Quem pratica a fala ofensiva terá de cair nos infernos e sofrer punições. A fala ofensiva faz parte de um círculo vicioso de maus hábitos. Ela acompanha a cobiça, a ira e a ignorância. Todos os que a praticam têm a ira em comum; apenas variam o grau de maldade de seus pensamentos e a intensidade de seu carma. Uma única palavra ofensiva dirigida a um santo que, por meio da prática, tenha alcançado uma realização espiritual já basta para fazer uma pessoa do mundo dos vivos cair nos infernos e sofrer padecimentos imensuráveis e sem limites. Mesmo depois de esgotada a retribuição nos infernos, ela continuará a transmigrar pelo caminho dos animais, padecendo todos os sofrimentos dessa condição. Ao renascer como ser humano, também viverá numa condição desprezada, até que os efeitos restantes da fala ofensiva sejam inteiramente eliminados. Durante esse longo período de amadurecimento da retribuição cármica da fala ofensiva, o sofrimento excessivo torna muito fácil voltar a produzir novo carma, fazendo com que o sofrimento não tenha mais fim. Somente ao encontrar a orientação de um verdadeiro amigo espiritual, decidir corrigir suas condutas erradas, praticar o bem e acumular virtudes, a pessoa terá as boas causas e condições para ser libertada e sair do mar de sofrimento. Caso contrário, esse mar será de fato sem margens, e ela permanecerá submersa por dez mil kalpas!
Entre os que caem nos infernos para sofrer punições, muitos, em vida, praticavam a fala ofensiva nas relações entre cônjuges, amigos, colegas de trabalho, pais, irmãos e irmãs. Os casos entre marido e mulher são os mais numerosos, e é também nessa relação que mais facilmente se incorre em fala ofensiva; a proporção de mulheres é um pouco maior. Por isso, eu, este magistrado, aconselho todas as mulheres a vigiarem cuidadosamente o carma de sua fala. Muitas mulheres, por terem um carma negro pesado e serem arrastadas pelo carma negro do passado, enfrentam toda espécie de dificuldade física e mental na vida. Há também aquelas que, nos períodos de desconforto fisiológico de cada mês, inevitavelmente proferem toda sorte de palavras ofensivas, ferindo quem está ao seu redor.
As pessoas têm o hábito de olhar as coisas a partir do que favorece seus próprios interesses. Basta que algo saia um pouco diferente do que desejam para começarem a reclamar de todas as pessoas e coisas ao redor, do céu, da terra e do ambiente, por não colaborarem. Quem está errado nunca é a própria pessoa. Assim, ela se deixa levar pelas oscilações instantâneas do mau humor e acaba ferindo os outros com toda espécie de fala ofensiva.
Para evitar a fala ofensiva, primeiro é preciso manter a mente serena e estável. Para isso, é necessário começar por examinar a si mesmo, perguntando-se a todo momento se fez algo errado ou empregou palavras inadequadas. Na atual época de maus costumes e turbulência na sociedade do mundo dos vivos, de fato é muito difícil manter a serenidade e a estabilidade da mente. As tentações externas e os obstáculos são numerosos demais. Mesmo com toda essa dificuldade, porém, precisamos superar os obstáculos. Se não os superarmos e cometermos toda sorte de fala ofensiva, ao fim da vida cairemos nos infernos, e quem sofrerá seremos nós mesmos, não outra pessoa.
Quando o compassivo Buda estava neste mundo, previu os muitos obstáculos que os seres encontrariam para sair do mar de sofrimento na era do declínio do Dharma. Seria muito difícil despertar a atenção plena correta e cultivar o caminho. Por isso, transmitiu especialmente o método da recitação do nome do Buda, para que todos pudessem alcançar a libertação com mais facilidade. Basta recitar o nome do Buda de maneira simples, recitá-lo continuamente todos os dias e manter uma alimentação vegetariana. Confiando na bênção protetora do poder do Buda para uma transformação gradual e sutil, purificamos pouco a pouco nosso corpo e nossa mente e mantemos a tranquilidade dos pensamentos a cada dia. Transformamos, num instante, os pensamentos ilusórios negativos de nosso cotidiano em bons pensamentos de recitação do nome do Buda. Esses bons pensamentos formam um bom hábito, que então substitui nossos antigos maus hábitos. Assim, nosso destino também será reescrito gradualmente, o futuro caminhará pouco a pouco em direção à luz e recuperaremos nossa luminosidade espiritual inata.
