustamente pelo superior, sofrerá resistência dos colegas e não será estimado pelos outros. Como reflexo do carma de ferir os peixes, seu corpo desenvolverá naturalmente algumas dores repentinas. Se for alguém que faz negócios e estava prestes a fechar um acordo com um grande cliente no mês seguinte, perderá o ganho que poderia obter — por exemplo, um milhão. Se tiver grandes bênçãos provenientes da vida anterior, conseguirá ganhar trezentos mil, mas com muito esforço e inúmeros obstáculos.”</p><p id="pt-b01146">“Se a pessoa pescar para brincar e se divertir e os peixes pescados acabarem feridos ou mutilados, ela perderá um mês de bênçãos e sofrerá diversos males e dores no corpo. Quanto aos detalhes das doenças e dores dessa retribuição, qualquer sofrimento suportado pelos peixes feridos será refletido pelo carma no pescador. Ele terá dores de cabeça, tonturas, diversas doenças da boca, sintomas de perturbação mental e assim por diante. Quem nasce com fissura labial sofre essa retribuição por ter pescado na vida anterior. Quanto às demais dores do corpo, serão iguais às dos peixes feridos. Se a pessoa pescar para comer, a cada vez perderá pelo menos sete dias de vida e três meses de bênçãos. Se pescar muitos peixes ou peixes grávidos, as leis do mundo dos mortos agravarão a punição do pescador conforme os registros detalhados das divindades que acompanham cada pessoa desde o nascimento.”</p><p id="pt-b01147">“Nas pessoas que pescam com frequência, a luz do corpo começará a passar gradualmente do vermelho ao cinza. Quando essa luz se torna opaca, surgem muitos contratempos em suas atividades, sono inquieto, desconfiança excessiva e facilidade para se irritar.”</p><p id="pt-b01148">“Logo ao nascer, a luz do corpo de cada pessoa é circular. A intensidade da cor varia de pessoa para pessoa. Essa luz representa as bênçãos e o carma bom e mau de cada um. Quando a luz do corpo é plena e brilhante, cobre uma área grande e se estende a uma distância maior, isso indica que a pessoa tem grandes bênçãos de bom carma e boa conduta moral. A luz dos corpos dos budas e dos grandes bodhisattvas de imensa sabedoria é a mais plena de todas.”</p><p id="pt-b01149">“Como já foi dito, desde que uma pessoa nasce há duas divindades que a acompanham sem cessar, dia e noite. Aonde quer que a pessoa viva vá, elas a seguem, até mesmo quando vai ao banheiro, toma banho ou dorme, e continuam assim até o fim de sua vida. Uma dessas duas divindades tem aparência masculina, e a outra, feminina. A divindade masculina fica à esquerda da pessoa viva, tem uma luz corporal de um branco tênue e é responsável por registrar todos os bons pensamentos e as boas ações dela a cada dia. A luz corporal da divindade feminina é de um negro tênue; ela fica à direita da pessoa viva e é responsável por registrar todos os maus pensamentos e as más ações dela a cada dia.”</p><p id="pt-b01150">“Quando uma pessoa viva produz carma negro em excesso, a divindade feminina fica zangada e lhe transmite avisos e lembretes. Apenas uma parcela muito pequena das pessoas vivas consegue receber alguns sinais fracos; a maioria não percebe nada. Todos os meses, as duas divindades apresentam ao mundo dos mortos os registros do bem e do mal praticados pela pessoa viva.”</p><p id="pt-b01151">“Se uma pessoa extremamente má põe o mundo humano em perigo, mesmo que seu tempo de vida ainda não tenha se esgotado, o mundo dos mortos também tomará providências urgentes para que uma calamidade se abata sobre ela e sua alma vá rapidamente aos infernos para receber punição. Além de seu próprio carma determinado, a pessoa viva também pode gerar novo carma por meio das diversas palavras e ações desta vida. As bênçãos e o carma aumentam ou diminuem a cada dia por meio de nossas boas e más ações.”</p><p id="pt-b01152">Ayu: “Muito obrigada ao magistrado por uma explicação tão clara e detalhada. Gostaria de lhe perguntar: se até pescar apenas para se divertir um pouco já reduz as bênçãos dessa maneira, então não será uma situação terrível se alguém com poucas bênçãos pescar com frequência?”</p><p id="pt-b01153">O magistrado: “Sim! Um peixe também é uma vida. O pescador põe fim à vida do peixe em um tempo muito curto. Esse carma de violar o preceito e matar se refletirá rapidamente sobre ele próprio, que terá de suportá-lo. Algumas pessoas dirão: ‘Não tenho nenhuma crença religiosa, nem preciso observar preceito algum. Sou muito livre. Não é como se eu matasse pessoas ou ateasse fogo às coisas; apenas pesco um pouco quando tenho tempo.’ Na verdade, esse modo de pensar está errado. As leis do mundo dos mortos vinculam estreitamente todos os seres sencientes. Tenham ou não crenças religiosas, os que praticam o mal acabarão inevitavelmente sujeitos às sanções dessas leis. Se um ser senciente que observa os preceitos os transgride, sua falta recebe uma pena mais grave. Quem erra conscientemente certamente sofrerá punição agravada. Há apenas um meio de escapar das diversas punições dos infernos: observar os cinco preceitos e praticar as dez boas ações. Quem observa os cinco preceitos pode conservar a condição humana; quem pratica as dez boas ações pode assegurar suas próprias bênçãos e evitar a queda. No entanto, com suas palavras e ações diárias, as pessoas vivas com muita facilidade incorrem nas diversas formas das dez más ações. Para assegurar que suas bênçãos não sejam reduzidas, o método mais eficaz é observar os preceitos e recitar o nome do Buda. Basta continuar a recitá-lo sem cessar e com perseverança para que, com certeza, o carma se esgote, os apegos se esvaziem e recuperemos nossa luminosidade inata.”</p><p id="pt-b01154">“Toda pessoa tem ao seu redor muitos credores cármicos, entre desafetos e pessoas próximas, à espreita de uma oportunidade de vingança. Quem pratica atos contrários às leis do mundo dos mortos está dando a esses credores cármicos ao seu redor mais oportunidades de se vingar. Nem mesmo as divindades retas protetoras do Dharma interferem na lei de causa e efeito do mundo dos mortos, e menos ainda toleram transgressões dos preceitos. As divindades retas protetoras do Dharma que executam essas leis recompensam e punem todos os seres sencientes de maneira justa e com compaixão.”</p><p id="pt-b01155">“Ao nascer, cada pessoa traz consigo diversos tipos de carma bom e mau da vida anterior. Se continuar a observar os cinco preceitos e a praticar as dez boas ações, sem transgredir os preceitos, mesmo que tenha muitos credores cármicos ao seu redor, eles só poderão segui-la, sem oportunidade alguma de vingança. Mas por que algumas pessoas cometem muitas transgressões — como mentir, praticar conduta sexual imprópria e entregar-se a farras e bebedeiras —, levando uma vida que viola os preceitos e as leis do mundo dos mortos de tantas maneiras, e ainda assim desfrutam de riqueza e prestígio? É porque trazem de vidas passadas um grande acúmulo de carma benéfico, e suas bênçãos ainda não se esgotaram.”</p><p id="pt-b01156">“Quando o bom carma é forte, a pessoa atrai diversas bênçãos desse bom carma, tem êxito em suas atividades e vive contente e feliz. Se alguém continua a transgredir os preceitos e não pratica o bem para acumular bênçãos, as bênçãos do bom carma desaparecerão à medida que forem continuamente desfrutadas: quando o doce acaba, vem o amargo. Se um pescador não tiver nenhum outro bom carma nem boas ações, seu carma negro se agravará por ele continuar a violar o preceito de não matar nesta vida. Somado a isso o mau carma de vidas passadas, os credores cármicos não humanos ao seu redor poderão interferir intensamente por meio da possessão, provocando toda espécie de calamidade inesperada e até tirando a vida da pessoa.”</p><p id="pt-b01157">“Por falta de tempo, vamos parar por aqui por enquanto. Ayu, venha comigo!”</p><p id="pt-b01158">Ayu: “Sim, senhor magistrado!”</p><p id="pt-b01159">O magistrado: “Este inferno foi acrescentado no ano de 1995, segundo a contagem do tempo no mundo dos vivos. A maioria das almas culpadas aqui é de pessoas do Oriente.”</p><p id="pt-b01160">Descemos rapidamente em uma grande área, que me pareceu um pouco com algumas grandes zonas industriais do mundo humano. Era preciso observar bem as placas para não se perder. Havia muitas portas, sem yakshas à entrada. Em cada entrada estava escrito o nome do inferno, e todas as sucessivas portas estavam bem trancadas. Então ali havia mais todo um novo mundo de infernos! Fiquei tonta! No mundo humano, todo tipo de coisa já muda de inúmeras maneiras em um instante. Agora, até nos infernos foram acrescentadas tantas instalações novas. Quando, afinal, será possível terminar de visitar tudo?!</p><p id="pt-b01161">O magistrado disse: “Hoje visitaremos apenas a sétima sala do sétimo prédio: o Inferno da Alma Solitária que Pesca Peixes Sozinha no Mar de Espadas. Faltam funcionários no mundo dos mortos; aqui não há nenhum porteiro. Vamos diretamente tocar a campainha!”</p><p id="pt-b01162">Ayu: “Está bem, senhor magistrado!”</p><p id="pt-b01163">Vamos procurar! Este é o primeiro prédio, depois o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, o sexto e o sétimo. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, a sétima sala! Achei! Caracteres chineses tradicionais de escrita atual emitiam uma luz verde-escura: Inferno da Alma Solitária que Pesca Peixes Sozinha no Mar de Espadas. Aproximei-me e toquei a campainha.</p><p id="pt-b01164">O yaksha abriu a porta, prestou reverências ao magistrado, e entramos. Esse inferno era um grande mar, cheio de peixes-espada ferozes e cortantes, de todos os tamanhos. O local se dividia em dois lados: à esquerda, as almas culpadas sofriam sozinhas; à direita, sofriam juntas em pequenos grupos. Esse inferno tinha uma particularidade: só havia quatro yakshas, dois de cada lado. Realmente faltavam funcionários, e aqueles quatro yakshas deviam trabalhar muito!</p><p id="pt-b01165">Esse inferno também era grande. Era diferente do mar no mundo humano, onde uma pedra à beira-mar só comporta uma ou duas pessoas. No mundo humano, uma praia comum já é considerada cheia quando há mais de quinhentas pessoas. Nesse inferno, os peixes-espada de ferro que vivem no mar comem pessoas. Os maiores têm cerca de dez metros de comprimento cada um e, ao abrir a boca, conseguem devorar doze almas culpadas de uma só vez. Os menores as comem de bocado em bocado.</p><p id="pt-b01166">Aqui, uma única pedra podia sustentar uma grande quantidade de almas culpadas. Na pedra minúscula ao meu lado havia quarenta e cinco; nas outras pedras havia ainda mais. As almas culpadas do lado esquerdo ficavam sozinhas, de pé ou sentadas nas pedras à beira-mar, repetindo continuamente as dores da vida e da morte como severo castigo. Vejamos o que acontecia à alma culpada daquele homem ao meu lado. Ele acabara de recobrar os sentidos e já começava a despertar. Levantou-se e sentou-se na pedra. Impelido pela retribuição do mau carma da pesca, naquele momento parecia ter esquecido por completo o sofrimento de pouco antes.</p><p id="pt-b01167">Vi surgir em sua mente imagens de diversos peixes nadando no mar. Ele pensava que certamente pescaria aqueles peixes marinhos tão especiais e que, logo depois, os assaria e comeria no barco enquanto admirava a paisagem. Seu olhar se voltava alegremente para os peixes-espada no mar, e ao seu lado havia uma longa vara de pesca elétrica. Assim que sua mão tocou a vara, ela se ergueu automaticamente e enganchou a cabeça da alma culpada com rapidez e precisão. Olhando melhor, devia ser um gancho de ferro afiado e curvo da vara de pesca que lhe prendera a cabeça, entrando pela boca. Nesse momento, sua mente ficou inteiramente negra. Ele sofria tanto que não conseguia gritar. O sangue começou a escorrer pela boca, e seus braços e pernas se agitavam em uma luta desordenada. Quanto mais se debatia, mais fundo o gancho penetrava.</p><p id="pt-b01168">A vara de pesca lançou rapidamente a alma culpada ao mar, na boca de um pequeno peixe-espada de ferro. Esse pequeno peixe media dois metros de comprimento. Quando a vara lançou a alma culpada ao mar, ela caiu exatamente sobre uma haste de ferro pontiaguda ao lado da boca do peixe. A alma culpada ficou empalada, em pânico e aterrorizada, e o sangue jorrou de todo o seu corpo. O peixe-espada de ferro soltou um rugido terrível e, com suas mordidas, rasgou e arrancou a cabeça da alma culpada. Primeiro, devorou o nariz e os olhos; na segunda mordida, comeu a parte inferior da cabeça até a garganta. Os braços e as pernas da alma culpada se contraíam e tremiam de dor. Com a boca pontiaguda, o peixe abriu-lhe o ventre e depois comeu suas vísceras aos poucos, até devorá-la por inteiro. Depois de comer, o peixe vomitou a alma culpada toda despedaçada, desfeita e ensanguentada sobre a mesma pedra de antes. Quando ela foi devolvida à pedra, soprou no Inferno da Alma Solitária que Pesca Peixes Sozinha no Mar de Espadas uma rajada de vento cármico que a restaurava e despertava. Assim que esse vento de força cármica a atingia, ela se reconstituía e despertava automaticamente, para continuar repetindo seu castigo. Ai! Era um sofrimento extremo e incomparável!</p><p id="pt-b01169">O magistrado mandou o yaksha trazer aquela alma culpada para Ayu entrevistar. Ela ainda estava inconsciente. O yaksha a carregou até nós, e ela continuava atordoada. Eu começava a mostrar uma expressão de perplexidade: como entrevistar alguém inconsciente? O yaksha explicou imediatamente que agora lhe daria uma tigela de “sopa de gengibre para o retorno da alma” do mundo dos mortos. Isso elevaria um pouco a temperatura de seu corpo e a faria recuperar-se o suficiente para falar; então seria possível entrevistá-la. Terminada a entrevista, voltaria a soprar o vento cármico, e ela continuaria a sofrer o castigo.</p><p id="pt-b01170">O yaksha jogou água fria na alma culpada para acordá-la. Ela bebeu a sopa de gengibre para o retorno da alma e começou a voltar ao normal, embora ainda parecesse muito cansada e sofrida. O yaksha mandou que contasse com veracidade por que havia caído naquele inferno para sofrer.</p><p id="pt-b01171">A alma culpada disse: “Em vida, eu trabalhava no comércio atacadista de frutos do mar secos em certa cidade do Oriente e ganhei muito dinheiro. Mas tinha pouquíssimos amigos íntimos. Sentia que ninguém ao meu redor era sincero comigo; eu era do tipo solitário. No mundo dos negócios, tinha muitos companheiros de festas e bebedeiras, mas eram todos falsos amigos. Usávamos uns aos outros e ainda precisávamos sorrir uns para os outros todos os dias. Aquilo não tinha graça nenhuma. Fazia muito tempo que eu já não queria trabalhar no comércio atacadista de frutos do mar; só continuava porque os negócios iam muito bem e eu queria ganhar dinheiro. Desde pequeno, eu também gostava especialmente de pescar. A principal razão que me levou a cair neste inferno foi esta: na época, achei que, sendo ainda tão jovem e já tendo tanto dinheiro, poderia experimentar um negócio de que gostasse. Mesmo que tivesse prejuízo, não seria um grande problema. Assim, comecei a procurar pelo mundo equipamentos de pesca muito especializados, além de diversos equipamentos, roupas, ferramentas e outros produtos de alta qualidade para expedições e montanhismo. Abri uma loja dedicada principalmente à venda de equipamentos de pesca, que também vendia alguns produtos para expedições e montanhismo.</p><p id="pt-b01172">Abri essa loja com a ideia de experimentar: se perdesse dinheiro, paciência. Quem diria que os negócios da loja de pesca iriam tão bem! Isso aumentou muito minha confiança, e também conheci alguns amigos pescadores com os mesmos interesses. Então pensei em promover as técnicas de pesca para aumentar o faturamento da empresa.”</p><p id="pt-b01173">“Depois que comecei a divulgação, os negócios da empresa alcançaram outro patamar em pouco tempo. Eu também achei que sabia investir. Por isso, passei a divulgar com ainda mais empenho para empresas, pessoas e grupos, organizando atividades como festas de aniversário com pesca e passeios de barco, além de pacotes completos. Também ajudava outras pessoas interessadas na mesma atividade a abrir restaurantes com pesca, lojas de pesca e assim por diante. Depois, pensei em me dedicar inteiramente a planejar um belo futuro para a expansão da empresa de pesca.”</p><p id="pt-b01174">“À medida que meu patrimônio crescia, fui melhorando minhas condições de moradia e me mudando para áreas onde viviam os ricos. Assim, nós três — eu, minha esposa e meu filho — nos mudamos para uma grande mansão de vários milhares de chi, onde tínhamos vários empregados. Mas a boa fase durou pouco. Menos de três meses depois de nos mudarmos para a mansão, meu filho começou a ficar sensível e muito medroso. Passava o dia assustado, dizendo que alguém queria bater nele, embora não houvesse ninguém em casa que quisesse fazer isso. Minha esposa passou a ter dor lombar e depressão. Todos os dias, tinha acessos de raiva e suspeitava que eu mantinha um caso fora do casamento, entre outras coisas. Os empregados da casa eram trocados sem parar.” <a xlink:href="#loc-1714">[N33]</a></p><p id="pt-b01175">“Minha esposa e meu filho consultavam médicos da área de saúde mental, tomavam remédios e recebiam injeções. Mas, em vez de melhorar, a situação ficou ainda mais grave. Depois disso, bastava haver algum pequeno barulho inesperado em casa para meu filho se esconder de medo. O menino, que antes era inocente e vivaz, passou a ter muito medo de luz forte e a gostar de lugares escuros. Para que a luz do sol não entrasse diretamente em casa, todas as cortinas tinham de ficar fechadas. Quanto a mim, como o relacionamento com minha esposa ia mal e eu era repreendido quando estava em casa, andava de mau humor. Comecei a chamar amigos todos os dias para beber e cantar no karaokê, para me distrair. No karaokê, também comecei um caso extraconjugal com uma moça. Engravidei-a duas vezes e a instiguei a abortar.”</p><p id="pt-b01176">“Passei a levar uma vida de farras e bebedeiras. Às vezes, nem voltava para casa, mas ainda pensava no meu filho. Certa vez, depois de me embriagar, tive febre e desmaiei, sendo levado ao hospital de ambulância. Assim que fui internado, os exames revelaram câncer de fígado em estágio avançado. Depois de três meses atormentado por todo tipo de dor, deixei este mundo em sofrimento, sem poder fazer nada. Uu, uu, uu... Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, ainda atordoado, fui arrastado com correntes de ferro até os infernos por Cabeça de Boi e Cara de Cavalo.”</p><p id="pt-b01177">O Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama, bateu na mesa e disse, furioso: “xxx, você reconhece sua culpa? Nasceu no mundo humano com bênçãos abundantes, mas não fez bom uso delas para continuar a praticar o bem e cultivar mais bênçãos. Em vez disso, abusou delas, dedicou-se a um ramo de atividade que mata seres e tira vidas e ainda instigou outros a fazer o mesmo, corrompendo gravemente suas ideias e destruindo seu coração compassivo.”</p><p id="pt-b01178">“O mau carma mais grave que você cometeu nesta vida foi pescar e matar seres. Primeiro, levem-no ao Inferno da Alma Solitária que Pesca Peixes Sozinha no Mar de Espadas para sofrer por dez mil anos. Só depois que todas as lojas de pesca abertas no mundo humano por sua influência fecharem você poderá sair para se apresentar a mim. Então julgarei seus outros crimes.”</p><p id="pt-b01179">Naquele momento, a alma culpada, apavorada, gritou por socorro, ajoelhou-se e perguntou ao Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama: “Minha loja de pesca funcionou por apenas oito anos. Como posso ser condenado a dez mil anos de castigo nos infernos? E ainda preciso esperar que todas as lojas de pesca parem de funcionar? Que ligação as outras lojas têm comigo? Nem sequer sou sócio delas!”</p><p id="pt-b01180">O Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama, continuou a falar, furioso: “Das lojas de pesca que existem agora no mundo humano, sempre que uma tenha sido aberta por influência de sua propaganda, você deverá arcar com cinquenta por cento do carma nessa conta de causa e efeito das leis do mundo dos mortos. O dono da loja também arcará com cinquenta por cento. Se o dono continuar e abrir uma segunda unidade, você arcará com trinta por cento do carma e ele, com setenta por cento. Sem a influência de sua propaganda, essas lojas que geram carma de matança não teriam sido abertas. Quanto às que não foram abertas por atração de sua propaganda, o mundo dos mortos tampouco as lançará arbitrariamente em sua conta.”</p><p id="pt-b01181">“Todos os funcionários importantes do mundo dos mortos têm a observância dos preceitos como base. Quem observa os preceitos possui luz corporal. Quanto mais pura a virtude de sua observância, mais elevado é o cargo. Você deveria estar agora no mundo humano, com grande riqueza e prestígio, saúde e uma família e um patrimônio prósperos. Em uma de suas vidas, você foi uma pessoa de grande bondade e acumulou muitas bênçãos por meio da generosidade. As condições para o amadurecimento desses bons frutos se reuniram nesta vida. Por isso, fosse qual fosse o ramo a que você se dedicasse nesta vida, prosperaria e atrairia boas relações com as pessoas. Seu patrimônio seria o dobro do que você tem agora. Mas quem diria que, depois de renascer nesta vida, você continuaria pescando e, ao terminar os estudos, ainda entraria no comércio atacadista de frutos do mar! Todo o dinheiro que ganhou nesse comércio veio à custa da redução de suas bênçãos.”</p><p id="pt-b01182">“O comércio atacadista de frutos do mar consumiu rapidamente metade das bênçãos que você tinha nesta vida. O mundo dos mortos já lhe enviou vários avisos em sonhos, fazendo-o sonhar que era devorado e perseguido para ser morto pelos seres marinhos. Esses sonhos eram avisos: alertavam-no de que deveria parar e exercer uma atividade legítima, em vez de continuar desperdiçando bênçãos para cometer o mau carma de matar seres. Mas você não percebeu nada, não refletiu nem teve intenção de se arrepender. Continuou a alimentar a arrogância do eu e o veneno da cobiça, sem praticar o bem nem acumular virtude. Além disso, não parou de promover e expandir as lojas de pesca que matam seres, impulsionando indiretamente o desenvolvimento dos restaurantes com pesca no mundo humano. Essa dívida de causa e efeito perante as leis do mundo dos mortos terá de ser paga lentamente, por meio do sofrimento nos infernos.”</p><p id="pt-b01183">“Se você tivesse exercido uma atividade legítima no mundo humano, desde que não cometesse grandes males, mesmo sem uma dedicação especial a praticar o bem, cultivar o Caminho e acumular bênçãos, as bênçãos que possuía deveriam permitir que ainda estivesse vivendo feliz no mundo humano. Não teria chegado ao ponto de cair nos infernos e suportar sofrimentos infinitos e sem limites, como agora.”</p><p id="pt-b01184">O Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama: “Yaksha da Alma Solitária!”</p><p id="pt-b01185">O Yaksha da Alma Solitária: “Às ordens!”</p><p id="pt-b01186">O Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama: “Leve-o imediatamente ao Inferno da Alma Solitária que Pesca Peixes Sozinha no Mar de Espadas para ser punido e quitar sua dívida cármica!”</p><p id="pt-b01187">A alma culpada disse: “Uu, uu, uu... Agora me arrependo de verdade de ter sido tão ganancioso naquela época. Eu só queria continuar aumentando meu patrimônio, mas escolhi o caminho errado. Senhorita, a senhora precisa escrever tudo o que eu disse. Espero que meus amigos, ao lerem, corrijam imediatamente seus erros, deixem de pescar e parem de manter suas lojas de pesca.”</p><p id="pt-b01188">“Senhorita, eu lhe imploro! Se a senhora escrever o que acabei de dizer, meus amigos, quando lerem, certamente saberão que sou eu quem caiu nos infernos para sofrer. Naquela época, todos conheciam meus problemas familiares e algumas das minhas ideias. Eles certamente acreditarão que o que a senhora escreveu é verdade e, depois de ler, com certeza mudarão. Se corrigirem seus erros logo e deixarem de cometer o mau carma de pescar e matar seres, isso também poderá reduzir meu tempo de sofrimento nos infernos! Uu, uu, uu... Ninguém deseja suportar, no futuro, os sofrimentos infinitos e sem limites dos infernos. Uu, uu, uu... Quero muito sair daqui. Como são longos dez mil anos! Uu, uu, uu...”</p><p id="pt-b01189">Ayu: “Senhor, conheço a cidade de que falou. O carma de matança daquela cidade é muito pesado. Então o senhor carrega uma parcela tão grande desse carma negro! Escrever bem o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos é o meu trabalho. Certamente registrarei, por inteiro, tudo o que acabou de dizer. O senhor deve recitar o nome do Buda; o poder compassivo do Buda o abençoará. Também dedicarei o mérito de escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos para que logo se liberte do sofrimento e alcance a felicidade.”</p><p id="pt-b01190">A alma culpada disse: “Uu, uu, uu... Agora, enquanto conversamos assim, embora meu corpo doa, ainda consigo suportar a dor à força e recitar o nome do Buda. Mas daqui a pouco o castigo recomeçará, a dor aumentará muito, sem nenhuma interrupção, e ficarei tonto e com a mente confusa. Simplesmente não conseguirei recitar nada. Uu, uu, uu... Desejo que ninguém no mundo pesque jamais e que ninguém caia nos infernos para sofrer. Que nunca sofram como eu, que, mesmo depois de morto, ainda tenho de suportar penas infernais cujo fim não consigo enxergar! Uu, uu, uu...”</p><p id="pt-b01191">O magistrado: “Muito bem! O tempo é limitado. Levo em consideração que hoje você colaborou bastante, fornecendo informações para Ayu escrever As leis implacáveis do mundo dos mortos, e também formulou um desejo benéfico: que ninguém no mundo pesque jamais nem caia nos infernos para sofrer. Pois bem! Agora registro em seu favor uma boa ação e permito que vá participar de uma sessão de ensinamentos de Kṣitigarbha, descansando temporariamente do sofrimento.”</p><p id="pt-b01192">O Yaksha da Alma Solitária: “Sim, senhor magistrado! Vou levá-lo agora mesmo.”</p><p id="pt-b01193">Ayu: “Senhor magistrado, por que aquele senhor pode ir imediatamente ouvir os ensinamentos de Kṣitigarbha? As almas culpadas que entrevistei antes sofriam ainda mais do que ele e estavam ainda mais aterrorizadas. Por que o senhor não registrou uma boa ação em favor delas?”</p><p id="pt-b01194">O magistrado: “Ah, Ayu! Na verdade, os infernos são formados por um tipo de carma negro produzido quando as pessoas transgridem os preceitos. Quem cai nos infernos é conduzido até lá por seus próprios atos. Em uma de suas vidas passadas, ele praticou o método de recitar o nome do Buda, mas sem diligência. Naquela vida, realizou diversos atos de generosidade, porém não fez a dedicação dos méritos de acordo com os princípios corretos e o Dharma. Mesmo assim, amadureceram os frutos cármicos das diversas boas ações que praticara, tornando-se a riqueza e o prestígio desta vida. Infelizmente, ele não valorizou essas bênçãos, esgotou-as antes do tempo e caiu nos infernos.</p><p id="pt-b01195">Vocês dois também têm um vínculo. Durante sua entrevista, você despertou nele a intenção de se libertar, levando-o a formular, de coração, um desejo benéfico. Foi esse bom pensamento que lhe valeu o registro de uma boa ação; não se tratou de um favor especial de minha parte. Se alguém deseja compreender Todos os budas dos três tempos, Deve contemplar a natureza do reino do Dharma: Tudo é criado somente pela mente.”</p><p id="pt-b01196">O magistrado: “Muito bem, Ayu! Já está tarde hoje, e no mundo dos vivos passou mais uma noite inteira. Volte por enquanto! Será bem-vinda quando puder voltar, o mais breve possível.”</p><p id="pt-b01197">Ayu: “Ayu junta as palmas das mãos e presta reverências ao magistrado. Obrigada, senhor magistrado! Certamente voltarei o mais breve possível!”</p></section><section id="sec-61"><title><p id="ayu-visita-chenghuang">19 — Ayu visita Chenghuang</p></title><p id="pt-b01199">Gratidão pelo amparo do poder do Buda! Parto sobre a flor de lótus branca!</p><p id="pt-b01200">Namo Amitābha! Ayu junta as palmas das mãos e presta reverências ao magistrado!</p><p id="pt-b01201">Ayu: “Senhor magistrado! Hoje gostaria de fazer uma pergunta. Já vi templos de Chenghuang no mundo dos vivos e também inúmeros pequenos templos do vovô Tudigong. Afinal, qual é a diferença entre os dois? Se Chenghuang existe, peço que leve Ayu para visitá-lo.”</p><p id="pt-b01202">O magistrado: “Chenghuang e o vovô Tudigong exercem funções que, embora diferentes na forma, têm a mesma finalidade: proteger principalmente a segurança das pessoas vivas em suas idas e vindas. Quanto ao nome ‘vovô Tudigong’, essa forma de chamá-lo tem sido especialmente apreciada pelas pessoas vivas nos últimos mil anos e vem sendo transmitida até hoje. Já apresentei, em linhas gerais, as funções de Tudigong no mundo dos vivos. Diante das mudanças que ocorrem atualmente nesse mundo, o mundo dos mortos também aumenta, conforme a necessidade, o número de Tudigong para administrar os assuntos das pessoas vivas e protegê-las.