A ajuda tem formas e efeitos distintos. Ensinar permite reconhecer uma conduta; suspender temporariamente a dor pode tornar possível ouvir; o bem praticado por um familiar, com o desejo de que o seu fruto espiritual beneficie quem sofre, pode contribuir para o socorro. O juiz afirma que os Budas e bodhisattvas seguem a lei de causa e efeito. A orientação dada e a maneira de a receber passam a fazer parte da situação, sem tornar irrelevante aquilo que a pessoa continua a escolher.
Um episódio reúne essas intervenções. Um homem que violara preceitos e caluniara um praticante recebe ajuda no lugar onde sofre. Mingong, um protetor que acompanha Dizang, contacta os guardas; Daoming, o mestre religioso que está ao seu lado, recita uma fórmula com a joia do bodhisattva. A dor abranda e o homem consegue falar. Estes três são chamados, nesse encontro, os Três Santos do Sul; Diting, a montada de Dizang, está presente, mas não é um dos três.
O homem recorda o filho que, entre os vivos, pratica o bem e recita por ele a escritura budista conhecida como Sutra de Dizang. Reconhece o que fez, promete mudar e começa a invocar o bodhisattva. A sua luz torna-se mais clara e ele eleva-se. Dizang relaciona o resultado com o bem do filho, a sua aspiração ao despertar para ajudar os seres, a dedicação de méritos, o bem anterior do pai e o arrependimento sincero deste. A ajuda familiar e a resposta pessoal aparecem juntas. O futuro anunciado ainda inclui consequências anteriores e a necessidade de continuar a praticar.
Uma mulher socorrida no mesmo encontro tem outro desfecho. Depois de lhe ser aliviada a dor, admite ter maltratado o enteado e a sogra, causando a morte de ambos, e começa a reconhecer a gravidade desses atos. Ainda assim, é levada de volta ao lugar de castigo. Dizang fala de uma ligação benéfica que lhe permitirá encontrar o ensinamento num futuro muito distante. O auxílio teve efeito, mas o relato não o apresenta como uma saída imediata dos infernos.
A atenção a quem recebe ajuda surge também num relato sobre uma família católica. Depois da morte do filho único, aos doze anos, os pais continuam a rezar a Maria e a ajudar pessoas pobres. O livro liga essas práticas à chegada de Guanyin, que aparece sob a figura de Maria; o rapaz reconhece-a e faz o sinal da cruz. O juiz explica essa forma pela capacidade de um bodhisattva se manifestar de maneira adequada a quem socorre. É o mesmo rapaz cujo voto de ajudar os colegas foi separado do desejo de se castigar.
A citação do Sutra do Lótus que acompanha o episódio explica a possibilidade geral de assumir formas diferentes. A identificação de Maria com Guanyin é feita na narrativa e na resposta do juiz. Na doutrina católica, Maria é a mãe de Jesus Cristo, e a sua intercessão depende dele; a veneração que lhe é dirigida distingue-se da adoração devida à Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo. Estas explicações conservam identidades religiosas próprias. A comparação ajuda a perceber por que razão o mesmo nome é reconhecível para o rapaz e, ao mesmo tempo, recebe uma interpretação budista no livro.
Recitar, pedir ajuda e fazer votos mantêm, ao longo destes ensinamentos, a sua ligação à conduta. Há na obra praticantes que dominavam recitações, mas não guardavam os preceitos e continuavam sujeitos às consequências do que faziam. O auxílio não substitui esse trabalho. Pode dar tempo para compreender, apoio para começar e orientação para continuar; viver de acordo com o que se compreendeu permanece a tarefa de quem o recebeu.
07 · O bem, o mérito e a dedicação
Construir uma ponte facilita a passagem de quem vive nas duas margens. O benefício imediato é fácil de reconhecer. Mas por que se fala, num livro religioso, em dedicar o mérito dessa construção a uma pessoa falecida? Yinlü Wuqing inclui pontes e caminhos entre as boas obras que podem ser realizadas com essa intenção. Para entender a dedicação, convém distinguir o que a ação oferece diretamente e o fruto espiritual que lhe é atribuído.
O mérito da prática (gongde, 功德, «mérito e virtude») designa aqui o valor religioso do bem realizado e da intenção com que se realiza. Os benefícios que amadurecem de ações anteriores (fubao, 福报, «fruto benéfico») são as condições favoráveis de que alguém usufrui. O texto chama também fude (福德, «virtude e benefício») ao bem acumulado na prática, que sustenta o desenvolvimento espiritual. Uma ajuda feita sem procurar ser conhecida exemplifica, por sua vez, o mérito discreto ou yinde (阴德, «virtude oculta»). Os usos destes termos aproximam-se em algumas passagens, mas a ação, o seu valor e o que se recebe como resultado não são sempre a mesma coisa.