04 · Como se formam as condições de sofrimento
Ao ouvir falar de um castigo, podemos pensar primeiro em quem o aplica. A pergunta muda quando procuramos saber o que levou a pessoa àquela situação. Em Yinlü Wuqing, o juiz diz que os seres são conduzidos aos infernos pelas próprias ações. O sofrimento é relacionado com causas prejudiciais que se foram formando; não começa na vontade arbitrária de uma autoridade que decide fazer mal a alguém.
Por que existem, então, tribunais, sentenças e executores? São os meios pelos quais a obra descreve o exame da conduta e o cumprimento das consequências. Os responsáveis consultam registos, ouvem e dão ordens; a sua função não é transformar uma preferência pessoal numa lei. A origem do sofrimento e a maneira de o administrar pertencem a planos diferentes da explicação. Dizer que os infernos são criados pelas ações não elimina as figuras que, no relato, julgam e executam.
O alcance desta explicação vai além do remorso ou de um período de aflição interior. Os infernos são apresentados como lugares e condições de existência em que o sofrimento continua depois da morte humana. A ligação à mente diz respeito ao papel das intenções e dos hábitos na formação dessa experiência. Não basta imaginar uma paisagem diferente: a mudança procurada envolve abandonar as ações e disposições que a obra relaciona com a queda.
As causas também podem continuar a produzir efeitos através de outras pessoas. O livro trata, por exemplo, de obras que continuam a ser copiadas e lidas depois de o autor morrer. Distingue quem cria, quem reproduz, quem vende e quem participa de outras maneiras, bem como os casos em que a produção é interrompida ou o material é retirado. Os prazos e as condições pertencem a cada resposta; a mera existência de um número não o transforma numa regra aplicável a toda a gente.
Dentro de uma experiência dolorosa, diferentes formas de alívio têm alcances diferentes. A suspensão de uma pena permite descansar e escutar; a possibilidade de voltar a nascer abre outra vida; a libertação põe a questão mais profunda de deixar de estar preso ao ciclo. O livro não atribui a todas as pessoas ajudadas o mesmo desfecho. Compreender o que efetivamente mudou evita confundir uma oportunidade de aprender com uma transformação já concluída.
Se o comportamento prejudicial prossegue, acrescentam-se novas causas às antigas. Se ele cessa, essa continuação é interrompida, embora possam subsistir consequências anteriores. Daolan associa o fechar das portas dos infernos a um arrependimento verdadeiro, ao abandono do erro e à ajuda a outros para que também se corrijam. A expressão ganha sentido através dessas ações concretas: deixar de fazer o mal e contribuir para que deixe de ser repetido.
Num dos textos de reflexão incluídos no livro, uma citação do mestre budista Yinguang resume esta orientação: para evitar o fruto doloroso, é preciso abandonar as suas causas. A atenção deixa de ficar presa à descrição dos castigos e volta-se para a conduta. Que dano se está a prolongar? Que hábito se continua a defender? Reconhecer o que deve cessar é o primeiro trabalho do arrependimento.
Essa atenção à própria conduta pode coexistir com a ajuda a quem sofre. Não conhecemos, por observar uma doença ou uma perda, a história de vidas anteriores de uma pessoa. Atribuir-lhe uma culpa seria acrescentar uma conclusão que não decorre do que sabemos. Socorrê-la, ouvi-la e não agravar a sua dor são ações que já estão ao nosso alcance.