</p><p id="pt-b01203">Há uma Residência de Chenghuang no mundo dos mortos. Nela, o cargo mais elevado é o de Chenghuang. Abaixo dele há outros funcionários do mundo dos mortos que são Tudigong, e todos os Tudigong o auxiliam e recebem suas ordens. Chenghuang é responsável por todos os tipos de dados sobre as reencarnações de todas as pessoas de Jambudvīpa do Sul. Na Residência de Chenghuang há o Palácio da Virtude Oculta, dedicado ao registro das grandes boas ações de todos. Esse palácio também é a sede de outra divisão dos registros de reencarnação das pessoas vivas.</p><p id="pt-b01204">Se Ayu quiser perguntar onde viveu na vida anterior, qual era sua condição, se era homem ou mulher e se realizou grandes boas ações, basta que você tenha sempre renascido em Jambudvīpa do Sul, vida após vida, para que Chenghuang possa descrever claramente suas diversas identidades e seu carma ao longo dessas reencarnações. Naturalmente, isso não significa que Chenghuang não saiba caso você tenha renascido fora de Jambudvīpa do Sul. É apenas que os nascimentos em outras terras ficam fora do âmbito dos registros sob sua jurisdição.</p><p id="pt-b01205">O Chenghuang do mundo dos mortos foi enviado pelo Céu quando o mundo dos mortos começou a ser construído. Daqui a pouco, Ayu poderá entrevistá-lo pessoalmente e esclarecer algumas de suas dúvidas. Agora vou levá-la para visitar a Residência de Chenghuang, que fica no extremo leste do mundo dos mortos.”</p><p id="pt-b01206">Ayu: “Obrigada, senhor magistrado! Agradeço por me guiar.”</p><p id="pt-b01207">Que alegria! Daqui a pouco poderei conhecer o antigo Chenghuang das lendas. O que devo perguntar quando me apresentar a ele? Fico muito envergonhada por ser uma pessoa comum, de tão pouca realização, sem virtude nem prática. Não tenho grandes perguntas a fazer. Melhor perguntar sobre o governante supremo do mundo dos mortos, o Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama! Por que ele exerce a função de Rei Yama nos infernos? Todos ficam com medo ao vê-lo. Daqui a pouco, poderei esclarecer essa dúvida. Estamos quase chegando! O grande edifício antigo à frente vai aparecendo aos poucos diante dos nossos olhos. Descemos lentamente até o chão.</p><p id="pt-b01208">A Residência de Chenghuang, de cor marrom, com todo o encanto de uma construção antiga, surgiu diante de nós. Seus guardas não eram yakshas, mas dois guerreiros vestidos à moda antiga e portando armas. Ao verem o magistrado, os dois sorriram e o receberam com reverências.</p><p id="pt-b01209">Curvando-se diante do magistrado, disseram: “O Deus da Porta Esquerda presta reverências ao magistrado! O Deus da Porta Direita presta reverências ao magistrado!”</p><p id="pt-b01210">O Deus da Porta Esquerda disse: “Nosso senhor Chenghuang nos avisou que o senhor magistrado traria para entrevistá-lo uma pessoa viva, Shangguan Yuhua, autora do livro As leis implacáveis do mundo dos mortos, que porta uma credencial do mundo dos mortos. Imagino que esta senhora ao seu lado seja Shangguan Yuhua!” As duas divindades das portas olharam ao mesmo tempo para a credencial que eu trazia pendurada no corpo.</p><p id="pt-b01211">O magistrado disse: “Dispensem as formalidades! Esta é precisamente Shangguan Yuhua, a praticante leiga Ayu, autora de As leis implacáveis do mundo dos mortos. Peço ao Deus da Porta Esquerda que nos conduza à presença do senhor Chenghuang.”</p><p id="pt-b01212">As duas divindades das portas não tinham uma aparência muito feroz. Eram do tipo robusto, como altos guerreiros da Antiguidade. A Residência de Chenghuang era muito grande, mais uma residência à altura de um funcionário do mundo dos mortos. Ao redor, alguns funcionários vestidos como Tudigong caminhavam de um lado para outro. Todos sorriam e prestavam reverências ao ver o magistrado.</p><p id="pt-b01213">Quando Ayu olhou, havia bem à frente dois grandes pórticos, um à esquerda e outro à direita. No da esquerda estava escrito: “A virtude oculta traz bênçãos duradouras”; no da direita: “A virtude manifesta traz bênçãos de um instante”. No centro da fachada do edifício à frente havia três grandes caracteres chineses: “福德宫” (“Palácio das Bênçãos e da Virtude”).</p><p id="pt-b01214">O Deus da Porta Esquerda disse: “Senhor magistrado e praticante leiga Ayu, entrem, por favor. O senhor Chenghuang está trabalhando no grande salão.”</p><p id="pt-b01215">Chenghuang tinha a aparência de um ancião bondoso da Antiguidade e vestia roupas antigas, pesadas e espessas. Ao nos ver, abriu um sorriso.</p><p id="pt-b01216">“Eu, a simples mulher do povo Shangguan Yuhua, apresento minhas reverências a Chenghuang! Hoje venho visitá-lo para perguntar: por quais causas e condições o comandante supremo do mundo dos mortos, o Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama, ocupa o cargo mais elevado desse mundo?</p><p id="pt-b01217">Desde pequena, sei que existe um Rei Yama que age com justiça. Nesta vida, foi de minha avó paterna que ouvi falar dele pela primeira vez. Lembro-me de que, quando criança, muitas vezes presenciava minha avó ser oprimida, espancada e insultada por suas noras. Ela sempre suportava tudo em silêncio e nunca se queixava a meu pai nem aos irmãos mais novos de meu pai. Minha avó acreditava firmemente que havia no mundo dos mortos um Rei Yama feroz. Também me ensinava constantemente que, ao conviver com os outros, a paciência deve ser a base de tudo. Uma de suas lições sempre me vem à mente: ‘Menina tola, lembre-se: não se preocupe em sair perdendo, ser injustiçada ou mal compreendida. O Céu observa o que fazemos. Todos morrerão, e no mundo dos mortos há um Rei Yama que naturalmente tratará de tudo com justiça. Desde que nossos atos não prejudiquem os outros, por que nos importarmos em sair perdendo ou ser injustiçadas e mal compreendidas? Em uma família, sempre é preciso que alguém assuma e dissipe as diversas pressões da convivência. Embora as esposas dos irmãos mais novos de seu pai tenham passado dos limites no que fizeram e disseram, sou a mais velha e suporto isso sozinha. Basta que eu consiga preservar a harmonia familiar. Mas você, sua menina tola, jamais deve imitar esse mau comportamento de bater nos outros e insultá-los. Caso contrário, quando crescer e se casar, será detestada e rejeitada na família de seu marido. Como mulher, você precisa saber suportar. Nunca faremos nada que prejudique os outros. É preferível que os outros nos prejudiquem, contanto que nós não os prejudiquemos. Quando alguém nos faz mal, não discutimos por essas pequenas coisas, não as guardamos no coração e as esquecemos. O Céu e o Rei Yama saberão.’</p><p id="pt-b01218">Desde muito pequena, Ayu sempre ouviu sua avó dizer como o Rei Yama era justo e que ele sabia de tudo. Ayu gostaria de perguntar sobre o governante supremo do mundo dos mortos, o Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama: por que ele exerce a função de Rei Yama nos infernos?”</p><p id="pt-b01219">Chenghuang: “Seja bem-vinda às entrevistas no mundo dos mortos, Ayu. Todos nós aqui, dos cargos mais altos aos mais baixos, também apoiamos com todas as forças a publicação de As leis implacáveis do mundo dos mortos. Nada está separado das causas, condições e retribuições cármicas. Em uma vida, você e sua avó foram mãe e filha. Naquela vida, sua avó zombava de você por venerar o Buda. Felizmente, ela apenas zombava, sem praticar outros atos que a impedissem. O carma de zombar de Ayu por venerar o Buda amadureceu, fazendo com que, nesta vida, sua avó tivesse as costas curvadas e fosse oprimida, espancada e insultada pela família. O que contou a seu favor foi que, diante das diversas condições adversas e pressões da vida familiar nesta existência, ela não alimentou a raiva, evitando assim agravar seu carma negro. Por aceitar as adversidades, além de eliminar o carma antigo conforme as condições que surgiam, também acumulou bênçãos para ascender ao mundo celeste no futuro.</p><p id="pt-b01220">Todo ser senciente está criando sua própria vida futura. Ninguém está fora dos três tipos de carma: bom, mau e neutro. Por exemplo, três pessoas compram, ao mesmo tempo, o mesmo modelo de roupa preta. A primeira a compra para dar a um vizinho pobre: o preto disfarça a sujeira, não exige lavagens frequentes e é prático. Essa pessoa está praticando bom carma e atrairá uma boa retribuição no futuro. A segunda pensa em comprar a roupa preta porque será conveniente para roubar à noite. Está praticando mau carma e atrairá uma má retribuição no futuro. A terceira não tem nada para fazer e tanto lhe faz comprar ou não. Como o vendedor lhe diz para comprar, compra. Está praticando carma neutro e atrairá uma retribuição cármica neutra no futuro. Quando predomina o bom carma, a retribuição ocorre no mundo humano ou no celeste. Quando predomina o mau carma, cai-se nos infernos, no caminho dos fantasmas famintos ou no dos animais. Quando predomina o carma neutro, a maioria vai para o caminho dos humanos ou dos fantasmas; ou seja, ainda não saiu dos três reinos. Para sair dos três reinos, libertar-se do ciclo de nascimento e morte e alcançar para sempre a grande libertação, é indispensável observar os preceitos, recitar o nome do Buda, praticar diversas ações de virtude oculta e de bondade e despertar uma grande mente de bodhi e aspirações benéficas: buscar acima o insuperável Caminho do Buda e, abaixo, conduzir todos os seres sofredores à libertação. Só pode haver aspirações benéficas e puras, sem nenhum pensamento egoísta ou disperso. Se houver sequer um pouco desses pensamentos egoístas ou dispersos misturado às aspirações benéficas, a própria pessoa também terá de suportar no futuro a retribuição correspondente a essa pequena mistura.</p><p id="pt-b01221">Quanto à razão pela qual o Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama, se tornou o governante supremo desse mundo, em uma de suas vidas passadas ele foi, no mundo humano, um grande general de imponente retidão, que comandava grandes contingentes de tropas. Durante uma grande batalha, o inimigo usou uma estratégia traiçoeira e astuta, fazendo com que aquele general de imponente retidão não conseguisse resistir e sofresse uma derrota devastadora. Tomado de extrema tristeza, ele jurou ao Céu: ‘Agora, para minha desgraça, sofri uma grande derrota. Se tiver oportunidade no futuro, certamente me vingarei. Punirei severamente todos os criminosos que violam a lei e agem com traição e astúcia. Farei com que se arrependam de coração e voltem a ser boas pessoas.’</p><p id="pt-b01222">Naquela ocasião, os guerreiros que seguiam o grande general também se uniram a ele e fizeram juntos a mesma aspiração: punir severamente todos os criminosos que violam a lei e agem com traição e astúcia. Quando o general fez esse juramento, tomado de extrema tristeza, guardava ressentimento contra si mesmo por não ter se precavido o suficiente e ter levado as tropas sob seu comando a uma grande derrota. O ressentimento contra si mesmo é uma forma da aflição da raiva, e esse foi um caso de aspiração benéfica misturada a um desejo maléfico de vingança. Foi também por ter feito esse juramento que o general se tornou o Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama.</p><p id="pt-b01223">Atualmente, no mundo dos mortos, o Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama, tem de sofrer o tormento de receber areia quente pela garganta três vezes por dia, de manhã, ao meio-dia e à noite, durante quinze minutos de cada vez. Todos os dias, assim que chega a hora do castigo, os dois yakshas encarregados de puni-lo o agarram juntos. Um segura sua cabeça, enquanto o outro pega areia de ferro em brasa e a despeja sem parar em sua garganta. O Soberano acaba desmaiando, mas o vento cármico o desperta. Depois que ele desperta, os dois yakshas voltam a agarrá-lo e repetem o derramamento da areia de ferro em brasa. Esse ciclo de sofrimento dura quinze minutos. Passados os quinze minutos, o Soberano recobra a consciência por si mesmo, e tudo volta ao normal.</p><p id="pt-b01224">O sofrimento do Soberano do Mundo dos Mortos, Rei Yama, ao receber areia de ferro em brasa pela garganta é a retribuição de seu antigo juramento de vingança. Todos os dias, no mundo dos vivos, há pessoas que fazem aspirações maléficas, grandes ou pequenas. Quando alguém faz uma aspiração maléfica, a luz de seu corpo imediatamente se enfraquece, e o campo magnético negativo dessa aspiração o mantém firmemente atado, vida após vida.</p><p id="pt-b01225">Se a luz inata do corpo de uma pessoa for prejudicada, sua vida ficará cheia de obstáculos e será muito mais penosa, a menos que ela se arrependa sinceramente a tempo, purifique-se e nunca mais repita a falta. Se, antes de amadurecer a retribuição de uma aspiração maléfica, o carma bom de quem a fez for mais leve que seu carma mau, e essa pessoa continuar sem condições de encontrar um bom orientador espiritual que a conduza ao arrependimento, sua vida ficará presa ao campo magnético negativo dessa aspiração até que seu mau fruto amadureça. Então, haverá sofrimento sem medida.</p><p id="pt-b01226">Espero que Ayu escreva este artigo o quanto antes e informe a todos que não devem fazer aspirações maléficas em momento algum. Quem já as fez deve se arrepender o mais depressa possível. Quanto às aspirações benéficas, podem ser feitas sem limite; é preciso também colocá-las em prática e empenhar-se em realizá-las.</p><p id="pt-b01227">Atualmente, há pessoas demais violando os preceitos no mundo dos vivos e pouquíssimas que os observam. O grande campo magnético coletivo não está bom, e esse também é um dos principais fatores que fazem os pensamentos das pessoas se desviarem facilmente para o mal.</p><p id="pt-b01228">Se algum ser senciente, por carregar um carma negro muito pesado, ainda não reunir as diversas causas e condições necessárias para observar os preceitos, não deve se preocupar nem desanimar: se o carma não fosse pesado, não nasceria no mundo Sahā. Primeiro, deve tomar a resolução de se arrepender de seu carma negro passado; depois, fazer a aspiração de possuir, vida após vida, uma determinação firme para observar os preceitos. Somando a isso a recitação do nome do Buda, a alimentação vegetariana e a prática diligente de toda espécie de boas ações, a qualidade de sua vida futura certamente se elevará pouco a pouco. Somente esse método pode eliminar de fato e por completo o carma mau, libertá-lo para sempre do sofrimento e conduzir seu futuro, passo a passo, à luz.</p><p id="pt-b01229">Os seres sencientes que têm a oportunidade de ler este artigo acumularam algumas bênçãos no passado. Se o reproduzirem e o divulgarem a outras pessoas, o mundo dos mortos registrará dois méritos por boas ações; se apenas corrigirem a própria conduta, também registrará um mérito por boa ação.</p><p id="pt-b01230">Muito bem! Nesta noite, eu, Chenghuang, também expliquei claramente os princípios relativos às aspirações maléficas. Já é tarde, e logo amanhecerá no mundo dos vivos. Ayu, volte o quanto antes e escreva este artigo. Se precisar de algo no futuro, será bem-vinda a qualquer momento.”</p><p id="pt-b01231">Ayu: “Está bem! Prostro-me diante de Chenghuang! Sou grata a Chenghuang! Prostro-me diante do magistrado do mundo dos mortos! Sou grata ao magistrado! Ayu vai voltar agora. Namo Amitābha!”</p><p id="pt-b01232">Volto para casa sobre a flor de lótus branca!</p></section><section id="sec-62"><title><p id="loc-1233">Leis sobre a conduta sexual imprópria e as punições do mundo dos mortos</p></title><p id="pt-b01234">Desde sempre, entre as más ações, as de conduta sexual imprópria são as mais graves. A culpa no mundo dos vivos é muito grave, e as punições no mundo dos mortos, ainda mais rigorosas. São muitas as punições; por isso, reunimos aqui seus pontos principais. Todos os que lerem este texto devem tomá-lo como advertência e esforçar-se por não cometer tais faltas.</p><p id="pt-b01235">Quem cometer incesto ficará para sempre encerrado no inferno. Se causar a morte de alguém, morrerá atingido por um raio. Quem ultrajar sexualmente um cadáver terá a mesma culpa. Se já tiver recebido punição no mundo dos vivos, ficará isento do castigo do raio. Atos de lealdade e piedade filial poderão abater quatro partes da pena. Mil e quinhentas grandes boas ações, isto é, mil e quinhentas boas ações, também abaterão quatro partes. <a xlink:href="#n24-partes-de-uma-pena">[N24]</a></p><p id="pt-b01236">Quem estuprar uma viúva ficará sem descendência nesta vida; sofrerá no inferno por quinhentos kalpas, renascerá como inseto ou formiga por mais quinhentos kalpas e, depois, como ave ou outro animal por outros quinhentos kalpas. Ao renascer novamente como ser humano, será uma prostituta. Se já tiver recebido punição no mundo dos vivos, terá cem kalpas descontados. Se causar a morte de alguém, sua culpa será agravada em cinco graus. Atos de lealdade e piedade filial poderão abater metade da pena; quinhentas grandes boas ações também abaterão metade.</p><p id="pt-b01237">Quem aliciar uma viúva para uma relação sexual ilícita ficará sem descendência por duas vidas. Cada um dos períodos acima será de quatrocentos kalpas, isto é, sofrerá no inferno, será inseto ou formiga e será ave ou outro animal, passando quatrocentos kalpas em cada condição. Ao renascer novamente como ser humano, terá uma deficiência. Se já tiver recebido punição no mundo dos vivos, terá oitenta kalpas descontados. Se causar a morte de alguém, sua culpa será agravada em quatro graus. Atos de lealdade e piedade filial poderão abater sete partes da pena; quinhentas boas ações de grau médio também abaterão sete partes.</p><p id="pt-b01238">Quem levar uma viúva a uma relação sexual ilícita por meio de galanteios ficará sem descendência por três vidas. Cada um dos períodos acima será de trezentos kalpas, isto é, sofrerá no inferno, será inseto ou formiga e será ave ou outro animal, passando trezentos kalpas em cada condição. Ao renascer novamente como ser humano, será pobre e de condição humilde. Se já tiver recebido punição no mundo dos vivos, terá sessenta kalpas descontados. Se causar a morte de alguém, sua culpa será agravada em três graus. Atos de lealdade e piedade filial poderão abater nove partes da pena; quinhentas pequenas boas ações também abaterão nove partes.</p><p id="pt-b01239">Quem estuprar uma virgem terá filhos e filhas entregues à devassidão. Cada um dos períodos acima será de quatrocentos kalpas, isto é, sofrerá no inferno, será inseto ou formiga e será ave ou outro animal, passando quatrocentos kalpas em cada condição. Ao renascer novamente como ser humano, será servo. Se já tiver recebido punição no mundo dos vivos, terá cem kalpas descontados. Se causar a morte de alguém, sua culpa será agravada em quatro graus. Atos de lealdade e piedade filial poderão abater metade da pena; quatrocentas grandes boas ações também abaterão metade.</p><p id="pt-b01240">Quem aliciar uma virgem para uma relação sexual ilícita ficará sem descendência por duas vidas. Cada um dos períodos acima será de duzentos e cinquenta kalpas, isto é, sofrerá no inferno, será inseto ou formiga e será ave ou outro animal, passando duzentos e cinquenta kalpas em cada condição. Ao renascer novamente como ser humano, será uma pessoa doente. Se já tiver recebido punição no mundo dos vivos, terá setenta kalpas descontados. Se causar a morte de alguém, sua culpa será agravada em três graus. Atos de lealdade e piedade filial poderão abater sete partes da pena; quatrocentas boas ações de grau médio também abaterão sete partes.</p><p id="pt-b01241">Quem levar uma virgem a uma relação sexual ilícita por meio de galanteios terá sua dívida paga por sua esposa e suas filhas. Cada um dos períodos acima será de cem kalpas, isto é, sofrerá no inferno, será inseto ou formiga e será ave ou outro animal, passando cem kalpas em cada condição. Ao renascer novamente como ser humano, viverá em pobreza mediana. Se já tiver recebido punição no mundo dos vivos, terá quarenta kalpas descontados. Se causar a morte de alguém, sua culpa será agravada em dois graus. Atos de lealdade e piedade filial poderão abater nove partes da pena; quatrocentas pequenas boas ações também abaterão nove partes.</p><p id="pt-b01242">Quem estuprar uma mulher casada terá sua dívida paga por sua esposa e suas filhas. Cada um dos períodos acima será de trezentos e cinquenta kalpas, isto é, sofrerá no inferno, será inseto ou formiga e será ave ou outro animal, passando trezentos e cinquenta kalpas em cada condição. Ao renascer novamente como ser humano, será um subalterno a serviço das autoridades. Se já tiver recebido punição no mundo dos vivos, terá cem kalpas descontados. Se causar a morte de alguém, sua culpa será agravada em três graus. Atos de lealdade e piedade filial poderão abater metade da pena; trezentas grandes boas ações também abaterão metade.</p><p id="pt-b01243">Quem aliciar uma mulher casada para uma relação sexual ilícita terá sua vida reduzida em dois ji (um ji corresponde a doze anos). Cada um dos períodos acima será de cem anos, isto é, sofrerá no inferno, será inseto ou formiga e será ave ou outro animal, passando cem kalpas em cada condição. Ao renascer novamente como ser humano, será uma pessoa solitária. Se já tiver recebido punição no mundo dos vivos, terá trinta kalpas descontados. Se causar a morte de alguém, sua culpa será agravada em dois graus. Atos de lealdade e piedade filial poderão abater sete partes da pena; trezentas boas ações de grau médio também abaterão sete partes. <a xlink:href="#n25-anos-e-kalpas">[N25]</a></p><p id="pt-b01244">Quem levar uma mulher casada a uma relação sexual ilícita por meio de galanteios terá sua vida reduzida em um ji. Cada um dos períodos acima será de setenta kalpas, isto é, sofrerá no inferno, será inseto ou formiga e será ave ou outro animal, passando setenta kalpas em cada condição. Ao renascer novamente como ser humano, viverá em pobreza mediana. Se já tiver recebido punição no mundo dos vivos, terá vinte kalpas descontados. Se causar a morte de alguém, sua culpa será agravada em um grau. Atos de lealdade e piedade filial poderão abater nove partes da pena; trezentas pequenas boas ações também abaterão nove partes.</p><p id="pt-b01245">As três categorias acima — viúvas, virgens e mulheres casadas — referem-se todas a pessoas de sobrenomes diferentes. Se houver parentesco, a punição será dobrada. Quando se tratar de parentes pelos quais se deve guardar luto ritual, a culpa ficará logo abaixo da de incesto; se o ato ocorrer durante o luto, será agravada em três graus. Quer se trate de criadas, quer de escravos ou escravas, a culpa pela relação sexual ilícita será julgada segundo as regras acima. Se a relação ilícita não chegar a se consumar, a vida será reduzida em meio ji. Se houver morte de alguém, o caso será julgado como relação ilícita consumada.</p><p id="pt-b01246">Ter relações com uma prostituta reduz a vida em meio ano; se disso resultar uma doença grave, a redução será de um ano. Se a pessoa se corrigir e se arrepender, ficará isenta dessa redução. Se deixar um filho ou uma filha, renascerá como animal por uma vida; se se corrigir e se arrepender, ficará isenta de renascer como animal terrestre.</p><p id="pt-b01247">A quem busca relações com homens (isto é, aos homossexuais), aplicam-se as mesmas regras relativas às mulheres. A partir dos dezesseis anos, aplica-se a regra referente às virgens; até os dezesseis anos, a referente às mulheres casadas. Nos casos de conduta sexual envolvendo crianças pequenas, aplica-se a regra referente às relações com prostitutas. <a xlink:href="#n26-limites-de-idade-no-texto-anexo">[N26]</a></p><p id="pt-b01248">Quem produzir livros obscenos terá sua vida reduzida em dois ji. Se a leitura desses livros levar a danos decorrentes de conduta sexual imprópria, a culpa recairá sobre seu autor. Enquanto os livros não forem eliminados, ele jamais alcançará um novo renascimento. Fotografar ou filmar peças obscenas ou cenas eróticas implica a mesma culpa.</p><p id="pt-b01249">Divulgar um caso de conduta sexual imprópria reduz a vida em meio ji; se disso resultar a morte de alguém, a redução será de um ji. Falar dos assuntos íntimos das mulheres implica a mesma culpa. Se a pessoa se corrigir e se arrepender, todas essas culpas serão reduzidas de grau.</p><subtitle id="loc-1250">Suplemento do magistrado Lu às leis sobre a conduta sexual imprópria (o magistrado chamava-se Zhidao e viveu na época da dinastia Song)</subtitle><p id="pt-b01251">Em qualquer caso de relação sexual ilícita, se forem usados medicamentos para provocar um aborto e isso causar a perda de uma vida, a punição será dobrada.</p><p id="pt-b01252">Todo ato sexual ilícito com uma virgem a partir dos doze anos, ainda que resulte de aliciamento ou galanteio, será julgado como estupro. Se causar a morte de alguém, a punição será dobrada. <a xlink:href="#loc-1716">[N34]</a></p><p id="pt-b01253">Quem já tiver um filho e ainda assim tomar concubinas terá a vida reduzida em dois anos por cada uma. Se possuir títulos e honrarias oficiais, perderá oito partes deles, sem redução de sua vida.</p><p id="pt-b01254">Quem usar artifícios para seduzir uma viúva que não deseja se casar novamente terá a vida reduzida em três anos. Se ela desejar se casar novamente, não haverá redução da vida.</p><p id="pt-b01255">Quem se casar com uma viúva que deixe um filho ou uma filha na família do marido anterior terá a vida reduzida em dois anos. Se o filho ou a filha morrer em consequência disso, a redução será de um ji.</p><p id="pt-b01256">Quando amigos se encontrarem e conversarem sobre assuntos obscenos, a cada três vezes suas vidas serão reduzidas em um mês. Se levarem alguém a praticar conduta sexual imprópria, a redução será de três anos; para quem tiver títulos e honrarias oficiais, a punição será a suspensão e o atraso de tais distinções.</p><p id="pt-b01257">Quem, ao encontrar uma pessoa bonita na rua, a acompanhar com os olhos na chegada e na partida terá a vida reduzida em meio mês a cada três vezes. Quem demonstrar uma falsa solicitude, mas guardar más intenções, terá a vida reduzida em um suan por ocorrência. Nota original: um suan corresponde a três meses.</p><p id="pt-b01258">Quem gostar de ouvir peças obscenas terá a vida reduzida em três meses por ocorrência. Para quem tiver títulos e honrarias oficiais, a punição será a suspensão e o atraso de tais distinções. Quem encomendar a apresentação de uma peça obscena terá a vida reduzida em um suan por ocorrência; se causar algum dano, renascerá como animal por uma vida.</p><p id="pt-b01259">Quem gostar de ler livros obscenos terá a vida reduzida em meio mês a cada três vezes. Se disso resultar uma doença, a redução será de três anos.</p><p id="pt-b01260">Quem induzir outra pessoa a praticar conduta sexual imprópria receberá uma punição dois graus abaixo da correspondente à falta que ela cometer. O mesmo vale para pais e irmãos mais velhos que permitam tal conduta aos filhos e irmãos mais novos, bem como para quem a permita aos criados.</p><p id="pt-b01261">O magistrado Lu disse: “De acordo com estas punições do mundo dos mortos, é de fato difícil abrandar, mesmo um pouco, a punição de qualquer falta de conduta sexual imprópria, e a culpa do incesto é especialmente grave. Quer alguém de posição inferior viole uma pessoa de posição superior, quer uma pessoa mais velha maltrate uma mais nova, todos entrarão no Inferno dos Sofrimentos Ininterruptos após a morte. Os costumes de hoje estão profundamente corrompidos. Os que cometem essas faltas muitas vezes vêm de famílias de funcionários públicos e são filhos instruídos nos livros. Influenciando-se mutuamente durante muito tempo, acabam tomando isso por hábito, iludidos e sem sentir vergonha, sem saber qual será seu fim. Sem outra saída, os imortais apresentaram o assunto ao Imperador de Jade para que as punições do mundo dos mortos fossem publicamente transmitidas ao mundo dos vivos, sem necessidade de ocultá-las. Quem conhecer estas punições e souber se arrepender e se corrigir terá sua culpa reduzida. Quem praticar a lealdade e a piedade filial terá sua culpa reduzida. Quem acumular méritos terá sua culpa reduzida. Se, depois de ler este texto, a pessoa continuar sem se corrigir nem se arrepender e ainda o difamar, certamente sofrerá uma má retribuição ou será atingida por um raio. Quem ler este texto, acreditar nele, segui-lo e divulgá-lo amplamente terá os seguintes resultados: transmiti-lo a cem pessoas acrescentará um ji à sua vida; a duzentas pessoas, dará um filho a quem não o tem; a trezentas pessoas, acrescentará dois ji à sua vida; a quatrocentas pessoas, fará prosperar seus descendentes; a quinhentas pessoas, trará uma continuidade de títulos e honrarias oficiais; a mil pessoas, fará seu nome ser inscrito no Registro Vermelho. Divulgá-lo por todo o mundo permitirá tornar-se imortal após a morte. Transmiti-lo a dez pessoas ricas equivale a transmiti-lo a duzentas pessoas; transmiti-lo a um funcionário público equivale a transmiti-lo a cem pessoas. Tudo isso foi apresentado pelo Soberano Fuyou ao Imperador de Jade e aprovado para execução.”