“Eu conto! Eu conto! Em vida, gostava de comprar muita comida, principalmente todo tipo de iguaria. Mas eu mesma não comia muito, com medo de engordar e prejudicar minha silhueta e minha aparência. Ainda assim, todos os dias eu comprava as comidas de que gostava e as levava para casa. Eu tinha o hábito de nunca comer comida de dias anteriores; só comia alimentos frescos. Sempre que via um produto novo, tinha de comprá-lo, e jogava fora o que não conseguia comer. Isso foi se acumulando dia após dia, e agora acabei no inferno, condenada a comer tudo. É uma desgraça! Também há muita água que desperdicei deixando a torneira aberta enquanto escovava os dentes e lavava o rosto!” O espírito feminino começou a chorar aos berros! De fato, ver aqueles alimentos azedos, fedorentos, mofados e cheios de vermes grandes tirava qualquer apetite.
Olhei então para o espírito feminino mais velho que estava ao lado. Sua área de alimentos era muitas vezes maior que a da jovem anterior, ainda mais assustadora! Além de ser grande, havia ali uma quantidade imensa de comida extremamente azeda, fedorenta e repugnante: tudo estragado, tomado por mofo, com a cor alterada e coberto de vermes e microrganismos. Como seria possível comer aquilo? Só de ver, meu coração estremecia!
“Amitābha! Pode me contar como veio parar aqui?”
“Em vida, eu era dona de casa e não gostava de fazer os afazeres domésticos. Para economizar o tempo de ir comprar alimentos, costumava comprar muita coisa e deixar em casa. Os alimentos não podiam ficar guardados por muito tempo; com o passar do tempo, estragavam. Além disso, eu frequentemente preparava comida demais e jogava fora o que não conseguíamos comer. Também jogava fora muitos alimentos que haviam estragado por ficarem guardados. Meu marido sempre me repreendia, pedindo que eu não desperdiçasse água e não deixasse a torneira totalmente aberta o tempo todo enquanto lavava a louça. Quando ele me repreendia, eu sempre respondia com palavras agressivas e fazia uma grande discussão, até ele se calar. Quando ele me pedia que não desperdiçasse alimentos, além de não escutar, eu comprava ainda mais de propósito, esperava apodrecer e jogava fora. No fim, quando minha vida terminou, o Rei Yama me condenou ao Inferno da Colheita Abundante dos Cinco Cereais para comer todos os alimentos que eu havia jogado fora. Agora me arrependo muito de não ter escutado meu marido.” Nesse momento, um guarda veio agarrá-la e levá-la para continuar a comer.
Eu, Ayu, quis perguntar ao magistrado: “Então, se o alimento estragou sem que isso tenha sido provocado de propósito, também precisamos comê-lo?”
O magistrado disse: “Se o alimento estragou sem intenção ou sem que você soubesse, não o coma. Se comê-lo causar uma doença ou outro problema no corpo, o prejuízo será maior que o benefício. Primeiro, também devemos nos arrepender dessa falha involuntária e, no futuro, prestar atenção para não repeti-la, evitando que Hei Wuchang volte a registrar a falta e que ela atraia a punição das leis do mundo dos mortos. Depois, podemos recitar o nome do Buda ou mantras sobre os alimentos estragados e colocá-los num bosque ou entre a vegetação, como doação aos pequenos animais, estabelecendo uma boa afinidade com eles. Também podemos colocá-los no mar como doação aos seres aquáticos.” [N129]
“Por hoje, ficamos por aqui. Ayu, volte primeiro. Se tiver perguntas, será bem-vinda para uma nova visita.”
Amitābha! Agradeço ao magistrado do mundo dos mortos! Eu, Ayu, uni as palmas das mãos e saudei o magistrado do mundo dos mortos!
Voltei sobre a flor de lótus branca!
9 — Ensinamento dado pessoalmente pelo Buda: desperdiçar comida e bebida leva inevitavelmente à queda nos infernos e ao sofrimento!