A luz do corpo de quem pratica a fala ofensiva torna-se, no mínimo, vermelha. Nos casos mais graves, passa do vermelho ao vermelho-escuro. Se a pessoa continua a praticar a fala ofensiva sem se arrepender nem mudar, essa luz vai lentamente do vermelho-escuro ao preto. O preto já indica uma situação muito grave, que atrai todo tipo de acontecimento indesejável. Quem tem a luz do corpo vermelha já apresenta relações difíceis com os outros, sente-se abatido e perde a paciência com facilidade. Os seres cuja luz do corpo é vermelho-escura são os que mais facilmente atraem a aproximação de seres do caminho dos fantasmas. Esses seres têm forte ressentimento e ira e se enfurecem com muita facilidade. Assim que uma pessoa do mundo dos vivos sente raiva, um fantasma que gosta de se irritar vem correndo atender ao chamado. Junto com ele, há ainda alguns credores cármicos do mundo espiritual ligados à pessoa por relações de inimizade ou afeto — todos têm alguns ao seu redor, variando apenas a quantidade. Eles atiçam o fogo ao lado da pessoa enfurecida. Basta você ficar com raiva para aquele fantasma irado, ao seu lado, instigá-lo a se irritar ainda mais e a dizer coisas cada vez mais excessivas, ácidas e cruéis. Isso faz a pessoa, sem conseguir se controlar, arder de ira, como se o fogo de sua ignorância subisse a três mil zhang. Então o carma da fala ofensiva se torna incontrolável.”
“Muito obrigada, senhor magistrado! Sua explicação foi excelente. Finalmente compreendo por que, antes de começar a estudar o budismo, eu não convivia em harmonia com minha família e era sempre repreendida e controlada sem entender o motivo. Toda vez, minha família se tornava repentinamente muito agressiva, o que me deixava apavorada. Esse medo só começou a se dissipar aos poucos depois que passei a estudar o budismo.”
O magistrado diz: “Sim, Ayu! Parte do que aconteceu com você pertence a esse tipo de situação. Outra parte se deve ao fato de que aquela pessoa de sua família renasceu vinda do domínio dos demônios. Nesta vida, ela tem um único objetivo: obstruir sua prática e impedir que você trabalhe para proteger o Dharma correto. Você deve retribuir a hostilidade com virtude, praticar com empenho e observar os preceitos com pureza, para transformá-la gradualmente pelo seu exemplo. Quando o comportamento dela for muito violento, você pode se afastar na medida adequada. Justamente essas várias atitudes violentas dela também contribuíram, sem que isso fosse perceptível, para formar em você uma firmeza de caráter diferente da das outras pessoas. Você ainda deve ser grata a ela por pôr continuamente à prova a firmeza de sua prática, para ver se, em meio às dificuldades, consegue conservar essa firme mente de bodhi voltada à libertação do nascimento e da morte.”
“Entendi. Muito obrigada pelos ensinamentos, senhor magistrado! Eu, Ayu, certamente me lembrarei da solução que o senhor me ensinou: retribuir a hostilidade com virtude, praticar com empenho e observar os preceitos, transformando aos poucos minha família pelo exemplo. Com certeza colocarei isso em prática.”
“Continue se esforçando, Ayu! Agora vou levá-la para visitar os infernos da fala ofensiva. Perto do ‘Inferno do Gelo, do Arrancamento da Língua e do Despedaçamento do Corpo’, há outros infernos da mentira. Neles, a temperatura é um pouco mais alta e não faz tanto frio, mas o sofrimento também é extremo. Hoje vou levá-la à segunda parte da região dos infernos da mentira, onde já não faz frio.”