</p><p id="pt-b01262">Nota respeitosa: quanto aos kalpas passados no inferno, cada kalpa corresponde a uma passagem por um inferno, sofrendo ali uma vez o tormento de sua punição. O sofrimento no tribunal do mundo dos mortos não se compara ao do mundo dos vivos: embora a punição seja aplicada uma única vez e o corpo já morra, a pessoa é necessariamente reconduzida à forma humana para ser castigada e executada como antes. Só depois de cumprir todos os kalpas é que essa culpa se encerra. Se ainda houver outras faltas, receberá as punições infernais correspondentes. Já vimos no Dongming Ji descrições detalhadas de que, se aqueles que cometeram faltas sexuais se arrependerem, se corrigirem e se voltarem ao bem ainda em vida, terão suas culpas compensadas e reduzidas após a morte. Se não mudarem até morrer, serão conduzidos de um salão aos demais e terão de sofrer as penas dos diversos infernos, grandes e pequenos: o Inferno do Castigo do Coração, o Inferno dos Homens de Bronze, o Inferno do Corte dos Rins, o da Mordedura de Ratos, o do Caldeirão de Óleo e o do Desmembramento por Carros. Quem tiver cometido incesto entrará ainda no Inferno do Incesto e em outros, ou ficará para sempre encerrado no inferno, sofrendo suas várias penas. Entre as faltas sexuais, a culpa do incesto é especialmente grave. Em cada um dos infernos acima cumpre-se certo número de kalpas; só depois de completá-los se pode passar aos kalpas de renascimento. Nesses, um nascimento corresponde a um kalpa. Também vimos nos dois livros Jinke Jiyao e Lunke Jiyao a enumeração detalhada das regras de recompensa do bem e punição do mal. Estas regras do mundo dos mortos também distinguem reduções, isenções, agravamentos e compensações permitidas, mostrando que o bem e o mal são discriminados sem o menor desvio. Se consultarmos em conjunto os dois códigos, Jin e Lun, e o Dongming Ji, a retribuição de causa e efeito se tornará ainda mais digna de crédito e encontrará comprovação. <a xlink:href="#n35-uso-de-kalpa-nesta-nota-original">[N35]</a></p><p id="pt-b01263">Nota respeitosa: o Jinke Jiyao foi transmitido no sexto ano de Xianfeng, da dinastia Qing, quando o Soberano Wenchang desceu a Chengjinlin, em Leiguqiao, no distrito de Liling, em Hunan. Esse código havia sido originalmente estabelecido pelo Soberano Celeste e guardado em segredo numa caixa de jade. O Soberano Wenchang suplicou por um decreto imperial de jade para promulgá-lo no mundo humano e tornar claras as leis celestes, também chamadas leis do mundo dos vivos. Elas punem o mal cometido pelas pessoas, fazendo recair calamidades sobre elas para castigar seus corações. No terceiro ano de Guangxu, da dinastia Qing, os dois soberanos, o Civil e o Marcial, obtiveram, após suas súplicas, a autorização do Imperador de Jade para promulgar o Lunke, tornando claras as leis do mundo dos mortos. Essas leis examinam as culpas humanas e dispõem dos infernos para castigar suas almas. O texto foi ainda exposto e compilado por diversos imortais. Tudo o que o Jinke não havia esgotado teve seus princípios transmitidos em continuação neste livro; o manuscrito foi preparado por meio da escrita espiritual feiluan e divulgado amplamente no mundo humano.</p></section><section id="sec-63"><title><p id="loc-1264">Comentários à Escritura do Soberano Guansheng sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria <a xlink:href="#loc-1724">[N38]</a></p></title><subtitle id="loc-1265">Prefácio autoral</subtitle><p id="pt-b01266">As tendências da sociedade tornam-se cada dia mais desviantes, sobretudo no que diz respeito aos costumes sexuais. Com a abertura das relações sociais, os homens das famílias frequentemente gostam de se envolver em aventuras amorosas, julgando-se galantes; as mulheres mantêm casos extraconjugais e se consideram elevadas. Influenciados pelos costumes ocidentais, rapazes e moças gostam de ler publicações pornográficas, que agitam seus corações, e de assistir a filmes e peças sobre prazeres amorosos, que arrebatam seus espíritos. Incapazes de conter os sentimentos, transgridem os limites repetidamente; quando não conseguem se unir, tragédias se sucedem. Que desgraça! As sagradas relações humanas são rebaixadas a desejos animalescos. Além disso, muitas pessoas sem caráter humilham mulheres e violam inocentes; sua culpa é imperdoável. Os espíritos dominados pela luxúria são os mais numerosos no inferno. Como poderiam os transgressores deixar de despertar com vigor e mudar de rumo?</p><p id="pt-b01267">Basta olhar as ruas e os mercados movimentados: estabelecimentos de todo tipo ligados ao sexo se multiplicam, uns funcionando abertamente, outros oferecendo prazeres às escondidas. Embora as autoridades os proíbam rigorosamente, seus operadores são ainda mais ardilosos; cegos pelo desejo de lucro, não hesitam em desafiar a lei. Os que se entregam à luxúria acorrem a esses lugares, ficam ali e se esquecem de voltar, sem poupar dinheiro nem o próprio corpo. Os desafortunados contraem males que deixam consequências, e seus descendentes também sofrem. Muitos casais entram em conflito e muitas famílias se desfazem por isso. As notícias não cessam, os escândalos se acumulam, os casos de ofensa aos bons costumes são incontáveis; chegam até a provocar mortes, ou alguém é assassinado por causa de uma ligação amorosa anormal. Isso basta para mostrar como o desejo sexual faz mais mal às pessoas do que inundações e feras. Os antigos diziam: ‘Entre todos os males, a luxúria vem em primeiro lugar; não se deve tomar o caminho da morte.’ Como não acreditar?</p><p id="pt-b01268">O Soberano disse.</p><p id="pt-b01269">O Soberano diz.</p><p id="pt-b01270">A conduta sexual imprópria está à frente de todos os males.</p><p id="pt-b01271">Frequentar prostitutas e passar a noite com elas é conduta sexual imprópria; ter relações ilícitas com mulheres de outras famílias também o é. ‘Todos os males’ designa as mais diversas más ações. ‘À frente’ deve ser entendido como ‘em primeiro lugar’. Isso significa que, embora existam inúmeros males no mundo, ter relações ilícitas com a esposa ou a filha de outra pessoa e destruir sua reputação e honra é sempre o primeiro dos grandes males.</p><p id="pt-b01272">A piedade filial precede todas as boas condutas.</p><p id="pt-b01273">Servir bem aos pais chama-se piedade filial. Ela é a virtude da obediência: significa cuidar dos pais e obedecer-lhes, acatando-os em tudo para alegrar seus corações. ‘Todas as boas condutas’ refere-se à prática das mais diversas boas ações. ‘Precede’ significa que isso deve ser feito primeiro. Isso quer dizer que, enquanto se vive neste mundo, deve-se antes de tudo praticar a piedade filial para retribuir o trabalho penoso dos pais; todas as demais boas ações que cabem fazer podem vir depois. No Clássico da Piedade Filial, Confúcio diz que as infrações abrangidas pelas cinco penas são três mil, mas nenhuma culpa é maior que a falta de piedade filial. Vê-se, assim, que quem consegue praticá-la adquire imenso mérito, enquanto quem não a pratica incorre em enorme culpa. O primeiro capítulo dos Analectos, ‘Estudar’, afirma que a piedade filial e o respeito entre irmãos são a raiz da conduta humana. Entre os ensinamentos transmitidos pelos imortais e pelos budas, o primeiro é fortalecer a piedade filial e o respeito entre irmãos para dar importância às relações humanas. Tudo isso demonstra claramente que, nos inúmeros clássicos e escrituras, a piedade filial e o respeito entre irmãos vêm em primeiro lugar.</p><p id="pt-b01274">Quem mantém relações sexuais ilícitas com outra pessoa mata três gerações dela.</p><p id="pt-b01275">Ter a esposa ou a filha envolvida numa relação sexual ilícita por ação de outra pessoa é a maior desonra do mundo humano. ‘Três gerações’ refere-se a três gerações de uma família. Quem pratica esse ato faz, acima, os antepassados da outra pessoa sofrerem vergonha no mundo dos mortos; no meio, faz seu pai, seus irmãos mais velhos e seu marido perderem a face diante dos outros; abaixo, impede seus filhos e filhas de abrirem caminho na vida. Destruir assim a reputação e a honra de alguém faz seus antepassados, pais, descendentes e toda a linhagem sofrerem juntos humilhação e vergonha. É uma culpa extremamente grave, na verdade pior que a de matar.</p><p id="pt-b01276">Assim que o caso vem à tona, a desonra se espalha por toda parte.</p><p id="pt-b01277">‘Vir à tona’ significa que o caso de adultério foi descoberto por uma investigação. ‘Desonra’ é a má reputação. ‘Espalhar-se por toda parte’ significa que, às vezes, basta a notícia sair no jornal para que pessoas de todas as aldeias e regiões falem do caso, assim como pessoas de todos os distritos e cidades.</p><p id="pt-b01278">O pai não a reconhece como filha; o marido, como esposa; o filho, como mãe.</p><p id="pt-b01279">Quando uma mulher comete uma falta sexual, seu pai, seu marido e seu filho já se sentem humilhados e envergonhados, sem condições de encarar as pessoas. Temem não conseguir esconder o caso a tempo. Quem se disporia a vir reconhecê-la como filha, esposa ou mãe?</p><p id="pt-b01280">Pode-se chegar à lâmina sobre o pescoço, e tanto o homem quanto a mulher morrem.</p><p id="pt-b01281">Quando alguém mantém relações ilícitas com a esposa ou a filha de outra pessoa e o caso é descoberto, isso frequentemente acaba em homicídio. Às vezes, o amante e a mulher adúltera perdem a vida por causa disso.</p><p id="pt-b01282">Os corpos ficam expostos, os ossos à mostra; a desonra alcança a família e os parentes.</p><p id="pt-b01283">Depois que ocorre um homicídio e uma vida é perdida, é necessário chamar as autoridades para examinar o corpo. Como seria possível que o cadáver e seus ossos não ficassem expostos? Quando os outros perguntam a que família pertencia a pessoa morta por manter uma relação ilícita, sua linhagem e seus parentes também ficam sem condições de encarar as pessoas.</p><p id="pt-b01284">Perguntam de que família é aquela mulher, tão desprovida de ensinamentos; de que linhagem é aquele homem, que se assemelha a cavalos e bois.</p><p id="pt-b01285">‘Desprovida de ensinamentos’ significa que não recebeu educação familiar. ‘Assemelhar-se a cavalos e bois’ significa ser como esses animais, sem conhecer o decoro, a retidão ou a vergonha. Quando os outros perguntam de que família é a mulher e de que linhagem é o homem, toda a família e toda a linhagem se envergonham.</p><p id="pt-b01286">Quando se oferecem peônias e se colhem orquídeas, os dois corações tornam-se ainda mais próximos.</p><p id="pt-b01287">Às vezes colhem peônias, às vezes flores de orquídea, e as oferecem às escondidas à pessoa amada. Fazem tudo com extremo cuidado para que ninguém saiba.</p><p id="pt-b01288">Chegam a envenenar o próprio marido e são condenados à pena capital.</p><p id="pt-b01289">Quando uma mulher adúltera deseja manter por muito tempo seu relacionamento com o amante, inevitavelmente compra veneno às escondidas para matar o próprio marido. Assim que a culpa e as provas são denunciadas, as autoridades necessariamente tratam o caso com rigor, segundo as regras, e aplicam a pena máxima para punir a conduta sexual desregrada.</p><p id="pt-b01290">Proferida a sentença da pena máxima, a alma se desfaz e o espírito se esvai.</p><p id="pt-b01291">Uma vida deve pagar pela vida tirada, e a falta sexual não admite perdão. O juiz examina o caso e estabelece a culpa merecedora da morte. Assim que a decisão é tomada e a pena de morte é anunciada, todos ficam com a alma em frangalhos, sem conseguir facilmente um novo renascimento.</p><p id="pt-b01292">Pais e filhos clamam de dor; mães e filhas carregam o sofrimento. Multidões riem e insultam. De que adianta o arrependimento agora?</p><p id="pt-b01293">Os pais chegam ao local da execução e veem seus filhos ou filhas morrerem sob uma punição severa; só lhes resta chorar e gritar de dor. Há ainda incontáveis pessoas que riem ou insultam, todas dizendo que a mulher adúltera e seu amante, que tramaram a morte do marido, mereciam esse destino. Ainda que sintam arrependimento, já é tarde demais.</p><p id="pt-b01294">No entanto, os que se entregam à conduta sexual imprópria permanecem impassíveis, sem conhecer a vergonha.</p><p id="pt-b01295">‘Impassível’ significa tranquilo; ‘vergonha’ significa constrangimento moral. Quer dizer que aqueles que se entregam à conduta sexual imprópria, ao contrário, sentem-se seguros, como se nada tivesse acontecido, e não sentem vergonha.</p><p id="pt-b01296">Embora formados nos ensinamentos morais, aceitam corromper as normas e desordenar os costumes.</p><p id="pt-b01297">As pessoas que estudam e compreendem os princípios são aquelas formadas nos ensinamentos morais. ‘Normas’ são as cinco virtudes constantes: benevolência, retidão, decoro, sabedoria e fidelidade à palavra. ‘Costumes’ são os usos sociais. Isso significa que também há pessoas instruídas, conhecedoras dos princípios, que violam a lei mesmo conhecendo-a, mantêm relações ilícitas com mulheres de outras famílias e aceitam praticar atos que corrompem os costumes.</p><p id="pt-b01298">Às vezes, o irmão mais velho toma para si a esposa do mais novo; o mais novo mantém relações ilícitas com a esposa do mais velho.</p><p id="pt-b01299">A cunhada, no primeiro caso, é a mulher do irmão mais novo; no segundo, a esposa do irmão mais velho. ‘Tomar para si’ significa tomar à força; ‘ter relações ilícitas’ significa mantê-las às escondidas. Se o irmão mais velho toma à força a esposa do mais novo, ou se o mais novo mantém relações ilícitas às escondidas com a esposa do mais velho, esses irmãos são verdadeiros transgressores dos ensinamentos morais.</p><p id="pt-b01300">Às vezes, um tio sente cobiça pela esposa do sobrinho; um sobrinho forma uma união ilícita com a esposa do tio. <a xlink:href="#n39-parentesco-paterno-neste-trecho">[N39]</a></p><p id="pt-b01301">Seja uma relação incestuosa, seja uma união contrária ao decoro, ambas são chamadas uniões ilícitas. Às vezes, o tio vê a beleza da esposa do sobrinho, sente desejos impróprios e procura manter uma relação ilícita com ela. Às vezes, o sobrinho vê a beleza da esposa do tio e procura um meio de formar uma união ilícita com ela. Todos são animais vestidos como pessoas. <a xlink:href="#n39-parentesco-paterno-neste-trecho">[N39]</a></p><p id="pt-b01302">Os dois se entregam à alegria e ao prazer, atentos apenas à satisfação imediata.</p><p id="pt-b01303">‘Alegria’ é contentamento; ‘prazer’ é deleite; ‘satisfação’ é bem-estar. Isso significa que o homem e a mulher se alegram por conseguirem manter uma relação adúltera, mas só conhecem o bem-estar do momento, sem levar em conta a ruína que virá depois.</p><p id="pt-b01304">Passam metade da vida em desgraça, sem saber da ruína que virá após sua morte.</p><p id="pt-b01305">‘Metade da vida’ é metade da existência; ‘desgraça’ significa que as circunstâncias não são favoráveis; ‘ruína’ reúne os sentidos de decadência e queda. Isso significa que aqueles que se entregam à conduta sexual imprópria frequentemente acabam arruinados e desacreditados. Já passam metade da vida sem que as coisas lhes corram bem e, depois de sua morte, seus descendentes também terão a família arruinada e seus membros mortos.</p><p id="pt-b01306">Ou se interrompem as oferendas de incenso, ou os descendentes acabam reduzidos à mendicância.</p><p id="pt-b01307">Os descendentes são os pés que sustentam o incensário dos mais velhos. Quando a descendência se extingue, interrompe-se também a fumaça do incenso. Mendigos são os que pedem cereais e comida. Mesmo que quem se entrega à conduta sexual imprópria tenha descendentes, estes necessariamente acabarão reduzidos à mendicância.</p><p id="pt-b01308">Ou a esposa e as filhas pagam a dívida, ou os descendentes caem na miséria.</p><p id="pt-b01309">‘Pagar’ significa quitar uma dívida. Isso quer dizer que a esposa e as filhas de quem se entrega à conduta sexual imprópria necessariamente pagarão por ele a dívida dessas faltas, aceitando submeter-se a relações ilícitas com outras pessoas. ‘Cair na miséria’ significa que os tempos e a sorte declinam, tudo se arruína e a pessoa perde o ânimo e a coragem.</p><p id="pt-b01310">Túmulo solitário, fantasma errante: quem queimará dinheiro de papel?</p><p id="pt-b01311">Depois da morte, uma pessoa é chamada fantasma; um monte de terra sobre o corpo forma o túmulo. Quando alguém entregue à conduta sexual imprópria morre longe de casa e é enterrado numa montanha deserta, torna-se um fantasma errante junto a um túmulo solitário. Quem virá queimar dinheiro de papel e pendurar papéis de oferenda para ele?</p><p id="pt-b01312">Dissoluto e leviano: quem lhe oferecerá comida?</p><p id="pt-b01313">Isso se refere aos jovens levianos, dissolutos e entregues à conduta sexual imprópria: é certo que muitos deles ficarão sem descendência. Em seus aniversários e nas festas do ano, quem lhes oferecerá pratos e arroz?</p><p id="pt-b01314">Ao falar e pensar nisso, como não sentir tristeza?</p><p id="pt-b01315">‘Falar’ é dizer; ‘pensar’ é refletir. Ao falar disso e pensar nisso, o Soberano também sente profunda tristeza pelas pessoas.</p><p id="pt-b01316">Até nas famílias de lavradores que trabalham duramente, há quem se torne frívolo.</p><p id="pt-b01317">‘Famílias de lavradores’ são as famílias que cultivam a terra. ‘Frívolo’ significa leviano e incapaz de suportar o trabalho penoso. Isso quer dizer que, além dos estudantes letrados, os filhos das famílias rurais também adquirem hábitos levianos e não querem se esforçar nem trabalhar duramente.</p><p id="pt-b01318">Não pensam em honrar os pais nem em respeitar os mais velhos; em vez disso, furam paredes e saltam muros.</p><p id="pt-b01319">‘Não pensam’ significa que não cogitam fazê-lo. ‘Pais’ são o pai e a mãe; ‘mais velhos’ são os membros das gerações anteriores. ‘Furo’ é uma abertura. ‘Furar paredes’ significa perfurá-las, fazendo buracos grandes ou pequenos para espiar às escondidas as mulheres da vizinhança. ‘Saltar’ é transpor; há até quem passe por cima do muro para manter relações ilícitas com as mulheres. Isso significa que os jovens levianos não se preocupam com a piedade filial nem com o respeito entre irmãos e, em vez disso, praticam adultério, furtos e outras condutas sexuais impróprias.</p><p id="pt-b01320">Os campos ao sul e as terras a leste tornam-se áridos e ressequidos.</p><p id="pt-b01321">‘Campos ao sul’ são as terras cultivadas do lado sul; ‘terras a leste’ são as do lado leste. ‘Tornar-se’ significa mudar. ‘Ressequidos’ significa que as plantas definham e morrem. Isso quer dizer que, por não haver ninguém para retirar o mato e adubar, as plantações de toda parte, antes viçosas, acabam secando e morrendo.</p><p id="pt-b01322">Nos pavilhões de Qin e nas casas de Chu, já não perguntam pela primavera ou pelo outono.</p><p id="pt-b01323">‘Pavilhões de Qin’ são os edifícios e terraços do reino de Qin; ‘casas de Chu’ são as hospedarias do reino de Chu. Ambos são lugares onde vivem e se abrigam prostitutas. Isso significa que os filhos dos camponeses se deixam fascinar pelos bairros de prostituição, demoram-se ali e se esquecem de voltar, sem perceber a passagem da primavera e do outono.</p><p id="pt-b01324">Vendem a herança dos antepassados para quitar dívidas de aventuras amorosas, e todo o sustento dos pais é suspenso.</p><p id="pt-b01325">“Suspender” significa fazer cessar. “Sustento” são os alimentos e cereais destinados à manutenção dos pais. “Dívida” é uma quantia devida. “Dívidas de aventuras amorosas” são os empréstimos contraídos para pagar os gastos com prostitutas. Quando essas dívidas se acumulam, só resta vender toda a herança dos antepassados, fazendo cessar também o fornecimento de alimentos e cereais aos pais.</p><p id="pt-b01326">Empenham o dote para se embriagar e comer até a saciedade, de manhã à noite; há muito não se acende o fogo que alimenta seus filhos.</p><p id="pt-b01327">“Empenhar” significa dar algo em garantia para obter dinheiro. “Dote” são as roupas e joias que a esposa trouxe ao se casar. Por passarem dias e noites embriagando-se e comendo à vontade nos prostíbulos, logo empenham todo o dote. Assim, em casa, o fogo se apaga, não há arroz para pôr na panela, e os filhos passam a sofrer de frio e fome.</p><p id="pt-b01328">Acaba-se o dinheiro junto à cabeceira; doenças decorrentes do mal cometido acompanham o corpo.</p><p id="pt-b01329">“Cabeceira” é o lugar junto ao travesseiro. “Acabar-se o dinheiro” significa gastar todo o dinheiro que se tinha. “Doenças decorrentes do mal cometido” são a sífilis ou a gonorreia contraídas nos prostíbulos, ou doenças como vômitos de sangue e consunção, provocadas pelo excesso de desejo sexual, que passam a acompanhar a pessoa. Como são males que ela própria causou, recebem esse nome.</p><p id="pt-b01330">Caído na rua, faz parentes e amigos taparem o nariz.</p><p id="pt-b01331">Depois de contrair feridas infecciosas e outras doenças de retribuição cármica por passar noites com prostitutas, o homem dado à luxúria é rejeitado por elas e enxotado para fora. Incapaz até de andar, só lhe resta ficar caído na rua. O mau cheiro é insuportável, e todos os parentes e amigos que passam por ali tapam o nariz.</p><p id="pt-b01332">A vida se prolonga por um breve instante; os antigos conhecidos sentem o coração doer.</p><p id="pt-b01333">“Vida” é a vida de uma pessoa. “Prolongar” significa reter. “Breve instante” é menos de meio shichen. “Antigos conhecidos” são parentes e amigos de muitos anos. “Sentir o coração doer” significa ficar triste. Isso quer dizer que, embora a vida do homem dado à luxúria ainda se prolongue por um breve instante e ele não tenha morrido, todos os seus antigos conhecidos se entristecem ao vê-lo.</p><p id="pt-b01334">Ao recordar os anos distantes, como suportar olhar para trás?</p><p id="pt-b01335">“Distante” significa longínquo. “Recordar” é voltar em pensamento ao passado. “Aqueles anos” são os dias de outrora. “Como suportar” significa não conseguir suportar. “Olhar para trás” é virar a cabeça. Isso quer dizer que, ao recordar, a partir desse momento, os dias anteriores à retribuição maléfica e a alegria que então havia, a pessoa realmente não suporta voltar a cabeça para contemplá-los.</p><p id="pt-b01336">Diante de semelhante fim, não há por que suspirar.</p><p id="pt-b01337">“Semelhante” significa desse modo. “Fim” é o desfecho. “Não há por que” significa não ser necessário. Isso quer dizer que um homem dado à luxúria que recebe a retribuição maléfica e chega a esse fim obtém o que merece; não é preciso suspirar por ele nem ter compaixão.</p><p id="pt-b01338">Também os bons artesãos e os hábeis artífices devem observar as normas.</p><p id="pt-b01339">“Artesão” e “artífice” designam quem possui uma habilidade manual, como os diversos profissionais de técnicas industriais. “Bom” significa primoroso; “hábil” significa engenhoso. “Normas” são as regras e os padrões. Isso quer dizer que quem aprendeu um ofício deve observar as regras e os padrões transmitidos por seu mestre e jamais se entregar à luxúria ou cobiçar a beleza sensual.</p><p id="pt-b01340">Desobedecem aos ensinamentos do mestre e combinam às escondidas encontros na hospedaria; ignoram as palavras dos amigos e logo desejam prazeres ao luar.</p><p id="pt-b01341">“Ensinamentos do mestre” refere-se ao mestre de ofício, que ensinava aos aprendizes a não se entregarem à luxúria nem cobiçarem a beleza sensual. “Desobedecer” é não seguir. “Combinar às escondidas” significa convidar secretamente mulheres de outras famílias para encontros em estalagens ou hospedarias, a fim de manter relações ilícitas e passar a noite juntos. Mesmo quando os amigos o aconselham a não se entregar à luxúria, ele não ouve e insiste em seduzir mulheres de outras famílias ao luar.</p><p id="pt-b01342">Por mais graciosa que seja a jovem, por mais delicada que seja a mulher, dificilmente escapará à rede de ferro. Não importa que seu rosto seja uma flor ou uma lua: lança-se o anzol de metal.</p><p id="pt-b01343">“Jovem graciosa” é uma moça de bela aparência. “Mulher delicada” é uma mulher delicada. “Rosto de flor” é um rosto belo como uma flor. “Rosto de lua” é um rosto claro como a lua. A rede de ferro é feita de arame; uma vez presos nela, aves e animais não conseguem escapar. O anzol de metal é feito de cobre ou ferro; peixes e tartarugas presos nele não conseguem fugir. Isso quer dizer que mulheres castas são frequentemente enredadas por libertinos, seja por meio de artimanhas, seja pela atração do dinheiro. Muitas caem nessas armadilhas, são ultrajadas e têm sua reputação e sua honra destruídas. Pensar nisso faz ranger os dentes de indignação e ódio.</p><p id="pt-b01344">A jovem esposa, envergonhada, pensa em se enforcar numa viga; a bela jovem, ultrajada, dispõe-se a lançar-se às águas de um rio.</p><p id="pt-b01345">Uma mulher casada ainda jovem é chamada de jovem esposa; uma moça que enfeita o rosto com rouge e pó é chamada de bela jovem. Uma vez ultrajadas e desonradas, sem coragem de encarar os outros, há aquelas que se enforcam numa viga ou morrem afogadas, apenas para escapar ao escárnio e aos insultos.</p><p id="pt-b01346">Sem conseguir dissipar o rancor funesto, vão chorar suas queixas ao Portal dos Fantasmas; sem se dispersarem, as almas injustiçadas apresentam suas petições no mundo dos mortos.</p><p id="pt-b01347">“Chorar suas queixas” significa relatar algo em meio a lágrimas. “Apresentar uma petição” é entregar uma acusação por escrito. O Portal dos Fantasmas é a passagem de entrada da administração do mundo dos mortos. O mundo dos mortos, aqui, é a sede do tribunal de seu soberano. Isso quer dizer que as mulheres ultrajadas, mortas de vergonha, não se conformam com a própria morte. A injustiça que lhes enche o peito primeiro se condensa em rancor e depois se transforma em uma energia maléfica. Querem tornar-se espíritos ferozes para capturar vivo o homem culpado e assim vingar seu ódio. Se não chorarem suas queixas ao Portal dos Fantasmas nem apresentarem petições ao tribunal do mundo dos mortos, pedindo ao soberano permissão para vingar a injustiça, como poderão dissipar essa energia maléfica? Como poderá a injustiça ser esclarecida? Em vinganças desse tipo, o espírito injustiçado pode levar o homem culpado a se enforcar ou a se matar, ou golpeá-lo até que morra sangrando pelos sete orifícios. Casos como esses aparecem com frequência nos registros de acontecimentos extraordinários ligados aos exames imperiais de diferentes dinastias.</p><p id="pt-b01348">No Quinto Salão, a lei é rigorosa e não admite demora.</p><p id="pt-b01349">“Quinto Salão” é a quinta repartição judicial do mundo dos mortos. “Rigorosa” refere-se à extrema severidade das leis do Rei Yama. Isso quer dizer que, quando alguém que cometeu conduta sexual imprópria morre e chega ao mundo dos mortos, o rei o repreende de acordo com o princípio de que essa conduta é o primeiro de todos os males. Jamais cede a considerações pessoais; como poderia conceder sequer um instante de tolerância?</p><p id="pt-b01350">Martelos de cobre e lâminas de ferro: sangue e carne se espalham. Árvores de espadas e montanhas de facas: corpo e espírito se desfazem.</p><p id="pt-b01351">Com martelos de cobre, o corpo é esmagado; com lâminas de ferro, é cortado em pedaços. Como poderiam seu sangue e sua carne não se espalhar por toda parte? Pode até ser lançado contra árvores de espadas ou em montanhas de facas. Seus restos corporais inevitavelmente se dispersarão no inferno, e sua energia espiritual cairá no mar de sofrimento. Que fim para quem se entrega à luxúria! Como não ter pena?</p><p id="pt-b01352">Um só pensamento equivocado, e nem uma vida inteira basta para resgatá-lo.</p><p id="pt-b01353">“Equivocado” significa errado. “Resgatar” é comprar algo de volta. “Uma vida inteira” significa toda a existência. Isso quer dizer que, por ter inicialmente alimentado um pensamento errado e cometido conduta sexual imprópria, a pessoa passa a vida sem conseguir resgatar sua falta anterior e escapar à retribuição maléfica do inferno.</p><p id="pt-b01354">Aquela pessoa — como poderá suportar o que sente?</p><p id="pt-b01355">“Aquela pessoa” refere-se a esse indivíduo. Isso quer dizer: quando um devasso chega a tal momento, como conseguirá aceitar sua situação? Como poderá voltar atrás por meio do arrependimento?</p><p id="pt-b01356">É detestável que os que comerciam por rios e lagos gastem ouro como se fosse terra.</p><p id="pt-b01357">“Comerciar” é fazer negócios. Isso quer dizer que o mais detestável são os comerciantes que percorrem os três rios e os cinco lagos, entregam-se à luxúria e frequentam prostitutas, gastando ouro e prata como se fossem esterco e terra.</p><p id="pt-b01358">Abraçam prostitutas e entregam-se a galanteios; que lhes importa se a noite é longa ou curta?</p><p id="pt-b01359">“Prostituta” é a mulher que vende relações sexuais. Isso quer dizer que abraçam prostitutas com os braços e, entre bebidas e risos, excitam seus desejos lascivos. Permanecem ali dia e noite sem voltar para casa, sem sequer se dar ao trabalho de contar se a noite é longa ou curta.</p><p id="pt-b01360">Apegados às flores ao vento, buscam prazer e se esquecem de que a lua se põe e os corvos começam a cantar.</p><p id="pt-b01361">“Apegar-se” significa cobiçar e não querer se separar. “Flores ao vento” são flores que se movem ao vento: seus movimentos encantam e despertam desejos lascivos. O ocaso da lua e o canto dos corvos anunciam que o dia está prestes a clarear. Isso quer dizer que só pensam em dormir entre prazeres amorosos, tomam o apego às mulheres do mundo por felicidade e se esquecem de que está quase amanhecendo, ainda sem querer se separar.</p><p id="pt-b01362">Há muito longe de casa e dos vizinhos, raramente enviam cartas levadas por peixes; permanecendo em terras distantes, mal fazem chegar notícias levadas por gansos.