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《阴律无情》文化导读 · PT

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Uma condição favorável pode, no entanto, perder-se. A narrativa de Guangyintian, um mundo celeste de seres luminosos, descreve seres que voam até à Terra e encontram um alimento que o texto chama difei (地肥), semelhante a frutos aromáticos. Depois de o comerem, tornam-se pesados e deixam de conseguir voar de regresso. Inicialmente continuam a guardar os preceitos; o relato situa nas gerações seguintes o aumento do egoísmo, o abandono dessa disciplina e o aparecimento de novas formas de sofrimento.

É por haver continuidade que a situação presente não esgota uma vida. A mesma explicação que relaciona o sofrimento com escolhas anteriores admite uma saída através de escolhas diferentes. A origem celeste não dispensa o cuidado de agora, e uma passagem pelos infernos não é apresentada como a identidade eterna de um ser. O que se cultiva durante a existência atual continua a ter importância para aquilo que vem depois.

03 · A intenção, a ação e o futuro

Três pessoas compram a mesma peça de roupa preta. Uma quer oferecê-la a um vizinho pobre: por ser escura, disfarça a sujidade e não precisa de ser lavada tão frequentemente. Outra escolhe-a para passar despercebida quando for roubar de noite. A terceira não tem um propósito particular; o vendedor convida-a a comprar e ela aceita. É um exemplo contado no livro por uma divindade que exerce funções de proteção e administração local. A compra é semelhante, mas aquilo que cada pessoa se prepara para fazer é muito diferente.

A primeira intenção é classificada como benéfica; a segunda, como prejudicial; a terceira, como moralmente indeterminada. Esta última corresponde ao termo wuji (无记): não está marcada, nesse exemplo, por um propósito de fazer o bem ou o mal. Isso não significa que fique sem consequências. A resposta também a associa a percursos posteriores, sobretudo entre humanos e espíritos. O contraste serve para reconhecer o que orienta uma escolha antes de olhar apenas para o objeto comprado.

O carma inclui o que se faz com o corpo, o que se diz e o que se cultiva na mente. Uma intenção pode ganhar força, transformar-se em palavras e chegar a uma ação; pode também ser reconhecida e abandonada antes disso. Corpo, palavra e mente são, por isso, três campos de atenção. A palavra chinesa ye (业), traduzida neste contexto por carma, designa a ação com alcance moral, incluindo a atividade intencional que ainda não se tornou visível aos outros.

Um pensamento que aparece sem ter sido procurado não descreve, por si só, a mesma situação que uma intenção alimentada repetidamente. É preciso saber se a pessoa o acolhe, o prolonga, procura realizá-lo ou decide interrompê-lo. As respostas do livro são rigorosas em relação à mente e nem sempre tratam o que ainda não foi executado como irrelevante. Ao mesmo tempo, distinguem situações de procura deliberada, repetição e correção. Esses pormenores determinam o alcance do juízo feito em cada caso.

Os cinco preceitos dão nomes a compromissos concretos: não matar, não roubar, não cometer transgressões sexuais, não mentir e não beber álcool. O livro atribui ao preceito sexual exigências próprias, inclusive dentro do casamento. As dez ações benéficas retomam os três primeiros compromissos no campo do corpo; na palavra, pedem que se evitem a mentira, a discórdia, a agressão verbal e a fala que a obra considera indevida ou nociva. Na mente, orientam contra a cobiça, a hostilidade e as conceções que o ensinamento identifica como erradas. As duas listas organizam a conduta de maneiras diferentes; uma não substitui a outra.

Uma decisão de mudar encontra a sua prova quando a mesma vontade reaparece. Quem se habituou a mentir pode voltar a procurar uma saída fácil; quem se habituou a retaliar pode sentir de novo o impulso de ferir. Reconhecer esse momento e escolher outra resposta faz parte da prática. O cuidado consigo mesmo quando ninguém está a observar recebe, na tradição chinesa apresentada no livro, o nome de shendu (慎独), atenção à conduta na solidão.

É também assim que se compreende a relação entre os registos de uma vida e a possibilidade de mudança. A obra fala de duração da vida, de benefícios acumulados e de acontecimentos previstos; fala igualmente de ações de grande peso, benéficas ou prejudiciais, capazes de alterar o percurso. Uma previsão diz respeito a causas e condições já existentes. A decisão presente não controla tudo o que acontecerá, mas acrescenta algo a esse conjunto: uma nova ofensa, se o hábito prosseguir, ou a interrupção dessa ofensa, se for abandonado.

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