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《阴律无情》文化导读 · PT

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O passado não fica apagado, mas também não ocupa sozinho o futuro. Quem deixa de mentir já não acrescenta novas mentiras às anteriores; quem procura reparar um dano começa a agir de outra maneira. A reparação concreta dependerá do que aconteceu. Na linguagem religiosa da obra, essas mudanças criam novas causas e alteram as condições em que as antigas continuam a produzir efeitos. É neste sentido que cada ser participa na formação da sua vida futura.

Nem todos os resultados aparecem logo. O livro fala de causas que amadurecem nesta vida e de outras cujos efeitos se prolongam por existências posteriores. Não ver um resultado imediato não equivale, nessa perspetiva, a ter ficado livre dele. É esta extensão do tempo que torna necessário compreender o outro fundamento da obra: a continuidade da vida.

02 · A continuidade da vida

Uma dívida pode continuar por pagar depois da morte de quem a contraiu; uma ajuda pode beneficiar uma família muito depois de quem a prestou ter desaparecido. Reconhecemos, assim, efeitos que ultrapassam uma vida. Yinlü Wuqing coloca uma pergunta adicional: o que sucede a quem agiu? A sua resposta assenta na continuidade da própria vida. O nascimento e a morte delimitam uma existência corporal, mas não encerram o percurso do ser que a viveu.

O corpo morre e a separação é efetiva. Na explicação do livro, continuam a contar as ações, as disposições cultivadas e os vínculos formados antes dessa separação. O ciclo de renascimentos, ou lunhui (轮回, «regresso em ciclo»), inclui seis grandes condições: seres celestes, asuras, humanos, animais, espíritos famintos e seres dos infernos. Os asuras são seres poderosos associados à rivalidade; os espíritos famintos vivem sob a privação. As seis condições descrevem possibilidades de existência e de sofrimento, não identidades fixas que nunca possam mudar.

Por isso, voltar a nascer não significa necessariamente voltar a ser humano. A existência animal também faz parte dos destinos admitidos pela obra. Para quem conhece O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, há aqui uma diferença concreta: a resposta à questão 612 não admite que um espírito que animou um corpo humano passe depois a um corpo animal. A familiaridade com a palavra reencarnação pode ajudar a começar a leitura, mas não resolve esta diferença entre os destinos possíveis.

Outra dificuldade surge quando se fala de esquecer uma vida anterior. Se já não se recorda o que aconteceu, que ligação permanece? Mengpo é a divindade encarregada, no relato, de preparar uma sopa que faz esquecer o passado antes de um novo nascimento a partir do mundo dos mortos. Esquecem-se nomes e rostos, mas o carma — as ações e intenções com os efeitos que produzem — continua a ligar uma existência à seguinte. O juiz distingue esse percurso dos mundos celestes e das terras puras dos Budas, onde, segundo ele, não existe essa sopa.

Ao descrever quem sente, recorda ou se manifesta, o texto recorre a vários termos chineses. Hun e po (魂、魄) designam componentes espirituais da pessoa; shenshi (神识) refere-se à consciência, e lingti (灵体), à forma espiritual que aparece nos relatos.

Esta linguagem pode suscitar, num leitor com conhecimentos budistas, uma questão sobre o não-eu. Esse ensinamento examina o corpo, as sensações, as perceções, as formações mentais e a consciência: todos mudam e nenhum obedece inteiramente à vontade. Investigar se existe um eu imutável é, portanto, uma questão distinta de explicar como uma vida permanece ligada à anterior. A reflexão sobre o não-eu acrescenta aqui um contexto budista; não explica o funcionamento da sopa de Mengpo.

Para falar da origem e da condição atual, o livro usa também uma linguagem próxima da pertença a um lugar. O soberano celeste diz que os seres têm a sua origem registada no céu e que a vida humana ou infernal corresponde a uma residência noutro domínio. É a imagem chinesa de yuanji e fenji, a origem e o registo num outro lugar. Na mesma conversa, são distinguidos os Budas e bodhisattvas que vêm de outros mundos para ajudar. Esta explicação da origem, apresentada pelo soberano, acompanha a possibilidade de regresso após uma verdadeira mudança de conduta.

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