</p><p id="pt-b01363">“Cartas levadas por peixes” alude aos antigos, que usavam o ventre de peixes para transmitir cartas. “Notícias levadas por gansos” refere-se ao envio de uma carta à terra natal atada à pata de um ganso, no episódio de Su Wu, da dinastia Han. Isso quer dizer que os comerciantes em terras longínquas, fascinados por prostitutas, não se importam com o tempo que passa e tampouco enviam cartas para casa.</p><p id="pt-b01364">Esgota-se a água vital inata; tomam remédios, mas eles não fazem efeito. Só depois de adoecer se arrependem; suplicam aos deuses, mas eles não respondem.</p><p id="pt-b01365">Uma vez esgotadas a água renal e a essência inatas por causa da luxúria e da cobiça pela beleza sensual, a aparência inevitavelmente se torna definhada, a doença passa a ser incurável e os remédios não fazem efeito. Só então a pessoa se arrepende, mas mesmo que suplique aos deuses e lhes faça promessas, tudo será em vão.</p><p id="pt-b01366">Choram nos confins do mundo: quem virá visitá-los?</p><p id="pt-b01367">“Confins do mundo” é como dizer longe, à beira do céu. “Visitar” significa alguém vir vê-los. Isso quer dizer: agora que você está doente, mesmo que chore voltado para os confins do mundo, quem virá visitá-lo?</p><p id="pt-b01368">Mortos, tornam-se fantasmas em terra alheia; suas almas acabam por permanecer em região estrangeira.</p><p id="pt-b01369">Tendo morrido longe de casa, em terras estranhas, sua alma e seu fantasma inevitavelmente permanecerão por muito tempo nessa região, sem retornar. “Região” também significa lugar.</p><p id="pt-b01370">Entre rios e montanhas, a mil li de distância, quem terá pena de seus ossos secos? Um monte de ervas selvagens; não há parentes nem amigos a encontrar.</p><p id="pt-b01371">Um esqueleto enterrado a mil li de distância: quem virá ter compaixão dele e levá-lo de volta à terra natal? Sobre seu túmulo há apenas um monte de ervas verdes. Sem parentes nem amigos que venham visitá-lo, quem terá pena dele, queimará dinheiro de papel, pendurará papel de oferenda e impedirá que bois e cavalos pisoteiem sua sepultura? “Encontrar” significa procurar.</p><p id="pt-b01372">A retribuição se manifesta claramente, sem o menor desvio.</p><p id="pt-b01373">“Manifestar-se claramente” significa ser evidente. Isso quer dizer que a retribuição é perfeitamente clara e não erra nem no mais ínfimo detalhe.</p><p id="pt-b01374">Eu vos admoesto com insistência e dirijo minha esperança aos quatro grupos do povo.</p><p id="pt-b01375">“Eu” refere-se ao próprio Soberano. “Com insistência” significa de modo sincero e solícito. “Admoestar” é esclarecer e advertir. Os quatro grupos do povo são os letrados, os agricultores, os artesãos e os comerciantes. Isso quer dizer: exorto vocês a corrigir suas faltas e a se voltar para o bem; jamais se entreguem à luxúria.</p><p id="pt-b01376">Se de fato cultivarem o coração e a natureza interior, sem cometer conduta sexual imprópria,</p><p id="pt-b01377">“De fato” exprime decisão. “Cultivar” sugere a ação da água que penetra e nutre. Isso quer dizer que, se a pessoa de fato nutrir o coração e a natureza interior com benevolência, retidão e virtude moral, sem se deixar deslumbrar pelo desejo sensual, naturalmente não cometerá a conduta sexual imprópria, o primeiro dos males.</p><p id="pt-b01378">a poesia e os ritos serão transmitidos em família, celeiros e arcas trarão alegria, o renome e a prosperidade se concretizarão, e a longevidade virá acompanhada de abundantes bênçãos.</p><p id="pt-b01379">Poderão também transmitir a poesia, os livros, os ritos e a música como regras da família, ensinando seus descendentes a estudar com afinco e cultivar a terra com diligência. Por um lado, mil celeiros e dez mil arcas poderão trazer riqueza; por outro, realizações e reputação se consolidarão, permitindo desfrutar de bênçãos e longevidade. “Longevidade” é viver até uma idade avançada. “Abundantes bênçãos” significa grande ventura.</p><p id="pt-b01380">O lintel da porta resplandece: é, de fato, uma família rica e honrada.</p><p id="pt-b01381">“Lintel da porta” refere-se à viga horizontal sobre a porta. “Resplandecer” significa haver uma placa com letras douradas, cujo brilho é digno de admiração. É realmente a aparência de uma casa rica e honrada.</p><p id="pt-b01382">A vizinhança ganha lustre; são dignos de ser vigas mestras do país.</p><p id="pt-b01383">“Vizinhança” são as portas, as ruas e os becos onde vivem os membros do clã e os vizinhos. “Viga mestra” é quem ocupa um alto cargo, como uma viga que sustenta o país. Quando alguém assim vive no lugar, todas as famílias participam de sua glória e recebem a mais alta honra. “Ser digno” significa estar à altura.</p><p id="pt-b01384">Diante do pátio brotam ervas auspiciosas; orquídeas e osmantos exalam sua fragrância.</p><p id="pt-b01385">“Diante do pátio” significa diante dos degraus. “Ervas auspiciosas” são ervas aromáticas. Isso quer dizer que o pátio está repleto de orquídeas e flores de osmanto, todas perfumadas. Somente as casas ricas e honradas apresentam tal aspecto.</p><p id="pt-b01386">À porta se eleva uma névoa auspiciosa; chun e xuan florescem juntos.</p><p id="pt-b01387">“Névoa auspiciosa” é uma energia de bom augúrio. O vigor do chun representa o pai ainda vivo; a exuberância do xuan representa a mãe ainda viva. Isso quer dizer que ambos os pais estão presentes e que, à porta, uma energia auspiciosa constantemente se enrosca no ar.</p><p id="pt-b01388">Ao investigar a origem de tudo isso, vê-se que metade vem da abstenção. <a xlink:href="#loc-1720">[N36]</a></p><p id="pt-b01389">“Investigar” significa examinar. Isso quer dizer que, ao examinar a origem dessas situações, vê-se que, na maior parte dos casos, são pessoas que não cometem conduta sexual imprópria. A razão de tudo isso é, naturalmente, fácil de compreender. <a xlink:href="#loc-1720">[N36]</a></p><p id="pt-b01390">Mas, desde a Antiguidade, tampouco faltam pessoas entregues à luxúria.</p><p id="pt-b01391">“Não faltar” significa não serem poucas. Isso quer dizer que, desde os tempos antigos, não são poucas as pessoas que cobiçam a beleza sensual e se entregam à luxúria.</p><p id="pt-b01392">Jie de Xia era um governante sem princípios: favoreceu Meixi e arruinou rios e montanhas. Zhou de Shang não tinha benevolência: amou Daji e destruiu os altares da terra e dos cereais.</p><p id="pt-b01393">Jie de Xia é o rei Jie da dinastia Xia. Meixi era sua consorte. Zhou de Shang é o rei Zhou da dinastia Shang. Daji era sua consorte. “Rios e montanhas” e “altares da terra e dos cereais” são outras maneiras de designar o domínio sob o Céu. Isso quer dizer que tanto Jie quanto Zhou perderam seu reino porque se deixaram cegar pela beleza feminina.</p><p id="pt-b01394">O duque Zhuang de Qi perdeu a vida por causa de Tang Jiang: uma tragédia indescritível. O duque Ling de Chen morreu por causa da senhora Xia: uma vergonha da qual mal se pode falar.</p><p id="pt-b01395">O duque Zhuang era o governante do Estado de Qi. Tang Jiang era a esposa do senhor Tang, um ministro de Qi. Zhuang de Qi foi assassinado por manter relações ilícitas com Tang Jiang. O duque Ling era o governante do Estado de Chen. A senhora Xia era a mãe de Xia Zhengshu, ministro de Chen. Ling de Chen foi assassinado por manter relações ilícitas com ela. A tragédia de seus destinos e a infâmia de seus nomes são igualmente difíceis de abordar.</p><p id="pt-b01396">Quanto a Xintai e Qiangci e aos versos sobre Sangjian, às margens do Pu, quem os lê não deixa de chamar seus protagonistas de animais.</p><p id="pt-b01397">O poema Xintai, da seção Beifeng, censura o duque Xuan de Wei por tomar para si a mulher destinada a seu filho. O poema Qiangci, da seção Yongfeng, censura o príncipe Tou por manter relações ilícitas com a mãe do governante. Além disso, no Estado de Wei, às margens do rio Pu, havia um lugar chamado Sangjian. Seus costumes eram licenciosos, sem conhecimento do decoro ou da retidão, em nada diferentes dos dos animais. Por isso, quem lê esses poemas não deixa de dizer que suas condutas eram iguais às dos animais. <a xlink:href="#n27-o-nome-tou">[N27]</a></p><p id="pt-b01398">Podemos recordar os acontecimentos passados: chegaram a tal ponto.</p><p id="pt-b01399">“Acontecimentos passados” refere-se aos episódios já mencionados de Jie, Zhou e dos governantes de Qi e Chen. Isso quer dizer que podemos recordar como sua entrega à luxúria os levou a se comportar como animais.</p><p id="pt-b01400">Quanto a mim, a serviço da casa Han, meu coração pode ser mostrado por inteiro.</p><p id="pt-b01401">O Soberano diz: Eu era um servidor dos Han e me dedicava inteiramente a sustentar a casa Han. Tudo o que havia em meu coração, até a menor parcela, podia ser declarado diante de todo o mundo.</p><p id="pt-b01402">Com uma vela na mão, esperei o amanhecer; não tinha intenção de me aliar a Cao Man.</p><p id="pt-b01403">“Amanhecer” é o clarear do dia. O Soberano diz: Naqueles anos, quando eu acompanhava e protegia minha cunhada imperial, fomos detidos pelas tropas do acampamento de Cao. Cao Cao pretendia semear discórdia entre mim e meu senhor. Confinou-nos, a mim e à minha cunhada, no mesmo quarto, querendo que cometêssemos incesto e traíssemos o Tio Imperial. Eu, porém, recusei-me a deitar para dormir. Acendi uma vela, sentei-me para ler os Anais da Primavera e do Outono e esperei o dia clarear. Como não tinha intenção de me aliar a Cao Man, não aceitei cair em sua trama traiçoeira.</p><p id="pt-b01404">Matei generais e conquistei passagens, procurando meu irmão e protegendo minha cunhada.</p><p id="pt-b01405">Depois, deixei o acampamento de Cao, atravessei cinco passagens e matei seis generais, protegendo minha cunhada imperial enquanto procurava meu irmão mais velho, o Tio Imperial. Assim se manifestava minha dedicação integral aos Han.</p><p id="pt-b01406">Liu Xiahui recebeu uma mulher no colo sem se perturbar: que pureza elevada! Lu Zhonglian fechou a porta e não a acolheu: que nobreza de intenção!</p><p id="pt-b01407">Liu Xiahui foi um sábio do período dos diversos Estados. Certa vez, uma mulher veio buscar refúgio e sentou-se em seu colo, mas seu coração não se agitou com pensamentos impróprios. Sua pureza elevada era incomparável. Lu Zhonglian foi um homem virtuoso do período dos Estados Combatentes. Certa vez, uma mulher cuja casa tinha goteiras veio, numa noite chuvosa, pedir abrigo contra a chuva. Ele, porém, fechou a porta e não quis acolhê-la. Sua firmeza de propósito era incomparável.</p><p id="pt-b01408">Desejo que os jovens de talento preservem seu dantian.</p><p id="pt-b01409">“De talento” designa os heróis e os homens notáveis dotados de capacidade. Contudo, muitos desses jovens encurtam a própria vida por cobiçar a beleza sensual. Por isso, o Soberano deseja que as pessoas talentosas preservem seu dantian para nutrir a essência e o espírito. O dantian é o lugar onde se guardam a essência e o espírito, situado cerca de um cun abaixo do umbigo.</p><p id="pt-b01410">Sem serem feridos pelo desejo sensual, poderão alcançar oitenta ou noventa anos; sem serem desencaminhados por saias e grampos de cabelo, sua virtude beneficiará filhos e netos.</p><p id="pt-b01411">“Desejo sensual” refere-se ao desejo egoísta pela beleza sexual. Os antigos diziam que não é apenas uma coisa que prejudica a vida, mas quem cobiça a beleza sensual certamente prejudica o corpo. Se uma pessoa não for ferida por esse desejo, poderá naturalmente esperar uma longa vida de oitenta, noventa ou até cem anos. Aos oitenta se diz mao; aos noventa, die. Ambos designam pessoas de idade avançada. “Saias e grampos de cabelo” refere-se às belas mulheres que usam saias de seda e grampos de ouro. “Ser desencaminhado” significa o homem cair por engano na armadilha da beleza sensual, deixar-se enfeitiçar por ela, cometer o primeiro dos males e impedir a prosperidade de seus descendentes. Se uma pessoa não se deixar deslumbrar por essas mulheres, terá enorme virtude oculta, que certamente alcançará seus descendentes e fará prosperar filhos e netos por sucessivas gerações.</p><p id="pt-b01412">Ao entrar, não se ouve a tristeza de viúvas: a vida perdura como o Céu e a Terra. Ao sair, não se vê a dor de viúvos: cabelos de grou e rostos de criança.</p><p id="pt-b01413">Quando as pessoas não são prejudicadas pelo desejo sensual, homens e mulheres certamente desfrutam de longevidade, duradoura como o Céu e a Terra. Assim, ao entrar em suas casas, naturalmente não se ouvem viúvas de coração partido. Quando os homens saem, tampouco se veem viúvos em triste situação. Além disso, os longevos têm cabelos tão brancos quanto os grous, por isso se diz “cabelos de grou”. Entretanto, a cor de seus rostos continua rosada e saudável como a das crianças, por isso se diz “rostos de criança”.</p><p id="pt-b01414">Toda a casa vive em plena harmonia, sem perceber que a velhice se aproxima.</p><p id="pt-b01415">“Toda a casa” significa toda a família. Numa família em que homens e mulheres estão livres de doenças e dores, têm bênçãos e longevidade, só se sente a harmonia que atrai bons auspícios. Os idosos vivem em paz e contentamento, sem sequer perceber a aproximação da velhice.</p><p id="pt-b01416">Ninguém conhece melhor o aluno do que seu mestre; ninguém conhece melhor o filho do que seu pai.</p><p id="pt-b01417">“Aluno” é o estudante; “mestre” é o professor. Só o professor conhece a natureza e o temperamento do estudante. Só o pai conhece claramente os gostos do filho.</p><p id="pt-b01418">Vejo professores que, fora do estudo dos livros, jamais ensinam a preservar o próprio corpo.</p><p id="pt-b01419">O aprendizado de preservar o próprio corpo consiste em cuidar do dantian e não se deixar deslumbrar pela beleza feminina. Vejo professores que, além de ensinar os alunos a estudar os livros, não lhes ensinam a se abster da conduta sexual imprópria para preservar o corpo. É realmente lamentável.</p><p id="pt-b01420">Por vezes, porque os jovens são inteligentes, permitem que sejam arrogantes e irrequietos.</p><p id="pt-b01421">“Arrogantes e irrequietos” descreve jovens levianos, de atitudes altivas, que ainda não se livraram da superficialidade. Alunos assim deveriam receber advertências sinceras e insistentes para se tornarem ponderados. Mas, por serem inteligentes e perspicazes, são tratados com indulgência e não são educados, deixando-os agir com leviandade, sem disciplina.</p><p id="pt-b01422">Por vezes, porque o chefe da casa os favorece, deixam-nos brincar como borboletas e delirar como abelhas.</p><p id="pt-b01423">“Chefe da casa” é o dono da casa, o responsável pela família. “Favorecer” significa encobrir suas falhas. Borboletas brincando e abelhas delirando ao visitar flores representam os jovens levianos que frequentam os bairros de prostituição. Porque os responsáveis pela família amam seus filhos, deixam-nos agir com arrogância e entregar-se à luxúria, sem querer instruí-los e adverti-los seriamente.</p><p id="pt-b01424">Mal despertam os desejos, a consciência moral começa a se perder.</p><p id="pt-b01425">O “despertar dos desejos” refere-se à abertura pela qual surgem os desejos amorosos. “Mal despertam” significa que a pessoa acaba de ser seduzida por alguém e começa a alimentar pensamentos de cobiça sensual. Uma vez surgidos esses pensamentos, deixa de se importar em destruir a reputação e a honra dos outros, mantém relações ilícitas com suas esposas e filhas e perde os princípios celestes e a consciência moral.</p><p id="pt-b01426">Eram pessoas dignas do Salão de Jade, mas tornam-se rapazes desviados.</p><p id="pt-b01427">O Salão de Jade é a repartição da Academia Hanlin. “Desviados” refere-se a atos de conduta sexual imprópria e a desvios morais. Isso quer dizer que um jovem talentoso, originalmente dotado das qualidades de um membro da Academia Hanlin, de repente compromete seu futuro por se entregar à luxúria e cobiçar a beleza sensual, tornando-se um libertino que passa assim o resto da vida.</p><p id="pt-b01428">Por mais notável e extraordinário que seja seu talento, sua carreira e suas honrarias certamente encontrarão obstáculos.</p><p id="pt-b01429">“Notável” significa ter espírito aberto e destacar-se dos demais. “Talento extraordinário” é uma capacidade e uma erudição excepcionais. “Encontrar obstáculos” significa deparar com desencontros e circunstâncias adversas, de modo que os planos não se realizem. Isso quer dizer que, por mais extraordinário que seja o talento de um jovem, uma vez cometida a conduta sexual imprópria, seus empreendimentos, sua carreira e suas honrarias certamente deixarão de prosperar.</p><p id="pt-b01430">A culpa dos mestres medíocres causa danos nada pequenos.</p><p id="pt-b01431">“Medíocre” significa vulgar. Isso quer dizer que os mestres vulgares não ensinam aos jovens a preservar o próprio corpo e permitem que se entreguem à luxúria, comprometendo sua carreira e suas honrarias. Tudo isso é culpa desses mestres medíocres. Como poderiam os danos que causam ser pequenos?</p><p id="pt-b01432">Vejo também pais cegos pelo excesso de amor, tardios em corrigir e repreender.</p><p id="pt-b01433">“Excesso de amor” significa indulgência excessiva. “Tardio” tem o sentido de negligente e demorado. “Corrigir e repreender” significa advertir, bater e ralhar. O Soberano diz: Vejo com frequência pais que não compreendem claramente os princípios e sempre tratam os filhos com indulgência. Quando estes cometem faltas que deveriam ser corrigidas e repreendidas, os pais, ao contrário, adiam a correção e não os repreendem. O que seria isso, senão cegueira causada pelo excesso de amor?</p><p id="pt-b01434">Basta o filho saber um pouco e entender pela metade, e já dizem a todos que têm um filho excelente. Basta ele ter uma habilidade modesta ou pequena qualidade, e por toda parte disputam quem mais elogia seu bom filho.</p><p id="pt-b01435">“Saber um pouco e entender pela metade” significa conhecer apenas uma ou duas coisas. “Habilidade modesta” é uma técnica superficial. “Pequena qualidade” é um ponto de mérito. “Filho excelente” e “bom filho” significam bons filhos e filhas. Isso quer dizer que basta os jovens terem alguma qualidade para que os pais os elogiem a todos que encontram fora de casa, exibindo a boa descendência que possuem.</p><p id="pt-b01436">Não é alguém capaz de sustentar a família, mas é tratado como uma joia sobre a mesa.</p><p id="pt-b01437">“Ser capaz” é expresso pela imagem de um utensílio que serve para uso. “Joia sobre a mesa” são pérolas e belos jades dispostos sobre uma mesa. Isso quer dizer que esse filho não é um instrumento capaz de preservar e sustentar a casa, mas o pai insiste em tratá-lo como uma joia preciosa, mimando-o e sendo indulgente com ele.</p><p id="pt-b01438">Desde então, abandona os freios, ultrapassa os limites, transgride os ritos e viola os deveres de sua posição.</p><p id="pt-b01439">“Freios” refere-se ao exame da conduta dos jovens. “Limites” é a prevenção das faltas dos filhos e filhas. “Ritos” são as regras de decoro que distinguem homens e mulheres e seus espaços de dentro e de fora. “Posição” é o lugar de cada um na ordem das relações e dos deveres morais. Os quatro verbos “abandonar”, “ultrapassar”, “transgredir” e “violar” exprimem o descumprimento das normas, dos ritos e das regras.</p><p id="pt-b01440">Adquire toda espécie de leviandade e dorme à vontade com monjas e viúvas.</p><p id="pt-b01441">“Monjas” são mulheres que deixaram a vida doméstica para se tornar religiosas budistas. “Viúvas” são mulheres viúvas que permanecem na viuvez. Isso quer dizer que os jovens se habituam inteiramente à leviandade e à crueldade, seduzem monjas e viúvas como bem entendem e cobiçam o prazer de dormir com elas.</p><p id="pt-b01442">Enchem a boca de palavras sem sentido e buscam, a seu bel-prazer, diversão nas ruas de flores e nos becos de salgueiros.</p><p id="pt-b01443">Fingem deliberadamente loucura e tolice, dizendo apenas palavras confusas. Seja nas ruas de flores, seja nos becos de salgueiros, deixam-se levar pelo que lhes agrada e vagam à vontade.</p><p id="pt-b01444">Dizem: “Meu pai me ensina a seguir a retidão, mas ele próprio não segue a retidão.”</p><p id="pt-b01445">“Meu pai” designa o pai do jovem. “Retidão” é o caminho correto. “Não seguir a retidão” significa não andar pelo caminho correto. Isso quer dizer que o pai lhe ensina o caminho correto, mas o filho retruca que o próprio pai tampouco o segue e não ouve seus ensinamentos.</p><p id="pt-b01446">Engolindo a raiva e abafando a voz, como chegará ao fim?</p><p id="pt-b01447">“Fim” é o desfecho. Isso quer dizer que o pai sempre foi indulgente com seus filhos e filhas, encobrindo suas falhas em tudo, e assim lhes estragou o temperamento. Agora, quando ensina ao filho o caminho correto, este o contradiz com palavras ofensivas. Só lhe resta engolir a raiva e se calar. Como poderá isso terminar?</p><p id="pt-b01448">Penso nas montanhas famosas e nos grandes rios: onde não haverá pessoas de elevada compreensão?</p><p id="pt-b01449">“Montanhas famosas” são montanhas conhecidas. “Grandes rios” são rios muito grandes. O Soberano diz: Penso que em todos esses lugares há pessoas de compreensão muito elevada.</p><p id="pt-b01450">Mas, ao falar de se abster da conduta sexual imprópria, poucos não consideram isso difícil. Por quê?</p><p id="pt-b01451">“Poucos” significa não muitos. Isso quer dizer que, quando se fala em abster-se da conduta sexual imprópria, muitas pessoas consideram isso difícil, e são realmente poucas as que não veem dificuldade. Qual é, afinal, a razão?</p><p id="pt-b01452">Em geral, é difícil amarrar o cavalo dos pensamentos, há muito preso aos vínculos mundanos; o macaco do coração, ainda não contido, permanece enredado pela beleza sensual.</p><p id="pt-b01453">As imagens do cavalo dos pensamentos e do macaco do coração comparam a inconstância e os pensamentos desordenados das pessoas a um cavalo que corre sem rumo e não pode ser amarrado, ou a um macaco que salta sem parar e não pode ser contido. Na maior parte dos casos, há muito estão presos aos vínculos maléficos do mundo e enredados pela beleza sensual que nele existe; por isso, sentem tanta dificuldade em voltar atrás.</p><p id="pt-b01454">Sem distinguir benefício e dano, persistem na ilusão e não despertam.</p><p id="pt-b01455">Isso quer dizer que, antes de receber a retribuição, quem se entrega à luxúria ainda não sabe distinguir benefício e dano e age desregradamente, como bem entende. Depois de entrar no caminho da ilusão, mesmo que alguém o aconselhe e advirta, ele se apega à própria opinião, sem se arrepender nem despertar.</p><p id="pt-b01456">Mal sabem que rostos brancos como flores de lótus aprisionaram incontáveis heróis. Vejam as belas mulheres enfeitadas de rouge: feriram tantos homens extraordinários.</p><p id="pt-b01457">“Rostos brancos como flores de lótus” são rostos femininos claros e bonitos como essas flores. “Belas mulheres enfeitadas de rouge” refere-se à maquiagem exuberante: ao aplicar rouge e pó rosado, as mulheres parecem ainda mais belas. “Heróis” e “homens extraordinários” são pessoas de grande capacidade. Se tiveram seu futuro comprometido, foi porque ficaram presos à beleza sensual e foram por ela feridos. No mundo inteiro, quem sabe quantos foram?</p><p id="pt-b01458">Abstenham-se, abstenham-se! Do contrário, onde terminará a desgraça?</p><p id="pt-b01459">“Abstenham-se, abstenham-se” tem o tom de uma ordem insistente: é preciso, sem falta, abster-se. Se não se abstiverem e cometerem o ato, quando cessarão as desgraças e calamidades que atraem? “Onde” exprime a pergunta; “terminar” significa cessar.</p><p id="pt-b01460">No mundo, a multidão das pessoas se divide em grupos de toda espécie.</p><p id="pt-b01461">As pessoas do mundo são numerosas e variadas; seus grupos e categorias não podem ser todos iguais.</p><p id="pt-b01462">Há os que, órfãos de pai desde pequenos, raspam a cabeça e se tornam monges.</p><p id="pt-b01463">“Apoio paterno” significa aquilo em que se pode apoiar. Uma criança sem pai é chamada de órfã, isto é, não tem em quem se amparar. Só lhe resta raspar a cabeça e entrar num templo como monge, apoiando-se na proteção das divindades.</p><p id="pt-b01464">Há também os que estudam o Caminho em montanhas famosas, deixando para trás a poeira e a vulgaridade do mundo.</p><p id="pt-b01465">Há ainda os que, tendo enxergado a ilusão do mundo, não desejam viver junto das pessoas comuns. Só lhes resta procurar montanhas famosas e aprender as práticas do Caminho dos imortais, em busca de longevidade.</p><p id="pt-b01466">Deveriam ter o coração firme como ferro e pedra e manter bem fechadas as portas da meditação.</p><p id="pt-b01467">Uma vez tornados monges budistas ou religiosos taoistas, deveriam ter o coração tão firme quanto ferro e pedra, manter bem fechadas as portas da sala de meditação e não se relacionar com mulheres.</p><p id="pt-b01468">Quem esperaria que bebessem álcool e comessem carne, rompendo às escondidas as abstinências e os preceitos de antes?</p><p id="pt-b01469">Monges budistas e religiosos taoistas dão grande importância às abstinências e aos preceitos e, portanto, não podem beber álcool nem comer carne. Por que, de repente, os violam? Isso é inesperado e realmente incompreensível.</p><p id="pt-b01470">Desfazem os pares de luan e fênix para satisfazer os desejos de hoje.</p><p id="pt-b01471">As aves luan e fênix não formam pares indiscriminadamente, podendo ser comparadas às mulheres que não trocam de companheiro de modo desregrado. Agora, porém, há monges budistas e religiosos taoistas dados à luxúria que seduzem mulheres de famílias honradas, tramando contra os maridos ou fugindo com elas, desfazendo casais e desordenando as uniões, como se invertessem os pares de luan e fênix. Seu coração busca apenas a satisfação de um instante.</p><p id="pt-b01472">Profanam o Lago de Lótus. Os deuses celestes se enfurecem.</p><p id="pt-b01473">O Lago de Lótus é o lago de flores de lótus no templo, um lugar puro. Agora, como monges budistas e religiosos taoistas ali praticam relações sexuais ilícitas, certamente profanam esse lugar sagrado e puro. Como poderiam os deuses celestes não se enfurecer?</p><p id="pt-b01474">São lançados no mar do mal cometido, caindo e ficando submersos por longo tempo.</p><p id="pt-b01475">O “mar do mal cometido” é o mar de sofrimento. “Por longo tempo” significa demoradamente. “Cair” é descer; “ficar submerso” é afundar. Isso quer dizer que, tendo o monge budista ou religioso taoista profanado o Lago de Lótus, os deuses celestes certamente o lançarão no mar de sofrimento do inferno, onde ficará submerso por muito tempo, sem poder renascer.</p><p id="pt-b01476">Diante dos portões do inferno, são muitos os monges budistas e religiosos taoistas. Seria uma afirmação vazia? Não será realmente verdade?</p><p id="pt-b01477">O inferno é a prisão do mundo dos mortos. Os antigos diziam que, entre os que sofrem punições diante dos portões do inferno, muitos são monges budistas e religiosos taoistas. Essas palavras não são vazias, e o que relatam parece ainda mais digno de crédito.</p><p id="pt-b01478">Nos tempos recentes, costumes estrangeiros e novas modas invadem as terras da China.</p><p id="pt-b01479">“Tempos recentes” são os últimos anos. “Costumes estrangeiros” são os costumes levianos do Ocidente. “Novas modas” são novidades em voga, como uma nova corrente que chega. “Invadir” significa penetrar de forma agressiva. As “terras da China” são o território chinês. Isso quer dizer que, nos últimos anos, os maus costumes levianos e dissolutos do Ocidente chegaram à China, causando-nos enormes danos.</p><p id="pt-b01480">Homens e mulheres mudam de aparência, vestem-se de maneira estranha e abandonam todo senso de decoro e vergonha.</p><p id="pt-b01481">“Mudar de aparência” significa assumir uma forma diferente. “Estranha” refere-se a roupas extravagantes e despropositadas. Isso quer dizer que homens e mulheres abandonam sua aparência originalmente leal, honesta, casta e virtuosa, vestem roupas excêntricas e deixam de parecer humanos, desprezando a própria dignidade e o senso de vergonha.</p><p id="pt-b01482">Há os que se exibem com roupas reveladoras, semeiam o mal em amores desregrados e perdem a castidade antes do casamento.</p><p id="pt-b01483">“Exibir-se” é não ter compostura e passear pelas ruas de modo ostensivo. “Amores desregrados” são relações amorosas impróprias: homens e mulheres se envolvem indiscriminadamente, tomam a diversão por hábito e acabam na desordem. “Semear o mal” é deixar sementes de infortúnio, como engravidar antes do casamento ou, mesmo pertencendo a gerações incompatíveis, já ter ultrapassado os limites e “plantado jade em Lantian”. Tudo isso cria vínculos maléficos que frequentemente produzem infortúnios sem fim. “Perder a castidade” é homens e mulheres perderem a virgindade. Isso quer dizer vestir roupas reveladoras para exibir o próprio corpo, ou desconsiderar os princípios das relações familiares e entregar-se a amores desregrados, ou ainda, antes de casar, já manter relações contrárias ao decoro, perdendo a pureza e a castidade preciosas do corpo.</p><p id="pt-b01484">Ou exploram toda sorte de atividades e recorrem a mil artimanhas extravagantes.</p><p id="pt-b01485">“Toda sorte de atividades” são os diversos ramos de negócio. “Recorrer” indica variar os recursos. “Mil artimanhas extravagantes” são estratagemas dos mais variados tipos. “Artimanhas” são recursos que confundem os olhos. Isso quer dizer que, atualmente, muitos exploram diversos negócios e, em vez de ganhar dinheiro por meios corretos, lançam mão de truques: como se diz, penduram uma cabeça de carneiro, mas vendem carne de cachorro. A fachada ostenta um letreiro brilhante, enquanto, às escondidas, exploram artifícios de comércio sexual disfarçado, de extrema baixeza.</p><p id="pt-b01486">À vista, sorrisos sedutores e olhares lascivos; oculto, um redemoinho que ensina a luxúria e enreda. Quantas pessoas de firme propósito ali se degradam! Incontáveis estudantes vagueiam por esses lugares e se esquecem de voltar.</p><p id="pt-b01487">“Sorrisos sedutores” são sorrisos que fascinam. “Olhares lascivos” são olhares coquetes e provocantes. “Ensinar a luxúria” é induzir as pessoas à devassidão. Isso quer dizer que os estabelecimentos que exploram o comércio sexual disfarçado exibem, por fora, uma decoração multicolorida e reúnem belas mulheres que mostram seus encantos sedutores, querendo arrastar as pessoas para debaixo de ondas enormes e redemoinhos. Por trás dessa aparência, ocultam um redemoinho que induz à devassidão e causa grandes danos. Não se sabe quantas pessoas de vontade firme e futuro promissor ali se afundam e se degradam. Também atraem muitos jovens estudantes, que vagueiam por lugares de prazeres amorosos, deixam de estudar e aprender, cometem conduta sexual imprópria e são extremamente desrespeitosos com os pais.</p><p id="pt-b01488">Há dez mil negócios que se podem explorar; no comércio da prostituição, o mal cometido é grave. No Avīci, há penas cruéis e castigos severos; aos descendentes, retribuição maléfica e infâmia sem fim.</p><p id="pt-b01489">“Dez mil negócios” são todos os tipos de comércio. “Comércio da prostituição” é explorar a venda de relações sexuais. Avīci é o Inferno Avīci. Isso quer dizer que se pode fazer qualquer negócio, mas jamais explorar a prostituição; do contrário, as culpas serão profundas e graves. Depois da morte, a pessoa certamente será encarcerada no Inferno Avīci para sofrer todas as penas severas, e seus descendentes certamente receberão retribuição maléfica. Se alguém perguntar que negócio seu antepassado explorava e a resposta for um antro de prostituição, sua infâmia certamente chegará aos céus e deixará vergonha por dez mil anos.</p><p id="pt-b01490">Não digam que vagar em êxtase e buscar prazeres é motivo de alegria.</p><p id="pt-b01491">“Vagar” é entregar-se livremente à devassidão. “Êxtase” é a alma ficar desorientada. “Buscar prazeres” é procurar estímulos e divertimento. Isso quer dizer: não falem em viver sem freios, deixar-se fascinar pela beleza sensual das mulheres, procurar estímulos e prazer por toda parte e vangloriar-se disso.</p><p id="pt-b01492">Mesmo que a troca seja feita com dinheiro, a natureza espiritual não escapa à mácula. Mesmo sem olhos nem ouvidos de testemunhas, no quarto oculto a própria consciência acusa.</p><p id="pt-b01493">“Troca” é compra e venda. “Natureza espiritual” é a natureza original da alma. “Mácula” é falta de pureza. “Quarto oculto” significa às escondidas. Isso quer dizer que, embora a busca de prazeres e de belas mulheres seja uma compra feita com dinheiro, a própria luz espiritual já fica coberta de poeira e sujeira. Mesmo que não haja estranhos por perto observando, em segredo a pessoa também sentirá inquietação e vergonha de encarar os outros.</p><p id="pt-b01494">Assim que surgem pensamentos desviados, proliferam intenções maléficas. A pessoa e sua família perdem a pureza; no campo do coração, brotos venenosos criam raízes.</p><p id="pt-b01495">“Pensamentos desviados” são correntes de pensamento incorretas. “Proliferar” é multiplicar-se. “A pessoa e sua família” abrange o próprio indivíduo e seu lar. O “campo do coração” é o íntimo, a montanha espiritual. “Brotos venenosos” são brotos de culpa e árvores de carma que contêm veneno. Isso quer dizer que, uma vez surgidos pensamentos lascivos, intenções maléficas vêm em seguida. Perdida a razão, a pessoa se atreve a violar as relações familiares e a corromper a virtude, e ela e sua família perdem, sem que se veja, sua reputação pura e honrada. Também se planta uma árvore maléfica, impura e venenosa, que cria raízes e é transmitida às gerações seguintes.</p><p id="pt-b01496">O carma maléfico de incontáveis vidas passa então a enredá-los; através de sucessivas calamidades, o ciclo de renascimentos não terá fim.</p><p id="pt-b01497">“Incontáveis vidas” são vidas e mais vidas. “Enredar” é agarrar-se à pessoa sem soltá-la. “Sucessivas calamidades” significa atravessar não se sabe quantas catástrofes. Isso quer dizer que o carma maléfico de vidas e mais vidas passa a acompanhar a pessoa sem soltá-la; por mais catástrofes que atravesse, ela renasce uma vez após outra para receber a retribuição. Como é assustador!</p><p id="pt-b01498">Felizmente, ainda não foram longe no caminho errado: hoje reconhecem o certo e o erro de ontem.</p><p id="pt-b01499">Felizmente, embora tenham entrado por engano no caminho errado, não avançaram muito e logo compreenderam em seu íntimo. Só então reconheceram que o caminho percorrido ontem não era correto e que, hoje, devem seguir por outro caminho, o certo.</p><p id="pt-b01500">Quem aspira a ser sábio e virtuoso não hesita em corrigir seus erros.</p><p id="pt-b01501">“Hesitar” significa ser mesquinho e indolente. Os sábios e virtuosos ensinam a pôr em primeiro lugar a correção dos próprios erros. Quem não é indolente nem mesquinho nessa correção é alguém que aspira a ser sábio e virtuoso.</p><p id="pt-b01502">Então, mesmo culpas que cobrem o céu desaparecem com um só arrependimento.</p><p id="pt-b01503">“Cobrir o céu” é preencher todo o céu. Isso quer dizer que, mesmo tendo cometido culpas enormes, que enchem o céu, basta estar disposto a arrepender-se e renovar-se para que o registro dessas culpas possa ser eliminado.</p><p id="pt-b01504">Mas, se temem a dificuldade e se acomodam, a cada dia afundam mais. Conhecem o sabor e não o abandonam; adiam deste ano para o próximo. <a xlink:href="#loc-1703">[N28]</a></p><p id="pt-b01505">Se consideram difícil corrigir seus erros e passam os dias acomodados, suas culpas certamente se tornam mais profundas a cada dia. Embora já saibam que os desejos lascivos não oferecem grande prazer, ainda assim não querem abandoná-los. Mesmo que alguém os aconselhe a arrepender-se e mudar depressa, ainda neste ano, insistem em dizer que esperarão até o ano seguinte.</p><p id="pt-b01506">Cem reveses não os fazem voltar; ainda não dão por encerrado seu proceder. Só quando um caixão os encerra para sempre, só com a morte, é que param.</p><p id="pt-b01507">Isso quer dizer que, mesmo encontrando toda sorte de reveses, quem se entrega à luxúria ainda não quer mudar de coração e continua a cobiçar e se perder nos prazeres sensuais. Se não tivesse chegado a hora da morte, encerrando-o para sempre num caixão, como aceitaria parar? “Encerrar para sempre” é ficar coberto no caixão para sempre, sem poder voltar à vida.</p><p id="pt-b01508">A má fama se transmite para sempre e, através das eras, torna-se motivo de comentários.</p><p id="pt-b01509">“Má fama” é uma reputação infame. “Motivo de comentários” é um assunto de que as pessoas se valem para falar. Isso quer dizer que sua má fama se espalha cada vez mais longe, como a água que corre sem cessar. “Através das eras” significa mil anos.</p><p id="pt-b01510">Os atos maléficos são difíceis de encobrir; pelos quatro cantos, espalham-se como assunto apreciado nas conversas.</p><p id="pt-b01511">“Atos maléficos” são os atos reais de luxúria e maldade. “Difíceis de encobrir” significa difíceis de esconder. Isso quer dizer que as pessoas do leste, oeste, sul e norte tomam esses atos de luxúria e maldade como notícias atraentes e não param de falar deles.</p><p id="pt-b01512">Um filho que não se parece com o pai em virtude: seria mais agradável não ter descendentes.</p><p id="pt-b01513">Isso quer dizer que o filho não se parece com o pai em virtude. Filhos indignos como esses só sabem cobiçar prazeres e beleza sensual, arruínam a virtude de seus antepassados e frequentemente causam preocupação e raiva. Seria até mais reconfortante não ter tais descendentes.</p><p id="pt-b01514">Mas rios e cursos d’água são fáceis de mudar; a natureza original é difícil de transformar.</p><p id="pt-b01515">“Natureza original” é o temperamento com que se nasce. “Difícil de transformar” significa difícil de mudar. Isso quer dizer que até os rios têm momentos em que mudam de curso; só essa má natureza de nascença é difícil de transformar.</p><p id="pt-b01516">Não é o vinho que embriaga: as pessoas é que se embriagam. Não é a beleza sensual que ilude: as pessoas é que se iludem.</p><p id="pt-b01517">O vinho, dentro da jarra, por si só não pode embriagar ninguém. A pessoa se embriaga porque gosta de beber e cobiça a taça; o que seria isso, senão embriagar-se por si mesma? As belas mulheres de outras famílias originalmente não vieram enredá-la nem iludi-la. É por cobiçar a beleza e a luxúria que a pessoa vai seduzi-las e se deixa iludir. O que seria isso, senão iludir-se por si mesma?</p><p id="pt-b01518">Eu também me manifesto para expor os ensinamentos, esperando que abandonem o antigo e se renovem.</p><p id="pt-b01519">O Soberano diz: Agora me manifesto para expor os ensinamentos, apenas esperando que vocês, o povo, reformem seus velhos hábitos de luxúria, renovem sua virtude e se tornem pessoas novas.</p><p id="pt-b01520">Se agirem em conformidade com os ensinamentos sagrados, eu lhes assegurarei as cinco bênçãos das categorias de Jizi.</p><p id="pt-b01521">O Soberano diz: Se uma pessoa usar esta escritura para instruir e advertir os outros, ou se ela própria a seguir, eu lhe assegurarei o desfrute das cinco bênçãos das categorias de Jizi. Essas categorias são as nove categorias do Hongfan expostas por Jizi. As cinco bênçãos são: primeira, longevidade; segunda, riqueza; terceira, saúde e paz; quarta, amor à virtude; quinta, chegar ao fim natural da vida.</p><p id="pt-b01522">Se não se afastarem nem se desviarem, eu lhes assegurarei os votos das três abundâncias.</p><p id="pt-b01523">“Afastar-se” é separar-se; “desviar-se” é estender-se para longe. Se puderem observar esta escritura sem se afastar dela em momento algum, ou, sem abandoná-la, lê-la sempre de manhã e à noite, eu lhes assegurarei receber os votos das três abundâncias. Abundância de bênçãos, de anos de vida e de filhos homens são as três abundâncias; foram os votos que o guardião de Hua fez a Yao.</p><p id="pt-b01524">Se forem como jade belo e sem mácula, certamente serão recebidos e conduzidos pelos imortais de Tiantai.</p><p id="pt-b01525">“Jade belo” é uma boa pedra de jade; “sem mácula” é não ter falhas nem defeitos. Tiantai é o lugar onde habitam os imortais. Isso quer dizer que, se homens e mulheres do mundo não cometerem conduta sexual imprópria, serão como jade belo e sem mácula. Quando seus méritos e virtudes estiverem completos, certamente lhes será assegurado que imortais e budas venham conduzi-los para ascenderem juntos à Suprema Felicidade.</p><p id="pt-b01526">Se forem puros e cuidarem de sua própria virtude, certamente o mundo dos mortos virá recebê-los.</p><p id="pt-b01527">“Puros” é serem limpos e límpidos como a água. “Cuidar da própria virtude” é ter no coração o amor ao bem e o abandono do mal. Isso quer dizer que, quando tais pessoas morrerem e chegarem ao mundo dos mortos, os reis dos diversos salões certamente deixarão seus lugares para recebê-las.</p><p id="pt-b01528">Água, fogo, armas e guerra: toda a família será poupada. Pragas de insetos, gafanhotos e epidemias: tudo se dissipará silenciosamente.</p><p id="pt-b01529">“Dissipar-se silenciosamente” é desaparecer sem ser percebido. Isso quer dizer que quem seguir esta escritura poderá ser poupado de todas as calamidades de água, fogo, armas e guerra; até desastres como pragas de insetos, gafanhotos e epidemias desaparecerão juntos.</p><p id="pt-b01530">Olhem agora para os insensatos que cobiçam a beleza sensual.</p><p id="pt-b01531">“Olhar para” é virar a cabeça e olhar. “Insensatos” são os jovens arrogantes dados à luxúria.</p><p id="pt-b01532">Cegueira dos olhos e surdez dos ouvidos: certamente pesam culpas graves da vida anterior.</p><p id="pt-b01533">“Culpas” são os males cometidos. “Vida anterior” é a existência precedente. Quem não consegue ver com os olhos é chamado de cego; quem não consegue ouvir com os ouvidos é chamado de surdo. Isso quer dizer que essas pessoas, por terem cometido males excessivamente graves na vida passada, só agora, nesta vida, recebem a retribuição de cegueira e surdez.</p><p id="pt-b01534">Pés aleijados e mãos decepadas: certamente há profundas dívidas de injustiça de outra vida.</p><p id="pt-b01535">Isso quer dizer que, por serem profundas e graves as injustiças e culpas da vida passada, a pessoa tem deficiência física nesta vida.</p><p id="pt-b01536">Num templo frio e desolado, sem roupas e sem comida; num forno arruinado e sombrio, sofrendo fome e frio.</p><p id="pt-b01537">Não é só isso: sem lugar onde se estabelecer e com dificuldade para conseguir o alimento de cada dia, só resta buscar abrigo num templo frio e parar num forno em ruínas, sofrendo dores sem fim. Seria possível dizer que isso não é a retribuição pela luxúria de uma vida anterior?</p><p id="pt-b01538">Na miséria extrema, sem meios de viver, como encontrar um caminho para o arrependimento?</p><p id="pt-b01539">“Miséria extrema” é a pobreza levada ao limite. “Sem meios de viver” significa não conseguir sustentar a vida. “Arrependimento” é confessar as culpas e lamentar os erros. Isso quer dizer que, quando uma pessoa chega a esse ponto, está de fato recebendo a retribuição de uma vida passada ou sofrendo o mal deixado pelos antepassados. Quer arrepender-se, mas não consegue; por onde poderia então confessar suas culpas?</p><p id="pt-b01540">Vocês nasceram e cresceram no País do Centro, diferentes dos povos bárbaros.</p><p id="pt-b01541">“Vocês” designa as pessoas a quem se fala. “Diferentes” significa não se parecerem. O “País do Centro” é a China. “Povos bárbaros” refere-se a lugares onde não se conhecem a ética e a moral. Isso quer dizer: já que vocês nasceram e cresceram na China, não devem ser como as pessoas daqueles lugares bárbaros, que desconhecem o decoro e a retidão!</p><p id="pt-b01542">Por que não tomar isso como espelho, voltar à simplicidade e retornar à verdade?</p><p id="pt-b01543">“Espelho” é o objeto em que se olha. “Simplicidade” é a singeleza sem artifícios. “Verdade” é o caminho correto. Isso quer dizer: por que vocês não tomam essas pessoas como um espelho em que se olhar, voltando à simplicidade e retornando ao caminho correto?</p><p id="pt-b01544">Estas palavras são remédios e devem também ser respeitadas como régua e fio de prumo.</p><p id="pt-b01545">“Remédios” são coisas usadas para tratar doenças. “Régua e fio de prumo” são instrumentos usados pelos artesãos para obter superfícies planas e retas. Isso quer dizer que cada frase desta Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria é uma boa palavra, capaz de tratar a doença do coração que cobiça a luxúria, tal como a régua e o fio de prumo que dão retidão.</p><p id="pt-b01546">Cada palavra é uma pérola preciosa. Como poderiam deixá-las guardadas no alto de um pavilhão?</p><p id="pt-b01547">“Pérolas preciosas” são objetos de grande valor, como pérolas e ágatas. “Guardar” é recolher para conservar. Um “alto pavilhão” é um edifício alto, vazio, aonde ninguém vai sem ter o que fazer. Isso quer dizer que cada palavra desta Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria é valiosa como pérolas preciosas e beneficia o corpo e o coração. Como poderiam considerá-la inútil, guardá-la num edifício vazio e deixar de recitá-la com a boca e meditá-la no coração?</p><p id="pt-b01548">Eu também, sem talento, venho ao altar deixar ensinamentos e despertar os iludidos.</p><p id="pt-b01549">“Deixar” é legar. O Soberano diz: Embora eu não tenha talento nem erudição, hoje venho ao altar de escrita mediúnica registrar e deixar esta Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria para instruir o mundo. Quero apenas, por meio dessas boas palavras, despertar todas as pessoas iludidas pela beleza sensual das mulheres, para que voltem atrás o quanto antes.</p><p id="pt-b01550">Se a trouxerem consigo e a gravarem no coração, eu aumentarei suas bênçãos e prolongarei sua vida.</p><p id="pt-b01551">“Trazer consigo” é carregar junto ao corpo. “Gravar no coração” é guardar firmemente na memória. Isso quer dizer que, se alguém trouxer consigo a Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria e a guardar atentamente no coração, sem dela se afastar em momento algum, eu o protegerei, aumentarei suas bênçãos e sabedoria e prolongarei os anos de sua vida.</p><p id="pt-b01552">Se a explicarem com a boca e a indicarem com as mãos, eu apagarei suas culpas e eliminarei suas faltas.</p><p id="pt-b01553">Isso quer dizer que, se alguém explicar oralmente a Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria para os outros ouvirem e apontá-la com as mãos para os outros verem, mesmo que antes tenha cometido conduta sexual imprópria e tenha culpas e faltas decorrentes de injustiças, eu poderei apagar todas as culpas e faltas de seu registro, eliminando-as sem deixar vestígios e abrindo-lhe o caminho da renovação.</p><p id="pt-b01554">Se não considerarem minhas palavras uma conversa infundada, eu lhes serei grato em Lingxiao.</p><p id="pt-b01555">“Conversa infundada” é uma afirmação sem fundamento. Lingxiao é o nome do palácio onde habita o Soberano. O Soberano diz: Se vocês não considerarem a Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria que lhes exponho uma conversa infundada, eu também lhes serei grato em meu precioso Palácio Lingxiao.</p><p id="pt-b01556">Se não considerarem minhas palavras uma doutrina desviada, eu repararei suas faltas em Jinque.</p><p id="pt-b01557">“Doutrina desviada” é uma doutrina incorreta. Jinque é o nome do palácio onde habita o Soberano Celeste. “Reparar” é compensar as faltas. Isso quer dizer: se vocês não tomarem minha Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria por uma doutrina desviada, eu certamente repararei suas faltas perante Jinque, reduzindo ou afastando as calamidades que o Soberano Celeste envia com frequência porque o coração das pessoas não é bom.</p><p id="pt-b01558">Se a formulação das ideias não for suficientemente precisa e detalhada, espero ainda que pessoas de talento a corrijam.</p><p id="pt-b01559">Isso quer dizer que, se as ideias formuladas na Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria tiverem pontos pouco precisos ou pouco claros, espero que pessoas de talento e erudição as revisem e corrijam por mim, para que alcancem a plena excelência e perfeição.</p><p id="pt-b01560">Se as palavras não forem inteiramente apuradas, peço ainda que pessoas de renome façam sua crítica.</p><p id="pt-b01561">“As palavras” são as construções das frases e o emprego dos termos na escritura. Se ainda não estiverem inteiramente maduros, elegantes e apurados, peço também aos escritores e estudiosos de renome, de perto e de longe, que apontem os problemas e os corrijam por mim, para que igualmente alcancem a plena excelência e perfeição.</p><p id="pt-b01562">Ah, pessoas do mundo! De manhã e à noite queimam incenso e recitam meus volumes da Escritura do Jardim dos Pessegueiros; ao amanhecer e ao anoitecer prostram-se em reverência e leem minha admoestação escrita com o sangue do coração.</p><p id="pt-b01563">“Manhã” é a parte inicial do dia; “noite”, a parte final. “Amanhecer” também indica a manhã, e “anoitecer”, a noite. O Soberano dirige seu suspiro ao povo do mundo: vocês queimam incenso perfumado ou prestam reverência e fazem saudações rituais, recitam meus volumes da Escritura do Jardim dos Pessegueiros e leem minha admoestação feita com todo o sangue e empenho do coração. Sua disposição de se voltar ao bem é de fato louvável.</p><p id="pt-b01564">Já que vocês podem me reverenciar como divindade, como ousaria eu não tratá-los como crianças recém-nascidas?</p><p id="pt-b01565">“Crianças recém-nascidas” são bebês que acabaram de nascer e precisam de proteção a todo momento. Já que as pessoas do mundo me veneram como divindade, como ousaria eu deixar de protegê-las como recém-nascidos?</p><p id="pt-b01566">Já que querem escapar do mar de sofrimento, devem romper as amarras dos demônios desviados.</p><p id="pt-b01567">A retribuição pela luxúria e pelo mal é extremamente cruel e dolorosa; por isso é chamada de “mar de sofrimento”. “Escapar” é livrar-se. “Demônios desviados” refere-se ao coração iludido pela bebida e pela beleza sensual, como se estivesse enredado por demônios. Isso quer dizer: já que querem escapar do mar de sofrimento, devem pôr fim aos pensamentos ilusórios e à influência dos demônios desviados, sem voltar a se deixar enredar por eles.</p><p id="pt-b01568">Já que pensam em encobrir as faltas anteriores, devem eliminar os obstáculos do mal cometido.</p><p id="pt-b01569">“Faltas anteriores” são os erros da vida passada e dos dias anteriores. “Encobrir” é cobrir e ocultar. “Obstáculos do mal cometido” são culpas tão graves que se assemelham a uma barreira, capaz de encobrir o bom coração de uma pessoa. “Eliminar” é fazer desaparecer. Isso quer dizer: já que vocês pensam em cobrir todas as faltas anteriores, devem apressar-se em abandonar a conduta sexual imprópria, acumular muitas boas ações e méritos e eliminar as barreiras das culpas do passado.</p><p id="pt-b01570">Se não ouvirem meus conselhos, eu também nada poderei fazer.</p><p id="pt-b01571">Isso quer dizer: já que lhes dei bons conselhos e os adverti com insistência, mas vocês não me escutam, o que mais posso fazer com vocês?</p><p id="pt-b01572">Deixarei que rolem na montanha de facas, que sejam cozidos no caldeirão de óleo, que se sentem no rio de sangue e que engulam ferro derretido.</p><p id="pt-b01573">Quando a retribuição maléfica chegar, o rei do mundo dos mortos ordenará aos soldados fantasmas que os lancem sobre a montanha de facas, deixando-os rolar de qualquer jeito; que os joguem no caldeirão de óleo, deixando-os ser cozidos; ou que submerjam seu corpo no rio de sangue, para sofrerem o frio e o fedor de sangue; ou que lhes despejem ferro derretido na boca, fazendo o fígado, os intestinos, o estômago e os pulmões sofrerem como se estivessem fervendo num caldeirão de óleo. Deixarei que suportem todos esses sofrimentos.</p><p id="pt-b01574">Só então pensarão em ler minha Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria; temo que já não possam sair do fosso de fogo. Só então pensarão em ler meus Ensinamentos sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria; temo que já não possam subir à corte celeste.</p><p id="pt-b01575">O “fosso de fogo” refere-se a sofrer punições na montanha de facas e no caldeirão de óleo, como se estivesse num fosso de fogo. “Não poder sair do fosso de fogo” quer dizer que, mesmo desejando então ler a Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria, já não será possível reverter a situação. A “corte celeste” refere-se às pessoas sem culpa que, ao morrerem, ascendem ao Mundo da Suprema Felicidade, como quem sobe ao céu. “Não poder subir à corte celeste” quer dizer que, mesmo desejando então ler os Ensinamentos sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria, já não será possível ascender a um estado superior.</p><p id="pt-b01576">Eu, em Lingxiao, temo seu rancor; vocês, no inferno, sofrem penas cruéis.</p><p id="pt-b01577">O Soberano diz: Enquanto vocês sofrem toda sorte de penas cruéis no inferno, eu, no Palácio Lingxiao, ainda temo que me odeiem por não os ter aconselhado mais cedo.</p><p id="pt-b01578">Querem escapar, mas não conseguem. Querem partir, mas não podem. É tarde para mudar; é tarde para arrepender-se.</p><p id="pt-b01579">Isso quer dizer que, já estando no inferno a sofrer punições, mesmo querendo fugir, não conseguem escapar; mesmo querendo partir, não podem sair. Chegando as coisas a esse ponto, é tarde demais para mudar e tarde demais para arrepender-se.</p><p id="pt-b01580">Sofrem todas as dores e são soltos para se tornarem animais. Cobertos de pelos e portando chifres, passam a viver entre aves e feras.</p><p id="pt-b01581">Isso quer dizer que, depois de sofrerem todos os tipos de penas e dores no inferno, são liberados para se tornarem animais, cobertos de pelos ou portando chifres, na companhia de aves e animais terrestres.</p><p id="pt-b01582">Ainda morrem sob a lâmina, fritos na panela ou queimados no fogo. Quando tudo isso terminará, para que enfim voltem a ter um corpo humano?</p><p id="pt-b01583">“Ainda” significa como antes. Isso quer dizer que, já transformados em aves e animais, continuam a morrer sob a lâmina, a ser fritos na panela ou queimados no fogo. Quando o processo por suas culpas se encerrará, para que enfim possam voltar a ser humanos?</p><p id="pt-b01584">Uma vez perdido o corpo humano, vêm dez mil calamidades difíceis de suportar. Não seria melhor cultivar e acumular virtudes para subir acima das nuvens?</p><p id="pt-b01585">Isso quer dizer que, se uma pessoa conhece seus erros e não os corrige, uma vez perdido o corpo humano terá de suportar dez mil calamidades, sem poder voltar imediatamente a ser humana. Não seria melhor praticar o bem e acumular virtudes, podendo assim ascender ao céu e entrar nas nuvens?</p><p id="pt-b01586">Quando o carro da frente se quebra, o de trás toma cuidado. Esse é o elixir da longevidade sem envelhecimento.</p><p id="pt-b01587">“O carro da frente” é o veículo que segue adiante. “Quebrar-se” é cair e ficar danificado. “O de trás” é o veículo que vem depois. “Tomar cuidado” é agir com cautela. Isso quer dizer que, se as pessoas tomarem como advertência os antigos amantes da luxúria, que sem exceção perderam a vida e arruinaram suas famílias, assim como o carro de trás se acautela ao ver o da frente, poderão aumentar suas bênçãos e seus anos de vida, como se tivessem tomado um elixir dos imortais que dá longevidade sem envelhecimento.</p><p id="pt-b01588">Outrora, a escrita do luan em voo manifestava o divino; dúvida e crença se misturavam.</p><p id="pt-b01589">“Outrora” significa antigamente. Isso quer dizer que, no passado, algumas pessoas estabeleciam salões de escrita mediúnica e, por meio do movimento dançante do pincel do luan, transmitiam admoestações divinas e manifestações ao mundo. Mas as pessoas misturavam dúvida e crença: poucas acreditavam e muitas não acreditavam.</p><p id="pt-b01590">Por isso, calamidades chegam repetidamente, armas e guerras causam tumulto, céu e terra se invertem e milhões de pessoas ficam entregues à desgraça.</p><p id="pt-b01591">“Calamidades” refere-se a todos os tipos de desastres, como água, fogo e epidemias. “Chegar repetidamente” é chegar com frequência. Há ainda calamidades de armas e guerra que perturbam o mundo, fazendo céu e terra se inverterem e milhares e milhões de pessoas sofrerem juntas desgraças e danos. Como não seria terrível? “Zhao” significa um milhão. “Deixar” é legar; isso quer dizer deixar desgraça e dano para o povo.</p><p id="pt-b01592">Lâmpadas e velas brilham intensamente; por toda parte erguem-se altares para expor os ensinamentos. Cidades e vizinhanças se mobilizam; os grupos recitam textos de arrependimento e reverenciam as escrituras.</p><p id="pt-b01593">“Brilhar intensamente” é a luz clara de lâmpadas e velas. “Erguer altares” é estabelecer altares de escrita mediúnica. “Expor os ensinamentos” é esclarecer os princípios da instrução moral. Isso quer dizer que, devido às repetidas calamidades, todas as pessoas, tanto das cidades como do campo, oferecem dinheiro com entusiasmo para erguer altares e realizar ritos, buscando reverter essas calamidades.</p><p id="pt-b01594">Nada mais fazem que reparar o curral depois de perder a ovelha, buscando reverter a vontade do Céu.</p><p id="pt-b01595">Erguer altares e expor os ensinamentos nada mais visa que reverter a vontade do Céu. É como uma família que cria ovelhas e, depois de perder uma, conserta o curral: apenas faz tudo o que está ao alcance humano.</p><p id="pt-b01596">Eu também não poupo esforços para falar com insistência, expor os ensinamentos e conduzir as pessoas à libertação.</p><p id="pt-b01597">O Soberano diz: Não me furto ao trabalho árduo de explicar oralmente as escrituras e os princípios rituais; quero apenas, por esse meio, conduzir as pessoas à libertação, para que mudem de coração e se voltem ao bem.</p><p id="pt-b01598">Se alguém tomar isso por um escrito meramente formal, logo verá desastres e desgraças chegarem juntos.</p><p id="pt-b01599">“Formal” é estar ali apenas para completar o número, sem ser considerado importante. Isso quer dizer que, se alguém tratar esta Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria como um texto sem importância e impedir que outros creiam e a sigam, logo verá desastres e desgraças chegarem todos juntos, para adverti-lo de sua temeridade.</p><p id="pt-b01600">Se alguém a chamar de absurda, logo verá o raio despedaçar seu corpo.</p><p id="pt-b01601">“Absurda” significa sem fundamento. Isso quer dizer que, se uma pessoa chamar esta Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria de afirmação absurda e sem fundamento, fazendo os outros duvidarem e se recusarem a crer e segui-la, logo verá o fogo do trovão e o raio partir seu corpo em vários pedaços, para tornar manifesta sua maldade.</p><p id="pt-b01602">Um coração inteiramente maternal: os Oito Imortais juntam as mãos em reverência. Um peito cheio de fervor: os Cinco Anciãos erguem a cabeça.</p><p id="pt-b01603">Ao compor esta Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria para aconselhar o mundo, o Soberano tem no peito uma sinceridade ardente que em nada difere do coração de uma mãe idosa que ama seus filhos. Mesmo os imortais das Oito Grutas, ao vê-la, certamente juntariam as mãos em reverência e a louvariam. Os Cinco Anciãos que passeiam pelo rio, ao vê-la, também ergueriam a cabeça para contemplá-la e louvariam a bondade e a beleza de seus ensinamentos.</p><p id="pt-b01604">Sem desprezar sua simplicidade e modéstia, mostro-a a todo o povo.</p><p id="pt-b01605">“O povo” são as pessoas de cabelos negros. O Soberano diz: Não desprezo a simplicidade e a modéstia desta Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria e a mostro a todos vocês, pessoas de cabelos negros. Quero, de fato, persuadir vocês, o povo, a mudar de rumo e não cometer conduta sexual imprópria.</p><p id="pt-b01606">Confiem-na à madeira de jujubeira e castanheiro: nisso deposito grandes esperanças.</p><p id="pt-b01607">As madeiras de jujubeira e castanheiro podem ambas ser gravadas em blocos de impressão. O Soberano diz: Já que mostrei a Escritura sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria a vocês, o povo, espero ainda que a entreguem a uma gráfica, para fazer blocos de impressão e imprimir exemplares a serem distribuídos como exortação ao mundo. Embora eu sempre tenha esse desejo e deposite grandes esperanças em vocês, espero, de fato, que o povo se apresse em pô-la em prática.</p><subtitle id="loc-1608">Poema sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria</subtitle><p id="pt-b01609">É evidente o caminho da morte, mas vocês mesmos o procuram; em vão falam de amor profundo — mais profundo é o mal cometido.</p><p id="pt-b01610">Convém ver os demônios na beleza sensual; não enganem deuses e espíritos, deixando nascer intenções desviadas.</p><p id="pt-b01611">Um sonho em Yangtai: que alegria pode haver? Três artigos das leis do mundo dos mortos: sofrimento insuportável.</p><p id="pt-b01612">Pergunto aos que mantêm relações ilícitas com esposas e filhas alheias: quem aceitaria que outro mantivesse relações ilícitas com sua esposa e sua filha?</p></section><section id="sec-64"><title><p id="loc-1613">Preciosos Ensinamentos do Soberano Wenchang sobre a Abstenção da Conduta Sexual Imprópria</p></title><p id="pt-b01614">Por ordem do Supremo Soberano de Jinque, nos dias yin e mao de cada mês, percorro em inspeção os infernos de Fengdu e examino os fatos relativos às culpas das pessoas de todo o mundo. Vejo registros negros empilhados como montanhas: são todos processos do carma acumulado pelas pessoas ao longo de sua vida. Entre eles, há males de toda espécie. De todos os males, é para a retribuição da conduta sexual imprópria que as leis celestes são mais rigorosas.</p><p id="pt-b01615">Quem mantém relações ilícitas com esposas e filhas alheias e mancha seus lares sofre no inferno durante quinhentos kalpas. Só então pode sair e renascer como mula ou cavalo. Depois de outros quinhentos kalpas, volta a ter um corpo humano, como prostituta ou ator.</p><p id="pt-b01616">Quem trama ardis para manter relações ilícitas e passar a noite com viúvas e monjas, corrompendo sua conduta, sofre no inferno durante oitocentos kalpas. Só então pode sair e renascer como ovelha ou porco, para ser abatido pelas pessoas. Depois de outros oitocentos kalpas, volta a ter um corpo humano, como pessoa cega, muda ou com os órgãos dos sentidos e os membros incompletos.</p><p id="pt-b01617">Quem, de posição inferior, mantém relações ilícitas com alguém de posição superior, ou, sendo mais velho, com alguém mais jovem, corrompendo os princípios fundamentais das relações humanas, sofre no inferno durante mil e quinhentos kalpas. Só então pode sair e renascer como cobra ou rato. Depois de outros mil e quinhentos kalpas, enfim obtém um corpo humano, mas pode morrer no ventre materno ou ainda nos braços de quem o carrega. De todo modo, não desfrutará de uma vida longa.</p><p id="pt-b01618">Há ainda os que escrevem livros obscenos e corrompem a mente das pessoas. Ao morrerem, entram no Inferno dos Sofrimentos Ininterruptos. Somente quando todos os exemplares de seus livros tiverem desaparecido e as retribuições das culpas de todos os que praticaram o mal por causa deles tiverem se esgotado poderão sair e renascer no reino dos fantasmas. Ali, na mais profunda escuridão, não verão as três luzes; alimentar-se-ão de vento e dormirão sobre o gelo, com a pele dolorosamente fendida. Mesmo que encontrem imortais ou budas, não poderão ser salvos e libertados. Não se sabe quão imensa é a calamidade que os livros obscenos causam às pessoas do mundo.</p><p id="pt-b01619">Jovens virtuosas de famílias respeitáveis, capazes de ler e compreender os escritos, seja na quietude do dia junto à janela verde, seja tarde da noite à luz da lamparina azulada, abrem esses volumes para lê-los. Suas almas hun e po ficam abaladas e agitadas; incapazes de suportar as chamas do desejo, de repente passam a fugir de casa e manter encontros clandestinos. Assim, mulheres castas perdem a integridade e jovens virgens perdem a castidade. Há também jovens inteligentes e letrados que, ao verem esses livros, têm a consciência e os pensamentos maculados. Alguns se masturbam sem conseguir se conter; outros lançam olhares levianos e cedem a relações ilícitas. Nos casos menores, lesam o yang primordial e morrem prematuramente na juventude; nos maiores, profanam e desordenam os princípios das relações humanas, tornando-se indignos do convívio dos letrados. Quanto a elaborar habilmente narrativas dramáticas, encená-las diante do público, instruir rapazes mantidos como favoritos e contemplar demoradamente atitudes lascivas, são incontáveis os casos de corrupção da conduta pura das pessoas. Examinando a origem disso, tudo decorre dos males causados pelos livros obscenos. Como podem os letrados, dotados de raízes de sabedoria de vidas anteriores e segurando um pincel de sete cun, deixar de pensar em contribuir para o mundo e acumular bênçãos para si, para apenas criar males sem fim, provocar a ira do Soberano Celeste e lançar-se por conta própria em abismos de gelo e fossos de fogo, sem se importar? É profundamente lamentável.</p></section><section id="sec-65"><title><p id="loc-1620">Tabela dos períodos de abstinência para preservar o corpo e sustentar a vida e dos dias de interdição ligados ao Céu, à Terra e às pessoas, do Espelho Precioso da Longevidade e da Saúde, ampliado e revisto pelo Grande Mestre Yinguang (não foi possível organizar a tabela no arquivo TXT; procurem-na na internet. Essa tabela é muito importante, especialmente para pais que desejam um filho pleno de bênçãos e sabedoria). <a xlink:href="#loc-1705">[N29]</a></p></title><empty-line/></section><section id="sec-66"><title><p id="loc-1621">O livro As leis implacáveis do mundo dos mortos foi de fato lançado pela administração do mundo dos mortos, que abençoa sua circulação — minha história com As leis implacáveis do mundo dos mortos</p></title><p id="pt-b01622">Hesitei por muito tempo, sem saber se deveria escrever a pequena história do que aconteceu entre mim e As leis implacáveis do mundo dos mortos. Sou apenas uma pessoa comum, que não conhece os meandros dos três reinos nem a profundidade da verdade das seis vias do renascimento, e essa experiência realmente ultrapassou tudo o que eu poderia imaginar. Antes, eu apenas lia histórias de outras pessoas: o Espelho Precioso da Longevidade e da Saúde, Reverter a Torrente do Mar dos Desejos, Recursos Iniciais para as Dez Mil Boas Ações e outros livros registram muitas experiências desse tipo relacionadas ao mundo dos mortos. Desta vez, porém, o que me aconteceu estava ligado especificamente a As leis implacáveis do mundo dos mortos e, como envolvia as condições da minha vida futura, nunca ousei contar tudo. Apenas revelava um pouco às pessoas próximas quando apresentava o livro. Mas, ao ver que um bom número de pessoas tinha fortes preconceitos contra As leis implacáveis do mundo dos mortos, pensei que deveria contar. Embora ainda sinta algum medo e não saiba quais poderão ser as consequências, penso que estou apenas relatando honestamente o que vivi. Sejam quais forem suas ideias, sua posição ou sua maneira de ver, os fatos que acontecem nos três reinos continuam sendo fatos, e o são para todos. Só espero que todos saibam: o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos tem, de fato, uma origem extraordinária; é verdadeiro, não é falso. Penso que o Dharma revela aos seres a verdade dos fatos, em vez de negá-los. O Sutra do Diamante diz claramente: “Quem desperta a aspiração ao insuperável, correto e perfeito despertar não afirma a aniquilação dos fenômenos.” Há quem goste de brandir um grande porrete e se colocar como supremo juiz do Dharma. Mas, se você não compreende os fatos, certamente também não compreendeu verdadeiramente o Dharma! Se não consegue contemplar a verdade dos fatos para além de toda relatividade e ainda é uma pessoa comum, como ousa colocar-se como juiz a partir de ideias e opiniões limitadas pelos próprios olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente? Não é arrogância demais? Já pensou no carma maléfico de enganar a si mesmo e aos outros?</p><p id="pt-b01623">Dois meses atrás, em meados de março, recebi gratuitamente um exemplar de As leis implacáveis do mundo dos mortos num local de distribuição de publicações budistas. Parece que já o tinha visto antes e, embora o achasse bom, talvez sob a influência de certas opiniões, sempre pensara que não passava de um livro de exortação ao bem, por isso não o lera com atenção. Desta vez, ao folheá-lo no local de distribuição, achei que suas explicações eram muito boas. Pelo menos me ajudaram a entender um período que vivi muitos anos atrás, quando parecia estar sem alma: na rua, não conseguia enxergar nada a pouco mais de dez metros, não tinha energia alguma, ficava num estado de torpor e atordoamento, como se apenas um corpo carnal estivesse andando, capaz de algumas poucas reações mentais simples. Ao que parece, devia ser o carma maléfico da conduta sexual imprópria: antes de se esgotar meu tempo de vida, já tinham levado minhas três almas hun!</p><p id="pt-b01624">Depois de levar o livro para casa, li-o outra vez com atenção e achei que era realmente muito bom. Minha experiência pessoal ao longo de muitos anos me fazia perceber que as coisas eram de fato assim: as consequências da conduta sexual imprópria eram realmente ruins e assustadoras. Pensei que seria bom enviar mais um lote a um centro local de prática de Kṣitigarbha, para que mais pessoas pudessem ler. Foi um pensamento passageiro, que deixei de lado sem lhe dar importância. Continuei trabalhando, comendo e dormindo. Naquela noite, porém, tive um sonho: eu carregava uma pilha de livros para o centro Dizang Tanlin, e ao mesmo tempo uma voz me dizia: “Se você levar uma pilha de As leis implacáveis do mundo dos mortos ao Dizang Tanlin, alcançará a vida eterna.” Ao acordar, achei aquilo muito estranho e também interessante. Era apenas uma ideia passageira que tivera durante o dia e da qual eu já me esquecera, mas acabara tendo esse sonho. O que seria a vida eterna? De qualquer forma, enviar uma pilha de As leis implacáveis do mundo dos mortos ao Dizang Tanlin era uma boa ação. Então eu a faria! Depois de chegar ao trabalho, encontrei no computador o blog de Shangguan Yuhua e depois o site Shanxin Lianxin Zhengfa Shenghuo. Mas parecia que as boas ações enfrentavam muitos obstáculos: meu certificado digital de acesso ao banco pela internet havia expirado. Além de As leis implacáveis do mundo dos mortos, aproveitei para encomendar a Preciosa Liturgia de Arrependimento da Compaixão de Kṣitigarbha e outros livros que procurava havia muito tempo sem encontrar; o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos era distribuído gratuitamente. Eu não conseguia atualizar o certificado de jeito nenhum: aparecia sempre um problema de sincronização de horário. Entrei várias vezes em contato com o atendimento do banco e fiz testes, mas o problema não foi resolvido. Trabalhávamos numa área industrial e, durante o dia, estávamos longe do centro da cidade. Tentei repetidamente e achei tudo bastante trabalhoso. Mas não era por causa daquele sonho, que eu realmente não levara a sério na ocasião; apenas pensava que, já que decidira fazer uma boa ação, deveria ter firmeza para concluí-la, sem desistir diante de uma pequena dificuldade. Depois, fui especialmente a uma agência bancária no centro da cidade para atualizar o certificado. Voltei ao escritório e finalmente consegui resolver tudo. Encomendei três caixas de livros, que incluíam As leis implacáveis do mundo dos mortos, a Edição Essencial da Coletânea de Hui’an Mingdeng, a Preciosa Liturgia de Arrependimento da Compaixão de Kṣitigarbha e outros. Quando chegaram, levei uma pilha ao Dizang Tanlin. Eu não dava importância ao sonho anterior, nem sequer o considerava sério, e quase o tinha esquecido; estava apenas fazendo aquilo como uma boa ação. Mas naquela noite tive outro sonho. Havia duas figuras com aparência de oficiais, rostos avermelhados e escuros, várias rugas na testa e faces aproximadamente quadradas. Pareciam muito com os oficiais do mundo dos mortos retratados no Precioso compêndio do Calendário de Jade. Bastava olhar para perceber que não eram pessoas do mundo dos vivos. Não tinham flexibilidade nem afabilidade; transmitiam uma sensação de “oficialidade” e “implacabilidade”, como se sentimento algum pudesse comovê-los e só tratassem dos assuntos com imparcialidade. Havia também alguém que parecia ser a autoridade local daquela região — não sei se era o deus da terra ou o deus do fogão. Os dois oficiais me entregaram uma grande folha de papel, inteiramente preenchida, linha após linha, com registros de coisas minhas. À extrema esquerda de cada linha estava meu nome, escrito com absoluta clareza, e à direita vinham os registros. Diante dos três, comecei a rasgar o material em tiras, mas o papel parecia resistente e difícil de rasgar. Nesse momento, aquele que parecia ser a autoridade local chamou os dois oficiais de lado para conversar sobre alguma coisa. Continuei rasgando. Pouco depois, os três voltaram e mandaram que eu ateasse fogo e queimasse tudo completamente, como se quisessem eliminar para sempre minhas apreensões. Terminada a queima, os dois oficiais se levantaram, olharam para mim — ainda com aquela expressão estritamente oficial, sem qualquer possibilidade de afabilidade ou flexibilidade — e foram embora. Acordei. Que estranho! Eu tivera um sonho assim, uma cena tão real que acabara de acontecer. Não conheço os meandros dos três reinos nem a profundidade da verdade do renascimento nas seis vias, e não ousei contar isso aos outros. Mas compreendi que o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos tinha de fato sido lançado pela administração do mundo dos mortos, que abençoava sua circulação. No mundo dos mortos, uma promessa realmente vale mil moedas de ouro: o que se diz, se faz. O livro As leis implacáveis do mundo dos mortos afirma: “Todos os que apoiarem as leis do mundo dos mortos ascenderão ao Céu e terão seus nomes retirados dos registros dos infernos.” E é realmente como diz o livro: “Não pense que ninguém saberá se você fizer algo muito íntimo. Um único pensamento bom ou mau se liga diretamente ao registro do bem e do mal da administração do mundo dos mortos.”</p><p id="pt-b01625">Eu pensava que tudo terminaria ali. Jamais imaginei que, pouco depois, voltaria a encontrar aquele oficial. Desta vez, não foi ele que veio; fui eu que recebi a ordem de descer. Preciso contar desde o começo, começando por um episódio à parte. No ano retrasado, subi ao monte Jiuhua e hospedei-me no Templo Xitian. Assim que me instalei, fui ao salão principal reverenciar o Buda. Quando me levantei após as reverências e ia sair, uma monja idosa sentada atrás de uma mesa junto à porta me chamou. Ela disse: “Você lê o Sutra do Diamante em casa, não é?” Naquele momento, eu levava um pequeno exemplar do Sutra do Diamante no bolso superior interno do casaco. Respondi: “Sim, trago o Sutra do Diamante comigo”, e o tirei enquanto falava. A monja disse: “Não estou dizendo que você traz o Sutra do Diamante. Estou dizendo que você o está lendo e já o lê há pelo menos três meses.” Senti grande surpresa; era a primeira vez que encontrava alguém capaz de falar assim. Eu realmente estava lendo o Sutra do Diamante naquela época. Chamei então meu filho, meu sobrinho e minha sobrinha, que viajavam comigo. A monja falou de modo breve e direto, e tudo o que disse foi muito preciso. Todos se sentiram bastante encorajados. Quando voltamos ao entardecer, fui outra vez ao salão principal e vi uma jovem ajoelhada diante do Buda, lendo o Sutra de Kṣitigarbha. Parecia que era sua mãe quem estava à porta. Ao perguntar, soube que vinham do nordeste. Como a monja também dissera coisas muito precisas a seu respeito, a jovem decidira ler o Sutra de Kṣitigarbha na montanha mesmo durante a viagem. A monja era extremamente compassiva. Sem se cansar, aconselhou-nos com insistência e nos orientou sob todos os aspectos, pedindo que praticássemos com empenho. Também aconselhou minha esposa, falando da vida cotidiana, da família e do trabalho, de vidas passadas e desta vida. Deu-nos muitas escrituras, contas de recitação, adornos e outras coisas. Minha esposa ficou muito comovida e, ao voltar, leu o Sutra de Kṣitigarbha com dedicação durante algum tempo. Antes de descer a montanha, perguntei à monja se eu teria alguma calamidade ou dificuldade no futuro. Ela pegou um Sutra de Kṣitigarbha e uma imagem de Kṣitigarbha, entregou-os a mim e disse: “Não pergunte mais nada. Se nos dias úteis precisa trabalhar e não tem tempo, então leia em casa um Sutra de Kṣitigarbha completo a cada sábado e a cada domingo, e tudo ficará bem.” Depois de voltar, mantive isso por algum tempo, mas acabei relaxando. Sempre que me lembrava, porém, de sua voz, seu rosto e seu sorriso incomparavelmente bondosos, e de seus conselhos e recomendações repetidos para mim, sentia muita vergonha. Por volta da segunda metade do ano passado, voltei, de modo geral, a ler o Sutra de Kṣitigarbha inteiro a cada dia do fim de semana.</p><p id="pt-b01626">Voltando à história: alguns dias depois de distribuir As leis implacáveis do mundo dos mortos e ter aquele sonho, passei a praticar com certa preguiça e negligência — meus hábitos arraigados são mesmo muito fortes! Deixei várias vezes de ler o Sutra de Kṣitigarbha quando deveria, embora ainda mantivesse a prática matinal que estabelecera para mim. Então, certa noite, depois de dormir, pareceu-me que descia até uma sala. Havia ali uma mesa retangular de reuniões, e parecia estar acontecendo uma reunião. A pessoa sentada bem ao centro, à frente, provavelmente a presidia; parecia ser o mesmo oficial com quem eu tivera contato no sonho anterior. Quando entrei, ele mantinha aquela expressão rigorosamente imparcial, meticulosa e muito séria. Perguntou: “Por que você não tem lido as escrituras ultimamente?” Naquele ambiente, pareceu-me que dizia a verdade involuntariamente: “Não tenho lido o Sutra de Kṣitigarbha nas tardes dos fins de semana, mas de manhã continuo lendo os Dez Grandes Votos de Samantabhadra e o Sutra do Diamante.” De repente, o rosto do oficial se abriu num sorriso radiante de alegria, que transmitia satisfação e alívio. Na hora, achei aquilo extremamente surpreendente e raro. Na minha impressão, era raríssimo que seu rosto pudesse ter uma expressão assim, como ver o sol no céu noturno. Apenas porque eu lia escrituras budistas, ele mostrava um sorriso tão satisfeito! Eu não imaginava que recitar escrituras budistas pudesse fazer alguém ser visto imediatamente de maneira tão diferente naquele lugar. Depois, pareceu consultar também a situação da distribuição de As leis implacáveis do mundo dos mortos e, no conjunto, pareceu bastante satisfeito.</p><p id="pt-b01627">Como eu sentia que estudar e divulgar As leis implacáveis do mundo dos mortos trazia benefícios pessoais muito concretos e diretos, que dinheiro algum poderia comprar, quis que meus irmãos e minha irmã também o estudassem e divulgassem, recebendo um pouco desses raros benefícios pessoais que não se compram. Mas não morávamos todos no mesmo lugar, o que dificultava as coisas. Pensei então em dar exemplares aos meus pais, para que levassem alguns sempre que fossem visitar um dos filhos. Naquela época, meus pais moravam na casa do meu irmão mais velho. Era uma sexta-feira à tarde, pouco depois das duas, quando tive essa ideia e decidi ir até meus pais. Peguei o trem para outra cidade e cheguei à casa do meu irmão pouco depois das seis da tarde. Assim que entrei, tive uma surpresa: com exceção do meu irmão mais velho, que saíra e não estava na própria casa, todos os outros estavam reunidos na sala. Quando perguntei, todos disseram: “Estamos esperando você!” Perguntei ao mais velho dos meus irmãos mais novos: “Como você veio parar aqui?” — ele não trabalhava naquela cidade. Respondeu: “Eu teria uma reunião à tarde, mas ela foi cancelada de última hora, então vim de carro visitar nossos pais.” Perguntei também à minha irmã mais nova: “Como você veio parar aqui?” Ela disse: “Saí à tarde para resolver uma coisa. Quando terminei, já eram quase cinco horas, então não voltei ao trabalho e vim ver nossos pais.” Perguntei ainda ao meu irmão mais novo: “Como você veio parar aqui?” Ele respondeu: “No Festival Qingming, nossos pais não puderam voltar à terra natal, então eu fui. Acabei de voltar nesta tarde e passei primeiro para vê-los.” Nós, irmãos, raramente nos reuníamos todos ao mesmo tempo. Mesmo quando alguém organizava alguma coisa em casa e todos iam, quase nunca chegávamos juntos no intervalo de um mesmo shichen. Conversamos um pouco e cada um recebeu gratuitamente alguns exemplares de As leis implacáveis do mundo dos mortos. Como todos tinham coisas a fazer em casa, e alguns ainda precisavam voltar a outra cidade, logo saíram às pressas. Pensei: o livro acabou chegando às mãos de todos da maneira mais rápida possível. Isso devia ser o resultado da bênção dos poderes espirituais do Buda e das divindades do Céu e da Terra, depois que tive a ideia de que eles estudassem e divulgassem As leis implacáveis do mundo dos mortos!</p><p id="pt-b01628">Alguns dias depois, minha irmã me telefonou de repente para perguntar onde o livro As leis implacáveis do mundo dos mortos era impresso, pois seu filho queria fazer uma doação para a impressão. Ele cursava o terceiro ano do primeiro ciclo do ensino secundário chinês (chusan) e era um pequeno tirano muito difícil de controlar. Achei estranho e perguntei o que acontecera. Minha irmã disse: “O livro As leis implacáveis do mundo dos mortos é realmente muito bom. Em casa, porém, eu o lia sozinha e não tinha dado o livro ao menino. Não sei quando, mas ele o leu por conta própria e de repente me disse: ‘Mamãe, tenho culpas.’ Perguntei o que havia acontecido, e ele respondeu: ‘Antes, para me divertir, machuquei de propósito muitas formigas. Quero doar todo o meu dinheiro para imprimir As leis implacáveis do mundo dos mortos. Quero fazer um voto diante do Buda e pedir aos budas e bodhisattvas que abençoem e libertem essas pequenas vidas que feri.’” Minha irmã continuou: “Este livro, As leis implacáveis do mundo dos mortos, realizou mesmo um grande mérito e ajudou muito! Alguém tão impossível de controlar passou por uma mudança enorme!” Esse meu jovem sobrinho, embora muito inteligente, fazia toda sorte de disparates e arranjava problemas; era difícil de educar e dava muita dor de cabeça aos adultos. Gastava o próprio dinheiro como queria e nem deixava os adultos controlarem isso. Desta vez, porém, tomou a iniciativa de despertar essa aspiração, juntou tudo e doou, sem deixar nada para si.</p><p id="pt-b01629">O Saṃyukta Āgama apresenta uma comparação: “Como a terra sobre uma unha, assim são os seres que seguem a via humana. Como a terra de todo o chão, assim são os não humanos.” O Sutra do Nirvana também registra que, certa vez, o Buda apanhou um pouquinho de poeira do chão e perguntou ao venerável Kāśyapa: “Há mais poeira aqui na minha mão ou mais terra no solo dos mundos das dez direções?” O venerável Kāśyapa respondeu: “Naturalmente, há mais terra no solo dos mundos das dez direções.” O Buda disse: “Os que obtêm um corpo humano e praticam boas ações são tão raros quanto a poeira na minha mão; os que não obtêm um corpo humano e praticam carma maléfico são tão numerosos quanto a terra do solo dos mundos das dez direções.” Além disso, as escrituras budistas também dizem: “Os que obtêm um corpo humano são como a terra sobre uma unha; os que perdem o corpo humano são como a terra de todo o chão.” Desde tempos sem princípio, realmente produzimos uma quantidade incalculável de carma que conduz ao inferno. Penso que quem não consegue encarar essa questão não tem a mente lúcida. O livro As leis implacáveis do mundo dos mortos não é, como outros livros, algo escrito por alguém que reuniu amplamente materiais, muito menos uma criação de alguém. A respeitada irmã de Dharma Shangguan Yuhua é apenas a narradora, a narradora dos fatos, cumprindo uma tarefa. Esses fatos alarmantes nos revelam o caráter concreto, a urgência e a importância de praticar o bem, observar os preceitos e cultivar o Dharma.</p><p id="pt-b01630">Por fim, há pessoas que não aceitam estas passagens do livro As leis implacáveis do mundo dos mortos: “A Virgem Maria é uma manifestação de Avalokiteśvara” e “Vi que a forma manifestada pelo bodhisattva era a aparência compassiva da Virgem Maria do catolicismo. O magistrado do mundo dos mortos disse que a Virgem Maria era, na verdade, uma das manifestações de Avalokiteśvara.” Chegam até a dizer: “Está errado.” Penso que a irmã de Dharma Shangguan Yuhua está narrando os fatos que vivenciou. Ela não disse nada errado. É você que não compreende. O Sutra do Diamante diz: “Subhūti! O que você pensa? É possível ver o Tathāgata por sua forma corporal?” “Não, Honrado pelo Mundo! Não se pode ver o Tathāgata por sua forma corporal. Por quê? A forma corporal de que fala o Tathāgata não é forma corporal.” O Buda disse a Subhūti: “Todas as formas são ilusórias. Se vir que todas as formas não são formas, verá o Tathāgata.” E também: “Subhūti! O que você pensa? É possível ver o Buda por seu corpo físico plenamente dotado?” “Não, Honrado pelo Mundo! Não se deve ver o Tathāgata por seu corpo físico plenamente dotado. Por quê? O Tathāgata diz: o corpo físico plenamente dotado não é um corpo físico plenamente dotado; por isso é chamado de corpo físico plenamente dotado.” “Subhūti! O que você pensa? É possível ver o Tathāgata pela plenitude de todas as suas marcas?” “Não, Honrado pelo Mundo! Não se deve ver o Tathāgata pela plenitude de todas as suas marcas. Por quê? O Tathāgata diz: a plenitude de todas as marcas não é plenitude; por isso é chamada de plenitude de todas as marcas.” E: “Se alguém me vê pela forma ou me busca pelo som, essa pessoa segue um caminho desviado e não pode ver o Tathāgata.” Então, diga: em que forma corporal o Buda deveria se manifestar e em que forma não deveria? Que forma precisa assumir para que seja uma manifestação do Buda? É seu próprio coração que guarda a visão de um eu e de outros, e seus sentimentos que se apegam a essa distinção. Diante das inúmeras aparências do mundo, você se fixa nas formas e discrimina, toma o ilusório por real, o falso por existente e produz uma visão extrema de aniquilação. Como pode julgar temerariamente que os poderes espirituais e a sabedoria dos budas e bodhisattvas, plenamente realizados e livres em todos os fenômenos, não se manifestariam sob determinada imagem?</p><p id="pt-b01631">O capítulo “A Porta Universal do Bodhisattva Avalokiteśvara”, do Sutra da Flor de Lótus do Dharma Maravilhoso, diz claramente: “O Buda disse ao bodhisattva Wujinyi: ‘Bom homem! Se, em alguma terra, houver seres que devam ser libertados por meio da forma de um Buda, o bodhisattva Avalokiteśvara manifesta a forma de um Buda e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de um pratyekabuddha, manifesta a forma de um pratyekabuddha e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de um discípulo ouvinte, manifesta a forma de um discípulo ouvinte e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma do rei Brahmā, manifesta a forma do rei Brahmā e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de Śakra, manifesta a forma de Śakra e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de Zizaitian, manifesta a forma de Zizaitian e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de Dazizaitian, manifesta a forma de Dazizaitian e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de um grande general celeste, manifesta a forma de um grande general celeste e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de Vaiśravaṇa, manifesta a forma de Vaiśravaṇa e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de um rei menor, manifesta a forma de um rei menor e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de um ancião, manifesta a forma de um ancião e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de um praticante leigo, manifesta a forma de um praticante leigo e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de um magistrado, manifesta a forma de um magistrado e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de um brâmane, manifesta a forma de um brâmane e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de um monge, uma monja, um leigo budista ou uma leiga budista, manifesta a forma de um monge, uma monja, um leigo budista ou uma leiga budista e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de anciãos, praticantes leigos, magistrados, brâmanes ou mulheres, manifesta a forma de mulher e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de um menino ou uma menina, manifesta a forma de um menino ou uma menina e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de devas, dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garuḍas, kiṃnaras, mahoragas, humanos, não humanos e outros seres, manifesta todas essas formas e lhes expõe o Dharma. Aos que devam ser libertados por meio da forma de uma divindade que empunha o vajra, manifesta a forma de uma divindade que empunha o vajra e lhes expõe o Dharma.’” Vê-se, portanto, que os budas e bodhisattvas se manifestam e expõem os ensinamentos inteiramente de acordo com as condições dos seres: manifestam a forma por meio da qual cada ser deve alcançar a libertação e assim o libertam. Não há uma forma fixa à qual se apegar! Por isso, aos que devam ser libertados por meio da forma da Virgem Maria, manifestam essa forma e lhes expõem o Dharma. Como poderia haver algum ser abandonado pela grande compaixão e pela grande equanimidade dos budas e bodhisattvas? Não importa a qual das seis vias pertença, muito menos a qual religião do mundo humano! Haveria alguma forma que os poderes espirituais e a sabedoria plenamente realizados e livres dos budas e bodhisattvas não pudessem manifestar em resposta ao coração dos seres? Reflitam cuidadosamente! Não interpretem mal o coração do Buda a partir de sua própria falta de equanimidade para com os seres! Não interpretem temerariamente o coração do Buda com seu apego às formas e às condições externas e com sua mente que discrimina entre o eu e os outros! <a xlink:href="#loc-1707">[N30]</a></p><p id="pt-b01632">Gratidão aos budas e bodhisattvas!</p><p id="pt-b01633">Gratidão ao Céu, à Terra, aos espíritos e às divindades!</p><p id="pt-b01634">Gratidão à professora Shangguan Yuhua!</p><p id="pt-b01635">Gratidão ao professor Wenshu Mojie!</p><p id="pt-b01636">Gratidão a todos os que contribuíram para a circulação de As leis implacáveis do mundo dos mortos pelo mundo!</p><p id="pt-b01637">Miaosheng</p></section><section id="sec-67"><title><p id="loc-1638">Versos de Dedicação dos Méritos</p></title><p id="pt-b01639">Que, por estes méritos, seja eliminado o carma passado e presente;</p><p id="pt-b01640">cresçam todas as bênçãos e a sabedoria, e se aperfeiçoem as excelentes raízes de bondade.</p><p id="pt-b01641">Todas as calamidades de armas e guerra, a fome e outras calamidades,</p><p id="pt-b01642">sejam inteiramente eliminadas, e cada pessoa pratique o respeito e a deferência.</p><p id="pt-b01643">Todos os que ajudam na impressão, e os que fazem circular de mão em mão:</p><p id="pt-b01644">que seus familiares vivos tenham paz e alegria, e os já falecidos ascendam a um estado superior.</p><p id="pt-b01645">Que ventos e chuvas sejam sempre propícios, e todo o povo tenha paz e saúde.</p><p id="pt-b01646">Que todos os seres conscientes do reino do Dharma realizem juntos o Caminho Supremo.</p></section><section id="sec-68"><title><p id="loc-1647">Notas sobre o texto e a tradução</p></title><subtitle id="n1-dinastia-e-cronologia">N1 — Dinastia e cronologia</subtitle><p id="pt-b01649">O original menciona a dinastia Han Ocidental ao mesmo tempo que fala em “mais de 1.900 anos”. A tradução conserva as duas referências, sem substituir a dinastia nem recalcular a data.</p><subtitle id="loc-1650">N2 — Uma semana e um mês</subtitle><p id="pt-b01651">Passagens próximas atribuem reduções diferentes da duração da vida a situações cuja relação não é explicada por completo. Mantiveram-se separadamente os valores do original, em vez de harmonizá-los.</p><subtitle id="n3-o-sentido-de-causar-a-morte">N3 — O sentido de “causar a morte”</subtitle><p id="pt-b01653">A expressão chinesa pode designar envenenamento ou, de maneira mais ampla, uma ação maliciosa que cause dano. Esta edição conserva a ação de causar maliciosamente a morte, sem especificar um meio que o original não determina.</p><subtitle id="loc-1654">N4 — Bênçãos e duração da vida</subtitle><p id="pt-b01655">A afirmação geral de uma passagem e a restrição apresentada logo depois não coincidem inteiramente. A tradução conserva a diferença entre perder bênçãos e perder anos de vida.</p><subtitle id="loc-1656">N5 — Referência aos animais</subtitle><p id="pt-b01657">Uma expressão do original é pouco clara. A tradução foi orientada pela explicação que se segue, relativa a alimentos e produtos de origem animal, sem alterar o texto chinês de referência.</p><subtitle id="n6-parentesco">N6 — Parentesco</subtitle><p id="pt-b01659">Nesta enumeração, 婆婆 e 公公 são entendidos provisoriamente como avó materna e avô materno; 奶奶 e 爷爷, como avó paterna e avô paterno. Em mandarim, os dois primeiros termos costumam designar a mãe e o pai do marido; em cantonês, podem designar os avós maternos. A leitura adotada aqui apoia-se nos pares de avós e na menção separada aos parentes do cônjuge. Ela não comprova o dialeto do autor nem deve ser estendida automaticamente a outros trechos.</p><subtitle id="loc-1660">N7 — Bênçãos medidas em meses</subtitle><p id="pt-b01661">O original aplica “meio mês” e “um mês” conjuntamente à perda de bênçãos e de duração da vida, sem explicar como as bênçãos seriam medidas dessa forma. Conservou-se essa formulação.</p><subtitle id="loc-1662">N8 — A indicação de primeiro encontro</subtitle><p id="pt-b01663">O título apresenta o encontro como o primeiro, embora haja uma referência anterior a uma audiência. A sequência e a indicação do original foram mantidas, sem se criar uma explicação para a diferença.</p><subtitle id="loc-1664">N9 — “Dez milhões”</subtitle><p id="pt-b01665">A expressão chinesa admite uma leitura numérica e um uso enfático para indicar uma quantidade imensa. Empregou-se “dez milhões” como leitura literal conservadora nas comparações e na frequência mencionadas. Isso não prova que a autora pretendesse fornecer uma medida ou contagem exata.</p><subtitle id="n10-setenta-noventa-e-cem">N10 — Setenta, noventa e cem</subtitle><p id="pt-b01667">O livro cita setenta, noventa e até cem anos. A edição eletrônica CBETA do Sutra da Extinção Completa do Dharma (T 396) também menciona oitenta anos. A tradução conserva aqui os números do livro, sem corrigir silenciosamente sua citação.</p><subtitle id="n11-yanhua-fangun">N11 — Yanhua Fangun</subtitle><p id="pt-b01669">O nome desse inferno foi conservado por transliteração, pois o texto disponível não permite resolver com segurança todos os elementos do composto. Não se pretende apresentar uma tradução etimológica definitiva.</p><subtitle id="loc-1670">N12 — “A criança de seu ex-marido”</subtitle><p id="pt-b01671">Essa formulação difere da referência anterior à criança da ex-esposa do marido. A tradução mantém a divergência do original, sem redefinir silenciosamente o parentesco.</p><subtitle id="n13-temperaturas">N13 — Temperaturas</subtitle><p id="pt-b01673">O original não identifica a escala de temperatura nessas passagens. Por isso, “graus” foi mantido sem se acrescentar Celsius ou Fahrenheit.</p><subtitle id="loc-1674">N14 — Fim da vida e vida ainda não esgotada</subtitle><p id="pt-b01675">Uma passagem fala do término da vida, enquanto outra, próxima, afirma que a duração da vida no mundo dos vivos ainda não se esgotara. Não foi criada uma explicação para reconciliar as duas expressões.</p><subtitle id="loc-1676">N15 — Resposta sobre a crença</subtitle><p id="pt-b01677">A resposta repete inicialmente a formulação da pergunta, embora sua argumentação posterior diga que não ver algo não prova sua inexistência. A tradução não introduziu uma negação ou uma pergunta retórica ausente no original.</p><subtitle id="loc-1678">N16 — Uma aparência inacessível</subtitle><p id="pt-b01679">A expressão chinesa descreve aqui a aparência imponente do Grande Imperador. “Inacessível” preserva essa impressão sem acrescentar uma proibição dirigida especificamente aos vivos ou a desconhecidos.</p><subtitle id="n17-linguagem-do-poema">N17 — Linguagem do poema</subtitle><p id="pt-b01681">O primeiro poema emprega construções condensadas; os sujeitos nem sempre são nomeados. A tradução mantém essa concisão sem acrescentar nomes nos versos.</p><subtitle id="n18-plataforma-yuwang">N18 — Plataforma Yuwang</subtitle><p id="pt-b01683">Yuwang é a transliteração do nome 醧忘台, o lugar onde se prepara a sopa que faz esquecer as vidas anteriores. A grafia chinesa rara foi preservada.</p><subtitle id="loc-1684">N19 — Um número de grande magnitude</subtitle><p id="pt-b01685">“Cem quintilhões” traduz aqui o produto literal dos valores modernos das palavras chinesas, na escala usada no Brasil. Essa escolha não estabelece um valor histórico único para “亿亿万”, nem transforma a comparação de sofrimento em uma medida exata.</p><subtitle id="loc-1686">N20 — Uma passagem de sintaxe difícil</subtitle><p id="pt-b01687">A abertura admite apenas uma leitura provisória: continuam incertos a divisão da frase e o sentido de “o que não se deve conhecer […] as inúmeras coisas”. No sexto item, o texto não esclarece a relação entre “reunir-se” e “durante a meditação”; daí não se pode deduzir uma proibição precisa de meditar em grupo. A tradução mantém a dificuldade, sem completar palavras supostamente ausentes.</p><subtitle id="loc-1688">N21 — O ano 350 após a dinastia Song</subtitle><p id="pt-b01689">O texto não determina se a contagem parte do início, do fim ou de outro acontecimento da dinastia. Por isso, não se atribuiu uma data do calendário ocidental.</p><subtitle id="n22-os-dez-tribunais">N22 — Os dez tribunais</subtitle><p id="pt-b01691">A expressão foi entendida como a área antiga dos dez tribunais. O texto isolado não exclui por completo uma referência abreviada à área do Décimo Tribunal.</p><subtitle id="n23-encerramento-de-uma-fala">N23 — Encerramento de uma fala</subtitle><p id="pt-b01693">O texto de referência não fecha claramente as aspas da fala do magistrado. Nesta edição, as aspas foram fechadas depois do anúncio da visita, antes de a narração voltar ao percurso e às observações de Ayu. Trata-se de uma intervenção de pontuação identificada.</p><subtitle id="n24-partes-de-uma-pena">N24 — Partes de uma pena</subtitle><p id="pt-b01695">As expressões “quatro partes”, “sete partes”, “nove partes” e semelhantes não vêm acompanhadas de um denominador explícito. Não foram convertidas em percentuais. As unidades ji e suan também não foram convertidas automaticamente em anos.</p><subtitle id="n25-anos-e-kalpas">N25 — Anos e kalpas</subtitle><p id="pt-b01697">A mesma passagem usa primeiro cem anos e depois cem kalpas. A diferença foi preservada, pois corrigir uma das unidades exigiria evidência de uma alteração autorizada do original.</p><subtitle id="n26-limites-de-idade-no-texto-anexo">N26 — Limites de idade no texto anexo</subtitle><p id="pt-b01699">As duas faixas de idade do original se sobrepõem aos dezesseis anos. A tradução conserva esse limite sem corrigir silenciosamente uma das faixas. O trecho pertence a um código religioso citado na obra, não a uma descrição do direito vigente.</p><p id="pt-b01700">A expressão chinesa 挟幼童 (xié yòutóng) aparece aqui na classificação de condutas sexuais, não de situações comuns em que alguém leva uma criança consigo. O verbo 挟, por si só, não permite afirmar que a cláusula se restrinja a casos de coerção. A tradução mantém a referência à conduta sexual envolvendo crianças pequenas, sem afirmar nem negar que haja coerção.</p><subtitle id="n27-o-nome-tou">N27 — O nome Tou</subtitle><p id="pt-b01702">O texto de referência apresenta a forma traduzida como “príncipe Tou”. Ela foi preservada em vez de substituída por um nome histórico semelhante.</p><subtitle id="loc-1703">N28 — Texto e comentário</subtitle><p id="pt-b01704">A frase breve e a explicação que a segue apresentam uma tensão de sentido. Ambas foram conservadas, sem acrescentar à primeira uma negação ou uma interpretação tomada de outra formulação conhecida.</p><subtitle id="loc-1705">N29 — Tabela não presente no arquivo de referência</subtitle><p id="pt-b01706">O arquivo chinês contém o título e a indicação original de que a tabela não pôde ser organizada no TXT. Essa indicação permanece no texto. O suplemento separado traduz uma tabela de um exemplar impresso externo do Shoukang baojian em chinês moderno, com sua proveniência identificada. O ano e a edição exatos do exemplar não estão confirmados. Trata-se de uma referência externa, não da recuperação comprovada da tabela original ausente.</p><subtitle id="loc-1707">N30 — Pontuação de uma citação</subtitle><p id="pt-b01708">A enumeração das categorias de pessoas segue a pontuação do texto chinês utilizado. Não foi substituída por uma leitura que as transformasse automaticamente em esposas ou familiares das categorias anteriores.</p><p id="pt-b01709">Na leitura corrente desta passagem do Sutra do Lótus, “mulheres” se refere às quatro categorias anteriores: suas esposas, numa interpretação usual, ou, numa leitura mais ampla, as mulheres de suas famílias e até mulheres que pertencem elas próprias a essas categorias. Essa relação não fica clara na pontuação da citação deste livro, preservada aqui.</p><subtitle id="loc-1710">N31 — Agente da recitação</subtitle><p id="pt-b01711">O chinês não explicita quem recita o nome do Buda nesta frase. A tradução emprega uma construção impessoal, sem atribuir a recitação ao avô nem a outra pessoa determinada.</p><subtitle id="loc-1712">N32 — Sujeito não expresso</subtitle><p id="pt-b01713">O chinês não explicita o que volta voando: a língua arrancada ou a serpente preta.</p><subtitle id="loc-1714">N33 — Medida da residência</subtitle><p id="pt-b01715">A descrição imobiliária do original menciona apenas chi, sem explicitar se a medida é linear ou de área nem qual padrão de medida foi empregado. Conservou-se o termo, sem acrescentar ‘quadrados’ nem converter o valor em metros.</p><subtitle id="loc-1716">N34 — Limiar etário do texto de referência</subtitle><p id="pt-b01717">O texto chinês disponível diz ‘a partir dos doze anos’. Esse limiar foi conservado, sem substituí-lo por ‘abaixo dos doze anos’ com base em conjectura. A edição não apresenta essa formulação histórica como orientação jurídica atual.</p><subtitle id="n35-uso-de-kalpa-nesta-nota-original">N35 — Uso de kalpa nesta nota original</subtitle><p id="pt-b01719">A nota chinesa define aqui cada kalpa passado no inferno como uma passagem por uma punição e cada kalpa de renascimento como um nascimento. Conservou-se essa explicação específica do texto, sem substituí-la por uma duração cosmológica nem calcular anos.</p><subtitle id="loc-1720">N36 — Variação entre o verso e seu comentário</subtitle><p id="pt-b01721">O verso chinês emprega ‘metade’, enquanto o comentário diz ‘na maior parte dos casos’. As duas formulações foram conservadas em seus respectivos níveis, sem ajustar uma à outra.</p><subtitle id="loc-1722">N37 — Acumulação de grandes números</subtitle><p id="pt-b01723">Nessas passagens, o chinês acumula grandes unidades numéricas para expressar multiplicidade ou duração imensas. A tradução explicita as unidades mencionadas, sem somá-las ou multiplicá-las para fabricar um total exato. Em ZH-L0687, elas foram ordenadas de forma crescente em português; a expressão do original é qian bai wan yi.</p><subtitle id="loc-1724">N38 — Duas formas de um título no texto de referência</subtitle><p id="pt-b01725">O sumário emprega a designação Guandi Shengjun, traduzida como “Soberano Sagrado Guandi”; o título do texto usa Guansheng Dijun, aqui “Soberano Guansheng”. Mantiveram-se as duas formas do arquivo chinês, sem corrigir silenciosamente uma pela outra. A diferença não cria uma segunda seção: o item do sumário remete a este mesmo texto comentado.</p><subtitle id="n39-parentesco-paterno-neste-trecho">N39 — Parentesco paterno neste trecho</subtitle><p id="pt-b01727">Aqui, shu (叔) é o irmão mais novo do pai do sobrinho. Shenniang (婶娘), retomado como shuniang (叔娘) no comentário, designa a esposa desse tio. O sobrinho designado por zhi (侄) é filho de um irmão do tio. Trata-se, portanto, de parentesco pelo lado paterno da família.</p><subtitle id="loc-1728">N40 — Tathāgata</subtitle><p id="pt-b01729">Tathāgata é um título do Buda, também usado por ele para se referir a si mesmo.</p><subtitle id="n41-di-shi-tian">N41 — Di Shi Tian</subtitle><p id="pt-b01731">Di Shi Tian é o nome chinês de Śakra, soberano do Céu dos Trinta e Três na cosmologia budista.</p><subtitle id="loc-1732">N42 — Os três caminhos inferiores</subtitle><p id="pt-b01733">Os “três caminhos inferiores” designam aqui os domínios dos infernos, dos espíritos famintos e dos animais.</p><subtitle id="n43-yin-e-yang">N43 — Yin e yang</subtitle><p id="pt-b01735">O yang e o yin são princípios complementares do pensamento tradicional chinês. A expressão “corpo de puro yang” pertence aqui a esse vocabulário tradicional.</p><subtitle id="n44-shenkui">N44 — Shenkui</subtitle><p id="pt-b01737">Shenkui (肾亏), aqui traduzido como “deficiência do rim”, é um termo da medicina tradicional chinesa. A tradução não lhe atribui um diagnóstico médico moderno.</p><subtitle id="n45-os-cabelos-brancos-e-os-cabelos-negros">N45 — Os cabelos brancos e os cabelos negros</subtitle><p id="pt-b01739">A imagem dos cabelos brancos que sepultam os cabelos negros se refere, neste trecho, aos pais que sobrevivem ao filho.</p><subtitle id="n46-as-oito-virtudes">N46 — As Oito Virtudes</subtitle><p id="pt-b01741">As Oito Virtudes designam um conjunto de qualidades morais da tradição chinesa; o texto não enumera aqui quais são.</p><subtitle id="loc-1742">N47 — África na enumeração</subtitle><p id="pt-b01743">O texto chinês inclui a África em uma enumeração de países. Essa enumeração foi mantida, sem substituir a África pelo nome de um país.</p><subtitle id="loc-1744">N48 — As seis perfeições</subtitle><p id="pt-b01745">No budismo Mahāyāna, as seis perfeições são a generosidade, a autodisciplina ética, a paciência, a perseverança, a concentração e a sabedoria.</p><subtitle id="loc-1746">N49 — Pāpīyas e Mara</subtitle><p id="pt-b01747">Pāpīyas é outro nome de Mara, figura que dificulta o despertar nos relatos budistas.</p><subtitle id="n50-zhendan">N50 — Zhendan</subtitle><p id="pt-b01749">“Zhendan” é um antigo nome da China.</p><subtitle id="n51-qiling">N51 — Qiling</subtitle><p id="pt-b01751">Qiling transcreve o termo chinês 启灵, usado em certas práticas populares ligadas à comunicação com o mundo dos espíritos. O texto não descreve aqui a técnica empregada.</p><subtitle id="n52-wuchang-negro-e-branco">N52 — Wuchang Negro e Branco</subtitle><p id="pt-b01753">Nas crenças populares chinesas, os Wuchang Negro e Branco são mensageiros do mundo dos mortos que conduzem as almas dos falecidos.</p><subtitle id="n53-lingzhi">N53 — Lingzhi</subtitle><p id="pt-b01755">Lingzhi designa cogumelos do gênero Ganoderma usados na medicina tradicional chinesa.</p><subtitle id="loc-1756">N54 — Mahāsattva e pāramitā</subtitle><p id="pt-b01757">Mahāsattva significa “grande ser” e qualifica aqui o bodhisattva. Pāramitā é um termo budista geralmente traduzido como “perfeição”.</p><subtitle id="loc-1758">N55 — As Três Joias</subtitle><p id="pt-b01759">As Três Joias são o Buda, o Dharma (seu ensinamento) e a Sangha (a comunidade budista).</p><subtitle id="n56-a-imagem-da-coluna-carbonizada">N56 — A imagem da coluna carbonizada</subtitle><p id="pt-b01761">A palavra traduzida aqui por “dignidade” prolonga a imagem de uma coluna carbonizada que já não pode adornar uma construção. No Saṅghāṭa-sutra (T 423, primeiro fascículo), esses versos expressam o desespero de um homem que se arrepende de seus atos; não são uma confissão do Buda.</p><subtitle id="loc-1762">N57 — Afirmações sobre a saúde</subtitle><p id="pt-b01763">As relações entre abortos, infertilidade e distúrbios neurológicos são apresentadas aqui conforme o relato; não constituem um diagnóstico médico. A OMS distingue os cuidados prestados segundo suas recomendações dos abortos inseguros, que podem causar complicações graves.</p><subtitle id="n58-leitura-da-estrofe">N58 — Leitura da estrofe</subtitle><p id="pt-b01765">As expressões “desejo sensual” e “ato sexual” seguem aqui o contexto de desejo sexual em que a estrofe é citada. Os termos chineses se e xing também admitem os sentidos de “forma” e “atividade”; a tradução não pretende estabelecer uma interpretação doutrinária única.</p><subtitle id="loc-1766">N59 — Arhat nesta citação</subtitle><p id="pt-b01767">Nesta passagem, arhat é um título do Buda. O tratado o explica por meio da imagem da vitória sobre as aflições mentais, comparadas a ladrões.</p><subtitle id="n60-relato-religioso-e-sintomas">N60 — Relato religioso e sintomas</subtitle><p id="pt-b01769">A relação aqui afirmada entre esses sintomas e uma punição no inferno pertence às palavras do magistrado na narrativa religiosa. A passagem não constitui um diagnóstico médico nem permite determinar a causa de dores de cabeça, febre ou confusão mental.</p><subtitle id="loc-1770">N61 — Uma expressão ambígua no texto chinês</subtitle><p id="pt-b01771">A sequência zizhuan (自传) é ambígua neste trecho. “Fazer circular pessoalmente” segue o contraste com a circulação pelo computador; a tradução não corrige silenciosamente o texto chinês.</p><subtitle id="n62-yang-primordial-e-linguagem-religiosa">N62 — Yang primordial e linguagem religiosa</subtitle><p id="pt-b01773">Yang é um conceito tradicional chinês associado ao yin. As expressões “yang primordial” e “luz espiritual” são usadas aqui no contexto religioso do relato. As relações afirmadas com a duração da vida e as doenças não constituem um diagnóstico médico nem uma medida biológica.</p><subtitle id="n63-perdas-de-gravidez-e-linguagem-do-relato">N63 — Perdas de gravidez e linguagem do relato</subtitle><p id="pt-b01775">Neste capítulo, a palavra traduzida por “aborto” abrange também perdas de gravidez que não foram provocadas intencionalmente. As explicações cármicas e as exigências de arrependimento pertencem ao relato religioso; não constituem um diagnóstico médico nem uma atribuição médica de culpa.</p><subtitle id="loc-1776">N64 — Contracepção de emergência</subtitle><p id="pt-b01777">O relato equipara aqui a pílula do dia seguinte ao aborto. Segundo a OMS e o Ministério da Saúde do Brasil, as pílulas de contracepção de emergência impedem ou retardam a ovulação. Elas não provocam aborto nem interrompem uma gravidez já estabelecida.</p><subtitle id="n65-a-porcentagem-citada">N65 — A porcentagem citada</subtitle><p id="pt-b01779">O número de noventa por cento é atribuído ao magistrado no relato. O texto não apresenta uma fonte estatística que permita verificá-lo; traduzi-lo não significa confirmá-lo.</p><subtitle id="loc-1780">N66 — O ser no estado intermediário</subtitle><p id="pt-b01781">Nessas citações, o ser no estado intermediário é descrito em relação a um novo nascimento, dentro do ensinamento do sutra. Não se trata de uma descrição médica do embrião.</p><subtitle id="loc-1782">N67 — Relato e registro clínico</subtitle><p id="pt-b01783">Esta cena é narrada por um espírito de bebê no contexto religioso do livro. Os instrumentos e as sensações descritos não constituem um relato clínico verificado de um aborto.</p><subtitle id="loc-1784">N68 — Memória, dor e doenças</subtitle><p id="pt-b01785">As afirmações sobre memória, dor e doenças das mães são do magistrado no relato, não um diagnóstico médico. A revisão de evidências do RCOG de 2022 considera improvável a percepção da dor antes de uma idade gestacional de 28 semanas e distingue as reações a estímulos da experiência subjetiva da dor. Isso não permite confirmar as lembranças narradas aqui nem atribuir medicamente essas doenças a espíritos.</p><subtitle id="n69-os-dez-meses">N69 — Os dez meses</subtitle><p id="pt-b01787">Os “dez meses” conservam a expressão chinesa 十月怀胎. Não representam aqui uma duração obstétrica fixa. A datação médica distingue, entre outras formas, as semanas desde a última menstruação das semanas desde a fecundação. O texto não especifica um modo de cálculo que permita uma conversão exata.</p><subtitle id="loc-1788">N70 — Estatística e citação secundária</subtitle><p id="pt-b01789">O texto mantém a afirmação do autor. Uma citação secundária da pesquisa de 1986, no voto concordante do juiz Coffey em 2002, fala em tentativas de suicídio, não em mortes por suicídio. Os dados originais não foram consultados; essa citação não confirma o número do livro nem uma relação causal. As informações atuais do RCOG não confirmam um aumento do risco de problemas de saúde mental causado pelo aborto, reconhecendo ao mesmo tempo diferentes reações emocionais.</p><subtitle id="n71-fonte-do-primeiro-trecho">N71 — Fonte do primeiro trecho</subtitle><p id="pt-b01791">O trecho consta do Sutra dos Preceitos do Upāsaka, rolo 3, capítulo 14 (T1488). A vida longa mencionada faz parte da descrição do sofrimento infernal, não de uma promessa de longevidade feliz.</p><subtitle id="loc-1792">N72 — Citações e termos dos preceitos</subtitle><p id="pt-b01793">As duas citações estão no rolo 2 do Sutra da Rede de Brahmā (T1484), respectivamente no vigésimo preceito menor e no primeiro preceito maior. Aqui, 自殺 significa matar pessoalmente outro ser, não suicidar-se. A separação entre matar por expedientes e elogiar a matança tem apoio numa variante da edição Ming. Pārājika designa aqui uma transgressão grave no âmbito desses preceitos de bodhisattva.</p><subtitle id="loc-1794">N73 — Relato religioso e cuidados médicos</subtitle><p id="pt-b01795">As doenças, suas causas espirituais e a impossibilidade de curá-las com medicamentos são apresentadas segundo as crenças do relato. Não são conclusões médicas comprovadas. Essas passagens não justificam interromper um tratamento nem adiar uma consulta médica.</p><subtitle id="loc-1796">N74 — Números citados pelo livro</subtitle><p id="pt-b01797">Os números de templos e as estimativas para Taiwan são reproduzidos como informações do livro. As pesquisas de origem não foram localizadas; a tradução não confirma esses números.</p><subtitle id="n75-perda-gestacional-e-responsabilidade">N75 — Perda gestacional e responsabilidade</subtitle><p id="pt-b01799">Neste capítulo, o termo aborto abrange também a perda não intencional mencionada no próprio relato. O Ministério da Saúde distingue o aborto espontâneo do induzido. As explicações cármicas pertencem ao texto religioso e não estabelecem uma causa clínica nem a culpa dos pais por uma perda gestacional.</p><subtitle id="loc-1800">N76 — Dor e avaliação médica</subtitle><p id="pt-b01801">A relação entre o avanço da gestação, a dor e a pena infernal expressa a interpretação religiosa do relato, não uma escala clínica comprovada. Sintomas físicos exigem avaliação adequada; práticas religiosas não substituem cuidados de saúde.</p><subtitle id="loc-1802">N77 — Termos de saúde mental</subtitle><p id="pt-b01803">Transtornos psicóticos é uma expressão abrangente, não um diagnóstico individual de esquizofrenia. As causas espirituais e os sintomas descritos pertencem ao relato. Sintomas persistentes ou alterações da percepção e do pensamento devem ser avaliados por profissionais de saúde.</p><subtitle id="loc-1804">N78 — Sentimentos após um aborto</subtitle><p id="pt-b01805">A afirmação de que toda mulher necessariamente sente culpa é do autor. O RCOG reconhece diferentes reações emocionais após um aborto; a ausência de culpa não comprova insensibilidade ou um problema de saúde mental.</p><subtitle id="loc-1806">N79 — Libertação de animais</subtitle><p id="pt-b01807">A prática religiosa descrita não dispensa cuidados ambientais. A orientação do ICMBio recomenda identificar a espécie e sua região de origem, não soltar espécies exóticas e procurar especialistas em caso de dúvida. Esta nota não autoriza uma soltura nem substitui a avaliação ambiental competente.</p><subtitle id="loc-1808">N80 — Distribuição dos méritos</subtitle><p id="pt-b01809">A divisão dos méritos em seis partes para os vivos e uma para o falecido aparece no capítulo 7 do Sutra dos Votos Originais de Kṣitigarbha (T412), que também menciona os 49 dias após a morte. A aplicação específica aos bebês abortados e ao caso narrado pertence a este livro.</p><subtitle id="n81-voto-e-prazo-do-relato">N81 — Voto e prazo do relato</subtitle><p id="pt-b01811">A fórmula resume o voto de Kṣitigarbha. No capítulo 1 do Sutra dos Votos Originais de Kṣitigarbha (T412), encontra-se o voto de libertar os seres que sofrem antes de se tornar Buda. A fórmula curta citada aqui não foi estabelecida como reprodução literal desse trecho. As 49 recitações completas e o prazo contado desde o dia do aborto são afirmações do presente relato.</p><subtitle id="loc-1812">N82 — Alimentação pelo contato</subtitle><p id="pt-b01813">觸食, alimentação pelo contato, é um termo budista atestado entre os quatro alimentos no Saṃyukta-āgama (T99, rolo 15, sutra 371). A absorção da essência das oferendas pelos espíritos é a explicação deste relato, não a definição completa do termo naquele sutra.</p><subtitle id="loc-1814">N83 — Saúde e cuidados ambientais</subtitle><p id="pt-b01815">As causas espirituais de doenças e calamidades são interpretações religiosas do relato, não causas médicas comprovadas. Recitar sutras e arrepender-se não substitui os cuidados de saúde. A libertação de animais também exige cuidados ambientais: o ICMBio orienta a identificar a espécie e sua região de origem, não soltar espécies exóticas e buscar especialistas em caso de dúvida.</p><subtitle id="loc-1816">N84 — Normas históricas e juízos do relato</subtitle><p id="pt-b01817">As três obediências se referem tradicionalmente à obediência ao pai, depois ao marido e, após a morte deste, ao filho. As quatro virtudes dizem respeito à conduta, à fala, à aparência e aos trabalhos femininos nessa concepção antiga. Essas normas e a apresentação do corpo masculino como uma retribuição favorável pertencem ao discurso narrado; não constituem uma hierarquia de valor humano adotada pela tradução.</p><subtitle id="loc-1818">N85 — Virgindade e afirmações de saúde</subtitle><p id="pt-b01819">A virgindade e a luminosidade espiritual são empregadas aqui em um contexto moral e religioso. A OMS esclarece que virgindade não é um termo médico ou científico e que nenhum exame pode comprovar se houve ou não relação sexual vaginal. O relato não fornece prova médica de que relações sexuais antes do casamento reduzam a longevidade.</p><subtitle id="loc-1820">N86 — Raios: explicação religiosa e segurança</subtitle><p id="pt-b01821">A explicação das mortes por raios como punição do mundo dos mortos pertence ao relato religioso. Segundo o INPE, os raios são descargas elétricas atmosféricas. Um acidente desse tipo não permite concluir que a vítima tenha cometido uma falta moral. Ao ouvir trovões, deve-se evitar áreas abertas e procurar abrigo adequado, como uma edificação fechada de alvenaria; tendas e quiosques de palha não oferecem proteção adequada. O relato não substitui as orientações de segurança.</p><subtitle id="loc-1822">N87 — Passagens do Sutra Avataṃsaka</subtitle><p id="pt-b01823">A citação reúne e reordena trechos do Sutra Avataṃsaka, versão em oitenta rolos, rolo 58: as dez formas de benevolência pura, as dez formas de compaixão pura e as dez atividades de buda. No contexto do sutra, Samantabhadra se dirige a Puhui e aos demais bodhisattvas. A tradução preserva a atribuição ao Buda feita pelo livro. Essa passagem não é a fonte das afirmações posteriores deste capítulo sobre a homossexualidade.</p><subtitle id="loc-1824">N88 — Relato religioso e saúde</subtitle><p id="pt-b01825">Os juízos e as punições descritos pertencem ao relato religioso. A homossexualidade não é um transtorno mental; a OMS recorda sua retirada dessa classificação em 1990. As explicações por vidas anteriores e pela eliminação de pensamentos não são explicações médicas estabelecidas nem recomendações de tratamento. Elas não justificam violência ou discriminação contra pessoas homossexuais.</p><subtitle id="n89-iniciais-preservadas">N89 — Iniciais preservadas</subtitle><p id="pt-b01827">As iniciais BLX são mantidas como aparecem no texto. A tradução não identifica nenhuma pessoa real nem apresenta essa cena como um fato biográfico verificado.</p><subtitle id="loc-1828">N90 — Vocabulário energético</subtitle><p id="pt-b01829">O qi verdadeiro e a energia reta pertencem aqui ao vocabulário energético e religioso do livro. A afirmação não constitui comprovação médica de danos causados por um pensamento sexual.</p><subtitle id="loc-1830">N91 — Alcance da referência ao voto</subtitle><p id="pt-b01831">O voto lembra o do filho de um homem de destaque no Sutra dos Votos Originais de Kṣitigarbha, rolo 1: libertar os seres sofredores antes de se tornar buda. A correspondência é de sentido e não comprova palavra por palavra a fórmula citada aqui. As palavras dirigidas ao Rei Yama e o Salão Mingguang Chuzhuan pertencem ao relato deste livro.</p><subtitle id="loc-1832">N92 — Temperatura corporal e afirmações sobre doenças</subtitle><p id="pt-b01833">A baixa temperatura corporal relatada não vem acompanhada de medições que permitam um diagnóstico. Uma temperatura corporal anormalmente baixa exige avaliação médica e não comprova uma visita ao inferno. O Ministério da Saúde brasileiro descreve a hipotermia como a redução da temperatura corporal abaixo de 35 °C. As explicações cármicas das doenças apresentadas adiante neste capítulo tampouco permitem diagnosticar uma doença ou atribuir culpa a uma pessoa doente, e não substituem os cuidados de saúde.</p><subtitle id="loc-1834">N93 — Sono, cansaço e sofrimento físico</subtitle><p id="pt-b01835">A falta de sono, o cansaço e as dores físicas são narrados sob a perspectiva espiritual da autora; o relato não estabelece uma causa médica. O seguro de saúde francês recomenda procurar orientação médica se o cansaço persistir apesar do descanso e de mudanças nos hábitos, prejudicar significativamente a vida diária ou vier acompanhado de outros sintomas. A prática religiosa não substitui os cuidados de saúde.</p><subtitle id="loc-1836">N94 — Referência e transcrição do mantra</subtitle><p id="pt-b01837">O título do mantra do selo do corpo do Dharma de Kṣitigarbha aparece na Coletânea de Dhāraṇīs, rolo 6, seção 6 (T 901). A transcrição chinesa ali é “唵 波囉末馱儞 莎訶”, com indicações de pronúncia, e difere da forma deste livro. A versão portuguesa combina a forma corrente Om com uma transcrição das demais sílabas chinesas; não constitui uma reconstrução integralmente verificada do sânscrito. A correspondência do título tampouco comprova os efeitos extraordinários aqui narrados.</p><subtitle id="loc-1838">N95 — Gênero, divórcio e interpretação cármica</subtitle><p id="pt-b01839">O renascimento como mulher e o divórcio são apresentados segundo a interpretação cármica da narrativa. A tradução não adota uma hierarquia de valor humano baseada no gênero nem atribui culpa às pessoas divorciadas.</p><subtitle id="loc-1840">N96 — Tradição de transmissão e comprovação histórica</subtitle><p id="pt-b01841">Uma versão chinesa em linguagem moderna do Precioso compêndio do Calendário de Jade também apresenta Danchi e Wumi em seu relato de transmissão. Essa correspondência diz respeito a uma tradição narrada pela própria obra; não constitui comprovação histórica independente de uma visita ao inferno, da data de composição ou da autenticidade afirmada aqui.</p><subtitle id="loc-1842">N97 — Alcance do número apresentado</subtitle><p id="pt-b01843">O número de quinhentas pessoas faz parte da avaliação moral expressa pelo magistrado dentro da narrativa. Não são apresentados uma amostra nem um método de pesquisa; a passagem não estabelece uma estatística verificada sobre a população.</p><subtitle id="loc-1844">N98 — Manifestações e voto de Kṣitigarbha</subtitle><p id="pt-b01845">O capítulo 2 do Sutra dos votos originais de Kṣitigarbha (T 412) descreve numerosas manifestações que atuam em diferentes mundos. Essa correspondência não comprova os detalhes deste relato, como encarnações atuais ou três ensinamentos diários. O voto citado corresponde, em sentido, ao voto do filho de um homem de posição elevada no capítulo 1, mas não reproduz literalmente suas palavras.</p><subtitle id="loc-1846">N99 — Campo magnético e energia vital</subtitle><p id="pt-b01847">O campo magnético negativo e a energia vital fazem parte da descrição espiritual da narradora. O relato não apresenta medições que comprovem essas afirmações como fenômenos físicos ou como evidência de proteção corporal contra o calor.</p><subtitle id="loc-1848">N100 — Limite entre discurso religioso e informação médica</subtitle><p id="pt-b01849">As afirmações sobre danos ao corpo e à vida causados pela masturbação pertencem ao discurso religioso reproduzido, não a fatos médicos comprovados. A autoridade sanitária francesa Santé publique France apresenta a masturbação como uma possível forma de explorar o próprio corpo e recomenda conversar com um médico ou um adulto de confiança quando ela ocupa espaço excessivo na vida cotidiana.</p><subtitle id="loc-1850">N101 — Dez rodas e fórmula de veneração</subtitle><p id="pt-b01851">As dez rodas remetem à terminologia do Sutra das dez rodas de Kṣitigarbha (T 411), cujo segundo capítulo trata de dez rodas do Buda. Essa relação não significa que toda a fórmula de veneração tenha sido identificada como citação literal de uma passagem canônica.</p><subtitle id="loc-1852">N102 — Nome e fontes doutrinárias</subtitle><p id="pt-b01853">O nome Tathāgata da Claridade do Dharma Correto corresponde a 正法明如來 em T 1060, que apresenta Avalokiteśvara como um antigo buda que se manifesta como bodhisattva por compaixão. Isso não comprova todas as explicações deste capítulo. A expressão “mãe dos sete budas” foi preservada; sua fonte precisa ainda não foi estabelecida.</p><subtitle id="n103-cosmologia-e-perdas-gestacionais">N103 — Cosmologia e perdas gestacionais</subtitle><p id="pt-b01855">A prisão no ventre e a explicação cármica das mortes antes do nascimento pertencem à cosmologia do relato, não a uma explicação médica comprovada. As perdas gestacionais podem ter diferentes causas médicas, nem sempre identificadas. O relato não permite atribuir culpa a uma criança ou a seus pais.</p><subtitle id="loc-1856">N104 — Citações do Capítulo da Porta Universal</subtitle><p id="pt-b01857">As duas citações correspondem ao capítulo 25 do Sutra do Lótus (T 262, volume 7), sobre a invocação do nome e as formas adequadas aos seres a serem libertados. A associação com a Virgem Maria pertence ao presente relato, não às passagens citadas.</p><subtitle id="loc-1858">N105 — Interpretação entre tradições religiosas</subtitle><p id="pt-b01859">A identificação de Maria com uma manifestação de Avalokiteśvara é a interpretação religiosa do magistrado neste livro, não um ensinamento católico aqui confirmado. O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, questão 95, apresenta Maria como mãe de Jesus e Mãe de Deus.</p><subtitle id="loc-1860">N106 — Relato e avaliação médica</subtitle><p id="pt-b01861">O relato não demonstra que a masturbação cause os sintomas descritos ou a morte. A sonolência persistente de uma criança, sobretudo acompanhada de cansaço ou dores, requer avaliação médica, como orienta a instituição francesa Assurance Maladie. A deficiência dos rins mencionada aqui é o termo tradicional chinês shenkui, não um diagnóstico biomédico estabelecido.</p><subtitle id="n107-duas-passagens-resumidas">N107 — Duas passagens resumidas</subtitle><p id="pt-b01863">ZH-L0739 e ZH-L0741 são apresentados expressamente como resumos não explícitos. Preservam o sofrimento, o contexto familiar e o pedido de ajuda, sem reproduzir pormenores de comportamentos sexuais de uma criança muito pequena. Não constituem traduções integrais dessas duas passagens.</p><subtitle id="loc-1864">N108 — Citação e variantes</subtitle><p id="pt-b01865">A citação retoma, com abreviações e diferenças de redação, o segundo dia dos ensinamentos de Yinguang para proteger o país e afastar calamidades. A transcrição consultada traz duas vezes 殃 (“calamidade”) onde este livro escreve 秧 (“muda de planta”). A tradução segue o contexto de calamidade, sem alterar silenciosamente o chinês. A menção aos descendentes acompanha a explicação dada por Yinguang após a citação, não palavras explícitas da frase citada neste livro. O verso atribuído ao Buda aparece nesses ensinamentos, mas sua fonte mais antiga em um sutra não foi estabelecida aqui.</p><subtitle id="n109-fonte-do-trecho-de-yinguang">N109 — Fonte do trecho de Yinguang</subtitle><p id="pt-b01867">A citação consta do terceiro conjunto dos escritos de Yinguang, volume 4, no ensinamento do oitavo dia sobre os três refúgios, os cinco preceitos e as dez boas ações, no parágrafo completo sobre conduta sexual imprópria. A outra transcrição consultada dos ensinamentos para proteger o país tem redação diferente nesse ponto; as duas versões não são confundidas.</p><subtitle id="loc-1868">N110 — Argumentação religiosa e saúde</subtitle><p id="pt-b01869">As relações afirmadas aqui entre conduta sexual imprópria, masturbação, doença e infertilidade pertencem à argumentação religiosa do autor, não a um diagnóstico médico. A OMS descreve diferentes causas femininas, masculinas e não esclarecidas de infertilidade. Infecções não tratadas podem ser uma causa, mas a infertilidade não comprova culpa moral. A masturbação, por si só, não demonstra os danos físicos alegados neste texto.</p><subtitle id="loc-1870">N111 — Transgressão e preceitos</subtitle><p id="pt-b01871">A falta adicional é entendida em continuidade com a frase anterior, que trata de uma transgressão. Yinguang distingue, em sua exposição dos cinco preceitos, a falta do ato e a de violar preceitos recebidos. Esse paralelo esclarece o contexto sem acrescentar uma cerimônia formal de recebimento dos preceitos que o presente texto não especifica.</p><subtitle id="loc-1872">N112 — Libertação de animais</subtitle><p id="pt-b01873">A libertação de seres vivos é citada pela autora como prática religiosa. Isso não significa que qualquer soltura seja ecologicamente segura. As orientações do ICMBio para a soltura de fauna ressaltam a identificação da espécie e de sua região nativa, a não soltura de espécies exóticas e a consulta a especialistas em caso de dúvida. Não constituem autorização geral para solturas rituais.</p><subtitle id="loc-1874">N113 — Nascimento em lótus</subtitle><p id="pt-b01875">O nascimento em uma flor de lótus pertence aqui ao vocabulário da Terra Pura, não significa transformar o corpo humano em uma planta. O Sutra da Vida Infinita (T 360, volume 2) descreve um nascimento espontâneo em uma flor preciosa ao renascer na terra do buda. Esse paralelo não comprova todas as promessas específicas do presente livro.</p></section><section id="sec-69"><title><p id="loc-1876">Notas sobre as adaptações</p></title><subtitle id="e2">E2</subtitle><p id="pt-b01878">A cena de castigo do menino foi apresentada sem detalhes de violência sexual ou de mutilação íntima.</p><subtitle id="e4">E4</subtitle><p id="pt-b01880">A cena de castigos infligidos a jovens foi apresentada sem detalhes de violência sexual.</p><subtitle id="loc-1881">N114 — Duas afirmações do relato</subtitle><p id="pt-b01882">O texto primeiro afirma que pessoas ainda vivas não podem vir ao mundo dos mortos e depois descreve visitantes vivos excepcionais. A tradução mantém as duas afirmações, sem acrescentar ressalvas como “em geral”.</p><subtitle id="n115-os-oito-caracteres-do-nascimento">N115 — Os oito caracteres do nascimento</subtitle><p id="pt-b01884">Os “oito caracteres” (bāzì) indicam o ano, o mês, o dia e o período horário do nascimento no calendário tradicional chinês. Cada uma dessas quatro informações é representada por dois sinais: um “tronco celeste” e um “ramo terrestre”.</p><subtitle id="loc-1885">N116 — Alimentação e sono no relato</subtitle><p id="pt-b01886">As afirmações sobre alimentação, sono e duração da vida são falas do magistrado dentro do relato. Sua tradução não é uma recomendação de ficar sem comer ou sem dormir.</p><subtitle id="loc-1887">N117 — Relato religioso e câncer</subtitle><p id="pt-b01888">A relação estabelecida aqui entre difamação e câncer pertence à interpretação religiosa do relato, não a um diagnóstico médico. Um câncer não comprova culpa moral.</p><subtitle id="loc-1889">N118 — Duas descrições de destino</subtitle><p id="pt-b01890">O capítulo 2 descreve as pessoas cujas boas e más ações se equilibram como habitantes do caminho dos fantasmas. Aqui, os espíritos descritos como nem bons nem maus voltam a nascer como seres humanos. O texto não explica como essas duas afirmações se relacionam.</p><subtitle id="n119-resfriados">N119 — Resfriados</subtitle><p id="pt-b01892">O resfriado é uma infecção causada por vírus, não simplesmente por mudanças de temperatura.</p><subtitle id="loc-1893">N120 — Interpretação religiosa</subtitle><p id="pt-b01894">A presença de espíritos aderidos às pessoas e a influência direta dos pensamentos sobre o clima fazem parte da interpretação religiosa de Ayu. Esta passagem não constitui um diagnóstico médico nem uma explicação científica dos fenômenos meteorológicos.</p><subtitle id="n121-forma-de-tratamento">N121 — Forma de tratamento</subtitle><p id="pt-b01896">“Irmão mais velho” é aqui uma forma respeitosa de tratamento, não uma indicação de que Cabeça de Boi seja irmão de Ayu.</p><subtitle id="n122-wumu">N122 — Wumu</subtitle><p id="pt-b01898">Wumu é um título honorífico concedido a Yue Fei depois de sua morte; trata-se, portanto, da mesma pessoa.</p><subtitle id="n123-siling-e-man-jiang-hong">N123 — Siling e Man Jiang Hong</subtitle><p id="pt-b01900">Siling, nome de seu mausoléu, designa aqui o imperador Gaozong, da dinastia Song. Man Jiang Hong é o nome de um modelo de composição poética: o poema de Wen Zhengming a seguir é diferente daquele atribuído a Yue Fei no diálogo.</p><subtitle id="loc-1901">N124 — Limite da interpretação religiosa</subtitle><p id="pt-b01902">A ligação com uma vida anterior faz parte da interpretação religiosa do relato, não de um diagnóstico médico. Dores nos pés ou problemas na garganta não permitem concluir que houve uma falta em uma vida passada.</p><subtitle id="n125-alcance-da-perda-dos-poderes">N125 — Alcance da perda dos poderes</subtitle><p id="pt-b01904">Antes, o relato diz que apenas a capacidade de voar foi perdida; mais adiante, descreve o desaparecimento gradual dos outros poderes. Aqui, fala da perda dos poderes sem essa ressalva. As diferentes formulações foram preservadas.</p><subtitle id="n126-fengbo">N126 — Fengbo</subtitle><p id="pt-b01906">Fengbo remete aqui ao processo em que Yue Fei foi preso injustamente e depois morto.</p><subtitle id="n127-ordens-imperiais">N127 — Ordens imperiais</subtitle><p id="pt-b01908">As doze placas de ouro aludem às ordens imperiais que mandaram Yue Fei e seu exército retornar, transmitidas com placas de caracteres dourados. O verso associa essas ordens à sua ruína.</p><subtitle id="loc-1909">N128 — Limite da interpretação religiosa</subtitle><p id="pt-b01910">A relação entre a fome e vidas passadas faz parte da crença apresentada no relato. Não é uma explicação comprovada das crises de fome, que têm entre suas causas conflitos, eventos climáticos extremos e desigualdades econômicas.</p><subtitle id="n129-cuidado-com-animais-e-alimentos-estragados">N129 — Cuidado com animais e alimentos estragados</subtitle><p id="pt-b01912">Este conselho foi preservado como fala da personagem, não como orientação prática. Não dê alimentos estragados aos animais nem os jogue na natureza ou na água. Descarte-os conforme as orientações locais para resíduos.</p><subtitle id="n130-alimentos-contaminados-ou-estragados">N130 — Alimentos contaminados ou estragados</subtitle><p id="pt-b01914">O relato citado não deve ser tomado como orientação para comer alimentos contaminados ou estragados. O capítulo anterior diz expressamente que não se deve comer alimentos que estragaram sem intenção ou sem que a pessoa soubesse.</p><p id="v2ch11-editorial-health">E1. Os riscos do tabaco para a saúde são comprovados; as explicações cármicas das doenças e os efeitos atribuídos à alimentação pré-natal pertencem aqui ao relato religioso. Dores menstruais intensas e sangramentos persistentes ou incomuns precisam de avaliação médica, e as práticas religiosas não substituem os cuidados de saúde. Esses sintomas não comprovam culpa moral. <a xlink:href="https://www.cdc.gov/tobacco/about/cigarettes-and-reproductive-health.html">CDC</a>; <a xlink:href="https://www.nhs.uk/symptoms/period-pain/">NHS — Period pain</a>; <a xlink:href="https://www.nhs.uk/conditions/heavy-periods/">NHS — Heavy periods</a>; <a xlink:href="https://www.nhs.uk/symptoms/vaginal-bleeding-between-periods-or-after-sex/">NHS — Bleeding between periods</a>.</p><p id="v2ch11-editorial-energy">E2. A “energia reta” traduz aqui zhengqi (正气), termo do vocabulário energético e religioso do livro; a “luminosidade espiritual inata” pertence ao mesmo contexto.</p><p id="v2ch11-editorial-ten-months">E3. Os “dez meses” reproduzem a expressão chinesa 十月怀胎, sem que o texto informe um modo de cálculo que permita convertê-los em uma duração obstétrica exata.</p><p id="v2ch11-recitation-agent">N31. O chinês não explicita quem recita o nome do Buda nesta frase. A tradução emprega uma construção impessoal, sem atribuir a recitação ao avô nem a outra pessoa determinada.</p></section><section id="sec-70"><title><p id="loc-1919">Glossário de leitura</p></title><p id="pt-b01920"><strong>Avalokiteśvara.</strong> Nome empregado para o bodhisattva Guanyin, associado à compaixão nos relatos.</p><p id="pt-b01921"><strong>Avīci.</strong> Nome de um grande inferno mencionado na obra. As designações dos infernos seguem o uso do texto.</p><p id="pt-b01922"><strong>Ayu.</strong> Nome pelo qual a narradora se apresenta ao longo dos relatos; corresponde a Shangguan Yuhua.</p><p id="pt-b01923"><strong>baji.</strong> Nome de uma substância medicinal mencionada no relato. A grafia é conservada sem identificar uma espécie botânica nem endossar o efeito que a obra lhe atribui.</p><p id="pt-b01924"><strong>bodhi / mente de bodhi.</strong> Bodhi designa o despertar. A expressão “mente de bodhi” conserva a aspiração ao despertar e ao benefício dos seres, conforme os contextos da obra.</p><p id="pt-b01925"><strong>bodhisattva.</strong> Termo budista conservado na tradução. A grafia é uniforme nesta edição.</p><p id="pt-b01926"><strong>brahmacarya.</strong> Termo conservado na exortação à conduta pura. Não acrescenta práticas ou regras além das apresentadas pelo próprio texto.</p><p id="pt-b01927"><strong>carma.</strong> Grafia portuguesa adotada para as ações e seus efeitos no vocabulário religioso da obra.</p><p id="pt-b01928"><strong>Chenghuang.</strong> Designação da divindade tutelar da cidade nos capítulos correspondentes.</p><p id="pt-b01929"><strong>chi, li e zhang.</strong> Designações tradicionais de medida conservadas nos trechos em que aparecem. Não são convertidas automaticamente em metros; na referência ao tamanho de uma residência, o texto não esclarece o tipo de medida.</p><p id="pt-b01930"><strong>cun.</strong> Unidade tradicional de comprimento conservada sem conversão automática.</p><p id="pt-b01931"><strong>dantian.</strong> Termo tradicional usado na obra para um centro de cultivo e conservação da vitalidade.</p><p id="pt-b01932"><strong>Dharma.</strong> Termo religioso mantido quando o texto se refere ao ensinamento budista ou ao domínio a ele associado.</p><p id="pt-b01933"><strong>Di Shi Tian.</strong> Nome conservado para a figura celeste assim designada no original.</p><p id="pt-b01934"><strong>Di Ting.</strong> Nome do animal sagrado que aparece nos relatos ligados a Kṣitigarbha.</p><p id="pt-b01935"><strong>difei.</strong> Nome da substância que, no relato sobre a origem humana, cresce na terra, se assemelha a frutas e atrai os seres celestiais. A descrição pertence à narrativa.</p><p id="pt-b01936"><strong>Espelho dos Atos Nocivos / Espelho do Carma.</strong> Expressões adotadas, respectivamente, para niejing e yejing. As duas designações do original são preservadas; não se apaga sua diferença apenas para uniformizar o vocabulário.</p><p id="pt-b01937"><strong>feijing.</strong> Expressão que o texto relaciona à presença de seres espirituais e à possessão. Conserva-se a transliteração porque o relato não esclarece suficientemente o mecanismo que nomeia.</p><p id="pt-b01938"><strong>fuji.</strong> Prática de escrita mediúnica mencionada na discussão sobre a origem de determinados textos.</p><p id="pt-b01939"><strong>Guansheng / Guandi.</strong> Designações relacionadas ao Soberano Guan no texto e no título de sua escritura comentada.</p><p id="pt-b01940"><strong>hun e po.</strong> Termos tradicionais referentes a componentes da alma ou da constituição espiritual. Não são fundidos automaticamente em um único conceito.</p><p id="pt-b01941"><strong>Jambudvīpa.</strong> Nome do continente referido no vocabulário cosmológico da obra.</p><p id="pt-b01942"><strong>ji e suan.</strong> Unidades tradicionais presentes nas regras dos apêndices. Sem definição local suficiente, são mantidas por transliteração.</p><p id="pt-b01943"><strong>jiuxuan qizu.</strong> Expressão tradicional relativa à linhagem familiar, conservada por transliteração porque o texto não explicita sua composição. Não se impõe uma lista de parentes nem um alcance genealógico definitivo.</p><p id="pt-b01944"><strong>kalpa.</strong> Unidade ou período religioso. Um dos apêndices dá explicações próprias sobre seu uso nos castigos e nos renascimentos.</p><p id="pt-b01945"><strong>Kṣitigarbha.</strong> Nome adotado para o bodhisattva Dizang.</p><p id="pt-b01946"><strong>Meng Po.</strong> Figura ligada à sopa e ao esquecimento das vidas anteriores no relato da Plataforma Yuwang.</p><p id="pt-b01947"><strong>Mingguang Chuzhuan.</strong> Nome do salão que aparece nos relatos sobre assistência e transformação espiritual.</p><p id="pt-b01948"><strong>piedade filial.</strong> Expressão adotada para a virtude de respeito, cuidado e responsabilidade em relação aos pais. As avaliações e retribuições associadas a ela pertencem à obra.</p><p id="pt-b01949"><strong>qiling.</strong> Expressão conservada para o processo de origem dos relatos conforme a distinção feita pela própria obra.</p><p id="pt-b01950"><strong>Registro da Vida e da Morte.</strong> Nome uniforme do shengsi bu mencionado nos relatos, no qual são registrados a duração da vida e os atos das pessoas.</p><p id="pt-b01951"><strong>Rei Yama / Imperador de Fengdu.</strong> O livro identifica o soberano supremo do mundo dos mortos com o Imperador de Fengdu. Yama, Yanluo e Yan Wang são reunidos sob “Rei Yama” quando nomeiam esse soberano; os reis dos vários salões continuam distintos.</p><p id="pt-b01952"><strong>shichen.</strong> Unidade tradicional de tempo mantida na tradução. As frações e os números seguem o original, sem acrescentar uma equivalência em horas que ele não fornece.</p><p id="pt-b01953"><strong>Shou Kang Bao Jian.</strong> Título da obra referida como Espelho Precioso da Longevidade e da Saúde.</p><p id="pt-b01954"><strong>Tudigong.</strong> Designação do deus tutelar da terra mencionado no segundo volume.</p><p id="pt-b01955"><strong>Wujinyi.</strong> Nome do bodhisattva Wujinyi, também apresentado pelo sentido de seu nome, “Intenção Inesgotável”. Designa a mesma personagem nas citações do Capítulo da Porta Universal.</p><p id="pt-b01956"><strong>yaksha.</strong> Designação de seres que desempenham funções de guarda nos relatos.</p><p id="pt-b01957"><strong>yang primordial.</strong> Expressão tradicional conservada como tal, sem transformá-la em uma categoria biomédica.</p><p id="pt-b01958"><strong>Yanhua Fangun / Yuwang.</strong> Nomes mantidos por transliteração onde a leitura ou a composição do termo não foi inteiramente resolvida pelo material disponível.</p><p id="pt-b01959"><strong>Yinguang.</strong> Mestre citado nos textos introdutórios e na referência ao Shou Kang Bao Jian.</p><p id="pt-b01960"><strong>Yuli Baochao.</strong> Título traduzido como Precioso compêndio do Calendário de Jade. A forma abreviada Yuli corresponde a Calendário de Jade.</p><p id="pt-b01961"><strong>cinco virtudes constantes.</strong> Expressão usada para benevolência, retidão, decoro, sabedoria e fidelidade à palavra. Esta é a sequência adotada para ren, yi, li, zhi e xin; não se confunde com os cinco preceitos.</p><p id="pt-b01962"><strong>credencial do mundo dos mortos (lingpai).</strong> Nome adotado para o objeto que comprova uma autorização nos relatos. Preservam-se as descrições locais: alguns exemplares são apresentados como folhas de papel amarelo; a credencial de Ayu é descrita como portada e pendurada no corpo. Não se atribui a todos um mesmo material ou uma mesma função.</p><p id="pt-b01963"><strong>energia vital primordial.</strong> Expressão adotada para yuanqi. Distingue-se da essência e da energia vital de outras combinações do texto; não é apresentada como uma categoria biomédica.</p><p id="pt-b01964"><strong>natureza espiritual.</strong> Expressão adotada em vários contextos de lingxing. Conforme a construção, também se empregam espiritualidade e luminosidade espiritual. Ela não é identificada automaticamente com a essência, jing, de outras expressões tradicionais.</p><p id="pt-b01965"><strong>atenção plena correta.</strong> Expressão adotada para zhengnian. Em zhengzhi zhengnian, conserva-se a distinção entre compreensão correta e atenção plena correta.</p><p id="pt-b01966"><strong>três venenos.</strong> No vocabulário da obra, cobiça, aversão e ignorância. Outras palavras de ira, raiva ou ressentimento não são substituídas automaticamente por este termo técnico.</p></section></section></body><binary id="img-0" 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